31 julho 2011

Dica ótima de graça! Você não pode perder esta oportunidade!

(Se Michelângelo fosse vivo como gostariam de pagá-lo? Ilustração de Luís Di Vasca, autor do blog sobre a piada que é ser artista no Brasil)


Talentoso, inteligente, irreverente e atrevido!
Estas são apenas algumas das qualidades de Luís Di Vasca que aparecem ao longo da troca de diálogos feitas entre ele e seus quase sempre prováveis clientes.

Cheguei até lá por dica da Lolíssima e não me contive!

Um blog com material para uma excelente comédia de como se vê o trabalho do ilustrador e do artista de modo geral!

Sucesso Luís!!! E dinheiro como pagamento!!!

Na Suécia também não tem... problema de pisar na grama

 (Piquenique com dezenas de amigos em meio ao gramado do FölketsPark, Midsommer, Malmö, 2010)

Eu já era razoavelmente velhinha quando fiz minha primeira viagem à Europa e ela foi não só inesquecível como também transformadora.

Eram muitas coisas diferentes, nunca vistas, nunca vividas, conhecidas só em filmes e livros sobre as quais eu poderia escrever muitos textos a respeito. Entre tanta coisa me lembro muito bem da felicidade de ter visto aquele povo todo espalhado pelos gramados das cidades lisboetas, francesas, espanholas e belgas. 

As pessoas não estavam fazendo nada de muito especial. Uns liam, outros conversavam, dormiam, descansavam, namoravam, ficavam literalmente de papo pro ar apenas ali deitados nos gramados verdinhos e cheios de florezinhas brancas e amarelinhas que nasciam na relva úmida. 

E também me lembro de ter desejado poder voltar muitas outras vezes e sonhado em poder viver num daqueles lugares, onde a vida parecia tão bucólica, algum dia.

(Esquilo se alimenta em meio ao parque de Londres e a gente faz a festa no gramado, Inglaterra, 2009)

Na Suécia, a regra de esparramar-se pelas praças, pela grama com a família, amigos ou sozinho não era diferente. Bastava o sol começar a dar as caras e o verde começar a brotar pelo mês de abril que o povo todo começava a se jogar pelos tapetes verdes naturais esparramados pela cidade.

Aprendi muito bem a fazer o mesmo. Piqueniques, dormidas, descansadas não faltaram nos 4 anos de vivência por lá e foi disso que me lembrei domingo passado quando fui conhecer o Parque da Independência, em frente ao Museu antes conhecido como Museu do Ipiranga, aqui em São Paulo. 

Seguindo nosso costume estranho de proibir que se pise, sente, passe na grama o parque estava cheio de placas de "proibido pisar na grama", mesmo estando ela feia, seca e longe de ser bem cuidada. Além das placas alguns guardas de bicicleta cujo trabalho era exatamente de assobiar muito alto e chamar a atenção de quem não respeitasse as placas. 

Certa altura, porque eu precisava muito vestir uma blusa em Marina e tudo estava longe do alcance, tentei sentar um pouco no chão com a menina nos braços e um dos guardas veio assobiando, me intimidando como se eu fosse uma delinquente. Colocou-se em frente a mim me encarando para que eu dali saísse. Encarei-o mais e terminei de fazer o que precisava. E então me fui. 

Achei tudo bem triste para ser muito sincera. 

Há coisas que aprendemos a fazer, a repetir, a cobrar, a perseguir para que todos façam o mesmo como se fossem a única escolha a ser tomada como aceitável e verdadeira. E fazemos cegamente ou porque só conhecemos tal opção e caminho ou porque nos disseram que aquela deve ser a única opção e caminho a ser seguido. 

Cuidar dos jardins de um parque público é dever de qualquer prefeitura e orgão público. Nós pagamos impostos bem altos para tanto. Impedir que o mesmo povo dito para quem se destina tais coisas seja proibido de usufruir com liberdade responsável tal coisa é um sinal fortíssimo de desinformação, de privação de direito

A grama nos cantos por onde passei na Europa eram as mais lindas vistas por mim até minhas duas décadas de vida embora tanta gente, tantos milhares de turistas nelas se deitassem. 

(Primavera na Bélgica significa... se jogar pela grama verde e deixar o dia passar em paz.. Renato e eu, Bélgica, 2006)

No Brasil a grama é tratada com uma dose exagerada de respeito. É um respeito de quem não sabe se envolver na natureza e acha que jardins são para serem vistos do outro lado da cerca e apenas aparecer em fotos. Tratar a grama como sagrada não é proibir qualquer um de nela poder ficar. Tratar a natureza como sagrada é deixar que as pessoas se sintam parte dela. Só assim é que o respeito pode ser sincero, vir de dentro e ser desejado verdadeiramente de dentro. 

Só assim uma cena vista por mim na quinta-feira, enquanto meu ônibus passava numa enorme e movimentada avenida ao lado do Hospital das Clínicas de São Paulo, pode-se espalhar sem medo: uma mulher sentada em flor de lótus, meditava sozinha e tranquila, em meio ao enorme gramado. Longe dela, muitas outras se amontoavam em bancos de cimento quente tentando descansar e não eram capazes de perceber que logo ali a vida podia ser sentida de forma tão, tão diferente.

"É proibido proibir pisar na grama" deveriam ser as únicas placas aceitas em parques públicos!

29 julho 2011

"Vem embora comigo!" nesta e em muitas outras sextas!


Gente querida, gente amiga, gente incentivadora, gente que gosta de arte, gente que faz arte,

Convido vocês para inaugurar comigo hoje, sexta-feira, dia 29 de Julho, meu novo espaço chamado "Toda Sexta-Feira" com o qual venho dispendendo certas horas de trabalho para conseguir finalmente dar início ainda este mês.

Será um espaço diferente daqui e também diferente do site que já havia apresentado a vocês. Este novo blog será destinado à apresentação e venda, toda nova sexta-feira, das minhas pinturas e objetos de arte de forma sistematizada e mais facilitada.

Aguardo vocês lá! Será um prazer tê-los também lá comigo!

O endereço do blog é:

http://todasexta-feira.blogspot.com/

E ele está vinculado a uma loja virtual minha no seguinte endereço:

http://www.elo7.com.br/todasextafeira/

Sejam muito bem vindas e muito bem vindos para apreciação e também sugestões!

Beijocas!

Somnia.

27 julho 2011

Síndrome de Homer, episódio no. 3: tv, panela e sala de espera



Dia de retorno ao médico. 
Sem paciência para o elevador tomo as escadas. Chego na sala, senha na mão, escolho um lugar quieto. Quase toda a gente está de pescoço esticado, olhos fixos na tela da fina TV presa ao teto. 
Num outro canto um painel com luzes e números: 118.

Caramba! Checo meu número novamente: 126. Então deixa eu ver o que esse povo anda olhando tanto ali... Afinal eu nunca tenho tempo para assistir à televisão. Bom momento de aproveitar... Hum... Cerro os olhos tentando ler as legendas porque o som está desativado. Percebo que trata-se do programa de uma conhecida apresentadora brasileira, Ana Maria Braga, alguém de quem eu já ouvi falar e vi bastante fotos em revistas de fofoca.

Uma moça, vestida de branco, chora muito... E então a câmera volta para a apresentadora que fala uma porção de coisas entre elas algo o qual consigo ler: "panela".

Hummmm... panán! Outra senha! Caramba! 121! Até que está indo rapidinho...

Olho pra lá, olho pra cá e lá está a mocinha chorando novamente. Junto dela, outra, quem num claro gesto de consolo põe as mãos sobre o ombro da primeira. Entretanto, ela também tem um "rio de lágrimas sob seus olhos".

Muito estranho... penso. Por que estas aí estão "llorando" tanto? Do pouco que sei aquele não era um programa sobre muitas tragédias... Lembro-me perfeitamente de ter visto um trecho um dia enquanto ficava na esteira do prédio. Não é neste programa que o convidado cozinha e passa debaixo da mesa?

É eu tô sabendo!

Tento então entender mais algumas coisas e não porque eu precise de óculos, mas porque as letrinhas eram realmente muito ruins de serem lidas e a distância bem grande. Até que consigo enxergar mais alguma coisa...

"... .tá tá tá... muita pressão.... tá tá tá... "panela"...."

124!

Ai caramba! Que rápido!

Hummmm... deixa eu entender antes que me chamem... Elas estão vestidas de branco, com aventais grandes. Parecem cozinheiras ou chefs... Caramba! Será que uma dessas coitadas teve explodida uma panela de pressão no restaurante? Naquela correria?

É... pode ser! Eu já vi rapidamente também naqueles programas do Norton, aquele loirão inglês quem detona todo mundo. O inferno pode acontecer na cozinha de um restaurante...

Provavelmente a mais nova teve uma terrível experiência de ter uma panela de pressão explodindo em sua cozinha... Só não encaixava muito aquele outro monte de moços e moças também vestidos com aventais brancos. A falação era muita, mas as letrinhas tão pequenas...

De volta à apresentadora, o "tom" de Ana Maria Braga parece realmente sério. Ela fala, fala e embora quase como uma velha cegueta consigo concentrar meus últimos esforços... Os olhos vão da senha até as legendas e pegam mais coisas soltas... A Fulana, a Ciclana... tá tá tá... Hum... fulana, ciclana...

A câmera volta para as moças que, agora, choram juntas. E choram muito.

125!

Caçarola! Lembrando de uma conversa tida com a sogra dias atrás e do pânico que os suecos, por exemplo, tem ou teriam à nossa quase primitiva panela de pressão concentro minhas forças e atenção restante nas frases escritas na tela... Desejo realmente entender como foi que a panela da moça explodiu e  quais as precauções devem ser tomadas para que algo ruim assim não aconteça na minha cozinha, onde sempre tenho a companhia de pelo menos uma menininha e um menininho...

Hummm... cerrando os olhos então consigo ler melhor e entender... Panela, a Panela... Na Panela... Deixar a Panela...

Não....

Eu estava de novo dando o maior fora danado. Todo o xororô era por conta de mais um reality show e de um grande dilema das duas mocinhas: quem sai, quem fica num programa chamado... cha...mado... Adivinhem? Panela de Pressão!

126!

E eu quem um dia duvidou de como televisão em consultório pode mesmo servir para entreter a gente!

21 julho 2011

Na Suécia também não tem... que dar sinal para o circular parar

(Ônibus do sistema Skåne Trafiken que opera na região onde fica Malmö, Suécia)

Aproveitando o ensejo do tema anterior...

Pois é.
Nada de esticar o braço, apontar o dedinho para pedir ao motorista do ônibus que pare no ponto para você. No país da gente discreta e organizada você deve proceder assim ao ver que o ônibus se aproxima:

Dê um passo para a frente. Mantenha-se próximo da placa sinalizadora do ponto. Olhe para o motorista, pois isso já dará idéia de que você tem a intenção de embarcar.

Ainda assim, atenção! Se você ficar no ponto, mas estiver claramente fazendo outra coisa, sem essa postura de "esperando pela parada" e ninguém mais for tomar aquele ônibus pode ser entendido que aquela não é sua condução. Neste caso sim, o motorista irá adiante e não adianta gritar, se descabelar, tentar se jogar na frente do veículo porque eles não páram meeesmo!

Simples assim. E não se preocupe porque se você fizer tudo como manda o figuro sueco da discrição e boa educação eles não vão passar direto e você precisar rodar a baiana. Eles vão sim parar e dar um sorrisinho, mesmo que o condutor não seja sueco ou sueca de nascença.

19 julho 2011

Na Suécia também não tem... cobradora e cobrador de ônibus

(Interior de ônibus do sistema de transporte público de Malmö, sem roleta, sem cobrador)

Terça de mannhã e não posso perder o hábito de? Tá tá tá! Pensar em Brasil e Suécia!

Semana passada, e ontem novamente, tomando ônibus aqui na capital para ir aqui e ali resolver coisas adivinha qual foi o post que pensei não poder deixar passar?

Yes! Na Suécia, assim como em vários outros países na Europa, não tem uma pessoa especial para cobrar as passagens de ônibus no transporte público.

Eu sempre notei isso. Notei logo nos passeios de tempos por algumas capitais européias, mas na Suécia chamava mais ainda a atenção por conta do sistema hiper-mega-blaster organizado.

O sistema em muitos países por onde passei era assim: a gente compra o ticket antes em alguma máquina ou balcão pelas estações rodoviárias e aí deve ter sempre junto da gente porque, tome cuidado! um cobrador pode aparecer repentinamente e checar se você não tentou engabelar o sistema. Então, embora não haja roleta e uma pessoa fixa no trabalho de receber dinheiro nos ônibus, há, contudo, alguém que faz o papel de conferir se a população está agindo eticamente com respeito aos seus deveres.

Isso até é verdade para o sistema de trens suecos e escandinavos, mas não para os ônibus circulares.

Se você for passear pela Suécia (e espero que você realmente vá um dia se ainda não foi!) você deve ter um cartão especial, também comprado em postos especiais espalhados pelas praças e postos rodoviários. Além disso, você sempre deve entrar pela porta da frente do ônibus e encostar, você mesmo, o cartão numa máquina ao lado da motorista ou do motorista.

Ano passado tentou-se até mesmo eliminar o recebimento de passagens com dinheiro, por conta de alguns assaltos feitos aos ônibus em Malmö, mas precisaram rever a idéia e voltou-se a receber em dinheiro, mas isso apenas em determinados horários do dia. A noite, por exemplo, não se pode usar dinheiro para pagamento da viagem.

Em termos gerais, na Suécia, se você não tiver o cartão você deve pagar a passagem para o condutor, quem lhe entregará um ticket de pagamento. Deve, ainda, ficar com seu bilhete, porque ele valerá mais umas 2 horas (não me lembro exatamente o tempo) de viagem pelo sistema gratuitamente.

Não. Não haverá cobrador, não havera roleta, não haverá alguém para checar nada de repente.

Em São Paulo também se implementou o sistema "Bilhete Único" há alguns anos que é otimo, funciona muito bem e ajuda muito. Entretanto, ainda temos a figura do cobrador e cobradora sentados no meio do ônibus, entediados ou falando ao celular, ou fazendo piada com o motorista, recebendo apenas algumas passagens de quem não possui o cartão.

Na Suécia, ao contrário, com o método sobra mais espaço no ônibus, o sistema recebe menos dinheiro o que evita furtos e gasta-se menos com o transporte o que pode custar menos para quem paga a passagem.

A diferença, imagino, deve ter a ver com o número enorme de gente desempregada no nosso país, a oferta de trabalhadores e a necessidade de empregá-los, além do baixo custo de fazer isso. Creio que também o fato de sermos menos organizados e obrigados a possuir o tal cartãozinho. Também porque, ao menos em Sampa, seria trabalho demais passar a tarefa de receber passagens também para o motorista prestes a enlouquecer com o trânsito caótico.

Ainda que eu entenda perfeitamente a situação por aqui vamos combinar que ter cobrador em ônibus é uma coisa, como diria minha mãe, do tempo "dozagás" (da luz à gás) ou, como diria minha sogra, do tempo do onça! E ao menos em cidades menores talvez funcionasse que fosse uma beleza o sisteminha sueco! Ceis não acham não?

15 julho 2011

Ao que nos é dado todos os dias.... de graça!


The Aurora from TSO Photography on Vimeo.

Amanhã a pequena criatura que vivi com a gente, de cachos caramelos, olhos vivos e profundos, um sorriso quase eterno faz 4 anos. E eu agradeço a oportunidade de conhecê-lo!

Feliz Aniversário meu querido e amado Ângelo! Você é das coisas mais belas da natureza...

14 julho 2011

Na Suécia também não tem... problema de jogar papel no vaso


Toda vez que eu volto aos posts desta sessão "Na Suécia também não tem" eu pareço receber uma avalanche de idéias, das mais interessantes às mais idiotas e besteironas.

Estando no Brasil eu tenho vontade de escrever um post da série a cada meia hora de tantas diferenças e nuances marcantes entre o meu país e o país da minha amiga Victória. E vou tentar dar um fim em um que me atormenta cada santa vez que consigo ir ao banheiro aqui no Brasil.

"Não jogue papel no vaso sanitário" é um recado recorrente em banheiros públicos, mas eles simplesmente não servem para quem viveu tanto tempo jogando o papel exatamente dentro do vaso porque lá esta era a única opção aceitável e correta.

Na Suécia a gente não jogava papel higiênico no cestinho ao lado do vaso. Cesto servia apeans para outro tipo de lixo que não fosse papel. Simples assim e algumas das razões são:

- o papel higiênico, como qualquer outro papel, é biodegradável. Todo sueco e sueca sabe então que o papel   será praticamente dissolvido todo na água ou separado numa estação de tratamento.
- não existe residência na Suécia que não esteja vinculada a uma estação de tratamento de esgoto, por isso jogar o papel no lixo é muito mais ecológico que jogá-lo em sacolinhas plásticas. E sacolinhas plásticas sim são as vilãs da história.
- o país trata seu esgoto, transforma-o em lama. 60% do esgoto sueco volta a ser reaproveitado na agricultura. Então mesmo que o papel não seja de todo dissolvido ele será com certeza reaproveitado no tratamento.
- na Suécia não existe mais vasos ou bacias sanitárias antigas. Como país de primeiro mundo e um dos mais responsáveis no trato da água a troca dos antigos aparelhos por novos é regra e obrigação. Descarga que disperdiça litros e litros de água e ainda não é capaz de dissolver o papel não tem vez.

Pensei nisso também esses dias em que paguei uma conta alta num bistrô lindo, mas cujo banheiro empregava aquelas caixas antiguíssimas, que ficam no alto totalmente anti-ecológicas.

Com a prática diária em mais de quatro anos é de se esperar que eu tenha adquirido o hábito tranquilo de usou, tchum! papel no vaso! Faço isso sempre! mesmo quando não devo porque é muito automático!
O chato é ter sempre que ver aquelas plaquetinhas atrás de mim me acusando de anti ecológica e sem noção, quando na verdade minha atitude é que seria a correta se bares, restaurantes etc se prestassem a trocar suas descargas por outras mais modernas. E mais chato ainda é receber puchão de orelha do Ângelo. Ele anda me vigiando e assim que jogo o papel no vaso ele me chama atenção dizendo como ando fazendo "tudo errado", pois ele aprendeu na escolinha daqui a fazer o certinho agora...

ojoj...  haja paciência e memória para adquirir e perder hábitos!

E você? qual sua prática com o papel e o vaso?

13 julho 2011

Na Suécia também não tem... que fazer rodeios para dizer "não"

(Tô de mal!, "Não falo com você", Natalie Dee)


"Knowing me, knowing you
There is nothing we can do
Knowing me, knowing you
We just have to face it, this time we're through...
Breaking up is never easy, I know but I have to go...
Knowing me, knowing you
It's the best I can do..."
(ABBA, Knowing me, Knowing you)

A respeito dos suecos e suecas se pode dizer muitas coisas, e embora eu ache esta afirmação um tanto polêmica, ouso afirmar que ao contrário dos brasileiros os suecos não fazem "rodeios" nem "floreamento" para dizer o que desejam.

Comparem comigo o seguinte exemplo: semana passada eu recebi uma moradora do nosso condomínio pedindo para que eu participasse de um abaixo assinado  a favor da permanência do nosso zelador quem a nova síndica decidiu despedir.

Concordei rapidamente e assinei de cara, mas ainda assim, os 5 minutos de conversa entre eu ela foram recheados de talvez umas 17 vezes da seguinte frase: "... olha é para ficar bem claro que eu e o pessoal quem está organizando a lista não temos NADA contra a síndica, só não concordamos com a decisão dela...". E de novo: "nós não estamos brigando com a síndica, nosso desejo é apenas que o zelador continue ...". E dali 3 minutos: "A gente não quer brigar com ninguém... esse não é um movimento contra a administração é que nós...".

Como assim não tem nada contra a síndica? O abaixo assinado não é contra a decisão dela? Como assim não quer brigar? Vocês não estão organizando dezenas de moradores para impedirem o decidido?

É estranho perceber como para nós as questões por mais longe que estejam da esfera pessoal é sempre para ela a qual nos remetemos. Temos medo de ficar de mal, de comer mingau...

Fechei a porta meio rindo sozinha, pois foi impossível não me ver em meio aos amigos, amigas, colegas ou simplesmente gente nativa ou crescida na Suécia que teria me abordado de maneira totalmente diferente, se eu imaginasse uma situação hipotética do mesmo caso. Na verdade totalmente hipotética porque lá não há zelador, nem porteiro, nem gente que vá fazer um abaixo assinado dessa natureza! Ainda assim, se fosse possível, a vizinha nunca diria que ela não está fazendo aquilo que ela de fato está fazendo!

Enquanto nossa cultura é de já ir pedindo desculpas por aquilo pelo qual nem queremos nos desculpar, ir por aqui, por lá para chegar ali e dizer mais ou menos o que pensamos e ainda concluir algo como "eu quero isso, mas se você não concordar a gente pode ver um jeito que fique bom pra você e pra mim, apesar de não ser bem o meu desejo inicial.."

Se você, por exemplo, pedir um favor a uma amiga ou amiga sueca e isso não puder ser feito a resposta será direta e reta: "Desculpe, Sônia. Nisso eu não posso lhe ajudar..."

A resposta brasileira típica provavelmente seria: "Sabe o que é... Poder agora eu não posso, mas talvez se eu der um jeito no meu horário... Hum... Deixa eu ver.... É que nossa! Ando tão atarefada esses dias que... então... que chato, nesse dia eu não vou mesmo poder te ajudar... mas se você quiser a gente pode ver um outro dia..." 

Se você oferecer uma festinha e fizer doces tipicamente brasileiros bem doces vai certamente ouvir de algum deles: "Obrigada, mas achei muito doce para meu gosto!"

Numa situação correlata sobre doces azedos horríveis suecos muitos de nós talvez disséssemos: "Ahnnn... nossa! que diferente o sabor... Não é doce como os nossos doces, é mais azedinho, meio diferente. Não tem a ver com o meu paladar, mas tem muita gente no Brasil que iria gostar com certeza!"

E se você precisar se atrasar para um compromisso na Suécia e tentar jogar a desculpa no tráfico intenso terá sem delongas do outro lado: "Desculpe, mas agora não poderei mais lhe receber, pois você chegou 10 minutos atrasado e agora eu irei me atrasar para outro compromisso".

Infelizmente isso não significa afirmar que todos os suecos e suecas dizem sempre o que tem em mente. Eles como a gente não são feitos em forma de assar! Suecos inclusive odeiam confrontos, então normalmente eles não irão achar maneiras de ficar discordando de você, porém, se for necessário dizer algo eles o farão SEM RODEIOS. Sem encher de florzinha aqui e ali.  Sem preocupação com o resultado no outro do que será dito, porque isso não faz parte do pensamento sueco.

Frio? Seco? Egoísta?

Depende do ângulo em que se vê a questão.

Se você, eu ou o outro vai ficar arrasado com a resposta blá blá blá para uma pessoa com cultura tipicamente sueca isso é um problema só seu, meu, dele. Não diz respeito a quem está dizendo ou à forma como foi dito, mas a forma como foi recebido.

Obviamente também não estou afirmando que este povo escandinavo adora dar "chapoletada" no outro. Não. É que eles são mais diretos do que nós.

Ser sincero é algo natural. Dizer "não" é tão natural quanto dizer sim.

Eu, quem durante minha vida aqui, costumava ser a rainha dos rodeios porque minha obrigação sempre foi "agradar, ser legal, ser simpática e querida não importa o que aconteça e o que eu pense" mudei drasticamente depois desses quatro anos. Se não gosto, se não quero, se não concordo, quando vejo eu já disse. Chega a ser estranho. Tornou-se mesmo meio natural falar o que preciso. Não fico mais de perfumando minhas falas o tempo todo para agradar aos outros. Até dá para ganhar fama de grossa e seca, mas se a gente ganha menos fãs e amigos sendo mais direto, certamente os que ficam são menos trabalhosos dos que aqueles que gostam de muito nhenhenhem...

E nhenhenhem é com certeza uma característica brasilerística por definição! Você concorda comigo, vai querer sair no tapa ou me deixar arrasada???? Hemmmm???

08 julho 2011

"A persistência da Memória": Dali, Freud e nós no mesmo barco

(A persistência da memória, Salvador Dali)

Há pouco estava descascando laranjas limas para a sobremesa e uma memória muito forte me veio à mente: meu pai, no dia em que morreu, descascando e chupando várias pequenas laranjas limas.

Esta foi uma memória constrúida. Eu não estava presente, minha mãe quem me contou isso e eu somei àquilo que eu já conhecia sobre meu pai e seu amor por esta fruta. Entretanto, a partir do dia em que ouvi a narrativa de minha mãe, mais de 7 anos atrás, eu nunca mais fui capaz de chupar laranja lima sem "reviver" esta cena. É como se eu tivesse construído-a para mim de forma a acabar acreditando que eu estava presente quando meu querido pai teve uma parada cardíaca na cidade onde eu cresci, mas não mais morava... É pacificador, me tranquiliza.

Ao contar isso, minha amiga Elo me contou uma memória persistente dela sempre que executa a mesma tarefa... E outra, Daníssima, pelo facebook, disse pensar em mim sempre que ouve a música "Dancing queen"...

Imagina o quanto de nossa vida consciente tem de inconsciente? O quanto somos de construção do passado? O quanto negamos da interferência de nossas vivências e daquilo que ouvimos mas tais "experiências" estão em nós todos os dias, minutos, segundos de nossa existência?

Pois eu fiquei louca para vir aqui filosofar e psicologizar com vocês:

Há alguma memória que vocês sentem retornar com frequência e qual a situação motivadora desta memória? Revivê-la é algo agradável ou desagradável?


07 julho 2011

"La ci darem la mano": o passado presente num milésimo de segundo


(Dueto de Pavarotti com Sheryl Crown, "La ci darem la mano", Don Giovani)

Estou aqui, um pouco em meio ao caos que eu mesma criei em meu ateliê-escritório. Tem mais ou menos uns duzentos livros espalhados, potes de tintas pra lá e pra cá e uns tanto mais objetos.

Tenho uma mania maluca de organizar a casa externa para daí começar a me arranjar por dentro. É tempo de procura por trabalho, de mudança radical na vida levada nos últimos anos. Tudo isso requer energia, organização e mesmo que eu esteja totalmente sem tempo quando vejo já estou com todas as prateleiras no chão tentando organizar as coisas...

Ao som de Pavarotti bem alto, enquanto a criançada brinca comigo por aqui ao mesmo tempo agora, eu percebi isso: o quanto tantas coisas em mim, na gente, não mudam nunca!

Lembro de ter uns doze, treze anos de idade e fazer a mesma coisa na casa de minha mãe. Escondida e em silêncio eu organizava meu quartinho, meus poucos livros, minha cama, ouvindo música clássica na rádio FM da época. Quando terminava eu me sentia tão feliz, mas tãão imensamente em paz naquela limpeza e organização feita por mim mesma que podia passar horas depois estudando para as provas da escola.

Então me dei conta disso e também percebi novamente como as memórias nos são importantes. Apesar de ter despertado meio sozinha um gostinho pela música clássica em meio a um ambiente muito simples e sem estudo no interior de São Paulo o conhecimento mesmo veio só quando conheci Ludmila e Dona Carmem. Minha amiga do curso de filosofia, sua mãe e seu pai eram amantes de ópera. Um piano, inúmeras partituras e discos de vinil naquela casa grande em Barão Geraldo foram parte de minha vida por uns quatro anos.

Vivi com eles um pouco do que eram e não só carrego comigo os nomes das peças, quem são os compositores e os intérpretes, mas sobretudo ficou em mim o prazer que ouvir aquelas músicas com elas me proporcionavam. Ficou aquela sensação de que eu crescia, de que minha vida ali era passageira e aqueles momentos iriam embora como muitos outros... A de que o passado, o tempo "perdido" nos pertence de certa maneira.

Dona Carmem quem vivia cantarolando pela casa com seu vozerão se foi ano passado, na semana do Natal, mas ainda assim tudo agora pouco, enquanto eu ouvia Don Giovani, uma ópera que vi com Ludmila e também com Renato e um amigo Klaus, me levou de volta aos meados de 1990. É possível me transportar, sentir de novo a felicidade daqueles momentos, sentir o cheiro da casa da Lud e da comida da sua mãe... É como se a voz de Luciano Pavarotti pudesse enlaçar minhas mãos com as delas de novo....

Certas memórias, eu já sabia e fico bem contente em constatar, nem as manchas do tempo conseguem apagar.

06 julho 2011

O curioso caso do menino invisível

(Pôster do intrigante e comovente "O Curioso Caso de Benjamin Button)

Mais uma estação e as portas do trem se abriram rapidamente. Uma pequena multidão brigou no olhar por um e outro assento, entre eles uma jovem mãe e seu bebê.

Os olhos de Sonildes quase voltaram ao livro deitado em seu colo, mas algo a fez parar por alguns milésimos de segundos meio assustada. O horror estampado na pele, na face de uma pequena criança.

A viagem era rápida e estar ali com mãe e filho em frente, ouvir a mãe cantarolando tão serenamente e feliz com seu filho era uma vivência mais forte do que Sonildes esperara enfrentar naquela rápida viagem de metrô de sua casa até o centro da velha São Paulo.

O bebê era feliz. Sorria e respondia muito aos carinhos da jovem morena, cuja idade provavelmente não passava de uns 26 anos. O que chamava atenção de Sonildes e de todos ao redor era a face do menino. Suas pálpebras caídas e muito avermelhadas ficavam ainda mais à mostra naquela pele toda solta, escamada, como se algum tipo de queimadura tivesse desfoleado cada centimetro daquele pequenino corpo e levantado-a como uma folha seca de outono prestes a cair.

Qual caminho levara aquela mãe e seu bebê até ali? Vindo da estação do Hospital das Clínicas eles obviamente deveriam estar em tratamento... mas teria a mãe deixado seu bebê se queimar? Cantarolava ela tão docemente por culpa? Como viveria aquela criança em seu futuro se a cada segundo os olhos de toda a gente se voltava a ela com pesar?

O livro nas mãos de Sonildes parecia um portal. Ela ia e voltava, tentava fixar os olhos e voltar a sua leitura, mas em cada letra seus olhos mergulhavam num infinito de probabilidades... Lá fora o escuro do túnel e o vulto do menino descamado e sorridente ainda estava ali.

Por que as coisas deveriam de ser assim?, pensou sofridamente Sonildes.

Por que aquela criança e não outra? Por que aquela mãe e não ela ou uma outra? Qual sofrimento ainda estaria reservado para os dois?

Entre os sons estridentes do trem Sonildes fantasiou algumas saídas... Imaginou-se oferecendo dinheiro para que a mãe pudesse pagar para o filho o melhor cirurgião do mundo e seguisse a vida mais tranquila... Viu-se a si mesma dizendo "meu pai é um grande médico e tem uma clínica famosa de cirurgia plástica, tome meu cartão porque faremos a cirurgia e o que for preciso de presente...", mas rapidamente lembrou que nem sua família tinha dinheiro, nem seu pai havia sido médico, nem ela poderia de alguma maneira consertar a vida daquelas duas adoráveis e sofridas criaturas a sua frente.

Em meio a toda aquele tumulto interior, Sonildes pôde ouvir a voz de Prince, o menino a quem dera a luz meses atrás e cujo pai ela ainda não sabia bem ao certo dizer quem era, ecoando em sua mente. Seus sorrisos, seus gestos de amor, seu olhar de cumplicidade. Sua pele lisa, fina e perfumada...

Estranha era a vida...

Parecia um milhão de anos atrás quando ela decidira finalmente desistir de lutar entre seus dois amores, Suécio e Brasil, e decidira levar aquela gravidez adiante sozinha... Se não era possível escolher entre os dois então melhor era não ter pela metade nenhum deles. Doía mais tê-los pela metade do que o contrário. Assim, ao menos, ela tentava ser alguém por inteiro como era antes... Apesar disso, ali, naquele rápido momento no metrô Sonildes se deu conta do quanto as mulheres podiam ser ainda mais fortes quando tinham em seus braços uma criança... E de como podiam agir como anjos ou demônios.

Aquela mãe, de tanto amar, se esmerava em cuidados e fazia daquela criança a criatura mais merecedora de amor da face da terra... embora todos ao redor, de tão chocados, não conseguissem esboçar nenhum sorriso, nenhuma brincadeira, nenhuma alegria. Aquele pobre bebê pura escamas ao mesmo tempo que chamava a atenção de todos era também também invisível...

Sonildes sentia culpa. Embora tendo para si um bebê perfeito e amando-o mais do que a si mesma, não fora capaz de dar-lhe a alegria que qualquer criatura no mundo deseja: ter um pai e uma mãe para amar. Não fora sensata a ponto de revelar ao menos um de seus antigos amores que um deles havia sido pai no último inverno. Por enquanto privava seu doce Prince de ter o abraço e o aconchego do colo de um pai...

A estação seguinte chegara e o homem ao lado levantou bruta e apressadamente acordando Sonildes de seu sono da razão. Então ela conseguiu ouvir uma conversa de alguém curioso com a mãe do menino quem respondia simpática e esperançosa:

- Não... ele não se queimou, ele nasceu assim... é uma doença rara e ele está em tratamento.
- Tem cura? Insistiu a senhora de marrom, enquanto todo o restante de quem ainda estava no trem matava sua própria curiosidade.
- Não... mas ajuda a manter assim e não piorar, respondeu a mãe ajeitando bolsa, criança e casaco ao se levantar e tentar sair do trem...

Então Sonildes colocou bem os olhos sobre as mãozinhas ásperas, enrugadas como a de um velho de 95 anos, daquela pobre criaturinha... Mesmo sentindo-se tão impotente, desejou a ele toda a paz que o mundo pudesse lhe dar, toda a força que uma vida fosse capaz de oferecer. Fechou o livro, colocou-o na bolsa e tomou o telefone...

- Oi! Sim, faz tempo... mas eu liguei porque tem algo muito importante que eu escondi de você...

04 julho 2011

Segunda sueca


("Guldlock", Eva Dahlgren)

O dia em São Paulo amanheceu chuvoso. Céu cinza.
Apesar da baixa temperatura na madrugada, o dia não é frio, mas é um típico dia de inverno brasileiro.

Ao preparar o café da manhã ainda no escuro lembrei-me das muitas e muitas manhãs de inverno na Suécia. A atmosfera mais quieta, a névoa, o escuro e automaticamente precisei ouvir Eva Dahgren que para mim é a cara do lado frio e fechado da Suécia. Ao mesmo tempo a forma quieta e contida de ser dos suecos e suecas.

Esta música é linda, minha preferida da cantora quem, aliás, diz no início deste vídeo acima, antes de cantá-la, que é também a música que ela mais ama cantar.  Dá para sentir um peso na melodia, mesmo que não se entenda a letra... Lembro-me ter ouvido na casa de uma amiga também sueca e pedido emprestado. Amava mesmo antes de entender qualquer palavra, antes de estudar a língua.

Abaixo a letra em sueco e uma versão fraquinha tomada no google só para vocês terem uma idéia do sentido, já que não tenho tempo para fazer uma tradução melhor agora. Fiquem livres para contribuir com a tradução pra gente...

Guldlock significa originalmente algo como cachos dourados. Remete a uma fábula que acredito (ou inventei) ser sueca... Na música Eva dá o nome de Guldlock para alguém que ama... Bom esta é minha interpretação... e ela pode ser pura viagem... mas viagem boa mesmo é ouvir esta cantora. Experimente!

A entrevista é apenas alguns segundos e então você pode ouvir a música.

Ótima segunda-feira...


Guldlock

Kom guldlock med ögon blå
Kom nu för jag längtar så
Kom nu
Med din evighet
Som det enda svar jag vet

Kom stjärnöga ge mej tröst
Som vårvärme i mitt bröst
Kom liten till värld så stor
Du min himmel
Jag din jord

Så många mil som jag färdats
Och sökt
Nånting
Nånting
Nånting
Jag funnit kärlek lycka och lugn
Men i mej
I mej
I mej finns ändå tomma rum

Kom vildvind med rosenkind
En kort stund var bara min
Så lovar jag
Innan du ber
Att ge dig frid

Kom du som ser världen ny
Som aldrig sett dagen gry
Låt all skönhet på min jord
På nytt födas
Med dina ord

Så många mil som jag färdats
Och sökt
Nånting
Nånting
Nånting
Jag funnit kärlek lycka och lugn
Men i mej
I mej
I mej finns ändå tomma rum


...

Goldlocks

Goldilocks veio com olhos azuis
Venha Eu Gosto de Ver
vem agora
Com sua eternidade
Como a única resposta que eu sei

Vem me dar conforto estrelado
Como o calor da primavera no meu peito
Venha pouco para tanto o mundo
Você é meu céu
Eu sou o seu solo

Quantas mil como eu viajei
e procurou
algo
algo
algo
Eu encontrei a felicidade, amor e paz
Mas em mim
em mim
Em mim ainda há quartos vazios

Obter selvagem com vento aumentou face
Pouco tempo foi só a minha
Prometo
Antes que você pergunte
Para lhe dar paz

Você viu o mundo como nova
Como nunca se viu dia amanhecendo
Deixe toda a beleza da minha terra
No recém-nascido
Com suas palavras

Quantas mil como eu viajei
e procurou
algo
algo
algo
Eu encontrei a felicidade, amor e paz
Mas em mim
em mim
Em mim ainda há quartos vazios



02 julho 2011

TV aberta e qualidade de programação é um casamento impossível?


("Branco profundo", Michael Kvium)

Assisti (pela primeira vez ao vivo e não pela internet) ao que considero ser o melhor episódio do programa SOS Casamento, da emissora do Senor Silvio Santos Abravanel, no SBT.

Antes, porém, que eu continue este post é preciso fazer meu costumeiro papel de chata e dizer o contrário do que possa parecer. Não. Eu não sou nenhum pouco fã de televisão. Eu não vivo a escrever sobre programas televisivos, mesmo porque quem me conhece sabe qual minha visão sobre o exagero do papel da tevê no nosso país.

Posso dizer, entretanto, que Ana Canosa e a equipe de SOS hoje fizeram eu me lembrar alguns dos porquês.

Eu detesto tentar usar o raro e precioso tempo que tenho em frente à televisão para descansar, me distrair, aprender, me entreter e sentir como minha inteligência está o tempo todo sendo subestimada.

Eu não tenho nenhuma tolerância com piadinhas preconceituosas, agressões de baixo nível só pelo ser, só para conseguir ibope.

Eu opto sempre por outras tantas atividades em detrimento da TV porque mesmo quando me distraio eu não quero minha vida roubada por minutos, horas em frente a um aparelho e gente que nada me traz. Minha vida, meu tempo de lazer, meu ócio criativo me é caro demais para ser disperdiçado com programas de baixa qualidade.

SOS Casamento, como falei antes, começou a partir da idéia de tentar salvar, com a ajuda de uma psicóloga e sexóloga experiente, casamentos à beira do abismo.

Todos sabemos como, apesar de encontros genuínos acontecerem todos os dias, das pessoas se apaixonarem umas pelas outras e se "casarem", o casamento (seja ele oficial ou não) é um exercício de virtudes diário o qual nem sempre, ou quase nunca, estamos dispostos a fazer.

Nós nos perdemos uns dos outros porque a vida a dois, como belamente afirmou Ana Canosa hoje no programa, é mais do que difícil, é dificílima. Fácil é casar. Fácil é falar de amor. E fácil é fazer o oposto do prometido.

Cansaço, frustrações, problemas financeiros, emocionais, de saúde, auto-estima, falta de gentileza e cuidado para com o outro são só alguns dos vilões que põe os muitos amores perdidos e separados como se falassem línguas diferentes, como se não se reconhecessem mais como as mesmas pessoas que um dia optaram por estar juntas.

A equipe de Silvio Santos tem esbanjado criatividade nos programas passados. Mostrou seriedade e ganhou credibilidade ao não entregar, por exemplo, alianças a um casal para quem o castelo bonito por fora ainda estava meio feio e cheio de vaidade e apego por dentro. Emocionou quando ajudou outros a se encontrarem e recuperarem a cumplicidade. Ver no outro não o inimigo na guerra, mas o parceiro, foi algo ao qual vários dos casais do programa conseguiram.

Como? Com milagres? Com boa edição de programa? Com maquiagem?

Não me pareceu.

Os programas têm sido, ao meu ver, muito verdadeiros. As duríssimas verdades as quais os casais precisam ouvir não são floreadas por Ana Canosa. Ao contrário! São ditas com clareza, com coragem, com estímulo.

Por essas e muitas outras razões eu fiquei hoje orgulhosa de pensar que temos num canal aberto um tipo de programação com a qualidade e capacidade de fazer pensar, crescer, melhorar as pessoas que o acompanham.

Aprendi ou reaprendi muito ao longo de 9 programas exibidos até agora. Boa psicologia, tato e criatividade se casaram muito bem.  Neste último, até mesmo Ana Canosa claramente emocionada ao ver as antigas mágoas irem embora ao som de "Como é grande o meu amor por você", e o amor - em todas as formas em que ele é possível - brotando de novo no casal Rodolfo e Luciana.

Loucos para chamarem a atenção um do outro e serem amados, Rodolfo e Luciana, literalmente gritavam um com o outro, se agrediam física e verbalmente tentando caminhos desesperados. Nenhum deles conseguia recuperar o antigo fôlego, lembrar como construíram sua história, o antigo Rodolfo e a antiga Luciana, de quem eles o tempo todo parecem sentir saudade.

Assim como em outros programas foi preciso primeiro reconhecerem cada qual que estavam errados e, com ajuda do programa, no quê estavam errados. Feito isso, foi ainda preciso pensar como poderiam resolver problemas parecidos com atitudes diferentes das do dia a dia. Sem chingamentos, sem mágoa, sem ódio, sem disputa de "esse é meu", "aquilo é seu", sem a necessidade de provar que se está certo, mas com diálogo, com carinho, com gestos apaziguadores e não de revanche os casais, quase todos, conseguiram progredir com as dicas de SOS Casamento.

E as mudanças vieram de sensações fortes provocadas por algumas tarefas criadas especialmente para eles.

De todos, o casal quem mais emocionou pelo mergulho profundo no desejo de mudança foi o dessa noite. Talvez por serem bastante passionais, por me lembrarem tantos outros casais amigos perdidos em suas disputas, mas provavelmente ainda mais por serem tão genuínos, tão verdadeiramente ainda apaixonados um pelo outro é que Rodolfo e Luciana provaram da fruta até o caroço. Parecem ter entendido bem a lição da psicóloga de plantão que os ajudou. Não importa se se é magro ou gordo, tem mais ou menos dinheiro o importante é conseguir se doar e se entregar ao outro porque...


"Sexualidade envolve afeto, auto-estima, auto-imagem corporal, alegria de ser homem ou mulher, independentemente de raça, credo, idade, estado civil e orientação sexual."

Para além do programa e do tema casamento entendo que as lições dadas me levam sempre por muitos caminhos: é preciso se auto-conhecer para entender porque as pessoas reagem a nós dessa ou daquela forma; é necessário jogar fora não só as armaduras, mas as rédes;  ter primeiro a coragem de assumir os próprios erros; não subestimar o outro nem tentá-lo colocá-lo sob nosso chichote. É crucial perdoar quem se ama, caso contrário ao invés de tomarmos os prazeres e alegrias das relações, mergulhamos mais e mais num poço branco fundo, ficamos cada vez mais isolados, menos amamos e menos somos amados.

Hoje recuperei um certo gosto por tentar ver televisão aberta brasileira, porque é bom demais sentar no sofá depois de um dia exaustivo se entreter, rir, chorar e sentir que ao final eu também não sou mais a mesma pessoa quem ali sentou. E isso porque tá na cara que SOS Casamento não tem apenas números e ganhos como objetivo final, qualidade e respeito pela inteligência de quem está do outro lado parecem também importar bastante.

Parabéns e obrigada!