31 maio 2012

"Uma música, mil lembranças": "Até mais ver!", por Daniela Barbagli


("Até mais ver", Trio Virgulino)

Gente, minha gente querida, nosso adorável concursinho"Uma música, mil lembranças", chegou ao fim!

Recebi ainda ontem o último texto participante, mas como dei aulas o dia todo só hoje pude lê-lo e publicá-lo.

Queria aproveitar para agradecer sinceramente todas vocês que participaram, se empolgaram e se deixaram levar por suas lembranças mais genuínas! Foram momentos deliciosos esses de viver com vocês as suas memórias! Demais mesmo!

Amanhã publico um quadro com os nomes dos participantes e seus respectivos textos e dou início à votação. Também publicarei a tela a qual as moçoilas participantes estarão concorrendo. Fiz especialmente pro concurso e espero que gostem!

Bom, mas o melhor é que ainda temos um último texto e última música!

Eu já conheço a Dani há um bom tempo (ela é amiga e colega de trabalho da Dri e do Ricardo) e vocês recentemente. É dela aquelas mãos que seguravam o neném na super foto que coloquei no texto de Dia das Mães. Entretanto, esqueçam aquela imagem sublime e pensem na mãe da bebê se chacoalhando ao som de um forró.

É isso! A lembrança da Dani e seu texto super gostoso e alto astral trouxe o "Trio Virgulino" também de volta ao meu passado. Unicamp, época de graduação, moradia estudantil e forró do bom com Renatão toda sexta-feira. Delícia! Ai que saudade Dani!

Li o texto e fiquei aqui dançando também! Comecei a limpar, cozinhar etc ao som do Virgulino! Eita coisa boa poder passar a noite dançando hem?

Dani, obrigadíssima pela sua participação! O Borboleta se sente lisongeado com sua presença dançante por aqui!

E vamo que vamo no 1, 2, 1, 2... rs...

...

"Até mais ver"

"Tem gente que vai trás de uma onda perfeita e gente que quer provar uma comida especial… eu coloquei a mochila nas costas pra dançar o melhor forró do mundo!

Provavelmente alguns dos meus amores eternos daquela estação fizeram esta música tão importante, mas ele ficou de escanteio, perdido na memória. O que vem à tona são infinitos xotes bem dançados – ou nem tanto, a ansiedade da espera por uma dança, os primeiros passos com um novo par e o frio na barriga do “será que é ele?” porque tínhamos vários encontros com as almas gêmeas das danças e, mesmo assim, isso não desvalorizava cada nova descoberta – e muito menos queria dizer que os desdobramentos estavam encaminhados!

A busca pelo encaixe perfeito me fazia aceitar todos os convites da noite (ou da tarde, do pôr-do-sol, da madrugada…). Eu escrevo “me”, mas poderia deixar registrado como “nos”. Havia no salão uma sinergia difícil de explicar. Era algo transcendente que ditava o ritmo dos passos numa sintonia sem igual. A felicidade estava no ar. Num desses momentos mágicos, quando o sol estava quase a raiar, a música parou. O silêncio da caixa de som não interferiu no ritmo do salão. Com o céu clareando, continuamos dançando ao som de nossos próprios passos: dois pra lá, dois pra cá; dois pra lá, dois pra cá… a areia trazida das dunas fazia um chiado difícil de resistir.

A viagem valeu a pena: encontrei a dança que eu tanto procurava."


29 maio 2012

"Saga"


(Saga XVIII, Foto: Inka Lindergård and Niclas Holmström, SP Arte 2012, obra à venda) 


Este foi o primeiro ano (de muitos que virão!) que fui vivistar a SP Arte. Esta é a maior feira de Arte do Brasil e reúne galerias do país e do exterior.

Aos poucos, vou trazer aqui as obras que mais me impactaram e, porque não, começar justamente com uma artista sueca. Esta foto aí acima, intitulada "Saga", está entre minhas obras preferidas do evento. Há uma infinidade de coisas que amo nesta obra: o azul, tão azul, tão cristalino em constraste com esses outros tantos tons diferentes de azul. O mar plano, a linha do horizonte indicando que ali não é o fim, mas só o começo e ali por trás existe tanta coisa ainda para ser descoberta. 

A "escultura", não sei se casual ou não, parece um portal esquecido, uma janela aberta, frágil. Ao mesmo tempo não consigo deixar de pensar na perfeição do mar e no lixo das praias, sinal do desdém dos humanos pela natureza.

Não sei do que se trata a obra, só sei que ela me passa algo ao mesmo tempo maravilhoso e misterioso. Juro! Em certos momentos uma calma, uma paz, uma tranquilidade e até mesmo uma ideia de possibilidade. Em outros, tudo parece ser tão incerto e facilmente desmoronável. O mar calmo parece perigoso... 

A obra dos suecos Inka Lindergårgd e Niclas Hölmström é linda! linda!

Experimente ainda colocá-la de fundo de tela no seu computador e verá como as cores trabalham em você. De quebra, pode somar esta música de Carter Burwell (não seja preconceituoso com a trilha a qual pertence) e deixar o piano te conduzir pelo portal e por esse mar.

Falei com a sueca, quem cuidava da galeria, em inglês porque não quis perder tempo explicando que eu falava sueco... rs..., e ela me disse ter nascido em Malmö e morar em Berlim. Ao contrário do meu entusiasmo pela cidade natal dela, ela disse gostar muito de lá, mas não ser o lugar escolhido para viver porque, ao seu ver, Malmö é "too boring!" (chato, entediante). São Paulo sim lhe pareceu um lugar muito legal de se morar! Pois é... pois é... e a gente sempre olhando adiante! Ou pra trás! 

A conversa com ela foi muito rápida e eu não comprei esta foto linda só por falta de dinheirinha mesmo, mas algo diferente ficou pra mim depois disso: foi a primeira vez, desde que voltei, que percebi como me engano pensando que ao voltar à Suécia a passeio será tudo tão maravilhoso quanto antes. Impossível! Eu sei! É algo óbvio, mas eu não sentia isso. Sentia que ao voltar reviveria tudo, me sentiria tão feliz e conectada àquele lugar. Talvez sim. Talvez não. Meu tempo lá esteve rodeado de vivências e pessoas também conectadas àquele tempo. Aquela sensação maravilhosa daqueles anos nunca mais voltará! Nunca! E isso não é terrível nem nada, é apenas um fato!

Talvez eu volte e ache mesmo Malmö "too boring!", talvez eu sinta uma alegria ou tristeza, mas a idëia de capturar os momentos vividos será em vão... Ela é boba e ingênua! E isso eu só percebi ao ouvir da sueca loura, olhos azuis e pele detonadésima do sol, que aquela cidade a qual insisto em chamar de maravilhosa também pode ser sem graça demais, dependendo do ponto de vista que se adote.

Sim! São sempre novas possibilidades para olhar o mar... 


25 maio 2012

"Uma música, mil lembranças": "Os verdes anos da minha infância", por Irene Cechetti


("Os verdes campos da minha terra", Agnaldo Timóteo)

Nosso concurso ("Uma música, mil lembranças") está quase chegando ao fim, mas ainda há tempo para que você envie sua história e sua música. Eu mesma penso todos os dias em uma nova música cheia de mil lembranças sobre a qual eu escreveria para concorrer, mas acho que não tem graça eu concorrer num concurso meu para tentar ganhar uma tela minha. Tem? A sensação é que eu poderia falar sobre minha vida toda a partir de músicas. Sinto minha vida como uma imensa trilha sonora.

Vocês não sentem o mesmo? Estão com medo de participar? Não sintam! Inspirem-se no exemplo de mulheres como Irene!

A Irene (cujo sobrenome e os diversos posts onde foi tema já devem sugerir alguma coisa) me disse que, apesar de não ser nem um pouco fã de Agnaldo Timóteo, esta música e as lembranças que dela advém, não saíram da cabeça dela, enquanto pensava um texto para o concurso.

Só para que conste: eu adoro! É brega! É hor-rível! Ele é uma personalidade terrível, mas eu adoro, porque exatamente me faz lembrar tannnnto minha infância... eu, meus irmãos e meus pais indo de Variante bege, Brasília verde abacate para a colônia de férias do Sindicato dos Metalúrgicos, em Caraguatatuba e Ubachuva, uma vez por ano e ouvindo Agnaldo o caminho inteiro...

O título da música já meio que diz tudo. A Irene, quem eu conheço há uns... quinze anos (uau!) e de quem como a comida e sobremesas muito boas quase todo fim de semana, já esteve aqui "Em busca do tempo perdido". A Irene é assim, cheia das lembranças. Respira lembranças! E entre estas, ela tem lembranças de sua terra, de uma época vivida com intensidade e a qual, ela sabe, a moldou a ser o que é hoje...

Inspirem-se em Irene deixem as recordações virem à tona, mesmo se não são as que você mais desejaria ter! Reconhecer o que se sente é também caminhar para o novo! Recordar é bom não para ser apenas saudosista e viver do passado, mas para às vezes conseguir fechar um ciclo. Reconhecer que o passado tem seu lugar, mas o passado nunca mais será presente. Eu acho que faz um bem danado! É sim gente! Não como lamento, mas como reconhecimento de que a memória está presente em nós em cada suspiro, em cada gesto, em cada célula do nosso corpo! A memória somos nós!

Ótima sexta para vocês! Obrigada Irene!


Os verdes anos da minha infância

"Uma casa simples e humilde na beira da estrada de terra batida, terra vermelha, muito pó. Animais passeando de lá pra cá. Meninos e meninas de pés avermelhados correndo livremente. O sol quente, um convite para brincadeiras, para o andar no cafezal verdinho e florido, subir nas goiabeiras, laranjeiras, mangueiras, pessegueiros, mamoeiros e saborear ali mesmo seus frutos. Brincadeiras de pega-pega, esconde-esconde, rodas, escorregar na montanha de palha de arroz, correr pelos campos de bicicleta ou a cavalo. Nadar nos pequenos açudes. A noite, rodinhas de crianças para ouvir histórias de assombração inventadas e contadas pelos mais velhos. Depois ir dormir morrendo de medo do escuro.


O horário da escola era um só para todos e acordar muito cedo fazia parte da vida da criançada.


Neste cenário passei minha infância.


No lugarejo não tinha o ginásio. Depois de muita choradeira, meu pai deixou que eu continuasse os estudos na cidade, onde eu ficava de segunda à sexta e voltava para casa nos finais de semana.


Apesar de tanta coisa bonita, foi uma época muito difícil para mim.


Nos sábados e domingos a escola se transformava em um salão de baile. As carteiras eram encostadas e a música tocada por instrumentos musicais como a sanfona, violão e pandeiro que animavam os pares dançantes.


Foi num desses bailes que conheci meu primeiro namorado. Uma paixão, um amor puro e verdadeiro que meu pai, um italiano ciumento e brigão, de uma maneira violenta, dando um soco na cara do "meu príncipe encantado" colocou um ponto final no romance. Um romance que foi parar na justiça.


Sofri e chorei muito.


O tempo passou. Ele se casou. Eu me formei muito nova e como professora voltei às fazendas para dar aulas.


Numa charrete, puxada por cavalos, chegava-se numa pequena escola, muito bem cuidada pelos donos suiços, e que ficava bem no centro e um enorme campo verdejante que de manhã estava sempre molhado pelos orvalhos da noite.


No início dos anos 70 meu pai resolveu mudar-se para São Paulo. E assim eu deixava para trás tudo de mim.


Nessa época a música que fazia o maior sucesso era "Os verdes campos da minha terra", cantada por Agnaldo Timóteo.


Para mim era um verdadeiro passeio da imaginação.


Me casei com o Caetano, um conhecido já dos velhos tempos e a quem eu chamo de Pê. Foi ele quem veio preencher todo o espaço e vazio ficado em meu coração. Ele é e sempre será minha outra metade. Um fiel companheiro de todas as horas com quem tive meus dois filhos amados: Renato e Adriana. Dois netos: Ângelo e Marina. Uma preferida nora, Sônia.


Tenho uma irmã casada que até hoje mora no lugarejo.
Durante muitos anos seguidos lá eu estava de volta.
Mas tudo que ali vivi, deixou de ser real.
Eu mudei, tudo mudou! Foi um sonho!
É isso! Eu sonhei!"



23 maio 2012

Grieg no metrô: coisas legais dos tempos modernos



Era para ser uma viagem como muitas outras quaisquer no dia daqueles dinamarqueses.
Um metrô, o ir e vir. O chegar e partir. Eis que, entretanto, o inesperado toma todos de surpresa.
Música no metrô? Para mim? Para você?

E tanta gente ficou tocada. O dia provavelmente fora outro e a vida um pouco mais leve e alegre.

A Daniela, nossa velha e querida amiga daqui do Borboleta, partilhou este vídeo em seu Facebook (ainda bem que há quem saiba usar bem as redes sociais!).

Trata-se de uma propaganda de uma rádio de música classica, de Copenhaguem, em parceria com o metrô de lá.

A música "Peer Gynt" é do compositor norueguês Edvard Grieg e os músicos são locais.

Num momento assim imagino a música como um remédio, oferecida pelo médico chamado músico, capaz de curar dores e acalmar os ânimos.

Lindo! Lindo! Vale a pena embarcar nesta viagem também!


21 maio 2012

Lolíssima ao vivo!: amanhã, na Livraria da Vila Madalena!


Oi pra todo mundo que ainda não jogou a toalha de cansaço neste fim de domingão e continua aí firme e forme em frente ao computer!

Só para te contar algo que fiquei sabendo só agora pouco: amanhã, a Lolíssima (a quem eu me dou o direito de chamar de "amiga", ainda que por enquanto tenha sido só virtual), autora de um dos blogs mais movimentados, críticos e cheios de comentários do momento e quem eu já acompanho há um bom tempo, estará ao vivo e a cores aqui pertinho de casa, na Livraria da Vila.

O motivo? Ela estará lançando seu livro sobre crônicas de cinema escritas no "Escreva Lola Escreva".

Eu trabalho o dia inteirinho e tenho que ficar com as crianças pro marido ir na festa de aniversário da tia Dri, mas eu vou Lola, eu vou dar um jeito de passar lá bem cedinho, pegar minha amostra do livro, ganhar um autógrafo e te dar a-que-le abraço que tenho segurado há vários anos já desde que leio seu bloguinho.

Quem aí vai me fazer companhia? Quem, quem, quem???

Escreva Lola Escreva
Livraria da Vila
Rua Fradique Coutinho, 915
Vila Madalena
fone: 3814-9954

Boa noite!!! E até amanhã para aqueles que nunca acham que é muito tarde pra aceitar um convite!



17 maio 2012

"Uma música, mil lembranças": "Já sei namorar!", por Beth Lilás


("Já sei namorar", Tribalistas)

As "afinidades eletivas" que nos conectam às pessoas já foram tema deste blog mais de uma vez e hoje voltei a pensar nisso ao reler este post da Super Lilás.

Quem me conhece provavelmente já passou pelo pedaço da Beth Lilás e seu Mãe Gaia e também deve ter lido aqui "A história de Beth Q." e sobre o amor dela pela sua mãe, no nosso primeiro concurso. Já deve saber que aura boa tem essa mulher que sempre topa tudo de tão bom grado! De quem a gente parece até ouvir os risos engraçados dela só de ler o que ela escreve.

Esta história não deixa pra menos! A Lilás me fez rir muito, vivenciar com ela os dois momentos descritos por ela e imaginá-la como aquelas meninas de quem eu adoraria ter sido amiga quando adolescente e jovenzinha!

Depois de rolar um xororô com as histórias do Ricardo, da Ingrid, Maria Helena e Nina, agora é a vez da nossa mocinha carioca arrancar da gente muita risada!

Obrigada Lilasona querida!

...

Já sei namorar!

“ ... Já sei beijar de língua, agora só me resta sonhar... E assim eu ia, feliz da vida, cantarolado, naquela manhã ensolarada de 2004.  Esta música dos Tribalistas era um hit tocado a toda hora nas melhores rádios nacionais e eu, sempre sintonizada em música, liguei o som do carro do marido, bem alto, fechei os vidros, liguei o ar condicionado e desci uma ladeira que ligava minha rua à rua de baixo. 
Ahhh como é bom cantar  (aos berros)  dentro de um carro fechado, pensava eu!

E continuando:  “... Tô te querendo como Deus quiser, tô te querendo...”  lá fui eu, pensando em nada esta é a verdade, só no ritmo da música e da delícia da hora.

Sempre gostei de cantar e penso mesmo que se tivesse estudado canto quando era mais nova, talvez fosse até uma boa cantora e teria realizado assim esta minha frustração enrustida.
Quando eu era menina, formava com minha irmã e mais duas amiguinhas um quarteto a que denominamos  “Quarteto fora de si” parodiando um famoso daquela época chamado “Quarteto em Si”, e eu sempre ficava com a voz aguda e estridente da boa soprano que era, ou melhor, achava que era.  Cantava muito, parecia uma cigarra durante o dia e também inventava palavras em inglês que eram bem parecidas no som com as originais, já que eu não manjava nada daquela língua.  Era tão divertido cantar com as amigas ou mesmo sozinha em casa, no quarto, no banheiro, em banhos demorados em tardes quentes de domingo. Coisa boa, tempo bom!  Babaluuuuuuuuu!

“ ... Já sei chutar a bola, agora só me falta ganhar...”,  tchibum! 

Quack, o que é isso!!!  Como foi que eu não vi este carro branco bem na minha frente?!

É que lá no final da ladeira, eu parei e engatei uma primeira para virar à esquerda, mas o sol reluzente na cara, a música alta no ouvido e os vidros fechados, impediram-me de ouvir e ver  o sujeito do carro branco buzinando e gritando para que eu parasse e não fosse de encontro ao carro dele.
Pronto, danou-se, acabou a festa dentro do carro!  Caramba, que mancada!  Baixei o vidro e abaixei a música,  e tentei explicar-lhe, numa desculpa esfarrapada,  que eu não enxerguei o carro dele por causa da luz do sol na minha direção, mas ele, um homem simples e nada estressado, sorriu e disse-me que tentou avisar-me piscando os faróis e buzinando duas vezes.

Como escutar buzina se lá dentro do carro o som era altíssimo e a música tão boa, tão envolvente, tão alegre, tão, tão!

Me ferrei!   Subi a ladeira de volta com o homem atrás de mim até minha casa lá em cima, foi a única forma honesta que achei de me redimir de um ato tão sem responsabilidade de minha parte.  Dei-lhe meu telefone e o endereço ele acabou conhecendo pessoalmente, e disse-lhe que poderia procurar uma oficina para ver o reparo do carro dele que acabou não sendo pior que o meu, já que o dele era mais antigo, um Gol anos 80, daqueles com a carroceria bem dura, e o meu mais novo e frágil, teve  um belo estrago na parte frontal  da perua SW verde que meu marido tanto gostava e que até hoje relembra o fato e enche meus ouvidos ... blá blá blá.

Portanto, como não lembrar sempre desta bendita música quando a ouço por aí e penso naquele acidente leve, já que eu estava em primeira e em baixa velocidade, mas não menos inconsequente.  Então, hoje, enquanto minha diarista limpava a cozinha e conversávamos sobre a vida, ela como eu, também adora músicas e tinha o rádio ligado, surpreendeu-se quando eu ouvi Tribalistas e gritei “legal, achei minha música para participar do concurso da borboleta!” .  Ela não entendeu nada e aí contei-lhe esta estorinha que teve minutos de felicidade e trapalhadas, coisas que sempre andam juntas em minha vida.

Afinal, eu sou normal oras!" 

"Music... and me": Extra! Extra! Concurso Prorrogado!


("Music and me", Michael Jackson)

Personas mui queridas,

Eu sou bem xiita com prazos, mas "me fui traída por mim mesma", bella!

O fato é que não tenho dado muita conta de publicar rapidamente os textos que me chegam para o concurso (na verdade, não tenho dado conta de minha vida atarefada) e acabei, eu mesma, estrapolando o prazo do nosso "Uma música, mil lembranças". Fui publicar hoje um recebido da semana retrasada e vi que o prazo já era!

Demodosquê: estou estentendo o concurso até o fim de maio, precisamente dia 31. Até lá, espero!, quem tem me dito que quer muito participar, mas ainda não conseguiu escrever possa também fazê-lo!

Lembre-se de que o importante é você deixar vir à mente uma música que lhe cause muitas lembranças e passar estas para o papel e nos mandar! Quanto mais genuína for a história, mas ela tem poder de tocar quem lê! Quanto mais a música tomar você e trazer lembranças de sua história, melhor! Só a música... e você!

Certo?

Beijos e vamuquivamu!


15 maio 2012

Porque eu continuo sendo mãe depois do Dia das Mães!

("Colo de mãe", foto de Adriana Cechetti)


Com a super-mega-terrível correria da semana passada e do fim de semana eu não consegui publicar, a tempo do dia oficial das mães, esta foto linda maravilhosa com a qual a Dri (@dricechetti) ganhou o 3o lugar num concurso do Instagram para a mesma ocasião.

Entretanto, para que tanta pressa se, hoje, você e eu continuamos a ser mães como no domingo que passou? Sempre é dia de refletir, de agradecer, de viver o grande milagre de sermos filhos e filhas e, para outros, o de ser mães.

Vai aqui a foto com uma edição mais curta que fiz de um texto meu... A diferença para este ano é que tenho dividido a semana entre o trabalho e as crianças. O resto, tenho a impressão, continua igualzinho...

Parabéns para você que consegue reconhecer o valor de sua mãe e dedicar-lhe o amor desejado!
E parabéns por ser mãe e dedicar tanto amor esperado!

...

"(...) Quando se é mãe (e também pai) não há descanso. Não há férias dos filhos como dos alunos.
Quando se é mãe você sente como um motor todos os dias que lhe suga todas as forças e energia porque uma criança exige muito, mas muito mais do que qualquer animal de estimação, do que qualquer outro emprego. E há dias em que o sonho é simplesmente que as crianças durmam para que a gente viva... Sim, isso é verdade. E eu estou aqui para dizer a verdade.

Se você pensa em ser mãe e pai por qualquer outro motivo no mundo que não seja uma loucura por ser exatamente mãe e pai, então desista! Não vale a pena! Não é justo! Ou você será como praticamente todos os meus vizinhos e vizinhas que passam o cuidado do seus filhos para babás e empregadas domésticas inclusive no fim de semana.

E você será responsável por mais uma criatura mal amada que amará bem pouco a si mesma e ao mundo menos ainda...

Então é preciso levar em conta o trabalho sim. As noites muito mal dormidas e deixar sonhos simples, antes muito fáceis de se realizar, de lado, como ir assistir "Black Swan" numa noite qualquer com seu marido.

Agora se você está disposto e disposta a abrir mão de si mesmo pela maior parte do tempo, ao menos por um bom tempo, então siga em frente...

Só aviso, com toda sinceridade, o que você vai ter de enfrentar, embora isso não tenha o poder de lhe preparar para o que virá, pois outra verdade é que a maternidade (para o que a gravidez e o nascimento do bebê é apenas a ponta do iceberg) é uma experiência única. Totalmente particular e só possível de ser imaginada quando já vivenciada, apesar dos sintomas envolvidos serem parecidos entre os envolvidos e facilmente debatidos em rodas de discussão.

Ainda assim aviso que eles vão chorar e vão chorar muito! E vão querer sua atenção e vão usar de todas as artimanhas para que você deixe tudo para cuidar deles o tempo todo! A televisão não será sua e quando for você não terá energia para ela! Livros? Vinho e papo cabeça com os amigos? Academia? Hahahá! Com sorte isso virá... Aos poucos, quando eles forem crescendo...

Sim. Os filhos enlouquecem a gente! Eu mesma tinha certeza de que não teria um segundo porque precisava urgente voltar à vida normal e aí um detalhe mudou meu percurso... O detalhe que Ângelo havia me enloquecido. De amor. E fui sentindo em meio ao cansaço do fim do dia como eu podia me sentir tão incrivelmente feliz por tê-lo comigo.

A verdade, amigo e amiga, é que ver uma criança crescendo, assistir diariamente a isso, participar de todos seus dramas é uma coisa tão assustadoramente fantástica que nos tira do mundo dos normais. E se não dermos um basta é possível desejar isso uma, duas, três, inúmeras vezes.

A verdade é que ontem em meio ao esgotamento físico do meu dia eu tive centenas de momentos poéticos, perfeitos, cuja sensação eu quero ter para sempre na memória...

Eles se fizeram quando eu cheirei e beijei e rocei os pezinhos fofos, brancos e cheirosos de Marina, enquanto trocava suas dezenas de fraldas... Quando eu a deitei no colo para niná-la e tive seu olhar encontrado com o meu, junto de um sorriso banguela tão sincero que deixaria de queixo qualquer coração duro. Quando montei tudo e incentivei Ângelo a pintar, em aquarela e enquadrar, o desenho mais bem elaborado feito por ele em três anos, oito meses e dezessete dias.

Essa sensação de "tudo vale a pena" me veio quando perguntei a ele, no meio da tarde, por que o Dan, da tevê, não chamava aquele dinossauro que voa de piterossauro e sim de um nome estranho lá e ele me diz todo reflexivo: "Não mamãe... é que ele é um piterodonte também!".
Sem falar das incontáveis vezes que olho para suas longas pernas e penso como ele tem crescido rápido! E quando ele vem gesticulando, me olhando intensamente e explicando algo como "você sabia que nós somos feitos de madeira?" e todos os dias, TODOS, desde que ele nasceu quando o coloco para dormir ou vejo-0 ali de olhinhos fechados respirando...

É sim uma sensação tão intensa, tão grandiosa, tão abençoada por uma vida que eu só posso deixar que minha vã filosofia tenha dado lugar a reflexões piegas sobre a maternidade, numa madrugada qualquer de uma sexta-feira de primeiro de abril...

Não. Não é piada. Eu amo essa minha vida! E se fosse possível achar uma lâmpada mágica e voltar a quem eu era, éramos, ao que eu tinha antes dessas duas pessoinhas entrarem na minha vida eu jamais aceitaria. Nem por todo o sono do mundo, nem por todo o cinema do mundo...

Depois de ser mãe e ser pai não é possível mesmo nunca mais voltar atrás. E esse é o nosso grande dilema e também nosso maior presente (...)"


10 maio 2012

A ponte de Munch e a garota que se recusa a olhar o curso do rio

(Tentando ser a "Menina na Ponte", eu e Munch no Kunsthalle, Hamburgo, agosto de 2009) 

"A Garota na Ponte" , 1902, sempre esteve entre as obras de Edvard Munch das quais eu mais gostei. Ao contrário de tantos outros, de atmosfera  escura, às vezes angustiante, em outras dramática e até incrivelmente triste, este quadro está entre os mais coloridos do artista. O verde do vestido de uma menina contrastando com o vermelho da outra, o azul do rio ao fundo do chapéu e o cabelo amarelo da menina...

A obra segue a tendência de outras obras do mesmo período de Munch: além do contraste de cores há o movimento numa pincelada quase contínua. A pintura é fluida, o tema quase escorrega, se decompõe. A pincelada parece líquida. O quadro está vivo, os sentimentos nele contidos movimentam-se para além da tela.

Como todas as obras do norueguês esta é extremamente simbólica mas, diferentemente do famoso "Grito", não é o desespero, o medo, a depressão angustiante do jovem escandinavo que está em evidência. Ao meu ver, além da tristeza contida em outras obras, aqui a temática é a resignação. E a menina da ponte, aquela alheia ao que tanto seduz as outras jovens ali na ponte, é o retrato do próprio pintor não alheio aos seus desejos mais íntimos. Resignado, decidido a não seguir o fluxo do pensamento feliz, um feliz de quem não reflete, que simplesmente aceita a vida como ela é. A menina, ou Munch, está reflexiva e até mesmo ensimesmada, envolta em profundos questionamentos, ainda atada à ponte, mas de costas a ela...

("O Grito", Edvard Munch, 1893)


A vida de Munch foi, de fato, uma vida cheia de dramas. Seu pai, um médico que servia ao exército era não só rígido, distante, mas um defensor da religião e do trabalho. Nada mais natural que exigisse do filho disciplina, dedicação aos valores que pregava e obediência severa a ele e a Deus. Tudo isso só agudizou-se ainda mais quando se viu sozinho, sem a mulher, para cuidar de seus quatro filhos. Munch perdeu a mãe e a irmã quando ainda era adolescente. Tanto a mãe carinhosa, quanto Sofia, sua irmã mais querida, morreriam de tuberculose e o deixariam numa vida solitária.

Vivendo de perdas, tumultuado com sua própria personalidade conflituosa e tentando provar seu valor para um pai distante, Munch - um dos maiores representantes do movimento Expressionista - transfere para a pintura não só aquilo que sente, mas o faz de forma a não se conformar com a pintura acadêmica, com a repetição dos mesmos temas, com o contorno contido, com a obra facilmente aceita em galerias naquele século XIX.

Depois de apenas alguns anos na Suécia é estranho sentir que consigo entender melhor tanto este pintor escandinavo quanto suas pinturas. Não consigo mais ver Munch separado do local onde cresceu, do "espírito do norte". De sua cultura contida, trabalhadora e da natureza tão bela na primavera e no verão quanto opressora no inverno.

Aos 15 anos Munch era um jovem morador de um dos lugares mais frios do mundo, onde o inverno esconde o sol e a claridade por dois terços do ano, numa época em que a vida era facilmente ameaçada por doenças e vírus. De sua rua Åsgårdstrand, numa casinha tão próxima ao mar, Munch tomou o tema para várias de suas telas. Era, portanto, de sua vida, do seu drama e do drama das pessoas a sua volta que Munch falava.

("Melancolia", Edvard Munch, 1894-96)

Embora eu tenha sempre me impressionado com o expressionismo das obras de Munch, foi só quando, tentei reproduzir as feições da menina, ao lado da tela da "Menina na ponte" no Kunsthalle, em Hamburgo na Alemanha, que me dei conta de quão profunda a expressão da menina era. Quanto absorta, tomada por um mundo só seu, um mundo interior quase impenetrável ela estava. Ao brincar de ser a menina na ponte me surpreendi com o tamanho de sua tristeza, embora a "alegria" das tonalidades do quadro não tivesse me revelado isso tão rapidamente.

Há mais de um ano e meio, comecei a introduzir uma reflexão sobre "A menina" aqui neste blog, na série "O que você vê nesta obra: uma obra de arte ou mil palavras" e o curso do rio me tomou. Fui levada pela corrente de tantas formas que me esqueci do assunto. Voltei a pensar nele hoje ao me lembrar de uma conversa ontem com um novo amigo, professor de Literatura no Colégio onde dou aula, o Luís Damasceno.

O Luís é daquelas pessoas profundas, conhecem? Para quem a poesia, a música e a conversa verdadeira são mais valiosos que quase qualquer bem material deste mundo e para quem a dureza da vida não tira a beleza e a sensibilidade para momentos cheios de profundidade.

Ontem, em minha aula de Sociologia sobre a ideologia das várias gerações, eu coloquei na vitrola o "Imagine", de John Lenon. Inesperadamente, meninos e meninas da minha sala se uniram rapidamente em cantoria e a voz linda deles ecoava pelos quatro cantos da sala. De braços levantados no refrão e os olhos cheios de algo profundo, de uma vida que só é possível quando se tem perto de 15 anos, a cantoria chegou até a turma do Luís, onde ele, como professor mostrava dois pontos de vistas sobre haver e não haver mais amor em São Paulo. Lá, Xico Sá "debatia" com a música de Criollo , o primeiro tentando provar o contrário da tese do segundo.

A música alta da sala ao lado poderia ter incomodado um professor fechado, centrado no curso do seu riozinho, cumpridor das tarefas docentes do dia a dia, aquele que ensina, mas não vive. Diz, mas não faz. Fala de esperança, mas vive na sombra da falta de amor. O Luís, entretanto, estava ali, resignado a olhar o mundo da mesma forma que tanta gente cansada de ver tanta dureza nos corações paulistas e humanos o fazem.

Abrindo as janelas e cortinas ele chamou todos a imaginarem um mundo diferente com John Lenon. Se emocionou com a coincidência dos temas e com quem cantava em coro na minha sala. Tomados pela canção, pelas palavras do mestre os estudantes do Luís começaram a bater palmas. E mais palmas entusiasmadas com a alegria do inesperado. E então subiram nas cadeiras para aplaudir o mestre que, entre lágrimas, reconhecia a catárse do momento.

Está aí uma das belezas incríveis de uma obra de arte. Seja ela pintura, poesia ou música. Está aí a beleza de poder encantar-se com elas.

Não se debruçar na ponte, não apenas olhar o rio que segue, não se contentar em olhar a mesma cena que todos essa talvez tenha sido uma mensagem da "Menina da Ponte" na qual hoje eu não parei de pensar e desejar sempre viver.

Hoje, venho novamente lhe perguntar: "O que você vê nesta obra?"



08 maio 2012

"Uma música, mil lembranças": "A história de amor entre Pingo e Laura", por Nina Sena


("Com minha mãe estarei")

Acordei hoje cantarolando (again!) a música da Helena, aquela danada! Aliás, ontem, quando um aluno fofo me perguntou ao fim da aula como deveria escrever seu texto e eu mostrei rapidamente o primeiro parágrafo da "The Story" da Helena ele encheu os olhos de lágrima e disse: "ai que lindo!"...

E então me lembrei da trilha sonora do amor do Ricks e Paulo e do ABBA amado pela Ingrid! Caramba!, pensei, como este concurso me pega! Como estas histórias entram para a minha história! Eu assumo a vida delas como sendo o clipe para estas canções!

Foi quando, preparando, o texto de hoje eu de novo fui pega por mais uma porção de lembranças: as da Nina Sena.

A Nina é muito artista, embora seja engenheira florestal por formação! Costumava elaborar, lá da Alemanha onde vive com marido e três amadas crianças, lindos desenhos para histórias enviadas a um de seus blogs. Em outro, "Entre mãe e filha", ela escreve muito bem sobre coisas diversas que lhe agradam e que ama fazer, meio como eu aqui.

Recebi o texto da Nina há quase um mês e normalmente eu só leio os textos antes de publicá-los para passar aqui a emoção que senti ao lê-los. E foi assim que me vi no início dos anos 80, com meu pai, meu querido pai comigo em seu colo, cantando "Com minha mãe estarei"... E lembrei-me de minhas avós, tão católiquinhas... e revivi momentos com elas... Minha história e da Nina se cruzam e a dela é daquelas recheadas de amor do tanto de amor que as relações nossas são feitas. Tenho certeza de que o mesmo ocorrerá com você!

Obrigada, querida Nina!!! E, todos vocês, chorem a vontade! Depois? É só escrever o seu texto e mandar pro nosso concurso "Uma música, mil lembranças".

...


Difícil. Dificílimo escolher uma música em meio a tantas que amo. Complicadíssimo pra alguém que cresceu ouvindo música soar alto pela casa na vitrola de sua mãe, enquanto essa brigava com a filharada e com o marido mulherengo, escolher uma só. Dou minha palavra que tentei. Procurei muito. Enquanto procurava, aproveitei pra matar as saudades de algumas coisas, pra lembrar de outras, pra dançar na sala, pra chorar num canto. Esse concurso mexeu com minhas emoções. Mas desde que vi esse anúncio no teu blog Sonia, uma música não saia da minha cabeça. Na verdade, eu não queria escrever sobre ela. Tive receio de parecer meio jogo sujo, sabe? Mas ela queria fazer parte, melodiando  meu texto. Não teve jeito.

É a netinha da dona Laura que eu dou permissão pra escrever agora.

Com vocês, Pingo de Gente:


"Oi. É que essa música deveria ser uma das mais queridas da minha avó, e é aquela que mais me lembra a vó Laura.

Bom, deixe-me primeiro me apresentar. Meu nome é Nina Rosa, mas todos me chamam de Pingo, porque sou muito pequena, a menor de todos os irmãos. Esse apelido quem me deu foi minha avó, mas houve adaptações. Há quem me chame de Pingulino, de Sugulino, e de Sugu. Às vezes me chamam de Mucama, por brincadeira de irmã mais velha que pode ser bem malvada, porque sou também a mais escurinha das irmãs, ou de Vaquinha Mococa, porque sou nesse quesito que a vaca tem ao dispor de seus bezerrinhos, a mais avantajada das irmãs... mas gosto de Pingo. Mas só quando minha avó me chamava assim.

Eu adoro lembrar da minha avó. Porque foi com ela que senti amor pela primeira vez na vida. Foi ela, com seu jeito simples de mulher interiorana e lutadora e mãe de uma penca de filhos e avó de uma porrada de moleque, quem me ensinou sobre cuidar do outro, sobre solidariedade e amar a todos sem fazer desdén de ninguém. Eu nunca havia pensado nisso, mas foi vovó quem me ensinou o dom de ser generosa. Ela repartia o amor tão bem entre os netos quanto a sopa que sempre fazia em quantidade bem maior que precisava porque sabia que sempre iria aparecer alguém na sua porta com fome. Esse amor era tão bem distribuído que se você perguntasse pra cada um dos netos quem era o mais querido da vovó, cada um iria dizer: eu mesmo, claro!

Eu cresci achando que era a sua neta mais querida. Vi com o passar dos anos que outros netos sentiam o mesmo. Então é isso. Ela era uma sábia em repartir e compartilhar seu amor generoso e bonito. Era sábia, mesmo não sabendo ler. E é aí, nesse ponto, que quero me prender. A velhinha não sabia ler. Ia à igreja. Pegava aqueles folhetos de domingo e fazia cara de quem entendia tudo. E entendia! Com o coração. Foi a seu pedido que fiz primeira comunhão, não que eu quisesse ou achasse isso algo muito importante, mas por homenagem a minha doce velhinha, que enchia a casa de amor e carinho enquanto costurava na sua velha Singer, barulhenta, preta e dourada, ainda com pedais. Ainda posso sentir os cheiros e a maciez dos seus jérseys, ao fazer nossos babydolls. Ou nossas bruxinhas de estopa. Gostava de sentar perto dela enquanto ela costurava e contava seus causos, suas piadas, sua risada era gostosa, seu olhar bondoso, ela mastigava o nada enquanto enquanto costurava e falava sozinha, era engraçada. Vejo seu cabelinho longo e escorrido preso num coque infinito, indefectível, sempre preso por um pentinho de plástico marrrom. Gostava de sentir sua pele molenga e cheirosa e seu cheiro de vó, quando a abraçava ao chegar em sua casa pra passar noites com ela e ela tinha aquele cheiro de lavanda no pescoço. Comíamos juntas bobagens escondidas da minha tia. Vovó não podia comer tanta guloseima, mas ela sabia que eu gostava e eu sabia que ela gostava, então éramos ali, cúmplices amorosas.

Amo as muitas lembranças que tenho da vovó. E não há um dia que eu lembre dela e não chore. Às vezes me vejo como naquele filme antigo, "O Pássaro Azul", quando os dois irmãozinhos vão visitar os avós no cemitério. E eles ficam felizes porque sempre que alguém lembra deles, eles voltam a viver... se depender de mim minha avó nunca morreu. Ela mora e vive pra sempre. Em algum lugar dentro de mim.

E a música? Você deve estar se perguntando.

Essa música ela cantava quando já estava de cama, em seu último leito. Passou meses num hospital. A família a levou pra casa.  Melhor que ficasse sob seus cuidados do que em meio a doentes que a faziam piorar por dentro. Ficou até o fim dos seus dias nessa cama. Sem poder se levantar mais, com tantas dores, tantos calores e tantos amores. Sim, amores, rodeada que sempre esteve de amor e atenção. Cantava a música sozinha. Quando eu chegava da aula de catecismo ela pedia pra eu ler a Bíblia pra ela. Só ali descobri que vovó não sabia ler. Nos enganava direitinho quando dávamos cartões do dia das mães e ainda elogiava nossa letra ... velhinha esperta! Perto de sua partida, cantava a mesma música, sem poder mais falar, gemendo. Ela gemia essa música. Que não sai da minha memória.

Foi-se minha avó. Há quase 29 anos ela se foi. Deixou uma netinha que ainda se acha a mais amada, digam o que disserem os outros netos.

Está lá, com sua virgem Maria. No céu. No céu. "  


03 maio 2012

"Uma música, mil lembranças": "The Story", por Maria Helena Freitas


(Brandie Carlile, "The story")

Quinta-feira, friozinho na cidade de São Paulo, e estou aqui emocionadésima, embrulhada em lágrimas. Um contentamento tão grande me toma por poder conhecer histórias como esta que publico hoje e lhe convido a ler (please!) ouvindo a música que a inspira.

Depois das lembranças sedutoras do Ricardinho Perez e da ternura da Ingrid, apresento o terceiro texto para nosso concurso "Uma música, mil lembranças", agora é a vez da Maria Helena Freitas, cuja história e excelente blog ("Uma caipira na Suécia") meio que dispensa muitas apresentações. De sua história ar-re-pi-an-temente linda (ai que lindo Maria Helena!) com uma trilha sonora para ninguém neste mundo botar defeito esta moça do Paraná, quem de caipira não tem nada, moradora também da minha Suécia querida veio para arrebentar nesta manhã e fazer o meu dia, e tenho certeza de que o seu também, muito mais bonito!

Obrigada e que sua história continue recheada de lembranças tão intensas quanto estas! Ah! e obrigada por me apresentar Brandie Carlile e sua "The Story"!

E, gente, depois de ler me responda: este concurso não é lindo?! Mande sua história também!


....

The Story

"Eu não lembro quando foi a primeira vez que escutei essa música porque de início ela foi apenas mais uma música daquelas que marca por causa da voz da artista, dos primeiros acordes doces do violão sendo suplantado pelo som da guitarra na sugestão de um sentimento muito intenso, que acalma mas mesmo assim continua de certa forma ecoando... foi em 2010 que “The Story” deixou de ser “uma história” para entrar definitivamente para a trilha sonora da minha vida.


Mas “A História” começou em meados de novembro 2009 e teve tudo que um bom romance deveria ter para dar certo, exceto por um detalhe: tinha data para terminar. Foi como se em um dia eu estivesse com as pernas bambas e o coração acelerado por causa de conhecer ele e no dia seguinte as mesmas pernas também estavam bambas e o coração acelerado pela angústia de dizer adeus.


Acho que foi toda a confusão com as pernas e o coração que me fez soltar um: “A gente se vê!”... e só. Durante três semanas nós partilhamos um milhão de histórias de nós mesmos e construímos uma história juntos, uma história cheia de promessas que não deveria acabar assim. Mas nós sabíamos desde o início, então o que mais eu poderia fazer? Eu pensei que não dizer nada seria o melhor, por isso deixei que ele entrasse no carro e se fosse sem levar nenhuma palavra que pudesse indicar que eu não queria aquilo... Afinal, assim seria mais fácil.


Quase pirei os primeiros dias, tinha uma sensação de ter perdido algo irrecuperável. Ficava martelando na minha cabeça o meu “A gente se vê!” imaginando se alguém poderia ter sido mais idiota. Depois de duas semanas começamos a falar pelo skype e eu comecei a alimentar uma esperança de que aquela frase não tinha sido de toda mal, ao final.


Foi depois de uma das primeiras longas conversas que tivemos no skype que eu ouvi “The Story” de novo e ela parecia ser simplesmente para mim. Era como se eu ouvisse nas entrelinhas dos versos “eu conheço seu segredo, não é isso que você gostaria de ter dito?”, e meu coração gritando um “sim! Sim!”; tudo muito absurdo mas libertador. Cada linha da letra dessa música é para mim, eu pensava. Então eu decidi que definitivamente, por mais louco que pudesse ser, eu compraria uma passagem de avião e passaria 30 dias na Suécia.


É: ele é um sueco aventureiro que foi parar sem querer em uma cidade bem pequena do Brasil, banhada pelo mar de soja que é tão típico da região oeste do Paraná. E lá estava eu levando uma vida bem tranquila e sossegada como assistente social de prefeitura, até o dia em que disse para uma amiga no ginásio de esportes: “Sabe aquele cara? Ele é da Suécia. Dizem que ele fala português e eu acho que seria uma boa se eu ajudasse ele com a ‘língua’”.


Não sei se teria feito isso se naquele dia eu soubesse que quatro meses depois um e-mail com o título “Compreeeeeeeeeeeeeeeeeiiiiiiiiiiiiii!!!!!” estaria saindo da minha conta de e-mail tendo como anexo a cópia do bilhete de viagem. Isto foi um tipo de “agora é pra valer”: em 28 de junho eu voaria pela primeira vez na minha vida, uma viagem para outro continente, para o outro lado do mundo – quase 16 horas no avião e mais 7 esperando em aeroportos... Para quem tinha saído do Paraná umas poucas vezes na vida era pura insanidade.


Foram sete meses até nos reencontrarmos, sete meses marcados por ansiedade, impaciência, insegurança, “The Story” e uma santa loucura. Uma loucura movida por lembranças fantásticas – de um amor de verão; pela certeza de que ele me conhecia como ninguém apesar do curto tempo em que estivemos juntos e pela necessidade que eu tinha de dizer para ele: “aquelas semanas maravilhosas não eram uma fantasia, elas são uma verdade porque eu fui feita para você”.


Em todo o tempo em que estivemos juntos no Brasil nunca dissemos a bendita frase (eu amo você). Vivemos o sentimento intensamente sem jamais mencioná-lo. Através dos e-mails e no skype também usamos uma série de termos como você é importante para mim, eu sinto muito a sua falta, adoro quando você ri desse jeito ou todo aquele arsenal tão típico de comédia romântica... Então em um daquelas conversas no skype eu percebi que havia entre nós uma série de mal entendidos por causa da língua. Me deu uma espécie de pânico: eu estava vivendo no país das maravilhas, mas e ele? Passagem comprada, férias arranjadas, toda aquela preparação... podia acontecer, obviamente, que depois de termos mais 30 dias juntos a gente só e simplesmente dizesse “A gente se vê” (de novo!), mas e se o lance fosse um não reconhecimento já no aeroporto?



You see the smile that's on my mouth
Is hiding the words that don't come out
And all of my friends who think that I'm blessed
They don't know my head is a mess…


Quando faltava um mês para eu embarcar resolvi falar sobre isso. Bla bla bla, mudamos muito, eu disse, quem sabe você já tem uma imagem diferente de mim e quando eu chegar aí não serei aquela pessoa que você tinha na lembrança; afinal, a lembrança é subjetiva e cada um constrói suas lembranças de uma forma única. Façamos o seguinte, ele sugeriu, vamos escrever um texto contando o que aconteceu quando nos conhecemos, quando você chegar aqui vamos trocar os textos... assim vamos descobrir quão longe ou perto estivemos.



Foi um boa ideia, me deu um gás de coragem. A Brandi Carlile me ajudou a escrever as minhas lembranças, “a história”. Meus pais foram comigo ao aeroporto, e depois eu passei quase que 24h dividida entre a euforia e a dúvida. E se o pessoal do aeroporto de Amsterdã me mandar embora? E se eu perder a conexão? E se a gente não sentir mais o mesmo clima? Sete meses é muito tempo, mas a viagem passou rápido demais e então lá estava eu ao lado da esteira de bagagem, esperando a minha mala aparecer. É agora, pensei, que vou descobrir se eu sonhei essa história sozinha.


“I climbed across the mountain tops/ Swam all across the ocean blue/ I crossed all the lines and I broke all the rules/ But baby I broke them all for you/ Because even when I was flat broke/ You made me feel like a million bucks…” 


... Meu coração tava me deixando surda quando eu sai no terminal ainda mais porque eu vi ele sorrindo com um buque de rosas na mão que foi esmagado no meio de um abraço e um beijo. Caraca! Eu quase não podia acreditar: rosas??? e ele tinha me preparado um jantar a luz de velas, seguido de morangos e vinho.


Certa noite ele me contou que havia me preparado mais uma surpresa: uma viagem de carro até a França. Nesse dia eu li para ele “a história”, a nossa história que eu havia escrito. Usei o fim do texto para explicar como eu havia me sentido mal pelo “A gente se vê” do dia da nossa despedida e que o queria mesmo dizer era... “All of these lines across my face/ Tell you the story of who I am/ So many stories of where I've been/ And how I got to where I am/ But these stories don't mean anything/ When you've got no one to tell them to/ It's true... I was made for you”. Quando estivemos na França ele leu a versão dele da nossa história para mim, mas como estava em sueco ele me daria em outro dia. Eu voltei para o Brasil sem a “história dele” para mim, e acabei mesmo por esquecer que ele não havia deixado a versão dele comigo mesmo porque aquele mês de verão tinha sido um verdadeiro sonho, espantando qualquer sombra de em relação a nossa história. Tanto que eu mudei para a Suécia.

Numa noite de novembro no ano passado – na data em que celebrávamos dois anos que havíamos nos encontrado – ele me perguntou se eu mesma não gostaria de ler “a história” já que agora eu podia entender sueco. Eu respondi que eu gostaria que ele lesse para mim em sueco, porque seria mais emocionante ouvir a narrativa na voz dele... Eu ri muito recordando uma série de coisas tão engraçadas e gostosas que marcaram aquelas três primeiras semanas da nossa história, e meu pensamento estava voando longe até que ao fim ele disse: Vill du gifta sig med mig? Que significa: você quer se casar comigo?

É claro que eu não entendi nada, mas quando ele se ajoelhou na minha frente e mostrou a aliança não havia mais necessidade nenhuma de palavras!!! E pensar que ele já havia escrito tudo durante aqueles sete meses em que estivemos separados – inclusive a última frase – aqueles meses em que eu ouvia sem parar “The Story” esperando o momento de dizer para ele: eu fui feita para você...


Ele já tinha a resposta: eu sei, quer ficar comigo para sempre?"