31 agosto 2011

"Uma foto, mil lembranças": Sobre sonhos e memórias

(foto: Ricardo Perez)

Sabe quando você olha, ouve, lê uma pessoa e tem a impressão de que ela simplesmente parece ter nascido para fazer aquilo? Que tudo vem tão suave e naturalmente da boca dela e ela sabe a medida exata para fazer rir ou emocionar a gente? Essa foi sempre a impressão que eu tinha do Ricardo, quem conheço há muitos anos, de apenas conviver com ele, ver as coisas todas que ele faz na sua área do jornalismo e como diretor de tevê. Ao receber, porém, esta foto e este texto enviadospor ele para o concurso "Uma foto, mil lembranças" percebi que não era uma impressão meu sentimento, mas a realidade.

 O Ricardo tem esse poder de captar muito rapidamente coisas incríveis acontecendo ao seu redor e tem o dom do falar bem. Ele seduz pela imagem e pela palavra e isso vocês vão poder comprovar comigo nesta oitava participação do nosso concurso que promete dar trabalho para os leitores em setembro! E por isso Rico, muito obrigada!


Sobre Sonhos e Memórias


"Em “A Tempestade”, Shakespeare escreveu que “somos feitos da mesma matéria que nossos sonhos”. Muitas vezes, é possível sentí-los em movimento dentro da gente.


Não sou um homem de muitas memórias. Talvez por ser um aquariano convicto, sou pouco apegado a quase tudo – até mesmo (e por um erro que tento corrigir) às pessoas. Gosto das minhas solidões. E em algumas fases da minha vida, são elas que me trazem de volta ao eixo. Vivi 2 momentos únicos em que estar sozinho me fizeram bem: no começo de 2005, quando passei um mês na Argentina estudando espanhol e cultura latina e, cinco anos mais tarde, outros 35 dias me lambuzando de cinema em Nova York.


Vale dizer que quem já se meteu na confusão de metrôs e na frenética coreografia de pessoas daquela cidade, sabe que o centro do mundo fica bem longe a linha do Equador – mais precisamente numa ilha do nordeste americano.


E foi na Grande Maçã em que eu flagrei o casal da foto. Em plena Times Square, eles brindavam o que parecia o começo de uma fantástica história de amor. Eu não os conhecia. Nem viria a conhecer. Eles nunca viram a foto. E, muito provavelmente, não verão nunca. Mas no momento em que os cliquei nós nos unimos numa sensação de felicidade difícil de descrever. Éramos 3 desconhecidos, no centro do mundo, tão pequenos, tão anônimos e, ao mesmo tempo, gigantes. Tínhamos a dimensão dos nossos sonhos. Estávamos em contato com a tal matéria de que nos sugere Shakespeare. No meio daquele vai-e-vem de gente, dos flashs que não cessam, das filas dos musicais, dos encantamento dos olhares, da pressa dos que não estão ali a passeio, éramos só nos 3. Cúmplices. Sem saber de onde estávamos vindo, para onde iríamos, se falávamos a mesma língua, se alguém além de nós vivia algo parecido.


Mas voltemos à minha péssima memória. Lembro de muitas passagens da minha vida como pequenos fragmentos. Muitas imagens, alguns barulhos, poucos cheiros. E, quando estou sozinho, me aproximo mais deles. Mergulho entre todos e me refresco. Relembro de pessoas, das coisas boas que elas me disseram, do que aprendi, dos sorrisos, dos silêncios. Nestes momento, eu até (re)crio cenas e as tomo como se fossem verdade.


E foi por isso que escolhi esta foto. Nela só há lembranças que eu criei de um casal que não sei quem é. Pode ser que eles nem estejam mais juntos. Talvez tenha sido um grande fingimento aquele romance. Mas eles me fizeram sentir a felicidade na velocidade de um clique e ajudaram a imortalizar uma passagem única da minha vida."


Ricardo Perez.

29 agosto 2011

"Na Suécia também não tem..." nada parecido com uma Malagueeeeena salerosa!


(Malaguena Salerosa, Chingon)

Eu sei! Eu sei...  "Malaguena Salerosa" é uma canção mexicana, dos Mariachi. Não é nada brasileira.
Acontece que ontem eu acordei de novo com esta música na cabeça. Ouço sempre da trilha sonora do "Kill Bill 2" e meo! Eu a-do-ro!

Que energia! Que jeito desses moçoilos tocarem num ritmo tão caliente, tão latino, tão cheio de energia vibrante de quem tem muito sol, muito amor para dar. Em todos os sentidos!

Arriba!

Na Suécia tem músicas e cantores muito bons! É comum minhas manhãs serem regadas de cantoras suecas, cantando em inglês ou sueco, e me deixar toda numa outra atmosfera...

As músicas suecas tem um quê sueco tão, mas tão forte. Não só a letra, mas as melodias. Obviamente há música de rádio chata que não diz nada com nada, mas falando dos cantores cuja música vai um pouco além do "feita pra tocar em rádio", as melodias tem o peso do inverno sueco. Tem o respeito e o mesmo ritmo dos suecos. É difícil explicar porque eu não sou especialista em música, mas é isso que sinto. Mesmo as músicas agitadas não tem a mesma alegria de "não tenho medo de ser muuuito feliz" que os latinos tem. Não tem quase, eu diria, uma inocência latina. Elas acabam sendo sempre muito mais contidas. Elas são... suecas! Lindas, mas suecas.

Dá pra entender? Prometo fazer um post só com dicas de músicas suecas para vocês apreciarem...

Ontem e hoje, entretanto, talvez embalada pelos 27 graus do final do nosso "inverno" eu só consigo me chacoalhar ao som de uma Malagueeeeeeeena Salerosa numa versão "muito maluca", como diz o Ângelo, do Chingon!!!

Postei no meu facebook, mas não foi suficiente! Então é essa música que eu desejo estar na cabeça e no corpitio de vocês o dia todo!

Ótima Segunda-Feira pra todos vocês!!! E não me odeie por isso! :)

Ah! E obrigada pela participação ma-ra-vi-lho-sa no concurso "Uma foto, mil lembranças". Logo posto outros textos que já chegaram!


27 agosto 2011

Uma foto, mil lembranças: Quando Euripa conheceu a Europa, texto de Ana Flávia

(Ana Flávia e sua mãe, Dona Euripa, na Irlanda)

Hoje é sábado e eu adoro sábados!

Normalmente minha alegria contagiante do fim de semana começa na sexta e o sábado é o dia "mais fim de semana" por excelência. É um dia que quero coisas gostosas e bonitas, começando por um demorado e delicioso café da manhã, por ler (tentar ler) um bom livro ou uma poesia. Por pintar ou rabiscar algo numa tela, encontrar gente querida, ouvir aquela música especial e sentir-me juntinha à família.

Por essa razão me dá um prazer enorme postar este texto, enviado pela Ana Flávia, do blog Europrosa, para vocês saborearem. A Ana é brasileira e mora em Viena. Uau! Que inveja! E em seu blog ela conta bastante sobre o país onde vive e suas viagens. Há tempos em que a Ana sempre me deixa comentários muito carinhosos, críticos e positivos no Borboleta. Ela tem uma aura, uma energia boa que emana até nas palavras.

Semana retrasada, quando recebi e li a história dela e sua mãezinha Euripa, foi difícil conter as lágrimas. De um lado uma mulher cuja vida é exemplo de perserverança, de otimisto e força. De outro, uma jovem mulher quem consegue ver em sua mãezinha simples todas essas qualidades. Consegue vê-las em tempo de aprender com ela, de retribuir tanta dedicação e amor.

Com vocês a Europa, Dona Euripa e Ana Flávia. Obrigada Ana!

...


"Essa, à direita, é minha mae, no dia em que chegou à Dublin, Irlanda.


Ela chegara à ilha esmeralda no dia do Reveillon, pra participar de meu casamento que ali se realizaria.


Essa era a primeira viagem internacional de minha querida. Era o primeiro carimbo no passaporte; e, já que viajava para as terras menos ensolaradas, mãezinha nutria o desejo de ver a tao famosa e bonita de ser ver- a neve. Entremente, a Irlanda, embora gelada, não é terra em que se neve. Quer dizer, nao nevava por lá havia 11 anos e mãezinha fora encorajada a desistir do sonho de ver esses famosos floquinhos brancos.


Então partira minha mae de Goiânia pra Irlanda, com conexões em São Paulo e Paris. Em virtude da data, a companhia aérea francesa serviu champanhe durante toda a noite. Dona Euripa se sentira em tudo muito chique. Ah, como essa Euripa que vai à Europa para o casamento da filha, que bebe champanhe e aprende de última hora a dizer "thank you" é tão inimaginável para a Euripa de meio seculo atrás.


Essa de outrora nascera no campo e por lá vivera até a idade adulta. Órfa aos cinco anos, porque o pai alcoólatra surrou a mãe que havia acabado de parir um menino, essa morreu na manhã seguinte, o pai sumiu, minha mãe fora recolhida por um casal de fazendeiros que por muito resistiram e quase não a enviaram para o grupo escolar.


Ela, que limpara o fiofó com folha de goiaba, vaso sanitario só foi ver aos 20 anos, que bebia leite direto do peito da vaca, que trabalhara sem parar e o dia começava às 3 da mãnha, e pra lavar roupa, o sabugo de milho era a escova.


Ela, que fora abandonada pelo amor de uma vida inteira com 4 filhos pra criar, passara fome, , distribuia os filhos em internatos ou com madrinhas, quando não lhes podia alimentar que a inflacão era tremenda e o salário não chegava ao fim do mês, nem mesmo só para um arroz com feijao; varrera ruas porque o salário era um tanto melhor que de doméstica, carteira assinada, férias, creche gratuita para a pequena...


Esforçando-se ao máximo, resignando- se com todas as adversidades e seguindo sempre adiante, nunca desistiu de acreditar numa vida melhor. Nunca deixou de acreditar e ensinar aos filhos que existe um criador, que por nós sempre olhava e que tudo sairia bem, tudom conforme a vontade Dele.


Funcionária exemplar da prefeitura, sem um único atestado ou falta ao longo de anos, forçou uma carreira: de gari foi transferida para os servicos gerais da educação, foi promovida a cozinheira e mais tarde a assistente na creche pertinho de casa. 25 anos de carteira lhe garatiram quiquenios e outros benefícios financeiros. Hoje, só trabalha meio período, serviço leve e condizente com a idade e condicões fisicas.


Ajuizada e simples, desde que a filha partira pra estudar inglês na tal terra do São Patricio, arrumara um namorado por lá e só fala em nao voltar, passou Dona Euripa a juntar todo dinheiro que lhe fosse possível, porque nao ia perder a oportunidade de ir ver com os próprios olhos onde e como é que é essa tal de Europa que tanto encanta a filha que não quer mais voltar pra casa.


Assim, com passagem paga de seu próprio bolso, chega ela na Irlanda. Os céus, como reconhecimento de sua fé, mandam a neve. Estávamos todos na sala a beber, quase meia noite de ano novo, tv ligada à espera do fogos, a neve comeca, mãe e filha botam uma jaqueta e saem destrambelhadas escadaria abaixo de pantufas nos pés, pra ir ver com olhos e maos a neve.


Como é bonito a neve e tudo branquinho. Como é bonita essa Europa. A mae entende porque a filha quer ficar."

Ana Flavia, Europrosa

26 agosto 2011

"Todos nós nascemos loucos, alguns permanecem"


Essa frase ma-ra-vi-lho-sa do dramaturgo Samuel Becket é das minhas preferidas!
Tenho-a escrito em vários lugares e ultimamente escrevi numa lousa negra que fiz na parede de meu escritório-ateliê.

Talvez eu goste tanto porque ela me pareça um excelente consolo:

Número 1: Não sou eu a única a ter nascido maluca.
Número 2: Mesmo tendo permanecido assim também não estou navegando por estes mares e tormentas sozinha.
Número 3: Permanecer louca é o que só alguns conseguem. :)

Esta semana me inscrevi em um dos salões de arte que acontecem pelo país. Apesar de estar me inscrevendo também nas universidades para voltar a lecionar, os programas de incentivo à cultura (dê uma olhada no "Mapa das Artes") fazem com que quase todos os estados e várias cidades organizem mostras de arte e reúnam as novidades desta esfera. E é uma forma excelente de entrar em contato com o que se anda fazendo por aí!

Chances? Não sei apostar quais tenho e se tenho. Só sei que não ganha na loteria quem nunca comprou um bilhete. Acho, porém, que só tenho a ganhar com isso. Inclusive porque fazendo todo o dossiê exigido para a inscrição, separando o que já fiz até hoje, imprimindo as obras etc foi um exercício excelente de aprendizado. Foi também uma forma de jogar um olhar mais otimista sobre o que eu mesma faço e assumir que eu já faço isso há 10 anos caramba! Então eu realmente devo gostar de pintar!

Falando com uma amiga com quem morei na época da graduação, ela me dizia como A-MA cantar. Eu sei disso. Todo mundo sabia. A gente vivia fazendo faxina na casa, às terças-feiras, e sempre virava em sarau, com os vizinhos chegando, com a gente cantarolando em volta dela e de sua voz adoravelmente doce. Como eu, a Dri Silveira, também havia escolhido outra carreira que também amava. No meu caso, filosofia, no dela, letras e literatura.

Ainda assim a gente precisa dessa energia da música, da pintura. É um jeito de se sentir vivas! Mais vivas... Creio...

Talvez continuar louca faz parte do jogo. O problema para Becket era quem se entregava ao status quo.

Ah! E hoje é o dia da semana que eu mais adoro! Então, tem novidade no "Toda Sexta-Feira"!

E... ótimo fim de semana pra todas e todos vocês!!!


25 agosto 2011

"Uma foto, mil lembranças": Um momento de alegria, texto de Mariahhh, de Portugal


Ainda quando estava na Suécia comecei a receber uns emails carinhosíssimos de uma leitora do Alentejo, região lindíssima de Portugal, e quem sempre me agradecia pelos posts, pelo que eu escrevia etc. Fomos percebendo que muitas afinidades eletivas no uniam e temos trocado correspondência desde então.

Foi ela quem, em certa ocasião, ganhou uma das telas daquele sorteio que fiz ano passado e me retribuiu dizendo que a tela ocupa um lugar especial e de destaque em sua casa.

Maariah deixa esvair em seu blog, "As minhas singularidades", um pouco da sensibilidade que lhe é característica de ver o mundo e as pessoas e sempre com um jeito, um "sotaque" português lindo.

Neste texto enviado para o concurso "Uma foto mil lembranças", a Maariah, quem mais européia não é de ficar jogando de si para qualquer um por aí, abriu-nos seu coração. Deixou fluir da foto escolhida uma imensidade de memórias, até mesmo perdas vividas entre ela, o irmão e a família.

Obrigada Maariah!

....


Um momento de alegria


"Querida Sómnia, assim que o desafio "Uma foto, mil lembranças" foi lançado, eu fiquei entusiasmada e logo decidi que iria participar. É um exercício bastante interessante, olhar uma fotografia e deixar fluir todas as memórias que a mesma nos traz.


Instintivamente pensei logo qual a fotografia escolhida, uma fotografia minha em criança, com 3 anos, numa viagem que fiz em família à Serra da Estrela (ponto mais alto de Portugal Continental - o mais alto mesmo é o Pico, que fica nos Açores). O texto viria depois. A foto não estava comigo, estava em casa dos meus pais, onde só fui este fim-de-semana. Neste tempo andei a pensar no que iria escrever, afinal que memórias é que aquela fotografia me traz? Mas eu não conseguia pensar em nada. Eu gosto da fotografia, mas a verdade é que a foto não me traz muitas memórias, que lembranças terei eu de quando tinha 3 anos? Nem sequer o meu irmão era nascido na altura.


Entretanto, comprometida comigo mesmo de que iria participar neste desafio, os dias iam passando e eu não conseguia fazer a ligação foto-memórias. Tinha de ser um clik, olhar a foto e instintivamente sentir-me invadir de lembranças. E foi ao pensar isto que me apercebi que há bem pouco tempo eu já tinha feito este exercício, sem nem me dar conta.


Os meus pais vivem numa terra bem pequena, mesmo pequena, no máximo 1000 habitantes, onde é óbvio que todos se conhecem, e todos têm um sentimento de pertença muito grande aquela terra. De tempos a tempos vou visitar um blog que é escrito por uma pessoa dessa terra, curiosamente meu primo, mas numa terra bem pequena, todos acabam por ter um grau de parentesco com alguém. Nesse blog, têm vindo a ser publicadas algumas fotografias de pessoas que estão agora nos 20 /30 /40 anos, mas de quando andavam na escola primária (6 -10 anos). E foi muito engraçado tentar reconhecer algumas caras. Eu não estou lá, mas o meu irmão sim. Está lá uma foto, não sei que idades teriam aqueles miúdos, arrisco uns 8 anos. Todos em grupo, junto com a professora na foto que fica para a posteridade.


Dei por mim a olhar para o meu irmão, sorriso maroto, olhos grandes e expressivos e cheios de vida e comecei a chorar. Onde está agora aquele menino? Para onde foi toda aquela vivacidade? Onde está aquela alegria? O que aconteceu para que a vida que tinha na altura à sua frente se tenha tornado tão complicada e não o deixe viver uma plena e feliz existência?


E foi ao recordar-me disto que reparei que só havia um caminho para a minha participação neste desafio tão aliciante: falar do meu irmão, do meu menino.


Decidida sobre o tema, faltava a foto. Tratei disso neste fim-de-semana, em visita aos meus pais. Álbuns para fora, tratei de re-visitar todas as fotos, uma a uma fui separando as que mais me tocavam, fosse por que motivos fossem. Encontrei a minha foto, que inicialmente pensei em utilizar neste desafio. Mas separei principalmente fotos do meu irmão, em bebé, em criança, adolescente. Em todas, os olhos, enormes, negros, saltam à vista. Mas o que salta também à vista é a sua expressão. Se numas fotos, como nessas da escola, o meu irmão está a rir, sorriso traquina e feliz, em muitas fotos tem uma expressão não direi vazia, mas triste. Seria já uma antevisão para o seu sofrimento futuro?


Hoje olho para mim, para a minha vida, para o que alcancei e tenho de dizer que, à data, o balanço que faço da minha vida, é positivo, tenho os meus momentos de felicidade que superam largamento os menos bons, e acima de tudo tento aproveitar cada momento.


Mas, ao mesmo tempo, tento fazer o mesmo exercício com o meu irmão e a vida dele tem sido tudo menos uma vida feliz. Acho que a partir dos 15/16 anos o meu irmão não teve mais momentos felizes. Ou os momentos felizes que teve eram falseados pelo estado em que se encontrava. Comportamento aditivo, depressivo, e acima de tudo triste. O meu irmão é uma pessoa tão triste.


E eu? Recordo-me de momentos felizes com o meu irmão? Só em criança. Não tenho memórias de ver o meu irmão genuinamente feliz. Todas as histórias contadas de momentos engraçados, são do meu irmão em criança.


Continuei a ver as fotos e deparo-me com a foto que segue aí em cima. A foto obecede a um critério para mim importante: o não reconhecimento das pessoas da foto, afinal elas não sabem da existência deste concurso. Mas identifica acima de tudo um dos últimos registos fotográficos felizes do meu irmão. O meu irmão está num momento de brincadeira com a nossa mãe, a "atacá-la" de cócegas. E a verdade é que me recordo bem do momento em que esta foto foi tirada, sendo eu a personagem por detrás da máquina fotográfica e acredito que a principal responsável pela péssima qualidade da mesma, as minhas desculpas por isso.


Olho para a foto e quase que consigo ouvir os gritos, as gargalhadas, as súplicas da minha minha mãe para que o meu irmão parasse de lhe fazer cócegas. Não está na foto, mas sei que o nosso cãozito está ao nosso lado, a ladrar, claro, meio na dúvida se aquilo era a brincar ou não, e se sim, porque raio não entrava também ela na brincadeira. A foto foi tirada no meu quarto.


Tive muito tempo a olhar a foto, daí a minha decisão de ser esta a foto escolhida. Além de me fazer pensar no passado, em me mostrar a dificuldade que tenho em lembrar-me do meu irmão feliz, também me faz olhar para o futuro e acreditar que é possível ainda virmos a ter momentos felizes.


O meu irmão fez este ano, 30 anos, os últimos 4 anos têm sido os mais complicados, os mais sombrios. Se calhar pela presença tão viva ainda dos últimos anos, é que se torna tão difícil para mim recordar momentos alegres. Mas continuo a acreditar que existe uma cura para a sua doença. Tenho de acreditar nisso."

Maariah.

24 agosto 2011

"Uma foto, mil lembranças": Sempre existirá Paris, por Adriana Cechetti

(Paris, foto de Adriana Cechetti)

É meio difícil para minha pessoa apresentar a participante de hoje, no nosso concurso "Uma foto, mil lembranças", sem começar a jogar para cima dela alguns confetes. Para começar, a autora deste texto reúne em si tantas qualidades que é preciso escolher algumas apenas para contar. Ela tem uma carreira de dar orgulho para qualquer mãe e pai. É jornalista, já trabalhou escrevendo para revistas, apresentando programas e produzindo outros de bom tamanho como "Super Nanny", Dez anos mais jovem, meu favorito "SOS Casamento" e agora "Esquadrão do amor", todos no SBT.  

Do lado pessoal é irmã do grande amor da minha vida, portanto, minha cunhada. Além dos laços "obrigatórios" do meu matrimônio que nos une somos, de fato, amigas. Temos trocado idéias, dramas e sonhos desde há muito tempo. Um dos sonhos foi ter ido juntas à cidade luz em 2009, experiência a qual retratei neste post e também neste aqui. Antes, porém, de eu desembarcar de Copenhaguem no aeroporto Charles de Gaulle, a Dri já me esperava lá. Havia ido sozinha dias antes e sobre sua primeira vez em Paris ela teria muito a me contar a noite e eu ouviria com prazer suas histórias, sentadas as duas à beira do Senna dividindo uma pizza e uma garrafa de vinho tinto...

As primeiras impressões estão neste texto enviado por ela para participar do concurso...

Delícia de texto!

...

Sempre existirá Paris

Não é a foto mais bonita e tampouco a minha predileta, mas só ela, apenas ela, consegue entender a emoção que eu sentia naquele instante em que apertei o botão da câmera. Se fosse um conto de fadas, os tons frios e acinzentados dariam lugar a um lindo e poético céu azulado. Mas o dia estava cinza e, nem mesmo isso, conseguiu tirar o brilho daquele encontro.


Era agosto de 2009. Eu realizava um dos grandes sonhos da minha vida: estar em Paris. E chegava com as minhas próprias pernas. Sozinha. Sem ter com quem dividir a felicidade e o medo de se perder pelo encanto de cada esquina. Era Paris. Eu estava em Paris! Havia chegado há pouco. Ainda atordoada com a viagem do trem que me trazia de Londres e pouco acostumada com a beleza daquela língua, até então, estranha pra mim. Saí do metrô com um mapa na mão e fui caminhando até o hotel em meio ao olhar curioso dos franceses, que me presenteavam com sedutores “Bonjourrrr!!!”. Deixei as malas no hotel e resolvi andar.


Atravessei cada “quartier” com a delicadeza e o entusiasmo de quem pisa nos próprios sonhos. Depois de caminhar por 3 quarteirões, me dei de presente uma bola do sorvete mais famoso da cidade e o predileto do Chico Buarque. A minha empolgação era tanta, que eu já tinha até me esquecido de que não estava na minha terra. E só descobri isso naquele instante, quando atravessei a ponte e vi, pela primeira vez, Ela! A Torre Eiffel! Ela estava ali, observando meus passos e eu ainda não tinha me dado conta de seu olhar. Ela me mirava como quem recebe um conhecido e eu a admirava como quem olha o que sempre amou. Naquele instante chorei. Chorei por ter conseguido chegar ali. E foi logo depois de fazer um pedido, que tirei esta foto, ainda não sabendo que faria muitas outras melhores e muito mais próximas da imponente Torre. Mas só essa imagem entende a grandeza desse momento.


Depois desse encontro tão aguardado, resolvi caminhar à beira do Senna, ainda com os olhos marejados. Mas a partir daí, a brasilidade das minhas Havaianas andavam com tanta certeza por aquele solo, que eu já me sentia dona da cidade e, principalmente, dona de mim. Nunca mais fui a mesma depois de Paris e me conforto na certeza de que se tudo der errado, sempre existirá Paris!


Adriana Cechetti

23 agosto 2011

"I know... I have to go away!": quando somos só jovens demais...


("Pai e Filho", Cat Stevens)

Um querido amigo disse que seu pai sempre colocava esta canção na vitrola aos domingos e que eles tinham juntos um domingo feliz. A gente cresce e certas coisas ganham sentido, ou mais sentido, à medida em que vamos vivendo nossa vida.

O meu, sempre acordava tocando Mário Zan (sobretudo essa música maravilhosa aqui) em sua sanfona e, naquela época, eu não sei se eu tinha noção de que aqueles eram domingos também felizes.

Eu me lembro de acordar e ouvir minha mãe e meu pai falar de minhas peripécias e a de meus irmãos durante a semana... Era um jeito bom de me sentir no centro do mundo... Eu gostava.

Havia, ainda, os conselhos ditos uma, duas, muitas vezes por meu pai e minha mãe. Eles tentavam me ensinar algo, mas eu não sabia ainda que algumas coisas seriam boas de serem ouvidas. Me lembro de chorar por razões diferentes e eles me alertarem que aquilo iria se repetir muito e eu deveria mais ou menos me preparar para a vida... algo, na adolescência, quase impossível de se ouvir.

É difícil entender que certas dores e ausências podem ser superadas, sobretudo quando passamos da adolescência e cremos serem certas "escolhas" as perfeitas para nós e nosso futuro. No fundo a gente não acredita. E a gente não quer. Como crianças às vezes ainda relutamos em nos conformar em ter ganhado outra coisa que não o pedido... mas quase sempre o que precisamos fazer é só dar tempo ao tempo e as feridas, quase todas elas, acabarão por serem cicatrizadas.

Às vezes o melhor a fazer é aquilo que os nosso pais bem já sabem e repetir para nós mesmos: "I know... I have to go away", porque só assim o próximo capítulo terá chance de ser escrito...



Father And Son
Cat Stevens

It's not time to make a change
Just relax, take it easy
You're still young, that's your fault
There's so much you have to know
Find a girl, settle down
If you want, you can marry
Look at me, I am old
But I'm happy

I was once like you are now
And I know that it's not easy
To be calm when you've found
Something going on
But take your time, think a lot
I think of everything you've got
For you will still be here tomorrow
But your dreams may not

How can I try to explain
When I do he turns away again
And it's always been the same
Same old story
From the moment I could talk
I was ordered to listen
Now there's a way and I know
That I have to go away
I know I have to go

It's not time to make a change
Just sit down and take it slowly
You're still young that's your fault
There's so much you have to go through
Find a girl, settle down
If you want, you can marry
Look at me, I am old
But I'm happy

All the times that I've cried
Keeping all the things I knew inside
And it's hard, but it's harder
To ignore it
If they were right I'd agree
But it's them they know, not me
Now there's a way and I know
That i have to go away
I know I have to go

...

Pai e Filho
Cat Stevens

Não é tempo de mudar,
apenas relaxe, vá com calma
Você ainda é jovem, esse é seu problema,
há muita coisa que você tem que saber.
Encontre uma garota, se afirme,
se você quiser, pode casar
Olhe pra mim, estou velho,
mas sou feliz.

Eu já fui como você é agora,
e eu sei que não é fácil
ficar calmo quando você
percebeu algo acontecendo.
Mas vá com calma, pense muito (por quê?),
pense que tudo o que você já conseguiu
para você vai estar aqui amanhã,
mas seus sonhos talvez não.

Como eu poderia tentar explicar,
quando o faço ele ignora
É sempre a mesma coisa,
a mesma velha história.
No momento em que eu pude falar,
fui obrigado a ouvir.
Agora há um caminho, e eu sei
que eu tenho que ir embora,
eu sei que tenho que ir.

Não é tempo de mudar,
apenas sente-se, vá devagar,
você continua jovem, esse é o seu problema,
há muita coisa ainda que você tem que enfrentar.
Encontre uma garota, se afirme,
se quiser, você pode casar,
olhe pra mim, eu estou velho,
mas sou feliz.

Todas as vezes que eu chorei
Mantendo todas as coisas que eu sabia dentro
E é difícil, mas é mais difícil
Ignorá-la
Se eles estivessem certos, eu concordaria
Mas são eles que sabem, não sou eu
Agora há uma maneira
e eu sei Que eu tenho que ir embora
Eu sei que tenho que ir

"Uma foto, mil lembranças": Onde mora a Felicidade? hoje, texto de Ed Cruz.

(Janela da ex-casa de Ed Cruz, no centro de S. Paulo, foto de Ricardo Perez)

Eu já havia apresentado a vocês este meu amigo querido. No meu "Prefácio Esperançosíssimo" eu desejava que Ed Cruz, cujo talento ainda ficava sob a sombra de alguns medos, pusesse para funcionar seu projeto de publicar o intenso livro que escreveu e me pediu para ler em primeira mão. 

Hoje, algumas coisas já mudaram. E Ed, como já fez nossa outra participante Glorinha, cujo livro continua conquistando corações e mentes por aí,  está literalmente indo atrás de seu sonho. Meu prefácio poderá se tornar verdadeiro! O que tenho a dizer? 

Só o sonho sem o talento ficaria difícil. Um sonho sem nenhum chão sólido vive mais no mundo da imaginação. Agora com o talento de vocês dois, queridos, nada pode  emperrar sonho algum!

Nossa primeira participante foi uma fotógrafa, Grace Olsson, a segunda, uma "dona de casa formada em Letras", Beth Lilás, a terceira, Gloria Leão, escritora,  e a quarta pessoa, Ed Cruz, trabalha com televisão e é também escritor. 

Agora estamos esperando pelos engenheiros, biológas, estudantes, jornalistas, pedagogos, psicólogas, donas de casa, professores, aposentados e você aí que está com aquela vontade de enviar o texto mas só estava esperando este post para criar coragem!

Obrigada Ed!!!

...


Felicidade.

"Um dia me perguntaram o que era felicidade.
Eu era jovem ainda. E jovem respondi: É sonho!
Eu achava, naquele tempo em que minhas mão viviam lambuzadas de vida, que a Felicidade era um lugar.
Pra onde eu ia.
Era o desconhecido, era o novo, o mundo depois da montanha russa.
Eu embarquei, comprei meu bilhete com todas a economias guardadas no cofre de lata, gasto e velho.
Era o sonho, essa tal felicidade.
Eu me perdi.
O carrinho descarrilhou, derrapou na curva, se soltou, eu cai.
Lentamente e sem fim.
Depois da subida fatal, aquela primeira em que o coração quase vem a boca e o céu é o limite.
Eu cai, com as mãos para cima, sorriso no rosto, olhos fechados.
Eu desci.
No poço de mim.
O tempo passou. O trilho enferrujou. O parque fechou.
O sonho acabou?
Enquanto eu estava lá embaixo no profundo de mim. Eu entendi. Anos depois.
A felicidade não é o objetivo. O ponto final.
Ela é o caminho, a estrada.
Não palpável. É gota leve na testa em um dia quente.
Ela é coca-cola gelada na garganta seca. O vinho no dia frio
O mar a noite. As mãos quentes da mãe. Os braços fortes do pai.
O beijo na testa e o sorriso suspenso. É um quadro, um texto. Um telefone que toca.
Três vasos na janela. Fim do dia.
Se me perguntarem agora ( me perguntem!) eu responderei sem hesitar:
Felicidade é a janela depois da porta.
É a janela, depois do sonho!
É uma escolha. Para te-la basta abrir e deixar que as flores cresçam nos trilhos da vida.
A felicidade meu amigo, está ali."

22 agosto 2011

Dicas de escrita e criação para que você participe do concurso "Uma foto, mil lembranças"


Gente bonita,

Tenho recebido mais alguns textos, igualmente deliciosos, lindos, cheios de inspiração, para participarem do concurso "Uma foto, mil lembranças".

Eu já vinha publicando aqui no blog os textos participantes e agora continuarei fazendo, tentando intercalar estes já recebidos com outros posts do blog.

Muitos de vocês me escreveram dizendo ter muitas fotos e não saber qual delas tomar para escrever, ou muitas idéias sem as fotos. Outros e outras, ainda, me disseram ter ambos, mas simplesmente não conseguir começar o processo de criação do texto, apesar de estarem loucos para participar.

Aqui vai algumas dicas simples, talvez até óbvias para uns, mas não para outros quem estão com alguns desses problemas.

Sobre a seleção de fotos e textos:

1o. Tente tomar as fotos que gostaria de trabalhar nas mãos. Olhe com calma, sem forçar qual foto deverá ser ou qual história precisa ser contada.
2o. Deixe que o texto flua naturalmente, salte de uma delas. Não force um texto para uma foto, porque será muito mais difícil criar.
3o. É mais fácil escrever um texto para uma foto. O propósito é que você tenha uma foto e ela lhe suscite tantas lembranças que elas apenas pularão da sua mente, de sua história e memória para a folha do papel.
4o. Não se fixe em escolher uma foto bonita, bem feita etc. A foto precisa apenas suscitar muitas, mil lembranças as quais você esteja interessado em partilhar.


Sobre como começar a escrever seu texto:

Tente não escrever pensando em ganhar o concurso, pensando em agradar a mim ou a qualquer outro leitor. Não pense em como os outros escrevem os textos deles, concentre-se apenas em sua foto e no seu texto. Se você está travado para escrever é possível fazer alguns exercícios de escrita e o que eu chamo de exercício de fluxo de consciência.

Os melhores textos são aqueles naturais. São aqueles nos quais sentimos a alma genuína da pessoa e podemos entrar na história porque seu autor, visivelmente, não teve medo de mergulhar no interior e sua consciência. Então este texto precisa vir realmente de dentro. Não o contrário.

Entre os muitos exercícios que eu dava para meus alunos para "despertar" este fluxo de consciência, um deles e bem facinho é este aqui.

Exercício 1:

- escolha um lugar e um momento quieto para não ser interrompido
- pegue uma caneta, uma folha de papel
- não use lápis, não use borracha, não corrija nada enquanto escreva
- leia apenas uma palavra que escreverei abaixo e deixe passar para o papel exatamente as primeiras coisas que lhe vierem à mente depois de ler cada uma.
- tente não escrever palavras soltas, mas a sequência de eventos, pessoas etc que lhe vêm à mente. Por exemplo, se a palavra fosse "molho de tomate" e isso lhe lembrasse aquele domingo em família, há muito tempo, quando você derrubou um monte de macarrão da sua avó em sua camiseta branca, você escreveria exatamente isso... da forma como todas estas memórias lhe vierem à tona.
- faça uma de cada vez e só passe para a seguinte depois de ter escrito umas 5 linhas, ao menos, sobre a primeira. Daí sucessivamente.

1a : AMORA

2a.: CAFÉ

3a: DIA DE CHUVA

4a.: CHULÉ

5a.: BEIJO

Depois deste exercício, você provavelmente estará com menos entraves para partir para a foto. Então passe a escolher uma foto e tentar fazer o mesmo com ela. É importante livrar-se de algumas "muletas":

- Não use lápis
- Não use borracha
- Não apague o conteúdo e não releia enquanto escreva
- Tente usar caneta
- Não pare para pensar. Não pare para escolher palavras. Não para para corrigir gramática.
- Apenas escreva.
- Depois de 1 dia ou algumas horas você pode corrigir seu texto e reescrevê-lo

E aí é só me enviar:
 somnia.carvalho@gmail.com ou
borboletapequeninanasuecia@gmail.com).

Divulguem o concurso em seus blogs, para seus colegas e amigas e amigos. O mais legal dessa história toda é conhecer histórias que valem a pena! Conhecer mais gente através da rede, deixar com que a vontade de escrever não seja um desejo trancado na gaveta. Ver que o mundo flui através e para além de nós, que nossas histórias se convertem, que o Universo nos une em tantas parecidas ou tão diferentes maneiras de viver a vida.

E, como disse a Mariahh, minha querida leitora e uma das participantes, este talvez não seja apenas um desafio literário, talvez seja um desafio para também, ou "acima de tudo, libertar sentimentos".

....


Concurso de textos: "Uma foto, mil lembranças"

quem pode participar? qualquer pessoa, dona ou não de blog
prazo final para entrega de textos: 10 de setembro
eleição de melhor textos: votação por internautas no blog
prêmio: pinturas para os 3 primeiros colocados. 


Maiores detalhes neste link aqui.

21 agosto 2011

"Uma foto, mil lembranças": Do que vivem as almas poetas? texto de Glorinha de Lion


A Glorinha (Café com Bolo & Poesia) é conhecida de muitas e muitos de vocês. É a nossa escritora profissional da blogosfera. É a pessoa quem me inspirou a pintar umas telas cheias de cores no ano passado, quando criou sua blogagem colorida - em meio a dias pessoalmente nada coloridos para ela - e quando eu estava cheia de fertilidade na Suécia.

Da dor, da lida do dia a dia, e até do desânimo ela faz poesia. Dizem que quem isso consegue tem mesmo alma de poeta! Dizem também que só assim sobrevivem os poetas!

Então, com orgulho, aqui vai de presente para o fim de semana de vocês outro excelente texto participante do nosso concurso (que está esperando você agora!) "Uma foto, mil lembranças".

.....

Esperança

"Muitas vezes caminhei no escuro das noites, achando que ela havia me abandonado...Olhava os caminhos, áridos, secos onde o vento levantava a poeira que me entrava pelos olhos, lacrimejantes de cansaço e solidão.


Muitas vezes caminhei de mãos vazias, achando que nada valia a pena, que a batalha seria inútil. Achava tudo feio, triste e sem graça. Nem mesmo as flores aqui e ali, ou as borboletas voando me davam alguma alegria.


A batalha tem sido dura. Nesse mundo não se mata um leão por dia, pois nem há mais leões, pobres coitados, todos mortos pela ganância e a estupidez humanas. A batalha mais feroz é da gente conosco mesmos. A guerra é guerreada todos os dias na luta pelos sonhos, pelas realizações pessoais, para manter nossa integridade, para que nossa essência não seja conspurcada pela sujidade do mundo.


No entanto, nos momentos mais tristes, quando estamos prestes a desistir de tudo, quando o poço onde nos encontramos parece tão profundo e sem ar, eis que ela vem. Sai de seu esconderijo, ali, à vista de todos e nos dá as mãos. Nos salva de nós mesmos, não nos deixa sucumbir.


Já a vislumbrei muitas vezes. Ela já me estendeu seus braços diáfanos, incontáveis, inumeráveis vezes. Porque então, acho que dessa vez ela não virá? Porque não confiar que ela não falhará?


Sim, ela caminhará ao meu lado, mesmo que eu não a veja. Ela me guiará mesmo que eu não sinta as suas mãos. Ela me fará continuar escrevendo e tentando e muitas vezes, ao cair, me levantará. Ainda que sua presença seja invisível, ainda que seus passos sejam silenciosos, ela sussurrará em meus ouvidos: Você pode. Você já conseguiu. Conseguirá novamente.


E eis que ao segurar a caneta para autografar meu livro, erguerei meus olhos e a verei sorrindo, me olhando, em meio ao buquê de flores que recebi de presente.


Ela, a ESPERANÇA."

Gloria Chimenti Leão

19 agosto 2011

Ao Compositor de Destinos


("Oração ao tempo", Caetano Veloso)

No meu quarto ano da graduação em Filosofia, eu precisei escolher um tema para escrever minha uma monografia e eu escolhi o Tempo.

A temporalidade dos fatos, o poder inexorável do tempo sobre qualquer evento ou pessoa foi meu assunto naquela época e continua sendo agora...

Continuo fascinada como nossa vida é sugada pela avalanche de um segundo após o outro. Continuo, ao mesmo tempo, incomodada com isso.

E como hoje é sexta-feira e o tema não me tem saído da cabeça eu preparei duas novidades lá no "Toda Sexta-Feira": um pouco mais da moda, das modelos, da beleza e da fugacidade de tudo isso...

Um beijo e Ótima Sexta--Feira para vocês!!!


Oração Ao Tempo

És um senhor tão bonito
Quanto a cara do meu filho
Tempo tempo tempo tempo
Vou te fazer um pedido
Tempo tempo tempo tempo...

Compositor de destinos
Tambor de todos os rítmos
Tempo tempo tempo tempo
Entro num acordo contigo
Tempo tempo tempo tempo...

Por seres tão inventivo
E pareceres contínuo
Tempo tempo tempo tempo
És um dos deuses mais lindos
Tempo tempo tempo tempo...

Que sejas ainda mais vivo
No som do meu estribilho
Tempo tempo tempo tempo
Ouve bem o que te digo
Tempo tempo tempo tempo...

Peço-te o prazer legítimo
E o movimento preciso
Tempo tempo tempo tempo
Quando o tempo for propício
Tempo tempo tempo tempo...

De modo que o meu espírito
Ganhe um brilho definido
Tempo tempo tempo tempo
E eu espalhe benefícios
Tempo tempo tempo tempo...

O que usaremos prá isso
Fica guardado em sigilo
Tempo tempo tempo tempo
Apenas contigo e comigo
Tempo tempo tempo tempo...

E quando eu tiver saído
Para fora do teu círculo
Tempo tempo tempo tempo
Não serei nem terás sido
Tempo tempo tempo tempo...

Ainda assim acredito
Ser possível reunirmo-nos
Tempo tempo tempo tempo
Num outro nível de vínculo
Tempo tempo tempo tempo...

Portanto peço-te aquilo
E te ofereço elogios
Tempo tempo tempo tempo
Nas rimas do meu estilo
Tempo tempo tempo tempo...

Caetano Veloso

Uma foto, mil lembranças: "Para sempre em meu coração", por Beth Q.



primeiro texto inscrito no concurso (Uma foto, mil lembranças) foi da Grace Olsson e se você ainda não leu, vai porque vale muito a pena!

Ontem eu recebi o segundo texto, enviado pela nossa Jovem Beth Q. (ou Beth Lilás, do Mãe Gaia), mas só agora pouco pude abri-lo. Com os olhos marejados ao final da leitura acabei decidindo publicá-lo também aqui e publicar todos os textos que serão enviados. De quem tem e de quem não tem blog.

Isso não impede que vocês publiquem seus textos em seus blogs. Além de ajudar a que mais pessoas leiam seu texto e depois possam votar, também pode incentivar outros a participar do concurso!

O texto a seguir é  de uma sensibilidade e simplicidade comovente, de dar aquele nó na garganta e pensar em coisas que já sabemos todos os dias, mas ainda não somos capazes de parar o trem para aproveitá-las...  Ele é ao meu ver a cara da Lilás!

Se deliciem! E se inspirem para mandar uma foto com um texto que pode ser exatamente da cor, no tom, da forma e estilo que você dejejar!


Para sempre em meu coração.

"Em meu arquivo de fotos possuo centenas, talvez já chegue ao milhar, nunca as contei, mas tenho muitas que fiz desde que essas pequenas maravilhas digitais foram inventadas. Algumas em lugares lindos e de sonhos, lugares que poderia falar muito já que têm histórias e tanta coisa para se descrever ou relembrar. Tenho também fotos minhas com meu filho e marido que sempre revisito para sentir de novo o prazer daqueles dias e momentos em que vivemos e fomos felizes juntos. Mas, escolhi esta foto acima com minha mãe como figura central, numa cena insólita e que ao mesmo tempo captou todo o espírito simples, infantil e nobre de sua personalidade.


Sim, ela é uma grande alma! Uma pessoa com brilho próprio e com um interior tão bonito e humilde que contagia a todos e conquista amigos.


Na manhã em que juntas passeávamos no parque aqui da cidade, vimos crianças pequenas em carrinhos com suas mães, pessoas idosas conversando sentadas nos vários bancos espalhados por ali e dezenas de barraquinhas com artesanatos feitos por pessoas criativas, muitas idosas e com aptidões e vontade de trabalhar e ganhar um dinheirinho. Neste clima alegre e colorido que nos envolvia e fazia do nosso passeio algo relaxante e feliz, foi que de repente, à nossa frente surgiu esta estátua humana, iluminada debaixo de um sol de primavera.


Eu sabia o que era aquilo, já tinha muitas por aqui e até no exterior, e que a pessoa por debaixo daquela fantasia, mexia-se a cada vez que alguém depositava uma moeda em sua caixa que ficava sob os seus pés. Mas, minha mãe, que pouco sai às ruas e desconhece tais ideias e formas de se ganhar um troco hoje em dia, ficou observando curiosa aquela estátua.


Como eu gosto de vê-la sorrir e sei que tem um espírito leve e infantil, propus-lhe que colocasse uma moedinha na caixa do artista. Ela se aproximou e colocou a moeda, mas ficou atônita quanto percebeu que a estátua mexeu um dos membros e mudou de posição.


Foi então que ela descobriu a brincadeira e ficou encantada, parada, observando, rindo e esperando outra pessoa ou criança deixar a moedinha para que o homem estátua se mexesse de novo.


Fez-me ficar ali por alguns minutos olhando o comportamento das pessoas e do artista, divirtia-se notoriamente com aquilo e eu com ela e sua ingenuidade.


Não satisfeita, pediu-me para fazer uma foto dela ao lado do ‘artista’ que tanto a encantara.
E aí está ela, olhando de frente para a camera, sem vaidade, descontraída e com olhar tranquilo de quem entende o inestimável valor do tempo e aproveita momentos como estes para apreciar com delícia a serenidade do instante.


Isto foi há dois anos e ela tinha mais vontade de passear, de ver o mundo e encantar-se com as coisas, mas refiz este passeio noutro dia, num domingo pela manhã, porém ela já não se interessou tanto pelas coisas que viu e nem queria comprar nada, apenas caminhar um pouco e dar-me o braço para apoio na total confiança de que eu estava ali ao seu lado naquele momento.


Em seu já longo percurso de vida plantou amor, três filhos e amizades verdadeiras que não a abandonam, sempre estão à sua procura ou visitando-a em casa, mas a vida aos poucos vem lhe roubando as memórias mais recentes, como um ladrão invisível que entra em sua mente e deixa-nos, a nós que a adoramos, impotentes e entristecidos.


Mas ela continua seu caminhar, com a suavidade no olhar e jeito sereno que herdou das Minas Gerais, pró ativa, solidária e cativante. E diante disso, penso que é difícil entender a lógica e ambiguidade da vida e dos acontecimentos, por isso quero apenas viver e deixar viver, estar perto dela o quanto puder e beber de sua companhia e de seu toque leve, quase imperceptível, quando se apoia em meu braço para algum passeio nos domingos pela manhã.


A cada dia que passa, mesmo com ela se distanciando no abismo que a memória abriu dentro de si, mesmo assim, aprendo muito com ela, reconheço que sua presença ainda é um bálsamo para nossos corações e o mais interessante é que quando paro para pensar na vida e no que sou e como estou hoje, percebo o quanto dela está em mim e como repito seus gestos ou atitudes. Isso de alguma forma me consola e me faz feliz em saber que ela vai se perpetuar dentro de mim para sempre, até o fim dos meus dias.


Vida longa, mãezinha!"


Beth Q.


16 agosto 2011

Café, muita arte e criação em sintonia com o meio. Você quer?

(Detalhe de mesa do Café Fazendo Arte)

Gente querida, moradora de São Paulo!

É com muito prazer e orgulho que eu convido a vocês a inauguração do Café Fazendo Arte, de minha amiga (e primeira professora de pintura) Eloisa Remédio nesta quarta-feira, dia 17 de Agosto, aberto em horário comercial.


(Capricho, detalhe de mesa do Café Fazendo Arte)

Há muito tempo a Elô tem este sonho de integrar seu ateliê e escola a um café onde as pessoas pudessem sentar, tomar um café ao mesmo tempo em que apreciassem livros e objetos de arte. Isso tudo simplesmente porque ela, como eu, adora respirar arte e sabe que muitas outras pessoas também o amam fazer.


(Bonecos da série "Circo" de paple machê ficam pendurados acima da cabeça de quem se delicia com o café, Café Fazendo Arte)


Imaginem um lugar no qual basicamente 98% dos móveis e objetos foram reaproveitados e reformados. Encontrados na rua, doados, a mobília toda do local recebeu o toque das mãos da Elô. O gosto por recuperar peças esquecidas e por quase nunca produzir lixo é uma atitude tão natural nesta artista quanto o é respirar e viver. Exemplo da criação totalmente em sintonia com o meio ambiente é uma mesinha muito detonada que eu peguei no lixo em 2003, com ajuda da Eloisa. Depois de pintada e viver 8 anos na minha cozinha ela foi totalmente recuperada pela minha amiga e passa a fazer parte das atividades do Café.

(Mesinha pega por mim e Elô em 2003 no lixo e reformada por ela para inauguração do café, Café Fazendo Arte)

Café Fazendo Arte será um espaço dedicado à venda de pinturas, de papel machê, cerâmicas e artesanato e cadeiras. A maior parte do acervo se constitui de peças da própria Elô que é artista plástica e arte educadora e atua no bairro em São Paulo há muitos anos. Outra menor, vem de diferentes artesãos e artistas, incluindo nesta festa cadeiras que eu tenho restaurado desde aquela brincadeira, cujo início se deu com o incentivo de minha amiga Xu, na Suécia. Vocês se lembram? Pois sim! Eu trouxe alguns tecidos da Suécia, já tenho aqui várias cadeiras e estou finalizando uma para a inauguração.

(Detalhe do lustre trazido por mim da Suécia e reformulado por Eloisa, e ao fundo tela dela)

Além disso, o local promoverá saraus (um dos quais eu já estou agitando com Adriana Silveira, amiga, poeta e cantora de mpb), bate-papo cabeça sobre arte, aulas de pintura para adultos e crianças e workshops, além de festas infantis de aniversário no ateliê que já vinham sendo feito com muito sucesso antes. Tudo isso regado a quitutes com um cafézinho bem gostoso, um chá, se você preferir, ou se o dia estiver pedindo, um vinho...

Em breve, um Encontro de Blogueiras, a ser organizado pelo Borboleta, também vai agitar o lugar. Aguarde e verá!

Espero vocês no Café!!! E a Eloísa também!!!



Rua Dr. Miranda de Azevedo, 691. 
(Esquina com Cel. Melo de Oliveira)
Vila Pompéia - São Paulo.

tel: 3868-1510

A primeira venda vai para...

("Ven Island", Somnia Carvalho)

A primeira compra do "Toda Sexta-Feira" acaba de ser feita pela Daniela, do História de Menina.

Conheci Dani através de um texto dela no primeiro concurso de blogueiras da Lola e, a partir daí, ficamos "amigas" à distância. Trocamos idéias, pontos de vista e gosto.

Será um prazer enorme para mim ter "Ven Island" na casa dessa professora universitária baiana que hoje vive na cidade de Brasília inclusive porque, apesar de eu ter vendido tantas telas até hoje, é legal demais saber que a idéia do blog pode dar certo.

Pintei esta tela logo após ter conhecido a famosa Ilha de Ven, na região da Skåne na Suécia, perto de Malmö.

A pequenina ilha de pouco mais de 7 kilômetros quadrados de extensão não tem muito mais do que 300 habitantes. Ven é de encher os olhos, sobretudo se vista na Primavera. Um dos programas preferidos de suecos e turistas é levar ou alugar bicicletas e conhecer toda a ilha pedalando. Plana e colorida a ilha também abriga o observatório do maior astrônomo dinamarquês, Tycho Brahe.

Há, em Ven, ao menos umas milhares de possibilidades de paisagens para se pintar uma tela. A minha, com a vista do farol, foi feita numa tentativa de ter guardar a memória da visita àquele lugar.

Espero que você goste Dani!

15 agosto 2011

Ter amante não é problema! O problema é não usar uma agência de traição "séria"!

("O retrato dos Arnolfini", um dos quadros mais famosos do mundo retrata um casal numa época em que viver infeliz no casamento era quase a única opção aceitável, Jan van Eyck, 1434) 

Eu provavelmente não consiga escrever algo muito inteligente e racional neste significativo momento da minha vida, porque eu estou realmente cho-ca-da com minha mais "recente" descoberta: os sites especializados e voltados à traição.

Tudo bem! Eu sou sempre a última a saber das coisas... mas...

Que milhares de pessoas vivem insatisfeitas em casamentos mentirosos, todos estamos carecas de saber. E, ao contrário do que pode parecer a alguém louco para pregar o fim dos tempos e a cura nesta ou naquela religião, a traição é marca registrada da humanidade desde seus primórdios.

Ter um amante, uma amante é a saída encontrada para muita gente em busca de tudo quanto é tipo de fantasia, encontro, relação, atenção etc. E isto também não é novidade. A novidade e o que me deixou sem chão com ela foi saber de como agências de traição tem surgido, crescido e tido muito sucesso no Brasil. Perplexa ao ler, por exemplo, a carta da vice-presidente do site quem muito profissional diz:



Criamos Ohhtel.com para homens e mulheres como você, que vive a rotina de um casamento sem intimidade física, mas sem querer um divórcio.

No Ohhtel.com, acreditamos que a falta de satisfação sexual não é razão suficiente para acabar com seu casamento. O casamento é mais do que apenas sexo: é sobre a família, finanças e, em muitos casos, é sobre amor.

Entendemos que você quer ficar com o seu par para o resto de sua vida, mas ao mesmo tempo você não pode viver uma vida sem satisfação sexual. Não é justo, não é natural, não é algo que fazia parte dos seus planos.

Começamos Ohhtel.com como uma alternativa ao divórcio e uma alternativa para uma vida sem sexo.

Ohhtel.com é uma rede social exclusiva 100% segura e anônima para homens e mulheres como você – em um relacionamento e que quer permanecer assim –, mas com a necessidade de encontrar intimidade sexual fora da relação.

No Ohhtel.com você pode ser honesto(a) sobre o que você está procurando, porque todo mundo está na mesma situação.

Mais de 1 milhão de pessoas juntaram-se Ohhtel.com procurando uma aventura com toda discrição. Agora você também pode. Cadastre-se hoje para ver homens e mulheres em sua região absolutamente grátis!

Sinta-se à vontade para me contatar a qualquer momento".


E aí eu me pergunto: "E agora José?" Eu preciso matutar mais para falar racionalmente mas eu não entendo gente que acha que casamento sem sexo (por opção) seja ainda um casamento. Eu não entendo de jeito nenhum como ter uma parceira (de cara dá para ver que os homens traem mais que as mulheres, porque a opção "procurar por uma mulher já vem preenchida") ou parceiro fora do casamento, oficializar isso DISCRETAMENTE, tira da pessoa a culpa pela sua hipocrisia com o outro. Sua fraqueza.

Falar sobre sexo, casamento etc é com certeza polêmico! Cada um de nós tem sua maneira louca de viver a vida a dois, mas eu não entendo quem opta por viver na mentira. Por viver uma vida, que na melhor das alternativas será sempre muito curta, em total mentira. Para o outro e para si mesmo.

Se o tesão acaba e "você não estava esperando por isso" tchau e benção! Se o respeito acaba, tchau e benção! Se a vontade de ter relações mais interessantes é maior do que continuar na monogamia, tchau e benção! Quando nos dias atuais nós precisamos ficar grudados no outro porque precisamos manter "os sagrados lanços do matrimônio?" Porque precisamos manter a união da família! Que família? Que criança cresce saudável numa relação de mentira e desrespeito com o sentimento do outro? Que loucura é essa?

Eu quero um casamento que dure enquanto houver amor, tesão e respeito. Tudo isso junto ao mesmo tempo agora! É pedir demais? Parece que sim!

Não é só a promiscuidade disso que me assusta é sobretudo o viver sob a penumbra, o dar-se o "direito" de não ser sincero com o outro simplesmente porque tem-se todo uma equipe maravilhosa cuidando para que eu não seja descoberto e porque "todo mundo mundo está na mesma situação". Que mentira para conseguir muito dinheiro de quem faz qualquer coisa para não enfrentar seus grandes fantasmas!

Talvez você me diga: "Ah! Sônia, tem casamento por aí na lama mesmo e tem homem e mulher que não  transam com o parceiro e parceira e sabem que daria nisso!". Bom, então tudo bem! Eles já sabem que a coisa vai mal. Ou se separam ou então assumem uma relação aberta. É isso?

Não é o que a agência acima oferece. Ela oferece serviço de amantes para gente que vai, com certeza absoluta, mentir para seu companheiro e companheira. Vai continuar fazendo caras e bocas e bancar de muito ético e muito ética nas reuniões em família, nos almoços importantes de trabalho, na missa e no culto do domingo e no lado direito ou esquerdo da cama onde dorme outra pessoa quem deposita nele confiança. Ceis entendem? Vai continuar mentindo para o outro dizendo "tô cansado e cansada, com dor de cabeça!... Amanhã quem sabe..." E vai fazer da vida do outro e outra um inferno. Com ou sem descoberta da traição!

Quanta gente legal você não conhece que vive encanado com seu corpo ou seu jeito, achando que tudo é culpa dele ou dela simplesmente pela falta de interesse sexual do outro? Eu fico só pensando que não é justo. Não é certo. Casamento prevê não só fidelidade, mas amizade. Amor é querer bem demais o outro para deixá-lo ou deixá-la na penumbra. Não existe casamento sem amor, então não existe casamento na traição.

A mentira, ao meu ver, mais do que a traição, é a maior fraqueza humana.

Eu preciso pensar mais sobre isso e pensar com vocês juntos. Me ajudem... Eu talvez esteja falando muita besteira. Sendo simplista demais! Será? Talvez esteja sendo preconceituosa e meu romantismo esteja me cegando. Será?

Devo parar por aqui antes que alguém me confunda seriamente com carola ou qualquer coisa do gênero, algo que eu estou realmente muuuito distante de ser! porque por enquanto meu sentimento é só de falta de fé na humanidade.

12 agosto 2011

Procrastinar jamais! Por que hoje é Sexta-feira!!!

(Fugacidade n. 1, Somnia Carvalho, com uma sugestão de moldura)

Gente boa!

Eu já falei várias vezes de como sou uma pessoa um tantinho confusa com projetos objetivos e como me enrolo e passo de uma tarefa à outra porque eu tenho uma tendência bem forte a conjugar o verbo procrastinar.

Eu realmente admiro quem se propõe a fazer uma coisa e faz exatamente aquela coisa a qual se propôs como, por exemplo, meu querido companheiro. Eu posso começar uma tarefa como preencher um currículo e, depois de 15 minutos, me pegar instalando um lustre no lavabo.

Entretanto, desde que criei o "Toda Sexta-Feira" eu posso dizer que sou uma outra mulher! :)

Tenho me sentado todos os dias um pouco e trabalhado em vários projetos disso e daquilo, em encomendas, pinturas, reformas, colocação de minhas coisas em loja, idéia de sarau com uma amiga, tentado retomar minhas aulas etc. O fato de tentar pintar o que tenho em mente para publicar no blog para vocês faz com que eu me movimente e as coisas de fato andem.

Obviamente eu faço isso entre 11 a 12 fraldas trocadas por dia, almoço, janta, casa, brincadeiras, banhos, colocação de criançada pra dormir... mas o bom é que eu fiz algumas coisas e tenho feito! Parei de conjugar o dia no gerundio!

Dizem os "especialistas" que procrastinar é algo natural do ser humano, afetando, sobretudo, pessoas em fase escolar. Adiar entrega de trabalhos até o último dia e estudar para a prova na noite anterior é um atitude muito comum entre a maior parte dos estudantes. Como resolver o problema se ele persiste quando a gente passou dessa fase e precisa, de fato, ter os resultados antes que o prazo vença?

A saída, dizem eles, é programar-se e estabelecer metas e prazos. Assim tem funcionado para mim o novo blog, porque como eu já havia percebido que escrever e fazer blog vicia, eu juntei o útil ao agradável.

Não saiu venda oficial ainda. Ainda continuo oficialmente desempregada (afinal as faculdades agora só irão contratar ano que vem), mas já está me fazendo um bem danado! Além do que alguma coisa só tem chance de acontecer se ao menos os primeiros passos forem dados! E eu... eu os dei! Uhuuuu!!!

(Fugacidade n. 1 e n. 4, Somnia Carvalho, sugestão de moldura)

Como algumas pessoas estavam em dúvida sobre o tamanho das novas pinturas (Fugacidade) que venho fazendo, já que normalmente eu faço coisas muita grandes, e também como usar uma pintura vendida em papel aquarela, eu resolvi colocar aí umas fotos (bem ruins de qualidade na verdade) de como se pode enquadrar o trabalho. Eles são pequeninos. Haverá maiores, em tela, mas ainda estou trabalhando a forma de fazê-lo em tela. Não é fácil, na verdade.

Essa moldura é removível. Então, quando for vendido, eu posso enviar sem ela, okey?

Para sair um resultado assim normalmente preciso testar muito, errar, fazer de novo, tentar de outra e outra forma, com muitos materiais até chegar no que desejo interiormente. Dá trabalho e é este trabalho de criação, ao mesmo tempo intelectual, de onde vem o tesão da coisa!

Tô adorando! E só posso dizer uma coisa: continuem apoiando a maluquinha aqui com as visitas no Sexta-Feira, porque se continuar assim eu não procrastinarei...

Jamais!

Ah! E vocês já pararam para ouvir a canção "oficial" do  "Toda Sexta-Feira"? A música é da Adriana Calcanhoto, mas está lá na voz da Belô Velloso, baiana, o que dá um toque especial à letra! É quase contraditório que uma música tããão preguiçosa me dê tanto ânimo, mas é assim que funciona! Eu já disse que tenho botões a menos!

Vale a pena ouvir!

Ótima Sexta-Feira!!!

"...toda sexta-feira tooooodo o mundo é baianuuuu junnnntuuuu..."


"Uma foto, mil lembranças", Há mais amor entre o céu e a terra do que julga nossa vã filosofia, primeiro texto para concurso é de Grace Olsson

(foto de Grace Olsson para o concurso "Uma foto, mil lembranças")

Eu não sei ainda  como vai funcionar a publicação dos textos de quem participar do concurso e tem blog, mas como este da Grace (fotógrafa profissional que vive na Suécia) é o primeiro e porque ele é de uma profundidade de fazer balançar qualquer existência, eu quis colocá-lo para motivar vocês a tirarem suas histórias e fotos da gaveta...

Obrigada Grace!


____________


Não é o sofrimento das crianças que se torna revoltante em si mesmo,
 mas sim que nada justifica tal sofrimento

(Albert Camus)

"O nosso primeiro encontro se deu em 2006. Entre centenas de crianças…você me chamou a atençao. O sorriso desdentado, as mãos em feridas, os cabelos desgrenhados. Nenhum deles correu para mim… Mas você correu. E me agarrou como se eu fosse a sua tábua de salvaçao. E, naquele exato momento, eu pensei que seria, sim.

Desde aquele dia, nao tive outra intençao a nao ser retirá-lo da guerra, das doenças. A ganância do homem fez de você uma vítima. Os dias que passamos juntos foram inesquecíveis. Momentos de rara beleza. Tê-lo ouvido falar meu nome, tocado meu rosto, lambido meu nariz fez de mim uma pessoa melhor. Seu jeito doce e sua história sofrida me tocaram profundamente.

Mas o que nos uniu näo foi o desejo imenso de te dar uma vida melhor. Foi o amor…o sentimento que nos leva a nao querer que a pessoa amada jamais sofra.Eu creio que tê-lo encontrado me deu forças para viver uma vida que na época, era muito desinteressante. E perdê-lo me levou a um caos desconhecido. Por meses sem fim, eu vivi no limbo. E um ano depois, eu decidi retornar ao Continente Africano. Eu precisava recolher os destroços de mim mesma.E descobrí que um pedaço de mim tinha-se partido. Ter revisitado o lugar em que você viveu a curta estada de vida na terra me fez crer que nada é por acaso.
Seu pais continua em guerra e, diariamente, dezenas de criancas iguais a você, perdem a vida. E nao creio que se você tivesse voltado para Goma, em vez de Kinshasa, teria sobrevivido. A guerra é insana. Triste e angustiante. E eu nada pude fazer por você. Ou eu poderia ter brigado. Mas, nao fiz. E, até hoje, me arrependo de nao tê-lo raptado.

Eu quero que você saiba que, se nao fui te buscar é por que eu fui impedida de viajar por meses sem fim. Os planos que eu tinha de vê-lo e tentar junto à ONU para impedir o seu retorno ao país natal foram anulados. Sabe?Nunca devemos acreditar em promessas. Estava tudo certo de que você nao seria mandado de volta para casa.Mas algo estava errado na última vez em que nos encontramos e eu tive que pagar uma quantia alta para ter acesso a você. Sempre fui contra pagar propina. Mas para ter você de volta, eu pagaria o que fosse necessário. Por você…eu passei por cima de meus valores. Levei meses tentando conversar aquele que seria seu pai a te aceitar como filho. No início, ele alegava que estava velho demais para conviver com criancas pequenas e sugeriu que protegêssemos uma somaliana, Fatuma. Mas eu nao queria. E quando uma vez doente, ele me viu depressiva e percebeu que você era uma das razöes…nao pensou duas vezes…E deu o aval.
Pena que foi tarde demais. Um mês depois, um aviao cargueiro levou meus sonhos. E junto a oportunidade que eu teria de finalizar o processo e dar a você uma vida diferente de tudo o quanto você tinha vivido.

Com você, eu aprendi a ser crianca. Hoje, eu vivo a contradicao de conviver em um corpo de adulto com uma alma totalmente infantil. Brigo para mudar isso. Você me ensinou a abolir todo materialismo gritante. Hoje, eu sobrevivo com pouco. E se busco MAIs é por que sei que posso fazer muita gente feliz. O mundo anda caótico. As pessoas continuam egoístas. E a natureza cada dia mais devastada. Nunca vi, R., tanta criança perder a vida de forma cruel e covarde como agora. Nunca vi tanta criança vivendo pelas ruas, mendigando e clamando por um lar. Elas nao precisam de muita coisa, nao. Precisam de um pai e uma mäe que facam tudo pela felicidade delas.Por que ter um filho é mais do que expulsá-lo das entranhas. Filho é cuidar sem espera de retorno algum. É a doaçao mais sublime da face da terra.Tem gente que acha nao ser capaz de se doar a uma criança. O que falta nessas pessoas é perder o medo da entrega e, em muitas a capacidade de deixar o egoísmo de lado, abrir o coração, e se entregar. Sem medo de perder a individualidade.

Ontem à noite, enquanto eu fazia a mala para ir a Macedônia e conviver com criancas, cujos pais foram largados à própria sorte, depois da Guerra nos Balkans, eu me perguntei para onde a vida vai me levar. O que a vida quer de mim… E, desviando meus pensamentos em direcao ao céu, eu vi que estrelas esparsas estavam sobre mim. De repente, do nada, uma estrela piscava sem parar. Por alguns segundos, eu tive a sensação de que ela estava olhando para mim. Tenho certeza que era você. VALEU!TER ENCONTRADO VOCÊ FEZ DE MIM UMA PESSOA MELHOR. E, hoje, sinto está preparada para largar tudo que construí para trás. Tudo em nome da missao que creio ser a minha, desde o dia em que te encontrei…Mas, por favor, de onde vocë estiver, me ajude a suportar tanta frieza vinda de pessoas que deveriam ser mais solidárias. Eu preciso ser mais infantil. E fingir que nao percebo nada…para o bem daqueles que precisam de mim…”

Muita gente me fala que A GENTE SÓ DEVE SE DOAR A QUEM NOS PEDE AJUDA. E EU DISCORDO. ACHO QUE O VERBO DOAR É ALGO VISCERAL, VAI ALÉM DE NÓS. QUEM QUER AJUDAR OUTRO, NAO PRECISA RECEBER SINAL ALGUM. EXCETO, SINAIS DIVINOS."

....

O texto da Grace Olsson, publicado ontem em seu blog e está participando do concurso "Uma foto, mil lembranças".