26 maio 2011

"Yo estaba bien por un tiempo...": acerca de nossa insistente angústia com o futuro

(Rebekah Del Rio, LLorando, versão para Crying, Roy Orbinson, para filme Mulhohand Drive, Cidade dos Sonhos)

Ontem, fiquei sabendo pelo blog de Glorinha, que Renata, 45 anos, uma blogueira a quem eu não conhecia, faleceu vítima de um infarto.

Seu último post foi a respeito do tempo, de sua angústia e incapacidade em controlá-lo.

Fiquei numa tristeza estranha, profunda, mesmo sem nunca ter dela sabido. Provavelmente por ser ela alguém comum como a gente. Triste por ter tido seus sonhos lançados ao vento e pela dor de sua família.

Num dia assim a gente se sente indefeso e percebe que a vida é sim muito frágil e fugaz. O futuro totalmente incerto.

O que nos resta então?
O agora.
O nosso e o daqueles a quem amamos.

Subitamente hoje acordei muito feliz, mais feliz do que normalmente sou, munida de uma felicidade necessária e pondo em dia minha lista de coisas das quais não desejo serem arrancadas pelo tempo.

...

Llorando

(versão espanhola de Crying)

Yo estaba bien por un tiempo
volviendo a sonreir
luego anoche te vi
tu mano me toco
y el saludo de tu voz
te hable muy bien y tu
sin saber
que he estado llorando por tu amor
llorando por tu amor
llorando por tu amor
luego de tu adios
senti todo mi dolor
sola y llorando llorando llorando
no es facil de entender
que al verte otra vez
yo este llorando
Yo que pense que te olvide
pero es verdad es la verdad
que te quiero aun mas
mucho mas que ayer
dime tu que puedo hacer
no me quieres ya
y siempre estare
llorando por tu amor
llorando por tu amor
tu amor
se llevo
todo mi corazon
y quedo llorando
llorando
llorando
llorando
llorando
llorando
por tu amor

música de Roy Orbinson,
interepretação de Rebekah del Rio

...

Crying

I was alright for a while
I could smile for a while
but I saw you last night
you held my hand so tight
as you stopped to say hello
you wished me well
you couldn't tell
that I've been crying over you
crying over you
and you said so long
left me standing all alone
alone and crying crying crying crying
it's hard to understand
but the touch of your hand
can start me crying
I thought that I was over you
but it's true so true
I love you even more than I did before
but darling what can I do
for you don't love me
and I'll always be crying over you
crying over you
yes now you're gone
and from this moment on
I'll be crying
crying
crying
crying
crying
crying
over you.

Roy Orbinson



24 maio 2011

Na Suécia também não tem... bebê com brinco na orelha


("Não tem brincos: é menino ou menina?", criança sueca posa para grife Polarn O. Pyret)

Nove em cada dez vezes que alguém no Brasil tenta ser simpático com uma grávida ou alguém com um bebê de colo a pergunta é sobre o gênero da criança. Menino ou menina? Já repararam?

Embora essa pareça ser a única pergunta possível para tanta gente, a verdade é que ela diz muito sobre nosso modo de ser e pensar e a importância que damos ao sexo e a escolha sexual de uma pessoa.

Tomemos outra situação: quando alguém olha para um bebê menino nas ruas no Brasil você acredita que haja alguma expectativa quanto a algum sinal, uma marca, deixando claro e evidente se tratar de um menino?

E quando encontra uma menina?

Bom, fato é que nossa menina Marina agora tem 8 meses e eu simplesmente não tenho condições de contar as dezenas de vezes em que fui parada nas ruas em São Paulo por alguém perguntando se tratar de uma menina ou de um menino.  Até aí nenhum problema! Bebês no começo não tem cara de nada, depois tem cara de ... bebês!. Ainda mais se tiverem pouco cabelo. O problema começa quando a pergunta vem 90% das vezes antes do comentário: "Ah! Eu não percebi porque ela não tem brincos!".

Decidimos não furar orelha de Marina e pôr  nela brincos por pelo menos duas razões:  1. achamos que brinco cai bem em uma mulher, é um ornamento mais adulto, algo do qual um bebê (não sei dizer quando ela for menina o que faremos) não tem nenhuma necessidade de ter e 2. somos fracos, não temos coragem e ponto final. Achamos cruel. Pensamos que submetê-la a dor só se extremamente necessário, como quando damos as vacinas e injeções as quais fazem sofrer todo pai e toda mãe.

("Uma criança linda... mas que pena que não tem brincos para sabermos se ela é menino ou menina..." criança sueca posa para grife Polarn O. Pyret))

Ontem, ao cruzarmos com uma vizinha a quem eu não conhecia no jardim ela dirigiu a pergunta mais repetida e batida da atualidade, olhando para Marina quem ocasionalmente estava com uma blusinha branca de florzinhas cor de rosa, calca vermelha e meia azul e cor de rosa:- É uma menina? Antes que eu respondesse uma falante babá o fez por mim. A mesma, quem havia dito outro dia para mim, através de conversa com a bebê Marina, o quanto era absurdo que a mãe dela (eu) não colocasse brincos na coitadinha, como toda menina deve ter. Disse ela: "é menina sim!, mas "a mãe" não gosta de brincos!"

A mãe de novo era eu. E eu estava ao lado dela...

A verdade é que eu AMO brincos! Sou a mulher quem mais teve brincos na face da terra e dispenso colar, anel, pulseira, relógio mas nunca meus brincos. Pequenos, grandes, coloridos, argolados, prateados, todos! Desde quando furei as orelhas aos 15 anos de idade. Outra verdade é que eu nem mesmo sou  contra brincos nas crianças dos outros. Sou contra a OBRIGAÇÃO, a IMPOSIÇÃO de se pôr brincos em uma bebê ou em uma criança. Sou contra que todo mundo com quem eu cruze na rua se ache no direito de exigir brincos numa bebê para conseguirem reconhecer seu sexo.



(Foi esquiar e ninguém sabe se é uma menina ou menino... porque coitadinha a mãe não lhe furou as orelhas!",  criança sueca posa para grife Polarn O. Pyret)) 


Essas intervenções todas no meio da rua, no supermercado, no jardim, no elevador etc tem me lembrado de novo... a Suécia! Embora lá as intervenções absolutamente nunca existissem. E certa vez, quando eu e Renato, conversando sobre modos e costumes brasileiros com nossa amiga Paulina, uma jovem advogada sueca grávida de uma menina, casada com um outro jovem advogado dinamarquês de pais iranianos, acabamos por comentar meio do nada como era comum as mães furarem as orelhas dos bebês, quando estes eram meninas aqui no nosso país.

A cara de quase espanto, para não dizer horror, de Paulina foi automática. Furar a orelha? Com muito jeito minha amiga disse que tal ato a lembrara algumas tribos e não tinha conhecimento de ninguém de seu convívio na Suécia quem havia feito o mesmo.

Parece exagero? É eu também me choquei e até me senti ofendida com tal afirmação sincera. Não é nada comum alguém usar de qualquer marca para distinguir um menino de uma menina na Suécia, porque qualquer tentativa disso é muito mal visto pela sociedade. Funciona o contrário. As tentativas são de deixar que as pessoas sejam apenas pessoas. Elas não são melhores por serem meninos ou homens, meninas ou mulheres. Elas devem ter mesmos direitos. Devem ser vistas sob a mesma ótica. A de que são indivíduos e merecem respeito. O menino não é impelido a ser o durão, o conquistador e a menina a ser a conquistadada, a presa do lobo. Por isso se não há marcas, nem brincos diferenciando meninos não haverá para meninas. Ao menos enquanto elas não pedirem por um.

A prova disso pode ser conferida numa famosa grife adorada por pais e mães suecas, Polarn O.  Pyret. Esta faz questão de ter roupas multicoloridas para ambos os sexos e tentar "camuflar" os batidos rosa e azul em listras, desenhos, cores que ressaltem a criança e não seu gênero sexual. Nem mesmo separação por meninos em meninas é possível encontrar em seu site de compras. As divisões são feitas por idade apenas.

Outra prova da quase necessidade da sociedade sueca em tentar manter-se indiferente quanto ao gênero é o fato de 8 ou 9 em cada grávida optar por saber o sexo do neném apenas após o nascimento da criança. Além das enfermeiras realizadoras dos ultrassons se mostrarem meio ofendidas quando insistimos em perguntar o sexo do neném durante exame do terceiro mês. Elas poderão rapidamente responder se questionadas sobre isso, mas farão questão de marcar o objetivo do utlrassom: saber se a saúde do bebê está okey.

(Marina, sem brincos, pronta para passear e pirar o cabeção do povo nas ruas, S. Paulo, abril 2011)

Em quatro anos vivendo lá eu não me lembro mesmo de ter visto alguma menina bebê de orelha furada e talvez vocês que vivem aí há mais tempo possa me contradizer ou corroborar o que eu digo.

O brinco como adorno obrigatório em uma criança é um costume brasileiro. Entende? É um comportamento adquirido, seguido, cobrado como se fosse obrigatório e universal, mas não é.Talvez seja também a verdade em outros países, latinos ou não, mas é uma escolha (da qual gostemos, admitamos ou não) tem a ver com a necessidade de feminilização, sensualização da mulher, típica de nosso país.

Até onde me lembro todas minhas amigas queridas daqui, mães de meninas, furaram as orelhas de suas pequenas, algumas no desejo de as deixarem mais bonitas, outras de pouparem o sofrimento quando estiverem ainda maior. Outras de se orgulharem por terem uma menina e poderem mostrar isso para os outros. A verdade é que isso não me diz respeito, embora eu possa afirmar que também ache uma graça os brinquinhos nas meninas.  Não é esta a questão. Vocês estão me entendendo?

Poderíamos então simplesmente finalizar o assunto, afinal como sempre encerra o senso comum qualquer discussão sobre diferenças culturais seria "lá é desse jeito, aqui é de outro jeito" e... ponto final. Eu, entretanto, vejo nesta pequena mania de cobrar brincos de bebês meninas nas ruas algo que reafirma o machismo tão enraizado na nossa cultura. E nisso nós temos muito a aprender com a Suécia.

Uma criança não precisa já ser estereotipada desde tão cedo. Não há nada em um brinco que possa valorizar mais uma bebê do que outra. Diferenciá-la e marcá-la como fêmea pode colaborar bastante em deixá-la bonitinha, mas não deve ser um apelo. Nem uma obrigação. A obrigação é castração. Tolhe a liberdade. Da mãe, da criança. E a gente já sabe o que acontece com mulher cuja liberdade é tolhida desde cedo. No futuro olhares, maridos machistas a esperam, obrigações entendidas como apenas para mulheres e uma sociedade que lhe pagará menos pelo mesmo trabalho exercido.

Certas discussões são estéreis se na prática agimos de modo tão diferente: igualdade e liberdade começam sim desde muito cedo a se ensinar, com ou sem brinco na orelha.

22 maio 2011

Crescer dói

(Peraltices no jardim, Ângelo, S. Paulo, maio de 2011)

Semana passada no tapete preto fofinho da sala, rolávamos eu, Marina e Ângelo. De repente, uma conversa filosófica:

- Mamãe eu sou maior do que a Marina!

- É sim Ângelo. Bem maior!

- E a Má vai crescer e ficar do meu tamanho!

- Vai sim meu amor, mas aí você já vai ser bemmmm grandão!

- Nãããooo..., indignado.

- Vai sim..., rindo.

- Mas eu não quero!, decidido.

- O que você não quer?

- Eu não quero crescer mamãe! se aconchegando nos meus braços com voz desolada...

- ... mas Ângelo... todo mundo cresce meu amor... A mamãe também era pequena e cresceu, o papai... todo mundo... É legal crescer também porque a gente pode fazer um monte de...

- Não! Eu não quero crescer! Eu não vou crescer mamãe..., decide ele, embora sabendo que sua decisão não lhe daria tais poderes, e me abraça bem apertado.

Ah! Se eu pudesse parar o tempo...


20 maio 2011

"Faltando um pedaço" ou machismo tem cura?


("Faltando um pedaço", Djavan)

O segundo episódio de SOS Casamento colocou na arena sexta-feira passada um casal cujo modo de se tratar era tão desolador que me deixou com uma pulga bem grande atrás da orelha: é possível curar o machismo em uma pessoa?

Sérgio é o tipo de homem quem põe tudo dentro de casa, no sentido financeiro do termo. Andréa, a responsável única pelo cuidado da casa e dos filhos. Os dois parecem ter se conhecido e fundado sua família no mesmo alicerce que nossos avós e também os meus pais ainda fundavam e pareciam também ter funcionado por um bom tempo até que tais papéis foram sugando o indivíduo existente em cada um. Um modelo ainda bem primitivo de relação se se tomar em conta a forma como Sérgio encara sua esposa e a família: como ele paga pelo sustento deles ele acredita que tenha posse sobre eles e que estes devem, portanto, agir conforme suas expectativas.

Andréa, por outro lado, cumpre bem o papel de esposa submissa, pois por mais que reclame da situação e faça uso das palavras para mostrar como se sente frustrada, aceita o papel dado pelo marido. Já não trabalha fora há anos e evita lugares que possam gerar ciúmes no marido.

O ciúme é, aliás, a forma como cada um acredita oferecer provas do amor pelo outro, além do sexo.

O casal ia muito mal, obrigada, até começar seu compromisso com o programa de quem tivemos notícia semana retrasada através da história de Salete e Edenílson. E no início a gente fica se perguntando se aquele casamento ainda tem salvação?

De novo, neste episódio (o qual só assisti ontem no site do SBT), bem como no primeiro, a transformação tanto de Sérgio quanto de Andréa são de deixar a gente com o queixo caído. E de novo não se trata de encenação para Big Brother ver. Os dois parecem mesmo aprender com o que lhes é mostrado... É bonito de ver como as vezes uma frase, um depoimento, um toque na hora certa do modo certo pode fazer a pessoa simplesmente tentar olhar de modo diferente para tudo e para si mesma.

É emocionante ver que o brutamontes Sérgio tem coração. Apesar de seu machismo latente, aprendido e assimilado como verdade, ele ama sua mulher. Fato é que Sérgio parece ter se esquecido disso. Esqueceu-se inclusive de que com os anos deveria continuar a elogiá-la, cuidar dela mais do que pagar-lhes as contas e comprar-lhe comida. Deveria ver nela não a dona de casa, a mãe, mas a Andréa com quem ele decidira viver junto um dia.

Andréa, cuja revolta só se via nos chingamentos dirigidos ao marido (em frente aos filhos todos) é obrigada, em uma das dinâmicas, a olhar para si mesma e se ver sem marido e sem filhos. Totalmente vazia, afirma ela... Então, mas onde fica a Andréa quando não é mãe e nem esposa?, questiona Ana Canosa.

Andréa não mais existia...

Aquela mulher tem o problema da maioria das mulheres esposas e mães. A vida no casamento suga-lhes tanta energia e dedicação que elas esquecem de si mesmas. Nós nos esquecemos de nós mesmas! e esquecer de si mesma e amar demais (os outros) parece ser o problema de muitas mulheres e não exclusividade de Andréa.

De forma geral, o comportamento dos indivíduos desta relação amorosa não é exceção. Você poderá identificar muitos outros homens no seu círculo de relacionamento agindo da mesma forma: um vizinho, um tio, um irmão, um pai ou o próprio marido... Poderá facilmente ver muitas Andréas que se anulam para cuidar da família e, depois, como não sabem como sair do círculo vicioso no qual se meteram usam contra a mesma família alguma forma de ódio.

Normalmente vem do reclamar de tudo. Do jogar na cara! Do que se faz dia e noite por todos eles sem nenhum reconhecimento. Você talvez veja uma amiga, uma prima, uma cunhada, sua mãe e... quem sabe, em certos momentos, você mesma.

Como escapar desses papéis de dominador e dominadas em que nos colocaram? Como não repetir o comportamento autoritário e submisso aprendido?

O programa dá algumas dicas e é preciso refletir bastante em cada uma delas... É preciso agir a partir delas: tratar o outro como companheiro e companheira, com respeito e carinho. Não cobrar o tempo todo, buscar reconhecer o que o outro faz para mim e para a família. Entender as necessidades do outro e não se iludir achando que somos suficientes para sua felicidade. Manter o romantismo apesar da corrida e estressante vida em família...

Me emocionei com o durão Sérgio se emocionando ao longo das dinâmicas aplicadas a ele e sua mulher. Sua mudança (não sei se duradoura ou não) é clara e evidente. Seus olhos vão mudando de brilho quando olha para Andréa durante o programa, pois a cada intervenção da psicóloga presente ele parece ter pensado pela primeira vez em sua vida que ele não era dono da verdade e que seu comportamento, compreendido por ele como único e típico de um macho, poderia, deveria ser outro caso não quisesse se ver sem ela e sua família no futuro.

É muito bonito mesmo de se ver como o toque de suas mãos ao dançar com Andréa revela sua paixão (ou seu tesão, nas palavras dele) de novo acendida. E como Andréa ansiava por ser vista: como pessoa, como a mulher que havia encantado aquele homem tantos anos atrás, como a mãe dos seus filhos e sua companheira. Na admiração e amor dele ela parece se ver de novo e tem orgulho do que vê.

O programa de ontem me fez ter muita vontade de poder rever estes casais daqui um tempo. Eu acho realmente uma falha nos programas deste estilo que a gente não possa acompanhar se as transformações duram ou não. Semana passada uma querida amiga minha, também psicóloga, me disse duvidar da longevidade de tais mudanças de comportamento, porque não há tempo para que elas sejam mesmo profundas como deveriam ser. De fato o formato corrido, a pressa nas falas dá certa angústia. Eu, ao menos, teria o desejo de ouvir o que cada um realmente aprendeu com tal e tal dinâmica, como tem se visto, tem se percebido. Exigir isso, entretanto, é como exigir que as músicas populares tenham 6 minutos ao invés dos rotineiros e vendáveis 3 minutos. É um programa de televisão e há que se pautar por isso.

Eu penso que embora seja um formato curto mudar a direção errada, buscar um outro comportamento já é uma enorme vantagem para os casais participantes do programa... E se forem fiéis ao desejo de mudança quem sabe não há mais futuro neles do que antes disso?

Como no primeiro caso, Ana Canosa e sua equipe puseram ali uma sementinha de esperança para aquele casal que vivia, segundo ela, como uma panela de pressão prestes a estourar...

O estouro foi evitado. Alguns óculos para ver que a vida a dois não deve ser uma tortura para cada um e que o passado deve ser deixado no passado. A vida deve seguir sem mágoas porque revivê-las é sofrer duas vezes, diz ela... É impedir a felicidade do outro, dos filhos e de si mesmo.

Meu texto sai meio atrasado, quase a tempo de começar o próximo programa o qual eu não verei já que nossa única tevê está sendo dominada por Ângelo agora e os Mecanimais. E quem quiser conferir como televisão pode servir a alguma coisa mais do que apenas busca imbecil por ibope, rever ou ver na íntegra os episódios passados é só clicar neste link aqui e assitir.

Bom programa e bons sonhos, literalmente falando, para vocês!

19 maio 2011

É possível ter a vidinha de Malmö em São Paulo?


("Casa no Campo", Elis Regina e Zé Rodrix)

Hoje de manhã saí empurrando Marina no carrinho a todo vapor para vaciná-la contra a gripe e voltar antes de Renato sair para trabalhar, já que Ângelo está em casa gripadíssimo.

Foram só uns 3 minutos caminhando, mas muitas coisas me vieram à mente sobre como temos tentado trazer um pouco da vida calma, super pacata levada em Malmö (+- 273.000 habitantes), na Suécia, para a nossa nova casa em São Paulo que é nada menos do que a quarta cidade mais populosa do mundo só perdendo para as cidades de Tokyo, Seul e México.

Se é impossível? É bem difícil inclusive porque a maior parte dos itens responsáveis para se ter realmente qualidade de vida, como segurança por exemplo, não depende exatamente de um desejo ou uma postura apenas nossa. Entretanto é sim possível reproduzir algumas atividades e se adequar para não se sentir tão frustrado e ser mais feliz com o que se tem.

Alguns exemplos dos quais me lembrei na rápida caminha de hoje:

Em Malmö:

- eu fazia tudo de bicicleta, a pé ou de ônibus. Carro só nos fins de semana ou para distâncias grandes.
- passeávamos de trem nos fins de semana.
- íamos aos parques e praia fazer piquenique praticamente todo santo dia da primavera e do verão.
- estávamos sempre com gente em casa fazendo festa, sobretudo se o tempo fora não ajudasse a sair de casa.
- as compras de supermercado eram feitas a pé e em pequenas quantidades. Evitávamos grandes supermercados que, aliás, não são a regra lá.
- as crianças eram acompanhadas pelas enfermeiras da saúde pública próximo de casa, já que na Suécia o sistema todo é público.
- reciclávamos lixo e eu vivia pegando móveis do lixo dos vizinhos e reformando.


Em Sampa:

- com a família grande e a necessidade de se mudar escolhemos um bairro mais plano que o anterior onde era só ladeira, assim conseguimos fazer quase tudo a pé, inclusive com as crianças.
- eu uso o bairro para tudo: vou a pé ao supermercado bem bom na esquina do nosso prédio com Marina no carrinho e trago tudo nele, assim como farmácias, bancos, lojas, restaurantes, bares etc.
- Renato usa o dia do rodízio para ir de trem trabalhar. E tem gostado muito! Ele até já fez passeios com Ângelo no metrô no fim de semana para apresentar a ele os trens em São Paulo.
- eu uso ônibus e metrô para destinos onde há linhas suficientes.
- aos domingos ele pega as crianças e explora a feira livre na quadra debaixo. Frutas e legumes fresquinhos, comprados enquanto se passeia.
- uso o postinho público super caprichadinho há duas quadras para pôr em dia as vacinas da Marina, algo inclusive indicado pelo pediatra particular quem garantiu qualidade das vacinas no Brasil.
- Ângelo manteve sua bicicleta e pedala quase todo fim de tarde.
- ao menos uma vez por semana faço piquenique com as crianças embaixo das árvores centenárias do condomínio. Um presente para quem mora numa cidade como esta!
- temos reunido os antigos amigos brasileiros quando possível em casa para que a festa que era nossa vida na Suécia com filhos continue aqui também...
- continuo reciclando lixo, embora aqui o sistema de coleta não seja nem claro, nem organizado suficiente.
- continuo reformando móveis e usando o máximo do que temos de antigo para evitar novas e dispensáveis compras.

Se é pouco para conseguir comparar um local com o outro é suficiente para tentar ter aquela "casa no campo" no lugar onde habitamos agora afinal a gente já plantou suficiente para garantir certa paz... Aqui temos os livros, os filhos, os amigos e tantas coisas mais...


E você? Onde você vive é possível ter alguma qualidade de vida? O que você tem feito para conseguir escapar às armadilhas estressantes das cidades grandes ou da vida moderna?


18 maio 2011

Síndrome de Homer, episódio no. 2: A Rainha do Fora


Vejam bem se vocês não vão concordar comigo...

Depois do recente episódio do carro no estacionamento, ontem, eu respondia um email cujo título era "parei no tempo e no espaço" de minha amiga Xu, quem eu conheci na Suécia, mas agora vive no Japão e tem andado muito atarefada, viajada etc.

De minha parte eu tinha outras razões. Muito cansaço, noites mal dormidas etc não são novidades para quem tem criança pequenininha em casa. Certo? E duas crianças, durante o inverno (ainda que seja inverno no Brasil) então? Tem trabalho de montão, cansaço demais e sono de menos.

Eu, entretanto, não perco a compostura e tentava ter com ela uma conversa (escrita) de gente normal... foi aí quando emendei uma frase dizendo como o lance do vulcão recente do Japão deve ter tirado o sono dela etc etc...

Vulcão? Não... "não aconteceu nada com vulcão nenhum (por enquanto) por aqui... foi SÓ terremoto e tsunami, respondeu ela com um monte de kkkkkkk junto.

Foi aí que me dei conta! Eu sei que não houve vulcão em erupção recentemente no Japão! Misturei o vulcão da Islândia com o terremoto do Japão!

Imaginem como depois de tudo um vulcão não iria mesmo tirar o sono da coitada!

Eu realmente devo estar precisando urgente de memoriol, ou dormir mais ou quem sabe só trocar menos fraldas e limpar menos bundinha...

Diz aí se eu não sou a melhor Rainha do Fora e a pior personificação da Síndrome de Homer da qual vocês tem notícia?

16 maio 2011

Na Suécia também não tem... problema de dar de mamar em público

(Amamentando Ângelo em praça na frente de Museu em Göteborg, Suécia, 2007)

Provavelmente vocês também ficaram sabendo do "Mamaço", uma manifestação feita por mais de 50 mães no Itaú Cultural como protesto à proibição sofrida pela antropóloga Marina Barão de amamentar seu filho no local, em março passado.

A notícia me trouxe à tona novamente algo que sempre me marcara na vida na Suécia e da qual por muitas vezes pensei em trazer para vocês: a questão da amamentação em público.

Ângelo, meu primeiro, nasceu lá, como vocês também sabem. E talvez o fato de ter aprendido a ser mãe e aprendido a amamentar por lá tenha me dado um desprendimento para amamentá-lo em público ao qual infelizmente muitas mulheres brasileiras são privadas. Declarada ou mascaradamente.

Por um ano e meio eu andei pela Suécia, por suas inúmeras cidades, restaurantes, bares, museus, shoppings e praças públicas. Por onde quer que ia não havia nenhuma dúvida. Ângelo com fome, eu sacava o peito de onde tivesse e o amamentava. Assim, sem problema algum. Assim, sem nenhum olhar masculino tentando se deliciar do peito da mãe alheia. Assim, sem nenhuma senhora me olhar como quem olha um mãe meio abusada. Assim, sem nenhuma cobertinha vindo tampar metade do peito de fora.

Eu só não tenho muitas fotos para mostrar porque, por mais forte que fosse meu desejo eu ainda tinha uma alma colhida e tolhida no Brasil, então as fotos são sempre discretas e poucas.

Amamentei o menino por quase um ano e meio no peito e durante este tempo praticamente todos os dias o fiz também fora de casa. Lembro-me de uma única vezinha que percebi um cara me secando todo nojento lá de cima de um andar do shopping center. Nesse dia, lembro-me de virar-me para outro lado e de ter me incomodado muito.

Essa naturalidade nunca, digo NUNCA sem medo de errar, foi verdade aqui no Brasil. Nem com Ângelo, quando vínhamos de férias, nem com Marina quem amamentei por 6 meses. Em casa de parentes indispensável uma fralda grande para tampar os peitos e não parecer folgada demais. Numa festinha em Buffet infantil? Por favor não tenha o dispudor de tirar seu peito para fora na mesa onde todos estão. "Senhora, há um berçário logo ali onde pode amamentar!", disse-me não uma, mas várias mocinhas funcionárias de buffet infantil no Brasil. Então sempre fui eu para um cubículo, de portas fechadas, fazer aquilo que não se deve fazer em público.

Vejam só que contradição: a mesma cultura do biquini que permite fio dental em praias familiares não gosta de ver peito de mãe sendo sugado por criança.


(Amamentando Ângelo em restaurante em Helsingorg, Dinamarca, 2007

Na sua casa enquanto recebe visitas? Olhares. Num restaurante? Olhares. Numa praça? Olhares. Num banco de shopping? Mais e mais olhares. De homens tarados. De mulheres também preconceituosas. De crianças curiosas. Isso porque no Brasil eu nunca me atrevi a amentar sem usar as tais fraldinhas do medo.

Digo isso também sem medo de errar porque eu me lembro sim de ter recebido um ou outro olhar na Suécia de algumas velhinhas, acho que umas duas, e elas me abriram um sorrisão, baixaram assim fazendo um de levinho a cabeça em afirmativo como quem diz: "Isso, minha filha! É assim que se faz! Amamente seu filho no peito!". Nunca! Digo, nunca, um olhar de reprovação. E eu juro que foram centenas de vezes!

O fato ocorrido no Itaú Cultural e a proibição burra feita pelo funcionário sob ordens da empresa não é, ao meu ver, algo isolado no nosso país. Infelizmente. É só resultado, como quase tudo, de uma cadeia de pensamentos e idéias ligadas à nossa cultura.

Peito no Brasil é quase sempre sinônimo de: "partes sensuais" só perdendo para as nádegas.
Tal idéia se apresenta nos mais variados grupos e geram tendências de comportamento:

- os tarados de plantão acabam por coisificar o peito e entendem que o único objetivo desta glândula feminina é a satisfação sexual do macho, nem que seja apenas visual.
- as carochinhas e os conservadores acreditam que o ato de expor o peito e amamentar um filho em público seja normalmente feito por uma mulher que tenha, claro!, o desejo de despertar o apetite sexual dos tarados de plantão.
- as desesperadas por forma física não só deixam de amamentar em público como também em ambiente privado, passando a tarefa para a mamadeira e as babás as quais provavelmente não amamentaram suas crias por verem na patroa um bom exemplo do que seja uma mulher moderna-chique, capaz de não tirar crítica das carochinhas e dos conservadores bem como de atrair os olhares dos tarados de plantão.


(Eu, cabadinha, mas "firme e forte" amamentando Ângelo na praça junto à Universidade de Lund, Suécia, 2007


Obviamente também deve haver tarado, carochinha, conservador e loucas pela forma na Suécia, mas se vocês tiverem a opotunidade de passear pelo país verão não dezenas, nem centenas, mas milhares de crianças sendo amamentadas pelos espaços públicos. Tem a ver com o fato dos homens lá (para felicidade de muitas e infelicidade de algumas) não olharem de jeito nenhum para uma mulher como se ela fosse um objeto. Nada de "fiu, fiu", "ei! gostosa!" ou simplesmente aquela encarada animal (em todos os sentidos). Nadinha de nada! E isso tem a ver com conquistas de igualdade que a sociedade sueca vem conseguindo ao longo de muitos anos.

Colabora ainda o fato da sociedade de lá não ter todo o apelo (ou da obrigação) da sensualidade como a nossa. Por isso não só em praias como em praças públicas as pessoas trocam de roupa, como tirar o sutiã e colocar o biquini rapidamente, em público. Por isso o topless é autorizado, mas não a cerveja. Fazem com naturalidade. Chocam os desinformados da situação, mas entre eles é bem naturalzão mesmo.

Eu sou meu corpo. Meu corpo sou eu. Não somos um pedaço de carne cujo único objetivo é provocar o sexo oposto.

A cultura de não amamentar em público não é privilégio do Brasil. Quando estava visitando minha amiga Lujan, em Londres, quem também precisava amamentar seu bebê Téo, fui avisada por ela de que não seria legal que a gente o fizesse no lugar onde estávamos, pois algo assim é compreendido como falta de respeito e educação com o restante. Não sei mais do que isso, portanto não posso sustentar uma tese sobre isso nem descer a lenha na cultura inglesa. Por favor o faça quem vive por aí para a gente saber!

Sobre o assunto no Brasil creio haver ainda outros aspectos os quais ajudam a explicar nossa cultura de não amamentar em público e acredito que o maior deles seja a cultura do não amamentar.

Basta fazer uma pequena ronda pelas nossas maternidades, sobretudo as particulares e bem caras, e perguntar para as enfermeiras de plantão como lidam as mães modernas e chiques com suas crias recém saídas de suas barrigas (é bom lembrar, de cesareana em 99% dos casos). Você provavelmente vai ouvir como elas se dedicam bastante a cuidarem dos cabelos, das unhas e a receber convidados na maternidade, menos a cuidarem de seus próprios bebês e amamentá-los. Isso, entretanto, é deveras complicado e já assunto para outro post...

E que me desculpem as muitas mães dedicadas, conscientes e "amamentadoras" de plantão porque embora eu sinta muito orgulho de vocês bem como de manifestações como o "Mamaço" acho que cutucar outras feridas de vez em quando ajuda a sentir orgulho no peito. E (desculpe se não consigo evitar o trocadilho) dos peitos da gente!

...


Agora é com vocês porque o povo quer saber!

Como é a cultura da amamentação e da amamentação em público no lugar onde você vive? Qual a sua opinião sobre o tema?

13 maio 2011

Prefácio Esperançosíssimo


(Lhasa de Sela, Rising)


"Havia uma tristeza que eu não sabia ao certo de onde vinha.
Um medo latejando bem no centro do peito
Que ardia.
Havia um nó de marinheiro na garganta
Gasta, de tanto gritar.
As mãos trêmulas e pernas que não obedeciam.
Estáticas.
Presas ao solo que se desfazia.
Havia granizo, vento, vidros, lascas, pulsos, corações, fragmentos
Explodiam.
Numa fração de segundo me dei conta, tentando me apoiar no vazio.
Era o mundo. O meu.
Que ruía."

Trecho de "Ele não sabia dançar", Ed Cruz.


"Ed Cruz tem uma chaga aberta. Seu coração pulsa e pulsa num peito aberto. A vida quase não lhe cabe. Tudo é intenso demais, porque viver não é simples. Nas páginas de "Ele não sabia dançar" temos o encontro com seu Eu mais verdadeiro. Talvez um pouco fantástico, mas Ed Cruz só sabe ser com intensidade. Chega a São Paulo fugindo da quase mutilação que uma vida no interior paulista poderia lhe proporcionar, mas é para lá que o Ed sempre volta. A vida corre, o tempo passa, algumas cicatrizes se curam, outra arderão a vida toda. E o mais difícil é quando não se sabe apenas entrar no ritmo da música... "

Prefácio imaginário, esperançosíssimo, de Sônia Maria de Carvalho ao livro ainda não publicado de Ed Cruz, Ele não sabia dançar.

...

Há uns 3 meses um querido amigo me enviou um livro, de umas 200 páginas, escrito por ele em umas duas semanas. Devorei cada página de sua louca, sofrida e corajosa quase-biografia, corri com a leitura para chegar até o final e liguei para ele aos prantos dizendo: "você precisa publicar!". E é isso... Hoje ele me mandou a música do vídeo acima e fui pegar o livro guardado em meu armário. Creio que fui a única pessoa a lê-lo todo. Ed tem feito segredo e, embora todos os amigos estejam loucos para ver o livro publicado e comprá-lo, meu amigo não acredita no poder de suas palavras.

E aí, ao som dessa fantástica Lhasa de Sela, num vídeo enviado a mim pelo Ed agora pouco, eu viajei num prefácio cheio de esperança, porque mais difícil que uma Editora querer publicar o Ed é ele acreditar em si mesmo. Como quase todo profundo escritor, ele também é um pouco louco.

...


Rising up

I got caught in a storm
And carried away
I got turned, turned around

I got caught in a storm
That's what happened to me
So I didn't call
And you didn't see me for a while

I was rising up
Hitting the ground
And breaking and breaking

I was caught in a storm
Things were flying around
And doors were slamming
And windows were breaking
And I couldn't hear what you were saying
I couldn't hear what you were saying
I couldn't hear what you were saying

I was rising up
Hitting the ground
And breaking and breaking

Rising up
Rising up

Lhasa de Sela

Ghost blogger

(Eu sou o fantasma do Blogger e vim para assombrar sua vidinha virtual... uaahahaha)

Pessoal,

Ceis devem esstar sabendo do pane do blogger que fez desaparecer posts de vários blogs conhecidos e também comentários.

Não sei quanto aos posts anteriores, mas ao menos no último deles "Amor e ódio caminham juntos" sumiram vários comentários, além do que o sistema apagou todas as modificações e inserções que moá havia penado para inserir ontem e antes de ontem.

Os botões do facebook, aquele monte de dedinho levantado dando okey (não outra coisa não) e os retwitter tudo escafedeu-se.

Me disseram também que o "Borboleta" tá abrindo e travando. Adianto: não é culpa minha! A culpa são dos fantasmas do Blogger quem continuam assombrando nosso mundinho.

Isso tudo me fez lembrar uma conversa tida com Guru Renato tempos atrás: se um dia o meu blog, os posts etc poderiam simplesmente desaparecer e serem substituídos por outra coisa ou perdidos. Lembra? A resposta dele me fez estremecer: claro que sim!

Aiiiii que meda!




11 maio 2011

Amor e ódio sempre caminham juntos: por que "SOS Casamento" ainda funciona?


("O abraço", Gustav Klimt, detalhe de "A árvore da vida", 1905-1909)

Em meio às eternas brigas entre meu pai e minha mãe durante toda minha infância lembro-me bem de uma trégua dada, logo depois dos dois terem participado de um "Encontro de Casais", organizado pela Paróquia da cidade onde morávamos.

Depois de sangue, suor e lágrimas para convencer meu pai (20 anos mais velho que ela) a participar daquele fim de semana, encontrei pela primeira vez, em minha ainda curta vida, os meus progenitores emocionados pela mesma causa. Minha mãe visivelmente feliz vinha de mãos dadas com aquele estranho homem em cuja face eu reconheci meu pai.

Recebi deles, primeiro dele, um forte e amoroso abraço. Dela, um olhar quase confirmando "sim! deu certo!". Parecia a salvação do casamento dos meus pais e, ao menos foi, se não ao meu olhar, creio que foi ao deles.

Foi curioso como este episódio me veio à mente, após ter visto "SOS Casamento", programa cuja estréia foi sexta-feira passada, no SBT, e continua rondando meu pensamento ainda esta semana.

O tema é o casamento falido, ou quase falido e o objetivo do programa é ajudar os casais participantes a recuperar a chama da paixão, a terem olhares menos viciados em erros e críticas, a aprenderem como lidar com a vida a dois já corroída pela rotina, pelas responsabilidades e pela intimidade.

No primeiro programa, Salete e Edenílson, eram os candidatos perfeitos a receber a ajuda pedida. Nas primeiras cenas vemos como os dois se tratam no dia a dia, como se cobram, como se acusam, como não se ouvem, como se odeiam.

Sim. Eles se odeiam.

Ao final, acredite se quiser, vemos a mulher de olhar deprimente, desiludida da vida a dois dar, literalmente, pulinhos de felicidade e brilhar ao lado do marido quem está visivelmente de volta à cena. Eles foram resgatados. E não se trata de encenação. Nem de milagre de edição. O formato funciona.

Fiquei me perguntando o porquê e como. O que há por trás dos bastidores colaborando para o final feliz? O que é capaz de transformá-los e recuperar o amor novamente?

A resposta: o ódio.

Sim, porque em toda relacionamento amoroso há também o seu oposto. Amamos nossos pais e lutamos toda nossa existência para "matá-los" dentro de nós e sermos nós mesmos. Nós os odiamos durante a adolescência, mas quase sempre redescobrimos seu valor e nos apaixonamos por eles novamente na fase adulta.

Nós não vivemos sem nossos melhores amigos, mas mesmos os melhores amigos e amigas passam por pequenas desilusões e dissabores. Mesmo como amigos é preciso não deixar que a opinião do outro nos sufoque e nos tire nossa identidade.

Mais tarde, se optamos por ter filhos aprendemos a viver com a grande vilã da maternidade e da paternidade: a culpa. E ela vem de sabermos que, apesar de amarmos tanto aquela criaturinha e darmos nossa vida por ela, nós ansiamos por voltar um pouco ao passado, quando havia tempo para ser mais que o pai de fulano e a mãe de ciclana.

O mesmo ocorre entre os casais, independente de escolhas, sexo etc. Os problemas advindos da convivência são normalmente parecidos. Nós amamos e odiamos, amamos e odiamos nossos companheiros e companheiras o tempo todo. Embora seja difícil reconhecer a presença desse ódio nos nossos sentimentos ele é, no fundo, também uma prova de que há ainda algo nos unindo ao outro, ainda que isso não seja o amor "eterno" prometido um dia.

O único sinal de falência total do casamento é o descaso, uma falta de interesse tão grande pelo outro que nem mesmo suas ações mais insuportáveis são capazez de nos afetar. Só neste caso o bote do "SOS" não ajuda, porque o que está por trás do desinteresse é a ausência de amor. E a ausência de amor não leva ninguém a procurar ajuda. Nem no Encontro e Casais da Igreja, nem na terapia, nem num programa de tevê. E só quando alguém ainda nutre algum amor pelo parceiro ou parceira é que ainda luta, consciente ou inconsciente, para trazer a atenção para si. Por si só os casais, como Salete e Edenílson, são dignos de admiração. Eles expõem a ferida, a cutucam, tentam com ajuda curá-la sendo que o único ganho é a melhora de sua relação.

"SOS Casamento" oferece a visão e a crítica da psicologia, na pessoa de Ana Canosa, experiente psicóloga clínica, terapeuta de casais e educadora sexual, quem avalia o caso e dá sugestões de mudança. Através das criativas dinâmicas criadas pela produção do programa o casal é levado a entender seus maiores problemas e desafios. Algumas, como a "quebração" de pratos de Salete funcionam como catalizador das energias ruins. Enterrar a mágoa, superar o passado geralmente é parte do tratamento para a cura do casamento doente. Ao fazer isso ela consegue enxergar para além do marido ausente. Em outras, como na tentativa de provocar ciúme em Edenílson, o programa tenta mostrar como tomar atitude e estar presente na relação é extremamente imprescindível, ao menos no caso dele.

Além disso tem a enorme vantagem de ser dirigido e produzido por seus idealizadores, Ricardo Perez e Adriana Cechetti, quem haviam dirigido Super Nanny por vários anos na mesma emissora. Os ganhos parecem ter sido muitos e são visíveis em toda a produção de "SOS".

O programa promete muito. E, mesmo eu, que sou avessa às fórmulas rápidas e até mesmo à tevê estou muito curiosa para conhecer e aprender com novas histórias.

Alguém no twitter afirmou não ter gostado do "sumiço" que se faz com os filhos durante o programa, pois tem-se a impressão de que a solução é desaparecer com eles. Eu também senti falta de explicação para esta ausência no programa de estréia. Entendo, porém, que tal "sumiço" seja necessário. "Tirar as crianças de cena" é sempre necessário em um casamento e um dos grandes erros de quem se casa e tem filhos é não ter olhos para mais nada e ninguém além da prole e dos cuidados que a cercam. No programa as crianças, que ainda dormiam na cama dos pais, foram entregues aos cuidados dos parentes para que mãe e pai tivessem um jantarzinho romântico só para eles. O resultado pode ser vistos descaradamente na face dos dois no dia seguinte.

Quando perguntei à minha irmã se ela havia gostado do programa ela me disse: "... mas o que aconteceu depois? Acabou ali? O que eles iriam fazer? Iam viajar...?

Ao que eu respondi rindo: não. Não acabou ali. Continua...

À Salete e ao Edenílson "SOS Casamento" já lançou os coletes, o bote salva vidas e o mapa. Resta a eles agora continuarem na direção tomada e não desanimar quando toparem de novo com as mesmas torrentes e ondas fortes. Resta lembrar que o amor está sim suscetível às intempéries mas para além delas há um horizonte bem bonito a se vislumbrar de novo.

Não sei o que você quem também assistiu levou para si do programa, eu adorei o que eu chamei de "Máxima de Salete" e vou agora pregar por aí: para ser um bom marido o homem só precisa elogiar, te oferecer e manter com você uma aliança, e sexo bom sempre que convocado.

...

*ps: para quem não viu e gostaria de conferir, o primeiro episódio pode ser assistido em sua íntegra no site do SBT: http://www.sbt.com.br/soscasamento/episodios/

09 maio 2011

A grama do vizinho ou "El sueño de la razón produce monstruos "

("O sono da razão produz monstros", Francisco Goya, 1799)

Você de vez em quando tem a ligeira impressão de que todo mundo dá conta de tudo menos você?

Eu tenho.

Lembro-me sempre da sensação horrível que me invadia quando, recém chegada na Suécia, saía às ruas de Malmö com meu bebê recém nascido no carrinho e dava de cara com aquelas mães suecas seguras, louras e esguias, bonitonas e descoladas, empurrando os seus bebês perfeitinhos, silenciosos e passando por mim com pinta de quem resolvia tudo-sozinha-sim-obrigada!

Por um instante ao menos eu as odiava.

O tempo passou e também me lembro de ao fim dos quatro anos ter um dia passado por uma mãe descabelada, cansada, perdida com os berros do bebê no carrinho. Senti por ela, mas sorri para mim mesma porque daquela vez eu era a mãe toda bonitona, segura de mim, pedalando com meu menino pelas ruas e cantarolando com ele.

Pois é. A grama do vizinho nem sempre é a mais verdinha!

Apesar de já saber disso, tal sensação de "quando vou dar conta das minhas coisas novamente?" vinha me invadindo desde minha volta ao Brasil. Desde a chegada da segunda criança. De outra e outra mudança de apartamento. Olhando ao meu redor todo o mundo parecia caminhar sem se descabelar. Embora não tão perdida e cansada quanto da primeira vez eu, obviamente, vinha planejando o dia em que começasse a "ticar" minhas pendências. A ter tempo para a Sônia novamente até que... aconteceu de novo. Hoje, exatamente hoje de manhã, parei de olhar a grama do vizinho me dei conta do quanto o desejado já está acontecendo.

É um exercício difícil olhar a grama do vizinho e não achar que ela é melhor cuidada, melhor regada, mais verde e vistosa. Sou crítica demais e exigente demais comigo mesma, então quase nunca ouço os elogios e os aceito como sinceros. Não sendo isto verdade com as críticas. Minha razão muito frequentemente produz monstros. Ela dorme.

Tive este insight agora, enquanto estava na academia do novo prédio. Voltei a me exercitar fisicamente há apenas uma semana e já sinto muito mais energia. Sinto também como tantas tarefas as quais eu vinha protelando são muito mais fáceis e tranquilas de se fazer do que eu vinha fantasiando ou fazendo de conta que fantasiava. Coisas bobas como conciliar a rotina exigente e desgastante com alguns minutos para cuidar de minha saúde física e mental. Até começar me parecia simplesmente que o tempo era curto demais e eu estaria sempre exausta no fim do dia para conseguir e talvez começasse na próxima semana.

Outra grama a qual eu vinha vislumbrando e adiando sempre era voltar a dirigir. Tenho carta desde os 18 e me lembro bem dos elogios do cara da polícia responsável pelos testes da época me dizendo que eu havia "passado para trás toda aquela centena de marmanjos" os quais vinham repetindo testes e mais testes. Eu? Passei na primeira. E muito embora eu me lembre do elogio eu, no fundo, pareço duvidar dele.

Neste anos todos dirigi apenas no interior do estado e dirigia muito na Suécia. Amava! Em São Paulo a direção parecia um monstro de oito cabeças sangrentas e assustadoras. Eu olhava as vizinhas saindo de carro, as outras mulheres no trânsito como se fossem aquelas antigas mães suecas bonitonas passando, "zombando" silenciosamente de mim.

Quando irei conseguir enfrentar o trânsito nesta cidade? Eu matutava comigo mesma enquanto surgia um monstrinho lá no fundo dizendo "nunca!" como resposta. Demorou para me lembrar de que quase sempre sou eu mesma a zombar de mim. A lembrar quem é a idealizadora e mantenedora dos monstros.

Bom, meu "nunca" acabou semanas atrás quando resolvi entrar no carro sozinha e tentar. Foi incrível como foi fácil. Como fiquei tranquila, como me saí bem. Como "matei" o monstro dentro de mim mesma com tanta facilidade. E mais incrível é como eu ensaiei este ato durantes tantos anos e nunca tivera coragem de executá-lo. Moro em São Paulo há mais de dez anos e por que só agora resolvi que podia simplesmente ir ali e pegar o regador e molhar a grama?

Tudo isso pode lhe parecer conversa de "mulherzinha" ou de gente medrosa e fraca ou ainda de uma xaropada auto-ajuda. Talvez seja. Talvez não. Vejo e ouço histórias parecidas todos os dias com pessoas conhecidas e amigas. Gente que tem qualidades e é fortes em vários aspectos, mas assim como eu (e talvez você) teme seus próprios monstros.

O medo trava o passo e um passo não dado trava a caminhada. São pequenas lutas e vitórias diárias todos os dias que creio devemos conseguir conquistar.

O meu, creio, começou quando "arrumei a casa", a externa e a interna, comecei a me sentir tranquila e capaz novamente e com energia para mudar o mundo todo, começando pelo meu.

Começou quando criei meu pequeno jardim na sacada e tenho me lembrado de regar as plantinhas todos os dias. E quando criei também uma lista de coisas urgentes e comecei a "ticá-las". Neste curto tempo já pintei mais telas, estou refazendo meu currículo e entrando em começando contatos para trabalho quando Marina estiver maior, continuo cuidando de tudo em casa e da molecada, voltei a ler e estou quase acabando um livro! Sim! Pequeníssimas coisas quase sempre adiadas por gente mães e pais atarefados e cansados, todos os dias.

Meu pequeno jardim é feito quase só de orquídeas colocadas em vasos. Não tem grama nem mais nada e nem sei se é tão bonito e bem cuidado quanto o do vizinho, mas tem me feito um bem danado, tão danado que eu precisava lhe contar porque hoje lembrei-me tanto de um quadro fantástico do Goya que pude ver ao vivo, muitos anos atrás no museu do Prado, em Madrid:

"O sono da razão produz monstros"


02 maio 2011

Neuras, neuroses, neuróticas: Dani nariz de batatinha

(Olhando para essa pele, esses olhos, esse sorriso e essa barriga confessem que vocês só reparar é que ela tem nariz de batatinha dela vai!)

Em dezembro de 2010 publiquei um post "Neuras, neuroses, neuróticas" convidando vocês a escreverem sobre as baboseiras ditas pelo mundo, pelas pessoas distantes e as mais próximas, as quais lhes põe uma correntinha fazendo de vocês (e eu também) gato e sapato delas.

Todas aquelas exigências básicas do dia a dia como ser bonita, hetero, competente, bem sucedida profissional e financeiramente, independente emocionalmente, simpática, boazinha, atraente, carinhosa, responsável, tudo isso obviamente combinado com ser magra, são apenas alguns itens da lista incontável de desejos e obrigações impostas a nós todos os dias de nossa curta existência.

Tais qualidades, embora impossíveis de serem todas encontradas ao mesmo tempo numa única pessoa, são vendidas por diversas fontes (incluindo hoje em dia o amante de todos, facebook) como algo facilmente adquirível. Basta que você se mate para entrar naquela faculdade e fazer aquele determinado curso, compre aquela revista especializada, siga aquela dieta infalível, use aquelas roupas que você odiava, mas agora estão na moda. São sim objetivos impostos a nós todas e todos por uma sociedade que preza, para além de qualquer coisa, a ter e o parecer.

Extirpar tais idéias não são nada fácil e mudar de atitude exige mais do que boa vontade. Exige primeiro reconhecer que se está a mercê do outro, mas sobretudo a mercê de si mesmo. "O inferno são os outros", mas é bom lembrar que, na medida em que assumo minha essência como sendo aquela dada pelo outro, posso ser o pior outro conhecido por mim mesmo. Posso usar o chicotinho com mais força do que qualquer um ousaria usar em mim.

Dado o primeiro e grande passo de ver quais são os padrões aos quais me deixo escravizar é preciso começar a pôr em prática um ser diferente. Pode ser drasticamente ou com doses homeopáticas. Não há receita. Não há padrão.

Agora pouco eu folheava um livro de pinturas do Monet com meu pequeno curioso Ângelo e dizia a ele que aquele pintor Claude Monet pintava como queria e gostava de pintar "porque a gente pode sempre pintar e desenhar como quiser, você sabia?". Isso porque ele está aprendendo a desenhar lindamente, extremamente avançado para a idade, mas sempre me diz "não mamãe! o céu tem que ser azul, a grama tem que ser verde!!!", ao que eu tento mostrar que na realidade é sim, mas no desenho e na nossa pintura podemos fazer de muitas maneiras diferentes.

Todos nós sabemos ver que para Monet não havia um caminho único a ser seguido na pintura. Obviamente ele testou muito antes, aprendeu com os outros, mas quis ir além. Havia, para além da pintura reconhecida até aquele momento aquilo que ele entendia como sendo o caminho para sua pintura e só por essa razão obteve grande parte do que todos diziam ser importante ele ter. Sucesso, realização, fama e dinheiro vieram como consequência de um desprendimento e de um arriscar-se.

Seguindo essa linha pedi para escreverem relatos em seus blogs ou enviarem histórias para que eu publicasse aqui e só agora com a "casa" em ordem consigo retomar tais idéias.

O primeiro autêntico e gostoso relato foi enviado por email e é de minha amiga Daníssima, aquela da colcha de retalhos, moradora das Suícas e leitora deste blog. A Dani é a primeira corajosa a dar a cara para bater ou eu deveria dizer o nariz? Lendo seu relato e vendo esta foto que roubei de sua gravidez só dá para ter certeza de quanto o mundo está repleto de "Tós" e de como é preciso uma grande luta para não enlouquecer com eles.

Leiam, se inspirem e mandem vocês também suas histórias. Conte-nos de quais idéias você é ou foi escravo ou publiquem em seus blogs e partilhem o link aqui com a gente.

Aproveitem a leitura e muito obrigada Daníssima!

....


"Ah! O meu joelho é reconhecidamente esfolado e feio. Como trabalho com crianças, passo uma parte consideravel do dia ajoelhada ou andando de quatro, o que contribui para esfolar tudo! Eu nunca tinha dado tanta bola e achava normalzinho, até a publicaçao no "Borboleta" da foto com os joelhos perfeitos da Somnia. Até senti um pouco de raiva e vi como o mundo é injusto com as pessoas! Eu, com este joelho feioso e a Somnia com aquele joelho sexy!

De qualquer forma, a minha maior neura é outro ponto.

Quando eu era criança, eu tinha um vizinho chamado Tó, um homem, pai de familia, muito feio e chato! O Tó tinha um nariz enorme e na minha familia, por causa da minha brotubêrancia facial, fiquei conhecida como aquela que tinha "nariz de Tó". Oh, my God, meu nariz era grande é de batatinha. O do meu pai, tambem, é grande e de batatinha, mas o do Tó é maior e mais feio.

Com os anos e a ditadura da magreza, percebi que, quanto mais magra eu fico, mais fino fica o nariz. E que descoberta maravilhosa! Enquanto minhas amigas ficam preocupadas com o tamanho da barriga ou das coxas, meu sinal de alerta é o nariz. Fico observando....

Quando engravidei, ficando linda e redondinha, continuei na observaçao do nariz... e, na semana passada, ao ver umas fotos que fiz, estava la, o narizao do Tó. Uma amiga, muito bem humorada, me sugeriu que, durante a drenagem linfatica, eu pedisse para a massagista drenar um pouco o nariz :-) Imaginem a cena ;-) adorei, foi uma alerta para o apse da neura."