23 junho 2011

O poder inegável da retórica

(Ângelo em noite de pintura do sete no meu ateliê na sacada de casa, junho 2011)

Tentando convencer Ângelo a ir comigo até uma lojinha no bairro a fim de comprar uns dinossauros de madeira para a festinha de 4 anos, cujo tema foi totalmente idealizado por ele para celebrar com os amiguinhos, eu pergunto:


- Ângelo! Vem com a mamãe na loja de dinossauro pra gente comprar aqueles ossos de madeira!

- Ãhnnn... Vai você mamãe (todo simpático) e eu espero aqui em casa.

- ... mas a mamãe vai comprar aqueles dinossauros que você queria e eu não entendo direito qual é mais legal. Eu preciso da sua ajuda para escolher...

- Sabe o que é? (com ar de esclarecido). No "napa" (nós tínhamos olhado no google maps o local) mostrou que é longe... E vai cansar meus pés...

- Não é longe não! A gente desce junto e sobe de ônibus... São só umas cinco (meio mentindo) quadras para ir e umas cinco para voltar.

- Não. Eu vi é muito longe!

- Mas a gente vai rápido e passa naquela lojinha que tem aquele chocolate (apelativa total) que nós dois gostamos e você tinha me pedido outro dia. Daí a gente sobe comendo! Vai ser super legal!

- Sabe o que é? Eu prefiro esperar a você aqui e você traz o dinossauro e o chocolate! Eu fico com a Má!

- ... mas Ângelo! Eu nem entendo (fingindo) qual dinossauro você vai querer e a festa é sua! Você tem que dar alguma ajudinha pra mamãe!

- Eu vou ajudar! Eu vou pintar os dinossauros com você nos quadros! Lembra?

- E se a gente for de carro então? Vamos! Pega lá seu chinelo! Vamos rapidinho, escolhemos e voltamos!

- Sabe o que é mamãe? De carro faz balanço e eu durmo... Eu não quero ir de carro não.

- Então de ônibus! Você adora passear de ônibus! Lembra como foi legal aquele dia? Então pegamos o ônibus na frente do prédio, vamos e voltamos rapidinho...

- Sabe o que é? O ônibus pára antes do lugar e eu vou precisar andar até chegar na loja. Então, eu não quero ir de ônibus não...

- Ah! Você não aguenta ir a pé porque está cansado (rindo), não aguenta ir de carro porque vai dormir e não quer ir de ônibus porque o ônibus não pára na porta?

- É. É melhor você ir e eu esperar aqui assistindo o DinoDan.

- Então você não quer mesmo escolher qual dinossauro a gente vai comprar pra montar na festa?

- Quero sim! Compra o Tiranossauro Rex!

22 junho 2011

Quando o olho não só vê, mas sente: sobre Maria Larsson e seus eternos momentos


(Cena do filme sueco "Maria Larssons eviga ögonblick")

(O post abaixo foi publicado originalmente na Revista
Brassar.se em 08 de março de 2009 e não havia sido publicado aqui no blog ainda)

Foi num desses dias de neve aqui em Malmö que eu tive o prazer de ver o belíssimo, comovente e artístico filme de Jan Troell, "Maria Larssons eviga ögonblick" ("Eternos momentos de Maria Larsson) no Biocentrum, em Limhamn.
O filme, lançado ano passado, conta a história real de Maria, a de uma dona de casa sueca que vivia em Gotemburgo no início de 1900. Pobre e noiva de Sigfrid, Maria tem a idéia de comprar um bilhete de loteria, cujo prêmio era uma câmera fotográfica. Os dois ganham a câmera no sorteio, mas é Maria quem fica com ela e a guarda com carinho em casa.

O casamento rapidamente se mostra frágil, quando Sigfrid começa a chegar em casa bêbado, após o trabalho e a se tornar cada vez mais violento. Sigfrid trabalha com serviço bruto numa fábrica e vai, aos poucos, se envolvendo com o sindicato da época, juntando-se aos amigos para reclamar as péssimas condições de trabalho.

Apesar da bebedeira, das traições e da violência de Sigfrid contra Maria e suas sete crianças, ela, como a maior parte das mulheres de seu tempo, está presa num casamento, no qual a promessa de felicidade e companherismo fôra quebrada, mas sem nenhuma perspectiva de mudança, ao menos até que a morte os separe.
A vida miserável e a situação sem esperança faz com que Maria tente vender sua câmera ao fotógrafo da cidade, Sebastian Pedersen, que lhe mostra como funciona aquele estranho e curioso objeto que Maria tem em mãos. Pedersen fornece o material a ela, que não tem condições de arcar com as despesas para tal luxo e esse é o ponto de partida para que Maria um dia se transforme em uma das primeiras e maiores fotógrafa que a Suécia conheceu.

Maria Larssons eviga ögonblick tem inúmeros aspectos incríveis para serem discutidos. Entre eles a questão feminina e o papel que a mulher desempenhava na sociedade do início do século XX. Ajuda a pensar como Maria Larsson colabora para que esse papel vá sendo sutilmente percebido e assumido como outro possível. Jan Troell traz também a questão do sindicalismo na Suécia e de como a sociedade e o povo pobre teve que sofrer e se organizar para chegar a ter um país democrático. Isso sem contar na excelente atuação de Mikael Persbrandt (Sigfrid Larsson) e na profundidade de Maria Heiskanen (Maria Larsson). Minha opção, entretanto, é de focar o aspecto artísticos da produção do filme e como sua narrativa, feita sob um olhar também cuidadoso, ajuda a perceber e reconhecer porque Maria Larsson acabou sendo reconhecida como uma das maiores fotógrafas da história do país.

No longa, filmado em Malmö, e não em Gotemburgo, é possível reconhecer algumas paisagens, como o porto e algumas fábricas. Apesar disso, a sensação que se tem ao se assistir ao filme é não só que a história se passa há cem anos, mas que o filme foi feito há cem anos atrás. O colorido amarelado, sépia, da película ajuda na verosimilhança e colabora para que sintamos com muito mais vigor a história contada na tela. O filme é calmo. Ele vai no mesmo compasso de Maria, quando esta toma em suas mãos sua preciosa câmera fotográfica. Maria maneja tão bem seu objeto de fotografar e tem um olhar tão apurado para o que mira que suas fotos são verdadeiras obras de arte.

Ao tomar a câmera nas mãos é como se Maria pudesse vivenciar uma outra realidade possível. Longe do mundo cheio de dramas que a rodeia, Maria pode ter um momento e um espaço só dela. A fotografia e a arte é um espaço que nem o marido autoritário, nem ninguém mais pode invadir. A arte dá à Maria Larsson condição de ter uma "vida paralela" àquela que fôra escrita para ela.


(Cena do filme sueco "Maria Larssons eviga ögonblick")

Isso é rapidamente percebido por Sebastian Pedersen, o dono da loja de fotografia, que incentiva Maria a fotografar mais e mais e a ensina como revelar suas próprias imagens em casa. Maria é simples e quase nada sabe sobre fotografia. É bom lembrar que, nos anos em que ela vive, a fotografia era algo totalmente novo e difícil de se obter. Poucos tinham acesso a uma câmera e menos gente ainda tinha talento para manejá-la. Mas se no início faltava à Maria a bagagem técnica não lhe faltava esse olhar apurado.
Entre as cenas mais marcantes do filme, está o momento quando Maria fotografa seus primeiros quatro filhos. A cena é belíssima e genuína. Em seu mundo de mãe, esposa e dona de casa, Maria consegue captar a genuidade de suas crianças, sentadas lado a lado no sofá da humilde casa e eterniza aquele momento para sempre.

Em outra, dramática, mas não menos bela, uma vizinha de Maria, cuja filha adolescente morre num acidente, pede para Maria fotografá-la. Era comum nessa época esse desejo, já que com a invenção da fotografia as pessoas acreditavam que poderiam capturar aquele último momento junto da pessoa amada e mantê-lo para sempre.

Cumprindo o pedido da mãe, Maria Larsson arruma a menina em seu caixão. Ajeita as flores com tanto cuidado e carinho, como se a adolescente ainda estivesse viva. Ela enxota as crianças curiosas da sala e posiciona sua câmera. Ao fotografar a menina deitada e sem vida, Maria vê pelo vidro que as crianças estão coladas a ele, tentando ver o que ocorria com sua amiga morta. A cena é linda e a foto, que encantará Pedersen depois, maravilhosa. O olhar de Maria capta o olhar assustado, curioso das crianças do lado de fora em contraste com as pálpebras escuras da menina do lado de dentro.

Essas experimentações e o desejo forte de capturar todos os momentos, como as passeatas, os comícios políticos, os vizinhos, a vida em família e os objetos do lar deram a Maria Larsson condições de começar a ser conhecida na redondeza por onde vivia. Os empresários passam a lhe encomendar fotos e os vizinhos lotam sua casa esperando por um retrato. Maria pode, então, ela mesma ter uma renda e não depender totalmente da má vontade do marido para dar de comer a seus filhos, cujo número só aumenta a cada reconciliação.

O sucesso da esposa não dá a Sigfrid nenhuma alegria. Ao contrário, ele se sente ressentido e com ciúmes o que, a seu ver, é razão para agir com mais violência ainda contra a esposa traidora. E a vida do casal e de seus filhos segue assim por muitos anos. Enquanto o filme se desenrola a gente fica com aquela esperança de que Maria consiga abandonar o marido e ver-se livre do inferno que é sua vida ao lado dele, mas isso não acontece. A história e o peso do pensamento da época é mais forte que seu desejo de viver ao lado de seu amor platônico, Sebastian ou de ter uma vida livre do peso do casamento falido.

A vida dos Larsson melhora com o tempo e Maria, bem como sua filha mais velha, Maja, vai concretizando o fato de que não era mais do que só esposa, mãe e dona de casa, era fotógrafa.

A obra de Maria Larsson tem sido recuperada através de livros e documentos de família e o filme de Jan Troell, com hist

Mesmo tendo assistido o longa todo em sueco, sem legendas e entendendo muito menos do que eu gostaria de ter entendido dos diálogos, os eternos momentos de Maria Larsson são ao mesmo tempo dramáticos, extremamente sensíveis e cheios de esperança, o que é ajudado também pela trilha sonora.

O filme termina com uma famosa foto, feita por Maja, de Maria e Sigfrid dançando juntos, protagonizando uma das cenas que mais gostavam de fazer, desde que haviam se conhecido. Com a situação financeira tranquila, os filhos criados e sua inspiradora casa no campo, Maria parece ter encontrado paz consigo mesmo. Deixou os sonhos impossíveis de lado e resolveu viver a vida como ela poderia ser vivida, não sem deixar de tirar o melhor de cada momento através de sua lente.

Talvez porque para além de suas forças estava o olhar inquieto. Parafraseando algumas frases ditas entre ela e Pedersen: nem todo mundo tem o dom de ver. O mundo está aí para ser descrito e preservado. Aqueles que conseguem vê-lo não podem se esquivar. Não podem simplesmente fechar os olhos. É preciso mais do que ver, traduzir isso para aqueles que não tem o dom.

21 junho 2011

Na Suécia também não tem... Festa Junina, quentão ou quadrilha


(Eu e meu caipira literal, Ângelo, e eu e Marinacota em festinha Junina da escolinha do Ângelo, junho de 2011)

De algumas coisas eu sentia uma baita saudade do Brasil quando estava na Suécia. Se fosse junho e julho e alguém me falasse que estava indo numa Festa Junina aqui no Brasil aí dava daquelas saudades meio sem explicação. De repente era como se minha personalidade "brasilerística" aflorasse eu sentia assim: "não tem jeito! tá vendo? Eles não são iguais a mim! Eles nem sabem o que é uma Festa Junina!"

Talvez por essa razão eu nunca nem tenha tentado fazer uma delas enquanto vivia por lá...

E era assim... A gente festejava outras coisas em junho, sobretudo a chegada do verão com as festas típicas do Midsommer. Era bom por outros motivos, mas a festa não batia lá dentro de mim. Não havia identificação com aquele tronco de árvore cheio de fitas ou com as danças. Era muito divertido, mas não era algo celebrado genuinamente.

Na Festa Junina no Brasil eu resgato a Sônia alta e magrela da escola, quem nunca pôde dançar de menina nas festas juninas do interior porque as professoras eram atrasadas suficientes para me fazer ficar de menino porque "toda menina tinha que ter um par masculino" para dançar. Menos, claro! as meninas altas e magrelas com altura dos meninos.

Resgata ainda os doces feitos pelas minhas avós ou pela minha mãe. O sabor de ouvir as músicas caipiras tocadas na sanfona pelo meu pai. São partes da minha história que nenhuma outra festa típica conta tão bem. Por isso eu simplesmente a-do-ro festa Junina. Era por essas e outras que a Suécia, apesar de ter tantas coisas as quais eu amava (talvez como em qualquer lugar do mundo) me deixava porém incompleta.

Fiquei pensando então o seguinte: e vocês? Do que sentem mais falta da sua terra natal quando não estão nela?

17 junho 2011

"Eu já canto, pio e silvo"

"Eu canto pio e silvo", Somnia Carvalho, inspired by Ikea, 2011
(Tela que pintei ao som de Mônica Salmaso e acabei de terminar. Pode buscar Irene!)



Vim cantar sobre essa terra
Antes de mais nada, aviso
Trago facão, paixão crua
E bons rocks no arquivo
Tem gente que pira e berra
Eu já canto, pio e silvo
Se fosse minha essa rua
O pé de ypê tava vivo

Pro topo daquela serra
Vamos nós dois, vídeo e livros
Vou ficar na minha e sua
Isso é mais que bom motivo
Gorjearei pela terra
Para dar e ter alívio
Gorjeando eu fico nua
Entre o choro e o riso

Pintassilga, pomba, melroa
Águia lá do paraíso
Passarim, mundo da lua
Quando não trino, não sirvo
Caso a bela com a fera
Canto porque é preciso
Porque esta vida é árdua
Pra não perder o juízo


Monica Salmaso
(ouça aqui)
Composição : Ná Ozzetti / Itamar Assunção



Hej! Eu tenho que te dizer uma coisa e precisa ser hoje!


("I feel good", James Brown)

Hoje faz exatos 10 meses e 17 dias que eu embarcava em Copenhaguem cheia de malas para voltar ao Brasil! Ou seja, quase 1 ano!

Hum? E daí? Por que estou falando de um dia tão quebrado assim?

Porque foi hoje, minha gente, somente hoje, depois de tantos meses de volta que tchum! Aconteceu! Eu finalmente me readaptei!

Não! Eu não estava vegetando o ano que passou e nem fiquei parada. Na verdade eu não parei um minuto correndo atrás de pôr a vida toda em ordem de novo...

Não quer dizer que eu tenha apenas sofrido estando aqui até agora também. Não! Eu vivi, eu sorri, eu fiquei feliz por estar com os velhos amigos e a família querida e com minha pequena e amada familinha. Uma coisa, no entanto, eu não posso negar: eu nunca tinha conseguido estar feliz de ter voltado. Sempre foi nestes meses todos um misto de raiva com frustração. Uma chatice vindo de dentro e me fazendo olhar para tudo aqui e pensar: "lá era muito melhor!" No fundo doía em mim olhar para tantos problemas e se sentir incapaz de resolvê-los... Doía a saudade dos amigos de lá e não ter de volta uma vida tão cheia de novidades como era a vida sofrida, mas encantada da Suécia.

A verdade, amigos e amigas, é que deixar o Brasil em 2007 e ir viver na gélida Suécia não foi nem um pouco difícil. Ao contrário do que tanta gente pensa ir embora é muito fácil porque quando se muda tudo é novo. Desde a rua detrás da sua casa até o vizinho com quem você cruza num elevador... A língua, a comida, os cheiros, os sons, tudo! A gente se encanta, tem o que contar e coisas a descobrir. Difícil sempre é voltar ao mesmo. Voltar às pessoas com seus velhos problemas, ler as repetidas críticas nos jornais, assistir aos antigos programas e sentir que o tempo vivido fora pareceu 20 anos para você de tanto vivido, mas tanta gente aqui continuou exatamente na mesma lida, na mesma vidinha e não sentiu falta de nada. Então, voltar requer muito, mas muito mais paciência e dedicação. Requer perceber-se a si mesmo como estagnado, porque não readaptar-se também é continuar na mesma...

Bom, vocês ouviram minhas lamúrias nestes meses todos e elas foram muitas! Não estou dizendo que agora vou começar a dizer "ai que lindo meu Brasil brasileiro, meu mulato estrangeiro"! Não é isso, mas senti hoje, enquanto olhava pela janela do ônibus em direção ao quiropraxista e depois caminhando pelas ruas das Perdizes, meu antigo bairro aqui em São Paulo, sentindo os cheiros das padarias, o sol quente do nosso inverno, ouvindo os brasileiros sem odiá-los, sentindo-me finalmente brasileira que eu sou capaz de cantar novamente o Brasil (e não só a Suécia) em versos!

No final tudo dá sempre certo, porque a gente sempre se acostuma seja ao frio da Suécia ou aos problemões do Brasil.... O melhor, porém, é quando a amargura de ter que adaptar-se dá lugar a uma alegria tranquila de ter se readaptado.

Obrigada pelos ombros largos e ótima sexta-feira!

16 junho 2011

Somnia, a trapaiada


Gente!

Enquanto meu vizinho dá murros e grita "ah! não, Pô-rra!" porque o Santos está dando algumas bolas foras ali na final da Libertadores (é final né?), aproveito o ensejo para dizer o mesmo e avisar que fiz uma besteirona aqui e perdi todos os meus gadgets, toda minha lista de blogs, sites etc. Fui atualizar o template de um novo blog que estou construindo (não adianta perguntar que é surpresa!) e queria inaugurar ainda esta semana e peguei por erro o html do borboleta. Acreditam? E quando percebi... p...q...p!

Usei todo meu requinte e conhecimento em literatura. Apliquei a teoria do direito de Millôr do início até o fim!

Então peço, de início, paciência! Vou inserir com calma tudo de novo, os links de vocês, os breguetinhos todos mas até lá ...

Até lá...



O Direito ao Palavrão 

Millôr Fernandes

"Os palavrões não nasceram por acaso. São recursos extremamente válidos e criativos para prover nosso vocabulário de expressões que traduzem com a maior fidelidade nossos mais fortes e genuínos sentimentos. É o povo fazendo sua língua.


‘Pra caralho’, por exemplo. Qual expressão traduz melhor a idéia de muita quantidade do que ‘Pra caralho’? ‘Pra caralho’ tende ao infinito, é quase uma expressão matemática. A Via Láctea tem estrelas pra caralho, o Sol é quente pra caralho, o universo é antigo pra caralho, eu gosto de cerveja pra caralho, entende?


No gênero do ‘Pra caralho’, mas, no caso, expressando a mais absoluta negação, está o famoso ‘Nem fodendo!’. O ‘Não, não e não!’ e o nada eficaz e já sem nenhuma credibilidade ‘Não, absolutamente não!’ de modo algum o substituem. O ‘Nem fodendo’ é irretorquível, e liquida o assunto. Te libera, com a consciência tranqüila, para outras atividades de maior interesse em sua vida. Aquele filho pentelho de 17 anos te atormenta pedindo o carro pra ir surfar no litoral? Não perca tempo nem paciência. Solte logo um definitivo ‘Marquinhos, presta atenção, filho querido: NEM FODENDO!’. O impertinente se manca na hora e vai pro shopping se encontrar com a turma numa boa e você fecha os olhos e volta a curtir o CD do Lupicínio.


Por sua vez, o ‘Porra nenhuma!’ atendeu tão plenamente às situações em que nosso ego exigia não só a definição de uma negação, mas também o justo escárnio contra descarados blefes, que hoje é totalmente impossível imaginar que possamos viver sem ele em nosso cotidiano profissional. Como comentar a bravata daquele chefe idiota senão com um ‘é Ph.D. porra nenhuma!’, ou ‘ele redigiu aquele relatório sozinho porra nenhuma!’. O ‘Porra nenhuma!’, como vocês podem ver, nos provê sensações de incrível bem estar interior. É como se estivéssemos fazendo a tardia e justa denúncia pública de um canalha.


São dessa mesma gênese os clássicos ‘aspone’, ‘chepone’, ‘repone’ e, mais recentemente, o ‘prepone’ — presidente de porra nenhuma. Há outros palavrões igualmente clássicos. Pense na sonoridade de um ‘Puta-que-pariu!’, ou seu correlato ‘Puta-que-o-pariu!’, falados assim, cadenciadamente, sílaba por sílaba... Diante de uma notícia irritante qualquer um ‘Puta-que-o-pariu!’ dito assim te coloca outra vez em seu eixo. Seus neurônios têm o devido tempo e clima para se reorganizar e sacar a atitude que lhe permitirá dar um merecido troco ou o safar de maiores dores de cabeça. E o que dizer de nosso famoso ‘Vai tomar no cu!’? E sua maravilhosa e reforçadora derivação ‘Vai tomar no olho do seu cu!’. Você já imaginou o bem que alguém faz a si próprio e aos seus quando, passado o limite do suportável, se dirige ao canalha de seu interlocutor e solta: ‘Chega! Vai tomar no olho do seu cu!’ Pronto, você retomou as rédeas de sua vida, sua auto-estima. Desabotoa a camisa e saia à rua, vento batendo na face, olhar firme, cabeça erguida, um delicioso sorriso de vitória e renovado amor íntimo nos lábios.


E seria tremendamente injusto não registrar aqui a expressão de maior poder de definição do português vulgar: ‘Fodeu!’ E sua derivação mais avassaladora ainda: ‘Fodeu de vez!’ Você conhece definição mais exata, pungente e arrasadora para uma situação que atingiu o grau máximo imaginável de ameaçadora complicação? Expressão, inclusive, que uma vez proferida insere seu autor em todo um providencial contexto interior de alerta e autodefesa.


Algo assim como quando você está dirigindo bêbado, sem documentos do carro e sem carteira de habilitação e ouve uma sirene de polícia atrás de você mandando você parar: O que você fala? ‘Fodeu de vez!’ Sem contar que o nível de stress de uma pessoa é inversamente proporcional à quantidade de ‘Foda-se!’ que ela fala. Existe algo mais libertário do que o conceito do ‘Foda-se!’? O ‘Foda-se!’ aumenta minha auto-estima, me torna uma pessoa melhor. Reorganiza as coisas. Me liberta. ‘Não quer sair comigo? Então foda-se!’ ‘Vai querer decidir essa merda sozinho(a) mesmo? Então foda-se!’


O direito ao ‘Foda-se!’ deveria estar assegurado na Constituição Federal. Liberdade, Igualdade, Fraternidade e FODA-SE.’"

14 junho 2011

Na Suécia também não tem... babá de branco, nem de preto, nem de rosa, nem de...

(Pai e mãe querem sempre experimentar a dor e a delícia de ter filhos, família sueca típica, fonte: Sweden.se)

Suecos e suecas não são perfeitos. Nem o são sua sociedade, apesar da gente fantasiar que sim. É só dar uma olhada no número enorme de imigrantes, vindos de todas as partes do mundo, sobretudo da Ásia (e não pensemos apenas na Ásia Oriental, japoneses, chineses, coreanos etc, mas também a Meridional e no Oriente Médio) e de todo o leste euroupeu o qual executam grande parte dos trabalhos braçais ofertados no país. Suecos dificilmente aceitam trabalhos muito pesados ou de salário muito baixo e não é raro que se coloquem sob a guarda dos seguros desempregos até conseguirem o emprego desejado.

É bom lembrar o seguinte: a maior parte dos trabalhos braçais existentes no Brasil não existem ou normalmente ninguém paga para que outra pessoa os execute na Suécia. Alguns fatores são o alto desenvolvimento tecnológico do país, a super organização em quase todos as esferas sociais, o custo elevado para manter o salário, as taxas de contratação desses trabalhadores e a escassez deste tipo de serviço, já que podendo quase todo mundo optar* por estudar gratuitamente até a universidade há uma maior distribuição e arranjo para os mais variados tipos de empregos.

Isso quer dizer que não há uma massa enorme de pessoas trabalhando em serviços ditos braçais no Brasil porque não tiveram escolha. Há sim, mas a distribuição é equivalente a outros tipos de trabalhos.

Dito tudo isso de forma bem geral espero ser um melhor compreendida com o tema, cujo título deste post incita.

Mesmo tendo nascido e vivido no Brasil quase a vida toda, dos quais cinco haviam sido na cidade de São Paulo, antes de me mudar para Malmö no sul da Suécia, ainda há um (sem exagero) espanto quando olho pela janela da sacada do meu prédio e vejo tantas babás cuidando das crianças todos os dias. Incluindo os fins de semana.

No Brasil, sobretudo em São Paulo e outras cidades grandes onde a vida é muito corrida, nos acostumamos a viver com o ritmo enlouquecido e exigente de trabalho. Além disso, o trânsito caótico não deixa que as famílias estejam em casa antes das oito, nove, dez da noite, então a saída tem sido sempre e cada vez mais (apesar das reclamações dos preços e escassez das empregadas domésticas e babás) contar com a ajuda de terceiros para o cuidado da casa e das crianças.

Isso você já sabia não é? Todo mundo sabe, todo mundo vê. É nossa realidade e não dá para mudar, diria alguém conformado com a situação.

De fato parece-me mesmo que nós brasileiros não conseguimos enxergar outro modo de viver a vida senão assim. Somos tão fechados nessa única maneira de ter filhos, casa e trabalho que acreditamos viver o restante do mundo do mesmo jeito.

Na Suécia não tem babá? Não tem empregada doméstica? Então impossível! Como você conseguiu? Já me perguntaram muitas vezes.

Isso porque temos uma cultura do trabalhar é ser mais, trabalhar é ter mais. Temos também um desejo muito forte de "aproveitar a vida" por mais duro que isso possa parecer. Então sacrificamos os poucos anos da infância e da relação com os filhos em troca de uma vida social mais agitada.

Não à toa tenho encontrado babás (de branco) brincando com crianças em meu condomínio dia e noite. As babás da semana dão lugar para as babás do fim de semana. São folguistas as quais assumem os filhos dos meus vizinhos durante o tempo em que os pais querem descansar da árdua jornada da semana. Então eles entregam DE NOVO os filhos para outras pessoas cuidarem.

Quando voltei a viver no Brasil, há dez meses, fui convidada para uma festinha dos filhos de uma amiga, num Buffet Infantil (outra cultura entre nós moradores de grandes metrópoles) e como era verão tomei, sem pensar, as peças de roupas as quais eu vinha usando no verão na Suécia: calça pescador branca, blusinha regata branca, com uma camisete azul de bolinhas brancas e sapatilha de pano branca. Explico: na Suécia, bem como na Europa, preto é sinal do inverno e branco sinal do verão. Alguns outros convidados não sabiam se se dirigiam a mim como sendo a babá ou a mãe. Elas vinham falar comigo e olhavam minha cara branca e meu cabelo loiro tingido. "Você deve ser..." "A mãe!", adiantava eu.

Andando por cidades na Suécia, assim como em Malmö, você notará milhares de crianças pelas ruas. Não! Eles não são mais um país de velhos. Há uns vinte anos, diversas campanhas tem incentivado os casais a procriarem, o que incluiu nos últimos tempos licença parental (1 ano e 4 meses de licença para o casal, da qual o pai pode tirar até 3 meses), remunerada quase integralmte. Então, o "boom" de bebês que ainda está em alta tem colocado nas ruas bebês, crianças e... pais e mães com eles.

Em quatro anos vivendo na Suécia eu só encontrei, numa loja, uma mãe acompanhada da babá de suas crianças e elas (mãe e babá) eram brasileiras. Como eu a conhecia ela começou a falar comigo, enquanto deu ordem para a babá ir cuidar das meninas que tentava fugir. Assim, como se estivesse no Brasil.

A verdade é que se você pensar em contratar uma babá na Suécia precisará procurar muito por talvez uma estudante querendo algum dinheiro em horas vagas. Se conseguir essa maneira informal, no fundo proibida pelo governo, ainda assim você deverá pagar a ela por hora o que equivaleria a um salário de uns 5.000 reais por mês, ou seja, uns 40 reais por hora.

Seguindo à risca o que manda o figurino do Estado Sueco é preciso contratar uma empresa de babás e elas lhe custarão pelo menos o dobro da primeira alternativa.


Sendo assim, babás são raridade. As crianças, depois de completado um ano de idade (antes disso praticamente não há outra saída a não ser estar em casa com pai ou mãe) vão diretamente para as escolinhas (as Förskola ou Dagis). Estas são quase 100% públicas e não deixava nada a desejar para a escolinha particular boa que tenho pago aqui em São Paulo para o Ângelo. A criança deve estar na escola se e somente se o pai e mãe estiverem trabalhando ou estudando com prova confirmada. Caso contrário, deve estar com eles em casa.

escola, na compreensão sueca, é o lugar depois da família mais adequado à educação infantil. Educação é um dos pilares de sua sociedade, sem ela eles simplesmente não se entendem como gente. E educação vem, primeiro, de uma família bem estruturada emocional, psicologica e financeiramente. Depois vem de uma educação formal na qual se aprende a conhecer-se a si mesmo através do mundo.

(Ângelo, de gorro listrado, com o amigo Ahmad em passeio da escolinha pelo centro de Malmö, 2009)

Então é muito compreensível que no Brasil tenhamos as babás para ajudar se a escola não é a melhor saída encontrada pela família. Talvez o que soe muito mal, coisa não entendida por tantos, é entregar a educação dos filhos quase total a outra pessoa que não quem a gerou. Ademais, tratar esta pessoa tão importante e especial como nossos servos.

Se alguém tiver babá na Suécia eu estou certíssima, como 1+1 são 2 de que você nunca deveria carregá-la a tira colo vestida de branco, como ontem eu cruzei com uma mãe na rua de casa. Como num déjà-vú de algo ao qual nunca vivenciei, mas li, ela ia ao lado da babá (de branco) a qual empurrava o carrinho do filho da madame.

(Domingo de praia na Barra da Tijuca no Rio de Janeiro e os bebês são amamentados pelas... babás de branco, imagem: Café Viagem)

Talvez branco na babá, na Suécia, até passasse despercebido no começo, porque, como eu disse, branco não é a roupa do subalterno é a cor da luz que invade os meses mais quentes. Entretanto, uniformes, marcas claras de que alguém pertence a este grupo e não aquele são muito mal vistos pela sociedade sueca. Por mais que nós tentemos explicar a praticidade, a higiene, a economia em adotar uniformes brancos para as babás eles são a estampa de nosso passado escravocrata. E isso aparece em tantas atitudes impensavelmente imbecis nossas todos os dias, como bem notou Lola sobre o concurso do SBT da doméstica mais bonita do Brasil premiar a patroa. Eu não sou a única a dizer isso, nem a única a se horrorizar com essa atitude tida como chique no nosso país. Sem contar que as babás, lembrando o trocadilho de Caetano Veloso, em Haiti, são quase todas pretas ou quase pretas, ou quase brancas, mas quase pretas de tão pobres e pobres são como podres e todos sabem como se tratam os pretos e as pretas.

Ah! você ouviu dizer que os suecos são um povo preconceituoso também? Sim, há muitos. A enorme diferença é que se alguém se julgar superior a outro ele nunca, jamais em tempo algum poderá externar isso ao outro. Nem com gestos, nem com fala, nem com piadas (em casa, na rua ou em programinhas de TV). Nunca! Preconceito é crime e tentar ter uma sociedade igualitária é obrigação de todos.

Essas eram algumas das razões pelas quais os amigos e amigas suecos (e também outros europeus) não entendiam, não acreditavam quando eu narrava nossa realidade. E não compreendiam como nós brasileiros, nós paulistas podíamos viver uma vida a qual na verdade não vivíamos.

- Como? Mas eles não cuidam dos próprios filhos?
- O quê? As mães voltam ao trabalho depois de quatro meses?
- Como assim eles pagam babás nos fins de semana?

Essas eram perguntas não conformadas feitas por amigas minhas durante nossas conversas. Lá ninguém imagina que algo assim seja possível porque as mulheres com quem fiz amizade são filhas da nova geração sueca: elas aprenderam a conviver não só com o "babyboon" do país iniciado em meados dos anos 80 com as políticas às quais me referi de incentivo à paternidade e maternidade, mas também a viver numa sociedade cuja herança é senão a igualdade em todas as esferas ao menos o desejo dela e esforço cotidiano para que o seja.

Eu não diria que ter ou não babás seja um mal por excelência no Brasil. As realidades ainda são heterogêneas e não posso simplesmente querer a Suécia aqui, embora em tantos aspectos eu desejasse isso. Vejo, no entanto, um exagero tal como José Martins Filho, pediatra e professor da Unicamp, chama de terceirização das crianças brasileiras e uma inversão de valores que gera uma contradição entre pensamento e prática familiares muito grande: somos super partidários de compor famílias no esquema tradicional mãe, pai e filhos, mas tem-se a impressão de que muitas vezes desejamos tudo isso para ter o que expor no porta retrato, para não ficar para trás naquilo que esperam de nós.

Falta a uma massa gigante de mulheres e homens brasileiros compreender interiormente que ser pais e mães é mais do que conseguir um emprego para pagar-lhes a babá, a escola e brinquedos no final do mês. Ter filhos é comprometer-se não só com o futuro deles, mas também com o seu presente. E não se faz filhos saudáveis (em todos os sentidos do termo) sem dedicação.

Ao colocar filhos no mundo temos um compromisso com o próprio mundo, com a forma como nossos filhos lidarão com ele e com as pessoas. Ter filhos é uma questão ética e ter um país de primeiro mundo imclui muito mais do que ter garantidos direitos. Falta a nós brasileiros invejar da Suécia não os cabelos, os olhos loiros do povo sueco e entender como para estar no topo da lista dos países desenvolvidos é preciso deixar certas regalias e confortos de lado, é preciso acima de tudo saber cuidar das próximas gerações com zelo, educação e TEMPO.


...

* Cursar escola e universidade na Suécia é gratuito, não há concursos e a concorrência é tranquila. A dificuldade é na prova de proficiência da língua sueca, exigida para qualquer curso almejado. Essa é uma entrave à chegada de alguns imigrantes até a universidade. Para isso o governo sueco oferece cursos da língua gratuitamente em todas as cidades do país para quem estiver legalmente registrado.

13 junho 2011

A Corcunda de Notre Dame


(Lembrem-se crianças: não existe perguntas idiotas, apenas interlocutores)

Tem pelo menos quatro coisas das quais eu me lembro muito bem a respeito da minha infância na primeira escola:

1) Eu era muito alta e muito magrela,
2) Eu era fraca fisicamente e vivia mais internada do que em sala de aula,
3) Eu era extremamente cdf, isto é, adorava estudar, sentava nas primeiras carteiras, tirava ótimas notas apesar do item número 2 e
4) Eu já era corcunda.

Com estas características dá para imaginar como eu não era popular com a turma da sala, embora fosse a queridinha de muitas das professoras.

Eu era, por assim dizer, uma aluna fácil. Eu me matava para aprender, para recuperar notas, para provar onde residia meu valor etc. Até aí nada demais. Eu era só uma garota boba do interior tentando, de forma literalmente torta, ganhar meu lugar ao sol.

Exatamente pelo fato destes itens terem meio que caminhado comigo minha vida toda eu sinto que atribuo grande dose de culpa aos meus educadores daquela época por pelo menos quatro outras razões:

1) Nunca me disseram na escola que ser magra e alta seria uma enorme vantagem para mim no futuro, pois dificilmente eu precisaria lutar com balança e comida, enquanto provavelmente o fariam as escolhidas para serem a "moça bonita" da parlenda da laranja baiana.
2) Nem me alertaram para o fato de que crianças adoecem o tempo todo e ser doente numa fase da vida não necessariamente condena a gente para o restante inteiro dela.
3) Ou que desejar ardentemente ter algum livro em casa para ler ou gostar de estudar era algo bom devendo eu seguir meu desejo desesperado por aprender, aprender e aprender.
4) Que se encurvar toda para não tapar a frente do colega de trás era um jeito excelente de ter incríveis problemas de coluna na fase adulta.

Eu, cuja idéia sobre pessoas com problema na coluna do estilo "bico de papagaio" fossem só velhinhos e velhinhas de 97 anos estou enfrentando muitas dores nas costas, braços e mãos nas últimas semanas.

Sim, já estou me tratando e também pensando com meus botões e dores: as professoras e professores dizem as coisas que realmente são importantes para nós quando ainda somos pequenos e nós é que somos idiotas demais para não entender ou grande parte delas, na verdade, vive num mundo de faz de conta?

A gente vive repetindo que a escola piorou em muitos sentidos, como na capacidade de dar aos alunos formação ampla sobre o mundo, capacidade crítica de ler e escrever, mas ando pensando se no quesito olhar mais para os alunos e pensar no futuro de cada um deles de forma mais carinhosa não seja hoje muito melhor do que no passado?

Ou eu é quem continuo idiota demais?

07 junho 2011

700



Oi povo Bond se conversar!

Só para partilhar com vocês o sucessinho do Borboleta: o último post "Na Suécia também não tem ... fila preferencial" foi meu post de número 700 e fico bastante feliz e orgulhosa com isso.

Em quatro anos de blog este tem sido um canal para lá de emocionante para mim.

Não virei filme, mas me sinto sempre numa ótima aventura quando escrevo por aqui e posso partilhar algo com vocês!

Obrigada!

06 junho 2011

Na Suécia também não tem... que pegar fila indiana



Não! Não se deixe levar pela aparente inutilidade da afirmação!

Eu já havia escrito no blog sobre o fato de não existir filas preferenciais na Suécia, mas hoje lembrei-me de outra característica das filas lá!

Voltei agora pouco do Pão de Açúcar, um mercado adorável (e caro) que tenho na esquina de casa, onde fui para comprar presunto para nossa lazanha e me dei conta de uma coisa: na Suécia eu nunca peguei fila indiana.

Explico: se você vai a muitos lugares na Europa, mesmo em um lugar trés chique como Paris, por exemplo, para comprar pão de manhã, você irá ficar numa fila cheia de gente desejosa de comprar uma deliciosa baguete ou um croissant tal como você. A fila vai andando, o pessoal vai enfiando a baguete debaixo do sovaco até que chega sua vez.

Isso é o que acontece em quase toda padaria aqui no Brasil e também nas padarias ou açougues dentro dos supermercados brasileiros, falando apenas em lugares correspondentes aos que fui agora a noite.

Nosso sistema de filas é quase 100% indiano. Chamamos de fila indiana a fila em que uma pessoa fica atrás da outra esperando sua vez. Ao que tudo indica o termo foi cunhado na própria América fazendo menção aos índios que caminhavam na mata uns atrás dos outros. Em fila. Indiana.

Na Suécia, ao menos em Malmö, e diversas cidades por onde passei funcionava assim: se você for tirar um documento num setor público qualquer, ou se for comprar pão, se for comprar carne dentro do açougue do supermercado etc você simplesmente pega uma senhazinha. A mesma que usamos aqui apenas para bancos até onde tenho conhecimento, mas lá é quase generalizado. 

Pega-se senha para tudo quanto é lugar. Suecos adoram senhas organizadas. Brasileiros filas desorganizadas. A primeira não dá nunca, ou quase nunca, motivo de briga. Ninguém passa a vez de ninguém, como um mocinho tentou fazer agora pouco comigo no Pão de Açucar enquanto eu "bizoiava"  a prateleira do lado. Lá, você aproveita o tempo que tem para ir pegando outros itens, se estiver no supermercado, ou se estiver em outro, pode aproveitar para ler um livro, um jornal, coçar o saco etc.

(Senha típica para espera em filas suecas: "Bem vindo! Seu número é 553")

Na segunda você fica ali paradinho. Vai ficando aborrecido com a demora do moço que corta o presunto. Vai olhando pro relógio pensando que a lazanha vai ficar pronta sem o ingrediente porque você tá demorando demais. Vai pensando assim: e se eu escrevesse uma carta pro Abílio Diniz, aquele magrinho dono do Pão de Açúcar? E se eu explicasse como eu conseguia aproveitar meu tempo livre nos supermercados suecos para comprar tudo ao mesmo tempo: pão, carne e presunto sem ter que esperar terminar uma fila para ir lá e pegar outra? E se eu dissesse que nosso sistema é português! E pra ele usar a minha idéia porque a rede de supermercados dele é muito grande e com certeza os clientes com pouco tempo e saco como eu iriam amar ficar passeando ou comprando outros itens pelo mercado enquanto a senha do presunto não chama? E se eu acrescentasse assim: "Abílio, só tem  o seguinte: se a idéia pegar ce me dá um ano de supermercado grátis ou um prêmio em dinheiro qualquer, hum, hum? "

Bom, a carta não vai sair, inclusive porque Renato achou que ele nunca me pagaria! Depois da lazanha vi ainda um comentário de uma brasileira (Sonia Lefet) quem viajou a Malmö, me agradecendo num site sueco ao qual frequento, por dicas do blog etc. e pensei tanán! Vou dar a dica pro Abílio Diniz de qualquer jeito, imagina se ele lê meu blog um dia? E quer saber? Vou dizer à minha leitora e chará para prestar bem atenção, quando estiver lá na Suécia, nas maquininhas logo na entrada de qualquer canto por onde for. Não banque a boba! E não pare atrás de quem estiver por ali com cara de trololó! Procure e você vai achar! Pegue uma senha e pense em algo bem legal para fazer até ser chamada. Você pode ir comprar outros itens de outros setores ou paquerar o moço da banca do pão.

O que? Você não sabe sueco? Ui! esqueci de dizer: as senhas são super legais quando a gente já entende a língua, inclusive porque números é uma das coisas mais chatas de se entender alguém falar em outra língua. Inclusive ainda porque as senhas podem chegar a, sei lá, 553 (femhundrafemtitre), por exemplo, algo nada fácil de entender em sueco.

Então minha super dica é: pegue a senha e fique bem atenta na boca do indivíduo que pronunciar o número porque eles falam rapidinho e passam pro número seguinte em fração de segundos se ninguém aparecer você Pluft! Se enfia sorrindo como quem diz: chegou minha vez! 

Agora se você ficar indignada com o sistema, então é hora de aproveitar como eu uso tempo livre para bolar idéias mirabolantes e tente você também enviar uma carta pro dono do supermercado explicando que no Brasil a gente tem um sistema de filas o qual eles deviam copiar. É super legal e diferente chamado de fila indiana...

02 junho 2011

Na Suécia também não tem... vizinha andando de salto no andar de cima

(Na rua todo tamanho e estilo vale, sapato de verão da marca sueca H&M)

Meo!

Se tem uma coisa na vida capaz de me tirar literalmente o sono e a paciência é vizinha andando de salto alto na minha cabeça a noite e de madrugada.

Acabei de pensar nisso porque vi um recado do novo síndico para as moradoras que não descem do salto nem às altas horas da noite e porque estava lá acabadésima, louca para fazer a bebê Marina voltar a dormir para que eu também pudesse descansar e o som estridente do salto da provavelmente sempre elegante vizinha ressonava em nossos ouvidos.

Lembrei-me então do silêncio impagável de Malmö city. Of course! não tem como comparar lé com cré: São Paulo é por si só barulhenta dia e noite, 365 dias do ano, mas não se pode negar o quanto o hábito de não usar sapatos dentro de casa ajudava nesta questão.

Nunca ouvi barulhos de sapatos no andar de cima e isso, ah! isso era uma benção sueca!

Falei há tempos aqui sobre este costume europeu e de como os suecos respeitam a regra 100% do tempo.

As sapateiras ficam na entrada da casa, onde donos e visitas deixam suas poeiras. Nas casas e em vários outros ambientes também. Um exemplo são as academias. Como lembrara minha amiga Xu na outra ocasião, precisamos trocar de sapatos nas academias de ginásticas. Todo mundo deve carregar seu tênis limpinho, novinho, separado apenas para esta razão e colocá-lo no vestiário.

Em grandes empresas o sapato fica mantido, mas em hospitais, clínicas, laboratórios o pessoal todo usa umas sapatilhas de borracha também separadas só para uso interno e o que não é raro de se ver, meiões pretos por baixo delas. Hahai hihi...

Todos esses cuidados têm a ver com a necessidade de não entrar com chuva, neve, lama dentro das casas e lugares e também com manter mais facilmente o ambiente do lar limpinho e acolhedor. Então tem a ver ainda com o fato de quem vai dançar com rodo na mão no fim de semana na limpeza quase sempre são os próprios donos da casa.

Disso tudo eu havia falado naquele antigo post, mas eu havia me esquecido desta máxima contida na cultura e na ética sueca: "eu não devo, não posso, portanto não vou sapatear na cabeça dos meus vizinhos com meu salto agulha lindo, minhas botas sete léguas, galochas ou o diabo a quatro"! (Vejam como eu estou visivelmente irritada! :")

A carta enviada pela nova síndica de meu condomínio revela os problemas morais enfrentados todos os dias em convivência com brasileiros gersons: respeite a vaga do vizinho, a lei do silêncio, não use saltos em casa, não deixe animais sujarem elevadores etc etc etc.

(... mas dentro de casa, nunca, jamais, em tempo algum! meus pés e os de minhas queridas amigas em noite do pijama da mulherada, Malmö, 2010)


Aqui em casa adotamos a antiga sapateira sueca no nosso hall de entrada. Virou mania, não conseguimos usar sapato em casa, mas deixamos as visitas a vontade. Ainda assim, se (não for uma ocasião especial) e uma visita estiver de salto tarde da noite eu peço gentilmente para trocar por algum chinelo meu.

Há pouco eu comentava no blog da super Lola algo que tinha mais ou menos a ver com isso: a gente vive louco para conseguir parecer e agir como gente de primeiro mundo, mas em muitos casos tem a visão límitrofe. Pensa no próprio umbigo quase o tempo todo. E isso, mal sabemos nós, não tem nada de moderno. Nada de chique. Nada de civilizado. É mais antigo do que as sapatilhas de couro egípcias de mil anos antes de Cristo.

...



ps 1: Agora o povo quer saber: Qual o costume adotado em sua casa ou apartamento e o que você pensa sobre os "chatos e pouco elegantes" suecos e suecas?
ps2: Até o fechamento desta edição a mulher "elegante" do andar de cima continua indo de um cômodo para o outro e do outro para o um com o mesmo salto do início desta matéria.

01 junho 2011

Que tipo de tradição deve se manter de geração em geração?

(Ângelo aprendendo com minha avó Maria: depois de colher, escolher a manga mais docinha.., Sumaré, dezembro 2008)

No fundo da casa onde cresci no interior paulista havia alguns pés de manga. 
E eles eram gigantes. Os galhos grossos e fortes. 
A gente, eu e minha irmã, acompanhava a flor que virara fruta. E a fruta verde ir se colorindo de amarelo.
E então era hora de subir lá no alto e escolher a manga perfeita. 
Descascar e comer sem pratos e talheres.
Se deliciar com uma, duas, três...
A vida era doce, tão doce quanto as frutas da nossa mangueira...

(... e se lambuzar de doçura, Ângelo e eu, Sumaré, dezembro 2008)


(Marina começando as aulas sobre as coisas doces de seu país, S. Paulo, junho de 2011)