28 setembro 2011

"Uma foto, mil lembranças": "O mundo é grande e não cabe na tela", por Daniela Zuim


Eu tenho uns flashs de memória e sensações de uma época de minha adolescência em que eu lia um livro sobre símbolos do Leonardo Boff. Eu me lembro de conseguir resignificar vários fatos da minha vida só com a leitura daquele livrinho.

Bom... este livrinho me veio à mente novamente quando recebi este texto da Daníssima, um dos dois últimos textos do nosso concurso. A primeira razão foi o fato de ser exatamente ela, a autora do "nariz de batatinha" a ter me inspirado a fazer o concurso ter sido também a pessoa a fechá-lo. E isso "totalmente ao acaso". Não deixei Dani conscientemente por último, mas pensando no quanto o inconsciente guia nossas escolhas eu creio que sim, eu queria deixá-la para fechar o ciclo.

A segunda, porque Daníssima, além de tudo que já contei aqui sobre ela e como nos conhecemos, também fez um curso de psicanálise Junguiana na Suíça. E lembro-me bem de a partir disso trocarmos muitas idéias via net sobre uma quantidade enorme de coisas intrigantes, sobre nossos sonhos e sobre os símbolos que permeiam nossas vidas e nossas escolhas. Jung nos intrigava bastante e a gente viajava com ele.

E, finalmente, a terceira, a qual creio ser a mais forte delas, a foto escolhida pela Dani. Nela estão uma senhorinha quem conhecemos numa viagem ao sertão de Alagoas e nossa amiga Teresa. Todas nós três estudávamos na Unicamp (Teresa, Engenheira agrícola, Dani, Pedagogia e eu Filosofia), mas nos conhecemos e nos tornamos amigas no projeto de Ruth Cardoso, cuja intenção era fazer os jovens conhecerem seu país e depois de formados não usarem a formação tida na universidade pública apenas para si mesmos. Foi naquela experiência a qual mudou nosso jeito de ser para sempre que a amizade se firmou.

E se eu disser que enquanto o concurso rolava eu tive desejo de escrever sobre esta mesma foto? Exatamente porque ela é um símbolo tão forte desta nossa mudança. Ela consegue descrever tantas memórias e seria possível eu escrever um livro a partir dela. As minhas talvez sejam muito diferentes porque embora a cena e a foto seja a mesma nós somos únicas, com experiências de vida e histórias únicas.

A forma simbólica com a qual Daníssima tomou esta imagem e escreveu seu texto e as milhares de coisas que não estão ditas no belo e curto texto me deixam até mesmo arrepiada. Eu não sei se estou certa ou não no que imaginei com ele, mas o que interessa é o quanto ele pode levar a gente a pensar.

Vocês devem entender melhor tudo isso se souberem (digo isso com autorização da Tê) que nossa amiga Teresa, uma das mulheres mais fortes, otimistas, abertas, descoladas que eu conheci; aquela Teresa quem me inspirou a tela "Em Teresa brotou a Rosa" está em sessões de quimioterapia se tratando de cancêr que lhe tirou as mamas, os cabelos, a forte imunidade, mas não tem tirado sua admirável força interior. Sua voz sempre tão animada ao telefone! Seu jeito de rir e encarar as  coisas com a maior naturalidade que lhe for possível!

Ela continua com o mesmo jeito firme e carinhoso de se sentar e ainda ter tempo para ouvir, assim como ela fez em Maravilha, quando muitos do grupo tiraram esta foto. Enquanto muitos de nós estávamos meio embasbacados com a feição dessa senhora sentada do lado de fora de sua pequena casa azul rachada, a Tê foi lá, sentou-se ao lado dela. Ouviu suas histórias, deu-lhe atenção e a mão. A foto não era posada. Foi um segundo captado de uma experiência de vida de muitos jovens universitários em meio ao mundo hostil que pode ser o sertão.

Sim, Maravilha nos mudou. Essa senhorinha nos mudou porque sempre nos lembramos dela e de sua maneira maravilhosamente corajosa de enfrentar a vida no sertão. E sim a vida é permeada de simbologia e deve ser, pois como dizia Leonardo Boff, naquele livro que eu adorava: "Perdendo a visão simbólica, fecham-se janelas da alma e desaparece a magia das coisas."

Por essa razão eu creio que este concurso criado por mim e inspirado pela minha amiga Dani tenha tido tanto sucesso, por essa razão ele com certeza irá se repetir, pois conseguiu acima de tudo nos fazer entrar na simbologia de cada participante através de um texto que dá significado ao que poderia talvez não passar de mais uma imagem entre as milhares tiradas por nós em nossa vida.

Obrigada gente por tudo isso! 
Foi um prazer enorme ter vocês por aqui esses dias todos!
A votação terá início na próxima segunda-feira e todos vocês estão convidados a ler, reler, divulgar os textos e votar!

E agora fiquem com nossa última participante... Obrigada Daníssima e desculpe se inseri demais minhas lembranças na sua foto também!

...

“O mundo é grande e não cabe na tela”



"Eu não apareço nesta foto, mas a experiência por traz dela me apresentou uma parte da realidade do Brasil, do sertao, das familias que ainda nao faziam parte do Programa “Bolsa-Escola” ou recebiam qualquer ajuda social/econômica/material/espiritual do governo.


Em janeiro de 2006, participei juntamente com outros 9 estudantes e um professor da Unicamp do projeto piloto do Programa Universidade Solidária.


Ficamos alojados na cidade de Maravilha, sertão de Alagoas (226km de Maceió) e trabalhamos com a populaçao de uma cidade que não conhecia agua em suas torneiras, muito menos em suas hortas. E, por vezes, comiam a mesma comida que o gado (uma massa de cacto).


A foto me lembra do Brasil, das discussões políticas, de pessoas que enchem o peito e dizem algo sobre ensinar a pescar… e de outro lado, uma parte indefesa e fraca, sem apoio do Estado. Faz-me pensar que para entender o mundo não basta ler os livros, os jornais ou a tv, é preciso VI-VEN-CI-Á-LO!"

Daniela Morassutti Zuim.

26 setembro 2011

"Uma foto, mil lembranças": "Memórias do Alto Rio Negro", por Marina Barbosa

(Comunidade Indígena de Camanaus, 2004, foto de Marina Barbosa)

Entre os valores em uma pessoa os quais eu tenho na mais alta conta estão, em ordem de importância, a ética e a abertura ao mundo e ao novo. Não creio que para agir como ser ético nós precisemos necessariamente conhecer muita gente e muitos lugares, mas eu tenho certeza absoluta que só com certa ruptura com o nosso ser egoísta e narcisístico, em outras palavras, com um ser aberto ao mundo (e este mundo pode ser simplesmente uma outra pessoa além de mim) mais do que só a si mesmo, nós consigamos tal proeza. 

A verdade é que a nossa penúltima participante do concurso "Uma foto, mil lembranças", Marina Barbosa, quem eu conheci através da Dri, tem essa segunda qualidade em demasia. Marina já viveu na Espanha e outros cantos da Europa, viajou o mundo e conheceu gente de todo canto dele. Tem formação em administração, mas foi a segunda faculdade, a Antropologia, que a impeliu para uma experiência ainda mais forte. Ela parece ter sentido que precisava conhecer mais de seu próprio povo, mais de sua "própria" cultura, mais de si mesma, mesmo que este terceiro objetivo fosse inconsciente. Do mergulho de uma convivência com indígenas na Amazônia saiu esta foto maravilhosa e este texto, um conjunto de memória e aprendizado, conectado de forma invejável!

E se, ao contrário, de todos os outros textos deste concurso ele tenha sido escrito num momento anterior*, quando Marina disse que gostaria muito de participar com eles e se eu os aceitarira minha resposta foi super positiva. A idéia do concurso não é que o texto tenha sido feito exclusivamente para ele, mas que seja um texto repleto de memórias que tenham sido escritos a partir de determinada imagem. E se esta foto aí é responsável por suscitar em Marina mil lembranças sobre sua experiência então ele está, de fato, no espírito do nosso concurso. 

Vocês, saboreiem comigo, e Marina, obrigada!


Memórias do Alto Rio Negro

"Vivenciei algo forte e transformador. Difícil expressar em palavras quando a experiência é extrassensorial, corporal, por alterações de temperaturas e flashes de imagens – um verdadeiro choque que expande a compreensão e o entendimento de algo indescritível. Uma voz indicava o caminho. Eu era capaz de andar no escuro com a plena certeza de onde estava pisando. Ela dizia: “é isso”, “eu sei” e percebia no silêncio que aquela comunicação era comigo e com mais ninguém.


Eu olhava para os lados, naquela imensidão amazônica, no meio de uma comunidade indígena, a uma distância de voadeira-balsa-avião-avião do meu porto seguro, separada pelas grandes nuvens que se transformavam em chuvas fortes e que impediam qualquer movimento de sair daquela situação extremamente incômoda, de medo do desconhecido.


Quando o barulho ensurdecedor dos trovões anunciou aquela quantidade imensa de água que, em poucos segundos, despencaria naquela tapera de palafita sem paredes, me vi pela primeira vez diante da impossibilidade do ser humano de controlar a natureza, ainda que continuemos a acreditar nesta possibilidade, criando continuamente tecnologias e instrumentos de controle. Esse foi o anúncio da grande aventura em que tinha me colocado, um passo que não teria mais volta.


Fui de avião da FAB (Força Aérea Brasileira) para as comunidades indígenas do Alto Rio Negro, acompanhar o trabalho de uma ONG, mais especificamente às comunidades de Taraquá e Camanaus - compostas pelas etnias Tukano, Desana, Pira-Tapuia e Tariana -, localizadas na região conhecida como a cabeça do cachorro, Estado do Amazonas, terras que fazem fronteira com a Colômbia e a Venezuela. O Município de São Gabriel da Cachoeira possui 39 mil habitantes e a maior concentração de população indígena do Brasil. 90% dos habitantes da cidade vêm de grupos étnicos que conhecia apenas pela visão parcial e idílica, escrita por meus semelhantes nos livros de história. Somente depois fui saber: o que chamamos de índios, na verdade, hoje, no Brasil, são 225 povos totalmente diferentes entre si, com 180 línguas, compostos por 600 mil pessoas aproximadamente, sendo que, na época da conquista do território, viviam no país entre 4,5 a 5 milhões de pessoas.


Na primeira noite, na base do exército, em São Gabriel da Cachoeira, fomos ao “baile de meninas e meninos” no Pop Star, onde dançamos brega com índios aculturados, colombianos, venezuelanos, peruanos, antropólogos e militares, todos convivendo dentro do mesmo espaço. Um verdadeiro caldo cultural. O Brasil real. A terra sem lei. A dança do brega, pouco conhecida por nossas bandas paulistanas, é imensamente difundida pela região amazônica, inclusive nas comunidades indígenas daquela região. Todos se aboletavam pelo pequeno espaço, sem distinção de grupos, raças, etnias ou preferências sexuais.


Para mim, naquele lugar remoto, para minhas referências, foi o primeiro “choque de realidade”. Os índios, objetos da minha ignorância, construídos em minha memória a partir da memória coletiva absorvida nos livros escolares – os selvagens que viviam em harmonia com a natureza -, dançando, no meio daquela fumaça? Como podiam eles desejar o carro, o tênis, o relógio das propagandas, bebendo, cantando e dançando como os brancos? E como um Município isolado por matas e rios dos grandes centros, podia abrigar aquela quantidade enorme de carros, sendo que a cidade em si tinha apenas 10 ruas? Haviam muitos “caciques” de tribos desconhecidas, submersas em uma realidade com a qual nos familiarizamos nas leituras dos jornais (tráfico de drogas, invasões de terras, problemas de fronteira, garimpo, contrabando etc.), coexistindo no mesmo lugar. O silêncio do que de fato acontece naquela região paira no ar. Tudo está à vista, mas nada se verbaliza. O silêncio é proteção.


As experiências são a essência da vida, o que nos redimensiona e nos traz a sabedoria. Para quem vivia dentro do mesmo ambiente durante várias horas do dia, fazendo sempre a mesma coisa, os dias na Amazônia foram a expansão da mente e do coração. Estava mais disponível ao novo, ao diferente.


O convívio com as comunidades indígenas do Alto Rio Negro foi um marco de mudança de minhas perspectivas. Fomos recebidos com apreço, com certa expectativa, olhares curiosos que atentavam sempre para o que não damos valor - um saco de bolacha, uma peça de roupa – somados por abraços calorosos de quem esperou tanto por aquele momento. Momento de conviver, de trocar, de coexistir.


Entrei em outro tempo, um tempo sem tempo, era uma observadora experimental, sem um “propósito” específico de estar ali, sem um plano para a semana seguinte, sem saber para onde ia e quando voltava, rodeada pela densidade da natureza, pelo ar úmido e quente, por pessoas desconhecidas de uma cultura sobre a qual não tinha nenhuma informação. Estava perceptiva, tendo como única bússola para minhas ações os meus sentimentos.


Saía pela comunidade observando, fotografando, registrando o que sentia, escrevendo poemas, me comunicando com os indígenas pelo olhar, às vezes sem dizer uma palavra. Foi-me permitido pelo chefe da comunidade realizar as fotografias, mas os olhares de consentimento, foram os mais significativos. Como se abrissem o universo de suas vidas, de suas almas, para que entrasse para conhecê-los, com respeito e admiração. Eu sentia o amor de seu coração, a pureza das crianças, a beleza, alegria, o medo, e com cada um estabelecia uma relação totalmente distinta.


Neste movimento, minhas crenças se foram por terra e eu comecei a me dar conta de que somos partes integrantes da natureza e nossas relações com o outro são essencialmente como é a relação entre seus elementos (terra, vento, chuva, sol, plantas, animais etc).


O mais interessante é que na cultura indígena tradicional, tudo que ainda está preservado segue essencialmente esta dinâmica. O conhecimento e profundo respeito e adequação às suas leis são expressas na maneira de se organizarem em comunidade: o intercâmbio e rituais entre comunidades, a divisão de trabalho entre homens e mulheres, a valorização do funcionamento em unidade (“a união faz a força”, dizia o chefe da tribo de “Camanaus”).


Rememorar todo este trajeto tem a finalidade fundamental de promover a reflexão sobre a importância da memória no resgate de valores e do sentido fundamental da vida, de seus aspectos mobilizadores, necessários para a requalificação das relações humanas.


Até hoje a lembrança da experiência de convívio com os habitantes das comunidades do Alto Rio Negro se eterniza em minha memória. Pessoas que, envoltas na simplicidade e pureza dos sentimentos, me ensinaram a resgatar o amor pela natureza e a reconhecer os valores fundamentais que hoje servem de referência para a vida."

Marina Barbosa

* Colunista da Revista Carta Capital on line, Marina publicou este texto primeiramente lá, em agosto de 2010. 

Glorinha Leão bate papo com a gente em Sampa!

("As três idades das mulheres", Gustav Klimt)

Esta semana tentarei fazer umas acrobacias para não perder a presença da blogueira e conhecida de vocês, Glorinha Leão, aqui em Sampa.

Continuando a conversar sobre suas questões pessoais as quais lhe impulsionaram a escrever o livro "Na esquina do tempo, n. 50", Glorinha acaba por valorizar a conversa sobre um período da vida dificílimo para as mulheres, mas ainda cheio de tabus.

Se você mora por aqui não perca! E quem sabe a gente se encontra por lá troca idéias, se prepara ou vai se preparando para as fases que virão, dá boas risadas regadas a café ou quem sabe um vinho! Eu, você, a Glorinha, a promotora do evento, Macá, a Lilasona e quem mais aparecer! Vem!

Nicecup Café, a partir das 15 horas
Rua Pedro Nicole, 1, Chácara Klabin.

23 setembro 2011

Idéias para adiar a procrastinação, n. 1


(Quadro feito com tinta lousa)

De todos os meus viciozinhos cotidianos vocês sabem que procrastinar é um dos quais mais me aborrecem. Aquele empurra para amanhã e coisas do gênero que além de atrapalhar a vida prática ainda lança uma camada enorme de culpa sobre os ombros. 

Ontem eu falava com uma amiga como o blog novo e a idéia de "ter que" lançar alguma coisa nova toda semana no "Toda Sexta-Feira" tem me ajudado. Até agora só falhei sexta passada por conta de uma gripe com conjuntivite que tomou a Marina de jeito. E aí não pude procrastinar a tarefa de cuidar muito bem do bebê em troca de pintura.

Além do blog, o qual me ajuda com a pintura em dia, tenho feito outras coisas que ajudam em outras áreas como dar aula, cuidar das crianças etc. Uma delas está aqui: pintei com tinta lousa este painel em minha parede do escritório. Fiz umas decoraçõezinhas em volta para combinar com minha mesa de vidro  cheia de impressões em flores pretas, trazida do Ikea da Suécia. Nele coloco quase diariamente as tarefas mais importantes que preciso fazer. O fato de bater os olhos o tempo todo ali, mas sobretudo o ter que organizar minhas idéias logo de manhã e dar prioridade para o realmente prioritário tem ajudado demais! A cada tarefa feita um risco e no outro dia ou assim que as tarefas forem cumpridas vou passando a novas.


Além de servir como organizador e "adiador tabajara de procrastinação" ele também serve para momento de lazer. Tanto a criançada quanto a "adultada" tem gostado muito. Exemplo é a cunhada escrevendo sua poesia e tendo um momento todo relax com o quadro negro.

E como procrastinar está mais ou menos sendo tirado do meu dicionário eu tenho outra novidade lá no "Toda Sexta-Feira". Ah! E por falar em novidade: foram vendidas 4 telas (Fugacidade n. 11, 13, 15 e 16) da série Fugacidade, através do blog e da divulgação que fiz com o site de venda. Tá vendo como não procrastinar dá resultado?

Ótima sexta-feira para vocês!

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ps: uma amiga perguntou se eu faria o quadro para ela e meo! claro que eu faço! se morar em Sampa fica fácil! Por qualquer milhãozinho estou aí! :) Brincadeirinha: dá para encomendar sim e faço os desenhos ao lado de acordo com o tema desejado por você.



22 setembro 2011

"Uma foto, mil lembranças": "O primeiro voo solo da minha pequena", por Celia Barbosa


Mães sempre (com exceção das mães loucas) amam demais. Não quer dizer que mães sejam criaturas perfeitas, porque exatamente essa característica de amar incomensuravelmente sua cria não permite tal feito. Depois de ser mãe eu entendi esse mundo em que um gesto, um olhar, um sorriso ou uma mãozinha segurando a sua ao atravessar a rua vale um mundo!

O texto da Celia, mãe da Elaine, cujo texto para o concurso eu publiquei esses dias, mostra um pouco disso. E também deixa nas entrelinhas o quanto amor cada pai e mãe devota aos filhos e filhas cada minuto de sua infância sem que isso seja, no futuro, exatamente sabido e compensado.

A memória da Elaine e a memória de sua mãe sobre o mesmo evento e o mesmo dia são provavelmente muito diferentes, porque a memória é construída de sentimento. Para Elaine o novo, o descobrir, a brincadeira, a alegria. Para Celia, porém, o olhar e o coração mandavam as emoções guardarem outro tipo de lembranças... E elas estão neste bonito texto enviado para participar do nosso concurso.

Obrigada Celia!

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O primeiro voo solo da minha pequena


"Esta foto me lembra a primeira vez que minha filha saiu a passeio longe dos meus olhos, quero dizer, dos olhos cuidadosos de uma mãe. Isso aconteceu em 1980. Minha filha tinha cinco anos de idade. 
A direção da escola onde ela fazia o jardim da infância decidiu levar os alunos a um circo famoso. A ansiedade dela era tanta que não dava nem para imaginar como seria quando, de fato, chegasse a data esperada. Até que ela chegou.


Lá estava eu, juntamente com outras mães e tias (professoras), esperando os ônibus que levariam a garotada. Afinal, eles chegaram. E as crianças, já em filas organizadas pelas tias, vão ocupando cada uma o seu lugar determinado.


Do lado de fora, eu buscava com muita atenção onde é que minha filha ia se sentar. Fora as recomendações que eu já vinha fazendo há alguns dias, como não colocar os braços fora da janela do ônibus e que tomasse cuidado para não se perder das tias e das amiguinhas.


E lá se vão as crianças em alta gritaria e muitas risadas. Dava para perceber que elas se sentiam importantes por saírem sem as mães. A felicidade delas era muita.  Nós, mães, voltamos para a casa para aguardar o retorno. Preocupadas sim, mas confiávamos nas tias. No horário marcado, estávamos lá. Para mim, foi muito lindo ver a alegria estampada naquele rostinho e ouvir tantas histórias sobre aquele primeiro passeio longe dos olhos protetores de mãe. Esta é a minha história e a minha lembrança daquela linda tarde."


Celia B. Barbosa

20 setembro 2011

"Uma foto, mil lembranças": "Uma foto ruim e intrigante de uma época boa", por Elaine Carvalho


Snif... snif... estamos quase chegando ao fim da publicação dos participantes do concurso "Uma foto, mil lembranças". Um dos últimos textos é este aqui da jornalista toda sampa, Elaine Carvalho, quem eu vim a conhecer exatamente por conta do concurso.

Em seu blog "Verdades e Insanidades", a Elaine, uma balzaquiana de 35 anos, escreve gostoso sobre literatura, algumas memórias pessoais e lança pontos de vista sobre múltiplos assuntos que lhe apetecem.

Curioso foi que a Elaine estará "concorrendo" com o texto de sua mãe, o qual publicarei logo depois desse. Foi tão bonito de ver mãe e filha assim sintonizadas num mesmo canal... em memórias que se conectam, mas nem sempre são conhecidas umas das outras.

O texto da Elaine toca numa questão sobre a qual eu vivo refletindo e já falei antes: o passado tal como o lembramos não se trata da realidade vivida, mas apenas da forma como sentimos este passado e o vivemos bem como da maneira manca como o mantivemos guardado na memória.

Obrigada Elaine!

...


Uma foto ruim e intrigante de uma época boa

"Algumas lembranças da infância são fragmentadas. Não se entende muito bem as circunstâncias, o local e a razão. É assim com as fotos que tirei aos cinco anos na escola onde fiz o Jardim 2. Em todas elas estou com uma cara bem triste e o que me intriga é que foram tiradas em uma das melhores épocas da minha infância.


Não pense que, se é assim, a coisa foi feia. Foi nessa época que morei na rua que mais tinha crianças na história das minhas residências. Como passavam pouquíssimos carros, a gente podia brincar à vontade. Meninos e meninas com muita energia pra gastar em brincadeiras sem gênero. Taco, pega-pega, mãe da rua, guerra de bola de barro do terreno baldio da esquina. Talvez por isso até hoje eu goste de mexer com argila.


Meus pais eram professores e chegavam sempre tarde, depois das dez. Então, noitinha eu ainda brincava, já não na rua, mas na casa da vizinha, que tinha três filhas. Olhar o os outros vizinhos pelo furo da parede era uma das nossas atividades. Às vezes, eu ajudava a mais nova nos desenhos. Ela estava naquela fase de repetir a mesma letra na linha inteira pra treinar a coordenação motora. Um ce maiúsculo, por exemplo, coisa que eu já tirava de letra.


Com tanta diversão, a escola nem era o ponto alto do meu dia. Mas a tia Márcia um doce e a Florestinha do Pixoxó tinha uma estrutura muito boa: piscina, árvores, parquinho. Por que é, então, que eu só saia com cara triste nas fotos?


Lembro vagamente da seguinte situação. Eu na sala e o fotógrafo me tirando daquela vibe boa pra me fotografar. Sacal. Então me pergunto se essa cara não poderia ser de tédio. Mas a expressão é de tristeza. Também não me lembro se isso aconteceu apenas uma vez. De repente, eu não estava num dia bom – podia estar com dor de barriga, sei lá -- e obviamente sai esquisita. Mas na minha lembrança confusa é como se essa “paparazzizada” fosse recorrente, o que torna muito mais dramática a dúvida sobre meus sentimentos na época.


O fato é que o fotógrafo paparazzi não me traumatizou. Hoje, eu adoro uma foto e pra, minha sorte, fiquei mais fotogênica."


Elaine Carvalho.



"O primeiro vôo do Anjo" ganha republicação no "Minha mãe que disse"


Com muita alegria vi e reli hoje um dos meus posts mais marcantes da história desse blog o qual foi republicado lá no espaço das blogueiras Roberta e Flávia.

"O primeiro vôo do Anjo" foi escrito por mim a partir da minha primeira experiência de separação do meu pequeno Ângelo quem na época com 1 aninho estava começando na escolinha sueca. Fala da dualidade do querer se sentir sozinha de novo, mas ao mesmo tempo sofrer a dor danada das "perdas necessárias" de cada fase... O post também ganhou boa repercussão depois de ter participado do concurso de blogueiras da zuper Lola.

"Minha mãe que disse" é um blog surgido da idéia de reunir os melhores textos sobre maternidade publicados na blogosfera num único espaço. Com pedido prévio e, claro, os créditos devidos, as duas mantém vivos os posts (mais de 800!) que emocionaram autores e leitores por esse mundão virtual afora. Ao mesmo tempo o blog contribui para que novas pessoas tenham contato com estes textos e dá à momentaneidade característica dos textos de blog uma vida um pouco mais longa.

Valeu Flávia! Valeu Rafaela! E valeu gente toda que veio hoje me visitar e comentou naquele post novamente! Depois de mais de 3 anos daquela separação eu diria que o esforço por me manter uma mãe "perfeita" na imperfeição valeu muito a pena!

19 setembro 2011

1 ano e mil histórias para contar

(Marina levada à breca, setembro de 2011)

Ontem fez 1 ano que Renato dirigia pela Avenida Paulista, meio desembestado, num sábado bem cedinho, enquanto eu segurava a todo vapor todas as alças do carro ao som de muito "aaaaaaaaaaaiiiiiiiiiiiiiiiiii" a cada contração que colocava mais e mais próximo de nós a menina vinda do mar.

As dores haviam começado as três da matina, num parto que eu havia conseguido induzir naturalmente porque a barriga pesava e o dia de nascer praticamente havia chegado.

Com uma primeira dor de despertar do sono profundo acordei e me pus a contar os intervalos de contrações. Eram de apenas 8 minutos, mas como marinheira de segunda viagem e muitas idas ao hospital antes da hora na primeira gravidez, resolvi esperar mais um pouquinho e não acordar o marido e o médico à toa.

Uma mais e mais uma e muitos ais a mais jogaram os intervalos para 5 minutos e a hora de pôr os moçoilos para trabalhar havia chegado. Tudo ia rápido demais, mas foi então que o pai da criança, ainda muito ensonado, resolveu fazer um bom cafezinho, sentar e comer algo enquanto a mãe dizia com a voz empunhalada pela dor:

- Tá na hora! Liga para o médico...
- Hummm... mas será que não é alarme falso? Lembra do Ângelo?, disse tentando usar um tom confortador.
- Nãoooo... nãooooo... liga para o médico..., tentava dizer ela com as mãos grudadas na mureta que separava a sala da cozinha, onde ele comia algo.
- Quanto tempo faz que começou?
- Renato! Liga agora!
- Eu já vou... calma! Mas é melhor ligar quando for certeza...
- Agora!
- .....
- Me dá aqui esse telefone! piipiiipiiiipiii. Não acredito! O médico não atende!

E fora assim que a coisa começara. Ligações consecutivas e o médico parecia estar no mesmo ritmo do marido.

Finalmente o hospital! O estacionamento... um papelzinho, pega as malas, pega as maletas da criança... e ...

- Aaaaiiii...
- Senhora sente-se nesta cadeira que já vamos levando-a lá para cima...

E lá em cima:

- 9 centímetros! Corre para a sala de parto que vai nascer!
- Meu médico! Moça liga para o meu médico! Ele ainda não me atendeu!
- Quem é seu médico! Okey! fique calma! Vamos achá-lo!

E na mesa de parto, a única mãe - entre outras 29 internadas naquela noite no hospital - decidida a dar a luz sem uma cirurgia pré-agendada fazia parar a ala da maternidade. Parto normal? Até mesmo os experientes não estavam acostumados mais a ver uma mulher em trabalho de parto... Enfermeiras, médicos e médicas, anestesistas todos queriam poder ver um pouquinho daquele espetáculo natural.

- Anestesia por favor! Anestesia! Doutor. Silvio! Finalmente o senhor chegou! Doutor Silvio!...
- Calma Sônia vai dar tudo certo! Ela já está com a cabeça apontando... Tem muito cabelo e é preto... Olha ela aqui...

Pai e mãe caíram no choro... Era a segunda vez que eram protagonistas daquele milagre! Sim! A vida é sempre um milagre!

E foi então que um entrelaçar de mãos se deu entre mulher e marido e um olhar cúmplice acompanhou a chegada daquela menina, escolhida ainda quando estava na barriga e a mãe cheia de enjôos olhando para o Mar Báltico na Suécia, para ser chamada de Marina...

E Marina ontem fez 1 aninho. 1 ano e tantas histórias para contar!

A menina quem praticamente corre pela casa desde os 10 meses e chama pelo "papai", "mamã" quando precisa de qualquer coisa. A menina amada pelo irmão, apaixonada por ele e cheia de felicidade está crescendo... Doentinha teve o bolinho adiado para depois, mas estava aqui e o casal que colocou-a no mundo olhou-se novamente em silêncio. Ambos sabiam que mesmo sem bolo e festinha havia muito, mas muito a agradecer, porque a sorte havia lhes sorrido tantas vezes nesses anos juntos e coroado com a felicidade de ter como companheiros da jornada as duas criaturinhas que sim! tiram-lhes literalmente o sono, mas também fazem a vida se encher de sentido...

14 setembro 2011

"Uma foto, mil lembranças": "Alegria, alegria! Esta foto é nossa!", por Stela Battaglia

!


A história concorrente de hoje é inspirada numa foto de várias décadas. Uma foto literalmente guardada num baú, repleta de memórias e histórias que esperavam para serem recontadas, porque o tempo, os desencontros e os encontros podem nos tirar de dormências...

A autora, Stela, eu conheci há alguns anos, quando comecei a dar aulas para a filha dela. Fiquei amiga tanto de uma quanto da outra, porque gente cheia de vida e profunda como elas a gente não encontra todo dia não...

Hoje, ao contrário do que normalmente faço, eu prefiro não tentar parafrasear o texto da Stela... Eu prefiro que vocês sintam uma onda de friozinho correndo pelo corpo como eu senti no meio e outra de esperança para o final...

A história da Stela fala por si mesma e, segundo ela, não haveria melhor momento em sua vida para tirar do seu baú uma foto e o concurso foi uma excelente forma dessa história poder ser contada... 

Obrigada querida Stela!

...


Alegria, alegria, esta foto é nossa!

"Ano? 1000...como as lembranças...
... 900... e 70... e 2...


Éramos professores, colegas e amigos. Além dos alunos, diários de classe e planejamentos que nos uniam, havia os passeios programados em grupo. Um deles, um almoço em Piracicaba. Divertido passeio, com direito a saborear um bom peixe assado à beira do rio, andar na praça, rir muito (sabe-se lá do quê!). Éramos todos amigos... aparentemente.


Aparentemente... porque ... entre o garotão loiro e a moreninha sorridente sentados lado a lado, no mesmo banco da praça, havia um sentimento a mais – ocultado, mas sentido pelos dois, perceptível para alguns conhecidos.


Um sentimento com vontade de crescer, mas inibido por contingências da vida. Ele revelava-se no sorriso dos encontros nos intervalos de aulas, horários de recreio, ligeiros recados deixados nos registros de aulas de cada um deles. Chegou até a reverberar na “coincidência” de morarem na mesma rua. “Alegria, alegria, essa rua é nossa!” foi o bilhete que a jovem encontrou em seu diário quando “ele” foi morar numa pensão ali, bem pertinho de sua casa; porém, os caminhos da vida colocaram os sentimentos na contramão dos acontecimentos.


Ele seguiu seu destino para o interior de São Paulo, continuando andanças, esquecendo o magistério. Ela permaneceu em seu berço paulista, sempre professora. Ambos casaram, constituíram família.
E passaram-se quarenta anos...sem contato, quase sem notícias um do outro. As poucas informações foram dadas pela moça da foto, uma grande e fiel amiga dos dois, por todo esse longo tempo...
Dessa amizade ficou, para a jovem, a imagem de uma semente que não brotou. Em seus pensamentos ela imaginava que havia sido apenas uma grande amiga para ele. E a foto do passeio a Piracicaba foi guardada na caixa de lembranças e na memória.


Do ano 1000 para 2000 – 2000 e 10. Um toque de telefone desperta a mulhermeninamorena da foto antiga. É a grande amiga.


Eu atendo ao telefone. “Tudo bem?” ela me diz. “ Tenho uma novidade. “Ele” está em São Paulo e gostaria de vê-la. Você quer encontrá-lo?”


O pensamento dispara as lembranças. Cenas, sensações, alma agitada. Com posso ver imagens se não tenho fotos em minhas mãos? Mas é isto o que acontece.
E o encontro se realiza. Por entre as diferenças físicas que o tempo esculpiu em nós, aparece a sutileza do que nos marcava e encantava um ao outro: o jeito do sorriso, a energia do toque das mãos na busca velada de um roçar de dedos.


Lembranças de antes entrelaçadas com o momento presente. Somos e não somos mais os mesmos jovens. Somos e não somos sexagenários. A ebulição interna mobiliza-me à procura da caixa de lembranças. Ah, a foto! Ainda a tenho! Se não foi necessária para me trazer lembranças, agora ela se torna um quadro vivo do que sentíamos! E o calor de um sentimento retorna e faz o coração pulsar. E nos faz jovens na alegria do reencontro. E dispara palavras e silêncios, toques e afastamentos, certezas e inseguranças.


A foto é tirada do seu exílio e silêncio. Assume seu lugar num porta-retratos; agora fala, sorri, gera palavras... e textos. Adquire vida, impulsionando à busca de mais vida, para que novas fotos garantam mais lembranças, para um futuro de uma vida que ainda se promete."

13 setembro 2011

"Uma foto, mil lembranças": Duas meninas (ou três, quatro..), por Gislaine Widmer


Eu conheço a autora do texto de hoje há mais de 15 anos e vocês por conta da maravilhosa história de uma colcha de retalhos. Estudamos juntas na mesma universidade, curtimos as mesmas badaladas festas, trabalhamos no mesmo grupo de professoras em determinada época. Depois, nos casamos, fomos viver fora e tivemos dois filhos: uma menina e um menino, no caso dela. Um menino e depois uma menina, no meu. E continuamos juntas sonhos muito parecidos e lutas semelhantes para manter, no mínimo, uma coesão entre as mocinhas e profissionais da época da universidade, as namoradas dos nossos maridos e as mães notas quase 10 que desejamos ser para nossos filhos.

O que eu vejo nessa Gislaine de mais de quinze anos em comum com a autora do texto é essa sensibilidade e o seu modo de falar naturalmente poético. A Gislaine estudou Letras na Unicamp, ama literatura, línguas etc, mas o modo dela escrever e o modo amável com o qual ela vê a vida transparece claramente nas linhas desse seu texto sobre este "encontro com sua mãe".

Não sei se é ela quem tem o dom de emprestar das letras o sentimento ou se o contrário! 
E eu? Eu tô adorando todo dia ter texto como estes que vocês me mandaram para pôr aqui no blog!

E... Gi.. obrigada!


Duas meninas (ou três, quatro..)

Minha mãe sempre foi severa consigo e com os outros. Para si, negou os luxos, a vaidade e também a expressão de um amor da vida inteira, tudo, penso eu, porque a vida já bastava enquanto sobrevivência, e amor, ah, o amor, as novelas já o expunham demais, ela não se arriscaria ao ridículo. Não me lembro de na minha infância tê-la visto uma única vez se enfeitando ou flertando com meu pai.
Eles sempre estiveram lá um para o outro, tranquilos, respeitosos, mas sem o contato das mãos ou beijos, inhos que fossem, carregando ao modo deles aquela coisa invizível que os unia. Ele jurou até a morte que era amor, ela jura até hoje, falando baixo, claro, pra que ninguém descubra a mulher atrás da mãe. Com os filhos, ela sempre nos protegeu feito bicho, do tipo que quase espancava a professora ou qualquer outro que não nos respeitasse. Perdemos a conta de quantas vezes ela saiu ao ataque. 
Porém nunca encostou a mão em ninguém lá em casa, e não porque tenha lido manual de boas maneiras ou obras de pedagogia, esse tipo de comportamento simplesmente não era dela, só isso, e no mais, o seu olhar e suas palavras eram suficientes. Palavras duras das quais ela vez ou outra se desculpa. O problema é que palavra é palavra, e vai encontrar borracha pra apagar o que foi dito. Coisas de mãe e filho, coisas de gente e gente, porque no humano a crueldade martela em ditado na cabeça. Minha mãe é dura, quantas vezes abaixamos a cabeça de medo daquele olhar, quantas vezes nos calamos mas não menos levantamos a crista por não aceitar a reprimenda; e minha mãe também é mansa, dona dos opostos do humano, sabe com as palavras quase me colocar de volta na barriga e me proteger do mundo. Tenho cá comigo que as pessoas muito duras se defendem da própria doçura. 
Assim é a minha mãe, que nos gestos mais silenciosos se revela um amontado de amor. 


Essa pequena introdução é pra falar da senhora rindo ao meu lado na foto. Leve ela, não? Faz um ano neste mês de setembro que a mulher que eu mais amo veio me visitar. Não foi coisa pouca. Atravessar um oceano pode ser algo cotidiano para muitas pessoas, mas para a minha mãe foi um grito. Deixar sua casa, sua família, ainda que para encontrar um pedaço de si, deve ter doído demais. Imagine, depois de 70 anos ter de sair do seu bairro, andar em ruas que não eram suas, vestindo-se estranha pra si mesma. A novidade tem o gosto amargo da liberdade, porque sentir-se livre da vida de todo dia é tirar os pés do chão, e ai que medo que dá voar. A chegada da minha mãe em terras suíças parecia tirar o mundo de órbita. Eu não podia acreditar no salto que a velhinha havia dado, toda corajosa. Não é exagero meu, não mesmo, gritar, vocês sabem, consome uma energia danada.


Foi na viagem que ela se transformou na minha menina. Eu segurava suas mãos para que ela atravessasse segura as ruas, „e nossa, como tudo isso tudo é lindo!“, cozinhei carinhosamente para que ela se sentisse bem-vinda, „hummm, eu não sabia que você fazia coisas tão gostosas!“. Na foto estamos nós duas festejando: a vida, o aniversário da minha filha, o batizado do meu filho. Sentir-se criança é uma dádiva, e naqueles dias eu estava assim, abençoada. Toda a dureza daquela mulher havia se transformado numa canção de ninar.


A viagem acabou, os dias seguiram, e como mãe percebo mais e mais a difîcil tarefa de educar sem tropeços. Quem me dera ter filhos e não precisar jamais ser dura com eles ou comigo, quem me dera continuar apenas uma menina. Não sou a única a me perguntar como o amor sobrevive à aspereza ao mesmo tempo que dela se alimenta. Acho que a minha filha vai se perguntar o mesmo. E muitas outras meninas também."



Gislaine Widmer. 

12 setembro 2011

Inspiração em rede: sobre o concurso e seus incritos


Bom dia, bom dia!

A segunda tá começando agitada aqui e venho rapidamente para dar uma notícia que muito me deixou feliz: fechamos o concurso no sábado, dia 10, com um total de 15 pessoas inscritas no concurso "Uma foto, mil lembranças". Na verdade, um sucesso para uma primeira versão e ainda se eu considerar que a divulgação foi simples e meio que passou mesmo de boca em boca, de blog em blog. Aliás, obrigadíssima por terem me ajudado nisso!

Neste total de 15, pasmem! Apenas 2 textos não foram escritos por mulheres! A molerada teve uma participação em massa, mas nossos dois participantes, Ed e Ricardo, fizeram uma representação simbólica muito boa, de super conteúdo para defender a ala masculina. :)

A representação feminina (numa lista meio capenga neste momento) ficou por conta da Grace Olsson, Beth Lilás, Glorinha Leão, Adriana Cechetti, Ana Flávia, Mariaaah, Kátia Celeiroz, entre as já publicadas, e Loide Branco, Stela Fazio, Gislaine, Célia, Elaine e Daniela entre as que deverão ser publicadas ainda esta semana. Esqueci de alguém?

Eu publiquei até agora dez textos, sendo assim, nos próximos dias devem sair todos os últimos cinco e então, assim que eu organizar os textos em links e colocá-los como enquete do blog, darei início à votação em rede.

Também vou colocar a lista completa com os links dos textos publicados num outro post logo logo para que tenham algo mais organizado para fazerem as leituras certo?

A votação segue até dia 15 de Outubro até a meia noite do Brasil.

Para votar, cada pessoa pode ler e escolher o texto de sua preferência. Cada um pode votar uma única vez em seu computador. O sistema não permite mais de um clique por máquina.

O legal é que vocês, além de terem enviado seu texto, divulguem para a família, os amigos e os leitores de seus blogs para que venham conhecer os textos concorrentes e também participem da votação. Assim a movimentação ficará gostosa e a idéia de dar a conhecer essas fotos e essas mil lembranças entrará em vigor.

O resultado foi tão bom e o envolvimento de quem escreveu tão incrível que eu já decidi que esta será apenas a primeira versão do concurso! A contar pelo número de gente quem queria escrever mas não teve tempo a segunda temporada do "Uma foto, mil lembranças" já promete!

Um beijo e um queijo minas tipo padrão para vocês!

11 setembro 2011

Perguntas inúteis que não querem calar: Queijo Tipo Minas Padrão???



Eu não sei se você tem o mesmo problema que eu: não raramente eu me pego com a testa franzida, pensando e pensando sobre a rebimboca da parafuseta e tentando entender o porquê daquilo. Isso acontece muito mais do que eu realmente preciso num dia só e de vez em quando até gasta minhas energias...

É minha porção filósofa inútil diária aparecendo. Eu penso e penso e penso.

Já havia pensado em fazer uns posts só com pedido de "ajuda aos universitários"

Hoje, entretanto, durante meu café da manhã, eu pensei que questões assim não devem intrigar tanto um ser sozinho. É preciso resposta mesmo para as perguntas mais imbecis.

Resolvi então criar uma nova sessão neste blog. Uma sessão inútil, mas necessária. Veja que coisa mais contraditória esta!

A pergunta que não me quer calar hoje é a seguinte:

Ontem comemos uma raclete de carne com legumes aqui com os amigos. Minha amiga dona da raclete sempre me pede pra comprar o "queijo Minas tipo padrão". Pelo menos é assim que ela e quase todo mundo fala, embora eu tenha percebido que os rótulos escrevem: "Queijo Tipo Minas Padrão".

Eu leio e leio e leio este nome-enunciado e acho "complicadimais sô". Minha pergunta, melhor dizendo, minhas perguntas aos universitários ou mineiros de plantão então são a seguintes:

- Este queijo de Minas tipo padrão significa que o queijo é de Minas, tipo assim, do tipo padrão? ou
- O Queijo é Tipo. Tipo é assim a forma como o queijinho é feito. E este queijo é feito lá nas Minas Gerais. E além disso ele tem o mesmo padrão dos outros queijinhos de Minas Tipo?

Eu realmente vou precisar de ajuda de alguns de vocês para me tirar do limbo porque essa dúvida eu carrego há muito tempo mas, neste caso, eu não quero perguntar de jeito nenhum para o pai dos burros modernos que é o Sr. Google.

O quê? Não tô entendendo... Explica com calma!

10 setembro 2011

Última chamada para você pegar uma foto, escrever um texto e participar do concurso!!!


Gente boa!

Hoje é sábado e hoje é também dia 10 de Setembro!

Chegou então o final do prazo para inscrição de textos e fotos para o concurso "Uma foto, mil lembranças".

Ainda publicarei nos próximos dias textos enviados nesta última semana para apreciação de vocês e daí lançarei a votação online.

Se você ainda está em vias de e não teve coragem, tempo ou qualquer coisa digo que o sábado, ao menos no Brasil, está só começando!

Obrigadíssima a quem abraçou a idéia! Eu sempre ouvia amigos e amigas dizendo "ah! eu adoro escrever!" "eu queria, mas não sai", "eu queria, mas não tenho tempo!"... tralalá... Então fico imensamente feliz que alguns de vocês conseguiram participar.

Obrigada para quem fuçou em seus baús de memórias e colocou para o mundo histórias tão comoventes e lindas!

Valeu muito! Já valeu porque a gente pôde ler essas lembranças, pôde se sentir parte delas, pôde dividir dores e alegrias! Isso é muito legal!

Fico devendo então 3 telas para vocês!!!

Um beijo e ótimo sábado.

Você pode enviar o texto hoje ainda para os emails:





Hasta la vista Baby!!!

08 setembro 2011

"Uma foto, mil lembranças": Lembranças em preto e branco, por Loide Branco

(foto de Sandri Alexandra, trabalhada em preto e branco)


Faltando só dois dias para encerrar as incrições para o nosso concurso "Uma foto, mil lembranças" eu ainda tenho aqui textos lindíssimos para publicar para vocês!

O texto de hoje é da Loide Branco, uma brasileira, estudante de Direito em Coimbra. A Loide também é blogueira e escreve bastante sobre sua experiência de estudar fora e poder conhecer outros lugares e pessoas.

Assim como outras e outros participantes a Loide trouxe aqui memórias saudosas da família. No caso, memórias de sua relação com o pai e do seu tempo de criança. Apesar de falar de saudade ela prova que nem sempre saudade é algo triste... A saudade existe na nossa vida como parte integrante dela. É prova de que vivemos algo importante e isto nos pertence através da memória. Conseguir ter saudade sem se sentir triste, acredito eu, é algo que pouca gente o sabe fazer. Na verdade, só talvez as mais sábias.

Obrigada Loide!

Lembranças em Preto e Branco


"Era novembro de 1965, tempos difíceis de repressão, de mudanças sociais no Brasil dos anos sessenta, ela havia acabado de completar 26 anos e ele já estava com 66 anos e em seus braços a pequena nenê que a poucos dias nascera, a primeira filha de seu segundo casamento a oitava dentre os filhos que tivera e que trazia uma nova esperança, um recomeço.


Ali eu, pequenina, nos braços de meu pai à 45 anos atrás não sabia que só teria a presença dele por mais 7 anos, mas o que conta o tempo? Se o que importa é a qualidade de nossas sentimentos.


Retiro a pequena foto preto e branco da caixinha do meu coração e fecho os olhos por um pequeno instante, e consigo recuar no relógio do tempo e volto a ter sete anos e a ter um pai amoroso, cuidadoso, sinto a minha mão pequenina na tua, pequenos flashes de recordação enquanto caminhávamos e como tu parecias tão alto diante de mim e também a sensação de estar contigo na velha cadeira de vime branca de balanço a qual tu embalavas-me enquanto contavas-me histórias e também a pequena marca em minha mão direita de quando tu perdestes o equilíbrio e caístes sobre mim.


Sim, sempre quando olho para esta pequena marca lembro com saudade o tempo que tivemos juntos de como fui feliz e afortunada.


É verdade, o tempo passou, já não sou mais aquela nenê mas o que importa é a doce lembrança da primeira infância e saber que não importa o tempo que passou, nem o fato de você não ter me visto crescer ou participado das grandes coisas da minha vida, porque estivestes e estarás para sempre vivo dentro do meu coração através do amor que sempre senti por ti.


Hoje aos 45 anos muitas mudanças políticas, sociais, econômicas aconteceram no nosso país, o regime militar já não existe vivemos numa democracia relativamente jovem e com certeza tu te encantarias com os dois netos que te dei e as nossas pequenas e grandes conquistas e também te surpreenderias com as descobertas dos cientistas, o avanço tecnológico mas também te indignarias com o mundo em que vivemos, com a pobreza, as guerras, a fome e a falta de amor e fé.


Ainda com a foto em minhas mãos, trago-a para junto do meu peito e volto a guardá-la no meu coração."


Loide

...

ps: a Loide não conseguiu a foto que inspirou o texto porque ela mora em Portugal e a foto está "perdida" nas coisas do Brasil. Ela me pediu para usar uma outra da internet que conseguisse nos transmitir aquela tida em mente ao escrever.

05 setembro 2011

"Uma foto, mil lembranças": Tempos Felizes, por Kátia Celeiróz

(Kátia Celeiroz na infância e sua família)

A participante de hoje é também uma blogueira da "cidade sangue quente, purgatória da beleza e dos caos". Sim! Kátia Celeiróz é carioca e gosta de escrever sobre memórias e hipocrisia em seu blog que tem há 4 anos. Apesar de "não gostar de títulos", Kátia é formada em Letras e está estudando Logística no SENAC porque a vida nem o mundo podem parar!

A Kátia não quer ser escritora, não deseja viver das letras, mas não consegue deixar de escrever sobre seus sentimentos. Isso, diz ela, é o que move sua "Literatura Mundana".

Eu não conhecia a Kátia e ela é a primeira pessoa quem anuncio aqui no concurso de quem eu não tenho uma história de relação minha com ela para contar, mas exatamente por isso fico tão feliz apresentando seu texto. Saber que daqui do meu escritório na quase Lapa de São Paulo eu consigo me conectar substancialmente com gente que anda vivendo sua vida por outros cantos do mundo.

Que o Cosmos é imensamente grande e os sentimentos imensamente próximos independente de onde tenhamos crescido e vivamos.

Kátia, obrigada pelo texto e pela sua participação! E espero que esta história de troca esteja só começando...

E para quem ainda está com aquele desejo de escrever entalado na garganta eu só tenho a dizer: "agora só falta você!". O prazo termina dia 10!



Tempos felizes


"Eu já não me lembrava mais dessa foto, mas lembrava do dia em que foi tirada: quando o padrinho do meu irmão trouxe esse cavalo enorme de São Paulo para o Rio e deu de presente para ele.
Lembro que sentia um pouco de inveja porque o padrinho do meu irmão sempre trazia presentes caros para ele.


Nessa época nós morávamos em um apartamento na Rua Arthur Timbau em Niterói e pouco convivíamos com outras crianças porque o prédio não tinha play e não deixavam a gente brincar na garagem.


Quando muito, meu pai pegava o carro, uma Variant 74 e nos levava para dar uma volta na praia e, quando estava de bom humor, parava em algum barzinho para comermos batatas fritas encharcadas de Ketchup.


O dinheiro não sobrava muito naquela época, mas estávamos sempre juntos...


Os momentos mais felizes que vivemos foram em família.


O tempo passou e levou com ele as pessoas, tirou o sorriso do rosto da maioria de nós, trouxe intrigas, briga e separações.


Não somos mais os mesmos, não somos mais tão felizes e talvez não sejamos mais nem mesmo uma família, apenas algumas fotos fazem questão de nos lembrar desses tempos que éramos tão felizes, tão ingênuos e tão unidos."


Kátia Cristina Celeiróz

02 setembro 2011

Faltam 8 dias! Ainda há tempo de mandar seu texto para o "Uma foto, mil lembranças"

("Writer's Block,"Fayetteville-Manlius junior Nicole Steinberg)


Bom dia caras pessoas que por aqui passam,

Só para lembrar que o prazo do concurso está para acabar. Faltam 8 dias!

Eu creio que além de quem já enviou o texto, mais umas 10 me disseram estar "escrevendo" e finalizando seu texto para enviar. Então este post não é pressão, é lembrete! :=)

Dia 10 encerrarei as incrições dos textos e fotos para o concurso "Uma foto, mil lembranças". Ainda tenho comigo dois textos enviados os quais já estão programados para irem ao ar.

Eu não vou esticar o prazo porque não acho justo com quem correu e se inscreveu. Não é? Ontem vi que em dois editais de Salões para onde mandei minhas telas houve prorrogação do prazo de inscrição. Me matei para enviar nas datas e agora simplesmente o prazo foi aumentado. Nisso eu sou bem suequinha!

Para participar basta escolher uma foto realmente significativa para você e escrever, a partir, dela um texto (narrativo, dissertativo, poético etc) sobre as lembranças que dela provém, já que a idéia começou em 2009, quando escrevi o primeiro, "A Aparecida", e daí se seguiram outros de leitores.

A eleição se dará através do blog e os internautas é quem escolherão os melhores textos. Os três primeiros colocados serão premiados com pinturas minhas que ainda serão confeccionadas especialmente para os ganhadores, como dito no primeiro edital:

Da premiação:


- todos os participantes terão seu nome, blog ou site divulgados no "Borboleta".
- o 2o. e 3o. lugares terão publicados seus textos aqui no blog para deleite de todos. Receberão também uma obra em aquarela integrante da série "Fugacidade" de tamanho 13 x 15 em papel. 
- o 1o. lugar: terá texto publicado no blog e ganhará uma tela, com direito a escolher uma foto para que eu crie uma tela dentro da série "All we need is love". (Veja aqui e aqui para saber mais). Tamanho máximo de 60 x 80 permitido para envio através da Agência dos Correios.



Então só reforçando, já que alguns amigos e amigas começaram a brincar e disputar entre si quem ficaria com qual tela da mega blaster Somnia Carvalho: as telas não serão escolhidas pelos participantes. Eu criarei as telas, com o mesmo cuidado que as outras e divulgarei na ocasião do final da eleição quais serão elas. Eu não posso deixar que escolham entre as telas hoje disponíveis nos meus blogs e sites, já que muitas já foram enviadas para alguns salões de arte nas semanas passadas. Entenderam?

Participem e incentivem seus amigos! Escrever é bom demais! E manter a memória ou despertá-la faz um bem que só!

E obrigadíssima a quem participou e ajudou a divulgar até agora! Acho que tudo isso funciona como uma boa onda de energia, uma corrente criativa que quase emancipa a gente! É uma delícia!

Ótima sexta para vocês!

...

Ah!!! E como hoje é sexta e eu ando realmente inspirada, o "Toda Sexta-Feira" está com QUATRO TRÊS novas pinturas feitas na semana que passou. Provavelmente o Becket diria: Até aí normal, porque doideira pôca é bobagem!