26 fevereiro 2013

"Les Miserables" não é um musical, é uma experiência para ser degustada.


("I dreamed a dream", Anne Hathaway, em interpretação arrepiante de Fantine, de "Les Miserables")

Esqueça tudo que você pensa e sente sobre ver musicais se este não é seu estilo preferido de filmes.
Nunca foi o meu e eu só consigo pensar em "Les Miserables" depois do último sábado.

Foram duas horas e meia presa a cadeira, olhos esbugalhados e coração a mil.

O filme, inspirado no musical da Broadway e montado a partir do romance do francês Victor Hugo, é daquelas experiências marcantes, profundas, doloridas. Dolorida, como sempre é aprender história, como bem afirmou minha colega de profissão Graciete, numa reunião de pais semana passada. Ao mesmo tempo, capaz de fazer a vida fazer muito mais sentido.

O romance, publicado em 1862, ao contrário do que se possa imaginar ao vermos as batalhas e bandeiras francesas na chamada do filme, não trata da Revolução Francesa, mas de quase um século depois, quando as promessas da revolução não haviam transformado de fato a vida do povo francês. Miséria, fome, pragas, revoltas e mortes para todos os cantos das ruas. Situa-se, portanto, entre duas batalhas importantes, a primeira sendo a de Waterloo, quando o exército de 40 mil prussianos derrotou Napoleão e seus 20 mil homens. A segunda, os motins que envolveram a cidade em 1832, mesmo ano em que a cólera mata mais de 30 mil pessoas espalhadas pelos centros de Paris.

Victor Hugo presenciou tudo isso na sua terra natal e jovem, embora de família burguesa, sentiu de alguma forma na pele o que significava viver num mundo no qual qualquer regra parecia ser a de manter os reis e monarcas no poder a qualquer custo.

Ele mesmo, ainda criança, se viu encurralado em meio a um motim na cidade, quando teve de se esconder para não ser morto. No romance, Victor Hugo se coloca na pele do jovem Marius, o jovem burguês quem se identifica com a causa popular e se junta aos pobres numa  tentativa ingênua e desesperada de revolução. O fato do romance ser inspirados na realidade da França e ainda na vida real de Victor Hugo é o que torna o  romance, portanto, o filme tão interessantes.

Fiquei me lembrando do Pantéon onde Victor Hugo está enterrado, em sua época, em suas esperanças, em o que significa ser alguém vivo naquela época e como hoje ainda temos nossos Javiers, Jean Vajeans, Eponines e Marius.


("Epilogo", "Les Liserables", Vá direto aos 4min e 26s se não quiser saber o final da história. Não deixe de ouvir a música final "Quando o amanhã chegar" a partir daí!)

No filme, os atores cantam ao vivo. Totalmente diferente, por exemplo, do que havia sido em "O Fantasma da Ópera", quando filmado. Neste, eu desgostei da história depois de ver o filme. O playback fazia a cena ser tão falsa, tão fraca e chata que nunca mais tive a mesma impressão deste musical e as músicas que o acompanham.

Em "Les miserables" há uma tensão, uma realidade criada pela voz ao vivo dos atores. Hugh Jackman, o maravilhoso "Volverine", é maravilhosamente convincente na pele de Jean Valjean, quem fugirá quase o filme todo de seu presecutor Javier, . Da mesma forma Anne Hathaway, a quem estou ouvindo até agora cantando "I dreamed a dream", , quem interpreta o jovem Marius e na pele de Eponine, sem me alongar falando de tantos outros e do coro, trazem pra dentro da sala do cinema uma história comovente, verdadeira e atemporal. Na minha opinião, uma história que não pode ficar guardada numa prateleira de biblioteca ou numa loja de vídeos.

"Les Miserables" lembra dos grandes dilemas humanos, porque em qualquer época estamos sempre lutando contra nossas "pragas". Há em tantas épocas gente muito marginalizada e tratada como ninguém por sua condição social. Apesar disso, há também aqueles que se comovem com o sofrimento alheio, aqueles que abrem uma porta e acolhem no meio da noite quem tem fome de mudança e de outra vida. Há quem consiga abrir mão do ódio e das regras opressoras em prol do outro.

Eu reconheço lá ainda uma luta de parte da humanidade, uma humanidade que eu nunca conheci, pessoas que viveram de uma forma tão sofrida suas vidas para que eu hoje pudesse escrever este blog e dizer o que penso.

Obviamente há muitas impressões diferentes e contrárias as minhas sobre o filme. Há quem se incomode com a voz ou desafino de alguns atores, ou com predileção a detalhes como cenário e figurino do que com fatos históricos ou com o fato do filme ser ele todo um musical. Todas elas assumem pontos de vistas interessantes e com os quais eu em partes concorde. Russel Crowe comove, mas seu tom de voz as vezes incomoda. O filme é mesmo muito longo, embora eu goste desse sair "do mundo real" por um tempo. O momento histórico do romance não está claro e por isso muita gente se confunde com o que está ocorrendo naquela época em que ele acontece. Ainda assim, eu digo com letras garrafais: eu A-DO-REI  o filme e não consegui não me debulhar em lágrimas o tempo todo. Eu e Maria Cecília, quem me acompanhou nesta saga.

Sasha Cohen, estrela polêmica de Borat e Brüno e neste musical na pele do engraçadíssimo dono de uma pousada a quem Fantine entrega os cuidados sua pequena Cosette, disse em entrevista sobre o filme: "vá antes ao banheiro, porque dura 2 horas e meia e você não vai querer sair no meio". Concordo totalmente e acrescento: "passe na farmácia e compre uma boa caixa de lenços, porque, se você for do mesmo naipe que eu e a Cecília (mãe da Júlia), vai quase morrer de chorar!. Ainda assim, eu insisto: não perca por nada "Les Miserables".