31 janeiro 2011

Somnia vende tudo com 50% de desconto: "aproveita que eu tô facinha!"


Madonna,
Somnia Carvalho, 2003
Látex sobre tela, 60 x 80

Ano Novo é sempre um novo começo. É tempo de renovar-se. De se desapegar. Todas estas atitudes nos ajudam a experimentar o dia a dia com ânimo e olhar novo. Dessa forma, redecorar ou repaginar o visual próprio e da casa, da forma que dê, acaba dando uma boa força nisso tudo.

Foi algo assim que li na edição de janeiro de 2011 da revista Casa Claudia e foram tais idéias que me levaram a este post.

Daqui uns dez dias começo uma pequena reforma na nova "casa" para onde iremos e vou me despedindo dessa daqui. De volta ao Brasil, numa vida a quatro e não mais a dois, é hora de um canto maior.

Separando as telas da vernissagem e fazendo o post das vendas na Suécia percebi que é tempo de praticar esta renovação, além da óbvia idéia de poder vender de novo minhas pinturas.

Para dar um empurrão na sua e na minha renovação resolvi fazer uma liquidação, de quem tá facinha facinha, com 50% de desconto em todas as telas por um mês. De 19 de janeiro a 19 de fevereiro, quando o caminhão de mudanças vai estacionar em frente do prédio de novo...

Semana passada celebrei com Renato 9 anos de casamento. Foram:

9 anos,
9 mudanças
9 diferentes "casas" vividas.

9 é um número completo. Representa fim de um ciclo. Obrigatoriamente início de outro. E eu? Eu não vejo a hora de começar tudo de novo!

Bom, depois desta tentativa maluquetes, as que restarem vão estar lá com a gente para contar a nova história. As vendidas? Hum, espero que sejam muitas! Elas estarão iniciando um novo ano em nova companhia e poderão fazer parte de outras histórias! E se acontecer de eu "perder" alguma, eu vou é adorar!


Figurativos

Isabelle, heter Jag!
(Releitura de tela de Isabelle Tuchband)
Somnia Carvalho, 2010
Tinta de tecido sobre tela, 70 x 90

Isabelle Tuchband tem sido uma inspiração de desprendimento e uso de cor há bastante tempo para mim. Aqui, duas releituras: a primeira, "Madonna", é de um detalhe da tela "Santa Ceia", da artista, e a segunda, cujo título (Isabelle é que é o meu nome!) remeti à própria pintora e brinquei em sueco, foi de mais uma de suas encantadoras mulheres.

Essas duas telas são as únicas não originais. As outras todas criei assim do âmago do meu complicadinho ser. :) Entretanto, também não são reprodução, são por assim dizer uma cópia muito livre (por isso releitura) sem preocupação com fazer outra tela igual a de Isabelle, mas numa tentativa de apreender as formas e cores de Isabelle e, ao mesmo tempo, pôr na tela minha personalidade.

O resultado das minhas telas é sempre mais certinho do que as telas de Isabelle e poderia se dizer que, enquanto suas mulheres são praticamente um auto-retrato da artista, as mulheres das minhas, mesmo me esforçando para não sê-lo, são muito parecidas comigo mesma... Assim é a arte da pintura.


Violeta Paz,
Somnia Carvalho, 2010
Acrílica sobre tela,
90 x 90
(música: “Gracias a la vida”, Violeta Parra)

Pura e literal fertilidade foi o que me levou à Violeta. A idéia primeira nasceu da semana lilás da blogagem da amiga Criativa Glorinha, no ano passado. O processo de criação desta tela foi contado com detalhes no post "Violeta Paz! é que eu me chamo".

Fases,
Somnia Carvalho, 2004
Óleo sobre tela, 1,00 x 1,20

Depois de uma fase conturbada, de dúvidas causadas pelo meu doutorado, quando a dor da perda de meu pai foi dando espaço para outro sentimento mais tranquilo, foram as cores e a espacialidade de Chagall que me pegaram...


A Sereia,
Somnia Carvalho, 2003
Óleo sobre tela – 1,68 x 1,90

No chão do ateliê de minha ex-professora de pintura, a Elô, fiz este pano enorme... Na época o marido viajava muito... Tinha desejo, saudade, tudo misturado representado numa tela onde a Sereia olha fixamente quem a encara e diz: "Vem!"


Welcome!,
Somnia Carvalho, 2008
Acrílica sobre tela, 40 x 60

Uma tela que fiz pensando nos nossos muitos amigos feitos na Suécia, alemães, poloneses, brasileiros, suecos, dinamarqueses, franceses, gregos etc, para pôr na entrada da casa e dizer em várias línguas: Seja muito bem vindo!


Abstratos


Hallelluya,
Somnia Carvalho, 2010
Acrílica sobre tela, 70x90
(music: "Hallelluya", Jeff Buckley)

"Hallelluya" foi resultado de uma onda de inspiração vinda da mesma blogagem da Glorinha, somada ainda ao desejo de pintar o que eu sentia das músicas. Na semana do azul criei esta tela, num misto de iluminação vinda da amiga virtual, do mar em frente de casa e de Marina quem vinha crescendo dentro de mim...

There must be something more ,
Somnia Carvalho, 2010
Mixed midia work, 70 x 90
(música: “42”, Coldplay)

Conversando com uma amiga brasileira, a Mafer, através de mensagens, ela me falava do quanto vinha sofrendo a perda de um grande amigo dela e de seu marido... O professor, mestre, orientador, homem cheio de idéias, cheio de atitudes para salvar o mundo e ajudar as pessoas havia se ido... E ela estava sem entender o sentido das coisas... A tristeza me contagiou.. Lembrei de meu pai, de amigos idos e da questionadora "42", do Colplay. Ouvindo por horas seguidas a música saiu esta tela aqui, cuja título se traduz por "Tem de haver algo mais".


Paisagens


Skåne,
Somnia Carvalho, 2008
Acrílica sobre tela, 80 x 1,00


Ven Island,
Somnia Carvalho, 2008
Acrylic on canvas,
35 x 70

A vontade de voltar a pintar na Suécia surgiu primeiro do desejo insaciável de tentar reproduzir abstratamente as paisagens daquele país imensamente azul. Foram muitas viagens, muitas idéias e duas das telas são estas daí de cima... Na época falei delas no post "Criar é preciso"...


Projeto "All we need is love", pintura e colagem

"All we need is love": o abraço
Somnia Carvalho, 2010
Mixed midia work, 70 x 90
(música: "All we need is love", Beatles)

"All we need is love": o colo
Somnia Carvalho, 2010
Mixed midia work, 70 x 90
(música: "All we need is love", Beatles)

Do projeto "All we need is love", do qual falei bastante neste post e neste outro também, duas telas cuja inspiração é o amor e as reproduções de Andy Warhol. Tal como outras tantas, é difícil deixá-las, mas se alguém gostar muito eu deixo... Sempre que uma tela se vai outra nova acaba automaticamente surgindo na minha cabeça e no tecido branco...

Natureza morta

A la Matisse, 2009
Somnia Carvalho,
Acrílica sobre tela, 80 x 100

Desejo de me desprender, de não buscar reprodução real, de aprender a me soltar e soltar e soltar... De um desenho em preto e branco de Matisse veio inspiração para esta tela colorida e sem perpectiva...

Então é isso!

Se alguém se interessar por alguma das telas, tiver qualquer dúvida, pergunta ou troca é só escrever para "borboletapequeninanasuecia.blogspot.com" ou escrever nos comentários do post.

O preço do frete para o Brasil fica algo em torno de 15 reais, se a gente tirar a moldura e o preço das telas - na promoção maluca - varia de R$250 a R$1.300 reais.

Hasta la vista Baby!

28 janeiro 2011

A mãe dessas crianças deve ser mesmo Zuper!


(Angelinho linho linho, na Suécia, em 2007, e Marinacota, no Brasil, em 2011, com o mesmo body dado pela Daníssima)



Segunda? FEIRA, terça? FEIRA, quarta?... Das coisas que eu amo no Brasil

(Feira livre em São Paulo é imperdível!, janeiro 2011)

Depois de alguns semanas longe das feiras de rua que eu adoro, ontem desci as ladeiras do bairro e fui à feira com meu possante carrinho de latão.

Comprei por 28 reais (ou 107 coroas suecas) isso tudo que está aí na mesa, sem pechincha. Só para se ter uma idéia eu pagaria uns 3 ou 4 reais por apenas uma espiga de milho verde na Suécia. Paguei 3 reais por 6 delas e estavam fresquinhas e gostosas.

Se eu ainda estou morrendo de saudade da Suécia? Tô sim, mas que eu morria de saudade de fazer o programa de ontem e encontrar frutas frescas, docinhas, saborosas e baratas como essas ah! isso é lá muuuito verdade!

25 janeiro 2011

O que há por trás de "O discurso do rei"

(Colin Firth, no papel do rei George VI e por trás dele o amigo Lionel e a esposa Elizabeth)

Minha vida como cinéfala ficou aposentada depois de duas crianças, mas hoje quando vi na net que um filme chamado "O discurso do rei" havia ganhado 12 indicações ao Oscar decidi que já era hora de tentar voltar à vida normal. Normal, na minha situação, significa assistir em casa, enquanto a prole dorme.

Tendo visto posso agora dizer que entendo porque o filme dá assunto e indicações.

Sem nem entrar na questão e nas referências políticas, nem mesmo na biografia de George VI acredito que dá para discutir horas numa mesa de bar apenas sobre o lado psicanalítico do filme.

George, como quase toda criança comum, tem uma insegurança enorme que o faz crescer sem confiar em si mesmo e esconder-se atrás do medo. Em seu caso o problema é a gagueira e seu fantasma o medo de falar.

A fala, que em qualquer caso sempre expõe o sujeito, seria uma entrave grande na minha e na sua vida, mas na vida de uma criança sucessora natural do trono de rei da Inglaterra é com certeza uma barreira enorme.

Como na vida de qualquer ser humano as exigências dos pais e o modo como lidam e se frustram com as incapacidades dos filhos acabam sendo o motor do preconceito, da rejeição e da falta de confiança. George, já homem, marido e pai, ainda teme o julgamento de seu velho pai, o rei.

Enfrentar o público, o povo inglês, significa enfrentar, na verdade, seu pai e sua família. Significa dar a cara a bater e ver no rosto dos outros o quanto ele é incapaz de ser a voz do povo, de falar como rei, porque não superou o medo do George menino.

Essa crítica provavelmente deva estar um tanto confusa, porque me meti a escrevê-la sem ter lido nada mais sobre o filme e também em ter visto o filme naquele inglês britânico terrível do gago George e pomposo de Lionel, sem legendas.

Então sinto que "O discurso do rei" tem como tema secundário o preconceito, porque o principal é a superação deste. E não dá para falar do filme sem pensar no papel que a confiança, representada no filme por Lionel, quem ajuda o rei a superar sua gagueira, pela esposa de George, a rainha Elizabeth (Helena Bohnham Carter), quem faz de tudo para ajudar o marido a mostrar quem realmente ele é, bem como pelo esforço de George em acreditar em si mesmo..

Daria para escrever um livro só sobre o personagem Lionel (o excepcional Geoffrey Rush do inesquecível Shine), cujo sonho frustrado de ser ator acaba sendo compensado no papel de ensinar ao rei a arte do discurso, bem como sobre várias variantes da temática central, por isso gostei tanto do modo como a história verídica foi contada na tela.

O ritmo do filme é lento e não é difícil não ser contaminado pela dificuldade do pobre George. Sua dificuldade em falar (representada muito bem por Colin Firfh, de "Mamma mia") acaba sendo um pouco a dificuldade em querer ouvi-lo. Todo mundo deseja que ele termine sua frase e é por isso que a vitória de George VI acaba sendo a vitória de todos aqueles que o ouvem.

Adorei o filme e adorei ter de volta aquela sensação super boa de ver um filme bom, sair dele com algo para mim mesma.

Agora preciso torcer para outras noites de bons sonos da criançada e passar aos outros indicados.


...

ps: se eu tiver falado alguma besteira grande sobre o filme, não se acanhem em me corrigir! É que eu precisava escrever isto hoje senão a minha insegurança em falar de algum filme só quando é algo excepcional e ainda não dito por ninguem me impediria de escrever este post... Mesmo porque não dá para exigir muito, já que não é fácil se meter à inteleca quando se está sendo uma mamadeira ambulante em tempo integral. Dá? Olha aí quanta insegurança! :)

24 janeiro 2011

A terminar pelas vendas..

"Orange", Somnia Carvalho, 2010
(A tela atrás destas florzinhas foi feita sob encomenda para minha amiga polonesa Dorota, ao final da vernissagem)


Em junho do ano passado juntei todas as telas pintadas na época da Suécia em minha própria casa, convidei os amigos e fiz uma vernissagem, da qual falei aqui e também aqui.

Dei-me conta esses dias, quando separava as telas ainda não vendidas, que ainda não havia publicado as telas compradas naquele dia e nem terminado a história que havia começado com muitas flores dos amigos.

A vernissagem-exposição foi organizada mais ou menos assim: dividi minha casa em três grandes sessões e espalhei as telas pela casa toda. Os visitantes eram guiados por títulos e informações sobre cada obra, além de uma apresentação geral sobre o que consistia cada sessão.

- "All we need is love", projeto que reunia as telas cuja inspiração foram casamentos, histórias de família e fotos de vários personagens,
- Abstratos: "Pintura e Música", com as telas pintadas a partir da sensação que eu ia tendo ao ouvir uma única e determinada música.
- Paisagens, que juntava várias telas criadas a partir de paisagens da Suécia
- Diversos, telas antigas sem determinação específica.

No primeiro e no segundo projeto os visitantes podiam ver a tela e ao mesmo tempo selecionar e ouvir as músicas relacionadas a cada um. Minha idéia era permitir que a pessoa entendesse melhor o processor criativo de cada tela e o que poderia ter passado por minha mente ao criá-las.

Embora cada processo e cada experiência seja única e dificilmente pode ser divida de forma objetiva com o outro, eu acredito que meus amigos, amigas e os amigos deles e delas que estiveram lá tiveram uma experiência de pintura diferente. Muitos disseram ter uma sensação ao ver a tela sozinha e outra ao observá-la ouvindo a música selecionada por mim e usada na criação.

Em meio à alegria de ver toda aquela gente, cuja história vinha de cantos diferentes do mundo, passeando pelo espaço e discutindo telas que eu havia criado veio uma rápida surpresa. Logo após os primeiros quinze minutos uma jovem polonesa, amiga de minha amiga, também polonesa, do curso de sueco, se apaixonou por uma tela e disse: "Essa é minha! Como faço para comprá-la? Você pode reservar já para ninguém mais pegá-la?" "Ahn?"... E foi assim... Eu estava de novo vendendo meus quadros, vendendo algo que havia me causado tanto prazer e agora perdia-se de mim e ia se juntando à experiência de outros. Foi uma sensação indescritível!

Sempre digo que os mais incrível em pintura é ver como alguém pode odiar a mesma tela que outra pessoa venha a amar...

É isso... Esse deve ser o último post dessa série sobre a vernissagem e também acaba sendo uma terceira dica de como pôr você mesma para frente.

Aqui apresento algumas dessas telas vendidas, embora eu não vá me deter na explicação de como as criei por pura falta de tempo. Também incluo o nome das músicas usadas. Assim, você está convidado a clicar nelas e também buscar sua experiência. Espero que goste! e, se quiser, divida com a gente...



"Spring", Somnia Carvalho, 2008

Esta tela aqui eu fiz inspirada nuns objetos comprados numa loja de decoração, a Lagerhaus. Ela ficou com a querida portuguesa Ludvina, cujo sutaque e coração de ouro eu não esquecerei jamais.


"Yellow", Somnia Carvalho, 2010
, Coldplay

Já contei com detalhe a história de "Yellow" num post anterior e foi tão curioso como tanta gente ficou louca por ela, incluindo a amiga Lucinha que cedeu a venda para uma das maiores amigas que fiz na Suécia, Nikol.



"No surprises", Somnia Carvalho, 2010

A foto não dá o valor que esta tela merece, inclusive porque ela é bastante escura e só com luz direta é possível ver o contraste de cores dessas várias janelas fechadas que dão para o nada. Foi outra disputada quase a tapas pelas amigas de lá, mas quem arrematou foi a primeira amiga sueca que fiz lá, Paulina.

"Bleu", Somnia Carvalho, 2010

"Bleu" também já foi tema deste post e foi a única tela que pintei até hoje, cujo comprador foi um homem. Meu amigo Nik, companheiro da Nikol, não arredou o pé enquanto não teve a tela na parede de seu apê. Na opinião dele, disparado a tela mais bonita de todas...


"Ode to my family", Somnia Carvalho, 2010

A mais demorada de todas, mais trabalhosa e exigente, "Ode to my family" foi feita com colagens de fotos pessoais da amiga Xu e seu marido Gus. É claro que, a priori, uma colagem não é nada complicado, mas tive que testar inúmeros materiais até encontrar como fazer as fotos em preto e branco aparecerem coloridas, sem ser sobrepostas. Sem contar a indecisão sobre como combinar as cores e o fundo e ainda agradar a uma esposa e um marido, tão diferentes um do outro.

Depois de terem selecionado dezenas de imagens marcantes em suas vidas e na vida de seus pais e avós, eles me entregaram tudo. Fiz a seleção, a colagem e a pintura enquanto me debulhava de chorar ao som de Cramberries... Todas as histórias juntas: a deles, a minha, a do grupo... E agora, a de vocês...


She, Somnia Carvalho, 2010
(Tela vendida para Katarzyna)

Uma grande surpresa foi esta tela aqui, da qual falei acima. Usei repetidas vezes a reprodução de uma foto da avó da Xu. Tirada muitas décadas atrás, a foto trás sua avó e suas amigas posando, todas de mãos na cintura, para o fotógrafo. Ao vê-las tanta coisa me veio à mente... Imediatamente pensei em "She", de Aznavour e fui desenhando - sem nenhuma preocupação com o bem desenhar, as mesmas mulherzinhas que eu fazia de presente para minhas colegas do primário.

Katarzyna (em português, Catarina), contou-me com lágrimas nos olhos porque sentia que a tela havia sido feita para ela... Estava vivendo um momento de separação e dor, mas também no qual ela se fortalecera como ela mesma...

E você, de qual gostou mais? Pode me contar o porquê?

20 janeiro 2011

"E então fez-se a luz!"

(Luminárias da ceramista Flávia Del Prá)

Eu tenho um hobby simplesinho há muito tempo, mesmo quando morava em apartamentos alugados: comprava uma revista de decoração, sentava literalmente de pernas para o ar, e lia a revista todinha.

Lia como um livro e sempre adorava entender como funcionava uma ou outra solução para a casa. Além de me distrair das pesadas leituras de tese e aulas, com aquelas fotos de espaços gostosos e tal, eu aprendi muito sobre decoração e fiquei viciada em bater os olhos numa casa e imaginar mil saídas para reformá-la e decorá-la. Sou pior que uma psicóloga quem não descansa nem numa mesa de bar com as amigas ao analisá-las em silêncio!

Então, desde a volta ao Brasil, uma das minhas alegrias mensais é ir toda serelepe até uma banca de revista (tem que ser numa banca! sou xiita!) e fazer o mesmo novamente. Compro uma revista, quase sempre Casa Claudia, e espero um momento só meu para me jogar num sofá macio e começar a passear...

Na Suécia eu saboreava a decoração escandinava nas revistas de lá e trouxe algumas comigo...

(Luminárias da ceramista Flávia Del Prá)

Uma das coisas percebidas é que, ao contrário da famosa iluminação a qual usamos no Brasil, feito com o forro rebaixado em muitas reformas, na Suécia a gente vivia praticamente só com pequenas luminárias e abajures. Iluminação no alto e fria apenas na cozinha e banheiro. O que era verdade também em quase todos os outros países visitados na Europa.

Trouxemos então na bagagem um tanto de abajures para espalhar pela casa daqui e dar aquela atmosfera aconchegante nas salas e quartos... Essas peças servem há outros objetivos além de iluminar. Elas decoram e dão uma sensação intimista bem maior.

Agora dêem uma olhada nos abajures da ceramista Flavia del Prá, quem conheci através de uma reportagem na Casa Claudia, e diz senão dá vontade de ter um em cada canto da casa? A artista viveu em Londres nos últimos anos e também traz de lá inspiração para criar esses ambientes quentinhos...

Se quiser fazer um tour pelo apartamento dela e se inspirar na decoração, tentar você mesma renovar alguns objetos, clique nesse link aqui:




Boa viagem, ótimas idéias e um delicoso domingo!


19 janeiro 2011

Brincando de decorar: quarto infantil, por Renata C.

(Quarto infantil decorado por Renata do "Uma esposa expatriada")

Esta delícia de quarto de brinquedos é do filhinho da Renata, brasileira que vive na Tailândia com sua família, e também adora o tema decoração e o aborda em seu blog.

O ambiente foi decorado por ela com várias caixas coloridas, organizando e facilitando o acesso aos brinquedos. Aliás, acho muito bacana ensinar aos filhos que os brinquedos são sua responsabilidade. Não são da mãe, nem da babá. E se tudo está em ordem além de dar mais gosto de brincar, dá também ânimo de guardar.

E em cada "cantinho" do quarto criado pela Renata pode-se escolher o que fazer. Adorei até as bolas todas empilhadas num cesto. Faço o mesmo com as do Ângelo!

Tapete para se jogar, livros para ler, jogos e brinquedos. Eu queria ser a criança que vai brincar nela!

Valeu Renata pelo engajamento na brincadeira!!! :)

E você? Não vai mostrar seu cantinho do xodó? Irene, mostra a mesinha branca com as cadeiras vermelhas! Lilás e todo mundo! Motra aí vai!

Idéias de decoração nada egoístas: você quer uma?



(A ex-mesa dos vizinhos dinamarqueses, depois de muito uso na minha varanda e antes da reforma final, Malmö, 2010)

Adorei os comentários do post abaixo sobre inspiração para decoração na Suécia e aqui vai um suplemento dele.

A Dani me sugeriu buscar móveis antigos e reformá-los, a corajosa Lucinha fez um post mooooito bom sobre a decoração - ou a falta de decoração - da casa dela, muitas mostraram como gostam de decorar seus espaços etc. Entretanto, algo me chamou muito a atenção nos coments do post dela. A Renata falou brevemente de sentir-se um pouco culpada por falar em decoração em meio a tantas catástrofes como, por exemplo, os mortos nas enchentes do Rio de Janeiro.

A gente aqui num blá blá do que fica legal na casa e tanta gente preocupada em sobreviver. Eu concordo. Também pensei rapidamente o mesmo quando escrevia meu post. No entanto, continuei. Pensei que continuar a discutir assuntos do nosso dia a dia não significa que não sentimos, não lamentamos e desejamos mudar tragédias assim.

Aí vi o post da Lolinha, sobre o fato de chegarmos a 7 bilhões de habitantes no planeta ainda este ano.

De cara eu poderia de novo me culpar, afinal acabei de ter um bebê e, por mais que nunca houvesse programado bem isso, tenho dois filhos. Tenho amigas e amigos que estão tendo filhos, a maioria, já no segundo filho também.

Aí o dado da National Geografic revelar que o problema não é espaço, já que 7 bilhões caberiam, por exemplo, na cidade de Los Angeles. O problema é o consumo, é o desenvolvimento não sustentável. É decorar derrubando, trocando, jogando no lixo todo o dia toneladas de material que pode ser reciclado.

Dessa maneira, não creio que devamos nos sentir mal por pensar como podemos deixar o canto onde nossa existência se faz todos os dias mais bonito, mais aconchegante e cheio de vida. Viver bem, sentir-se em equilíbrio interior, de bem consigo mesmo e com o mundo é parte para ser capaz de agir com responsabilidade no mundo.

Neste post trago um exemplo simplezinho. Na linha daqueles posts iniciados na Suécia, "Do lixo ao luxo", trago esta mesinha. Ela pertenceu aos meus vizinhos dinamarqueses, um casal que renovou a casa toda logo quando eu estava me mudando para lá e punha um móvel por semana no lixo de móveis.


(Antes da repaginada, como foi pega no lixo, primeira visita da Li e Gigi na Casa Nova, Malmö, 2010)

A mesa era de madeira excelente e nova em folha, sem nenhum arranhão. Peguei-a sem pensar onde usaria, mas não consegui deixá-la no lixo. Usei-a no quintal em almoços. Decorava com bolos e chás para os amigos ou servia comida para a criançada nas festas. Com chuva e vento vi que precisava logo reformar o móvel para tê-lo dentro de casa, antes que o perdesse totalmente.

O resultado foi uma pátina branca. Acho a pátina simples de fazer e dá esse ar rústico legal. Eu desejava usar a mesa numa futura sacada no Brasil, então apenas lixei-a (com super ajuda da amiga Liana) para depois pintar. Comprei um gravador de madeira de uns 20 reais, o qual poderei usar para outras muitas idéias, e inscrevi em latim um dos versículos bíblicos que sempre me inspirou: 1a. Carta de São Paulo aos Coríntios, versículo 13.




"Si linguis hominum loquar, et angelorum, caritatem autem non habeam, factus sum velut æs sonans, aut cymbalum tinniens."


(1a. carta de São Paulo aos Coríntios, mesinha do lio reformada, Malmö, 2010)

Que significa: "Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine."

"Caritatem" para mim nunca foi, apesar de ter sido uma carola fervorosa, sair dando moedinha na hora da missa, ou distribuindo para todo pedinte que encontro na rua. A caridade é o amor e o amor não é egoísta. Não sou caridosa para parecer boa, para merecer o céu e nem mesmo porque eu quero salvar o planeta. É preciso ser caridoso, amar o outro porque esse é o único dever que tenho como ser humano. É o que me une a qualquer outro.


(Do lixo para casa: com pátina e gravura a mesinha passou a marcar minha história, junto com a que tinha anteriormente, Malmö, 2010)

Bom, depois de transpirar gravando na madeira forte, veio a pintura, mas de maneira bem leve para não apagar totalmente os dizeres. Eu queria dar o ar de algo muito rústico, marcado pelo tempo. Então preferi inscrever o versículo em latim (língua a qual aprendi na faculdade e me lembro de adorar a pronúncia e a sensação de algo que vem mesmo de muito tempo atrás).

Essa mesinha está guardada num depósito, junto com minha mudança da Suécia, aguardando nossa ida no próximo mês para o novo apartamento. Uma das coisas as quais não tiro da cabeça é como vou colocar nela alguns livros bons de se folhear e de se inspirar. Perto, algumas flores ganhadas das quais venho cuidando, uma cadeira também reformada, tudo isso na sacada onde a vida no Brasil recomecará de fato, além de um passarinho de retalhos, feito por duas artistas.

São coisinhas simples e gostosas de se fazer e elas me dão uma energia danada.


(Do alto, Malmö, 2010)

Não há soluções mirabolantes para os problemas do mundo. O fato com o qual precisamos aprender a viver hoje é que nossas atitudes antigas não servem mais. Precisamos pensar na vida na Terra em cada decisão que tomamos diariamente. Eu vou trocar uns pisos no apartamento novo, mas nós até já pensamos em repintar azulejos de banheiro e cozinha com tinta apropriada para não ter que disperdiçar tanta material por conta apenas de cor.

Eu não sei direito como posso ajudar a resolver o problema do Rio e suas pobres inocentes vítimas, mas o que houve lá é resultado de nosso descuido com o planeta de muito tempo atrás, assim como com nosso fechar os olhos para tanta desigualdade e falta de planejamento.


(Depois de renovada, decorando e sendo muito útil, Festa de Despedida da Suécia, eu de Frida gravidíssima, Grzegorz com Suza, Agnieska, Nikol e Luis, Malmö, 2010)

Acredito que possamos continuar redecorando nossos lares, pondo uma florzinha aqui, uma corzinha lá... A vida merece ser celebrada. Há dias muito tristes na nossa vida e dias felizes. Dias terríveis na vida de outras pessoas todos os dias, em todo canto do mundo. E há uma forma de não se culpar tanto por isso: fazendo aquilo que estamos carecas de saber, mas temos preguiça demais ou somos egoístas demais para pôr em prática. Há algo que está muito ao nosso alcance e vai, com certeza, fazer menos vítimas no futuro: consumir menos e reciclar mais. Então comecemos!

Ótimo dia para vocês!

...

ps: Círculo de atitudes positivas:

Amanhã, quarta-feira, vou ajeitar um vasinho bem simplesinho, com alguma florzinha em cima da minha mesa. Vou fotografá-lo e vou pensar em vocês. Se quiserem fazer o mesmo e fazer uma cadeia de pensamento positivo, energia boa, pensando uns nos outros, no quanto estamos ligamos e irmanados, no quanto somos todos a mesma humanidade, é só montar o arranjo em qualquer canto, fotografar e me mandar as fotos. Publicarei na quinta-feira.



17 janeiro 2011

Decoração com inspiração sueca

(Sala dos meus sonhos, idéia da revista sueca Hus & Hem)

Daqui um mês devemos nos mudar para um novo apartamento, há apenas algumas quadras de do atual. Família maior pede mais espaço e vida nova pede um novo início.

Então adivinhem qual o assunto que anda rondando minha cabecinha de vento, 25 horas por dia? Sim! Decoração! Fico pensando como vou decorar aqui, ali, em como vou ajeitar tudo por lá. E como vou arrumar dindinha para fazer tudo também, of course!, mas isso são 3 minutos, o resto é...

Entre as idéias, os sites e blogs (decor8) que visito a respeito percebo o quanto meu universo agora sofre influência da decoração de interior sueca e também dinamarquesa. E uma das coisas as quais eu adorava na Suécia era ter acesso a móveis descolados e bonitos por preços muito bons.

A maravilhosa e baratíssima Ikea cujo dono espalhou filiais por quase o mundo todo, mas não no Brasil ainda, é um excelente exemplo. Em São Paulo percebo que minha antiga opção, a Tok Stok, ficou sem graça! É cara e não há muita variação. Na Etna há alguma variedade, mas ainda assim nem a qualidade, nem a beleza valem o que pesam.

É curioso perceber também que, fora exemplos em boas revistas de decoração, ou daqueles que entenden do assunto, nós ainda temos uma idéia muito senso comum sobre o que seja decoração clean ou moderna, como se a ausência de cor representasse isso.


(Quarto contemporâneo sem ser chato e branco, na Sköna Hem)

Passeando por um shopping de decoração com preço mais acessível em são Paulo, o que era sucesso na Suécia, quando cheguei lá há 4 anos, chegou e agora é exaustivamente repetido em cada vitrine, como os grandes lustres de cristal ou vidro - como aquele meu que peguei do lixo do meu ex-vizinho em Malmö e continuo amando - e os sofas com estampas florais, como os daquela minha chaise longue, da Ilva.

Muitas decorações que se pretendem modernas são sisudas, falta uma casualidade a qual a decoração de interiores escandinava sabe fazer bem.


(Quarto infantil, simplicidade e bom gosto podem caminhar juntos, Sköna Hem)

Uma poltrona confortável, com uma manta colorida em cima, ao lado de uma estante de livros, velas coloridas aqui e ali, luminárias discretas ou coloridas em mesinhas, substituindo a iluminação do teto são coisas das quais não consigo mais abrir mão na decoração da casa... Impossível não desejar essa atmosfera!

Decorar é representar sua personalidade na decoração da casa e quando vejo as revistas de decor aqui no Brasil sinto como os ambientes são sempre perfeitinhos demais. Tão perfeitos que não parece viver gente real ali. Tome como exemplo os jardins. Estão sempre com a cara de receber visita semanal de jardineiro, com todas aquelas podas quadradinhas em formatinhos, como aquela vilinha do fantasioso filme "Edward, mãos de tesoura".


(O "faça você mesmo" e a informalidade são marcas da decoração sueca, Sköna Hem)

Bom, se você tem curiosidade ou deseja tentar decorar sua casa com uma pitada de design escandinavo aproveite para dar um passeio por essas duas revistas aqui: Hus & Hem e Sköna Hem, esta com dicas para decorar vindas da região onde morávamos e a qual Malmö pertence.

E se você tem aí na sua casa um cantinho do qual se orgulhe muito e sente que reflete a personalidade de quem vive no local, mande um foto para borboletapequeninanasuecia@gmail.com, com nome e descrição do ambiente, que vou adorar publicar aqui num post especial sobre o assunto, mas mande até 31 janeiro. E como sempre diz o Ângelo no final das frases: Combinado?

06 janeiro 2011

Pintura para ver.. e ouvir!


(As suecas Helena e Nina levando a artista Somnia muito a sério, Malmö, junho 2010)

Em junho de 2010, escrevi um primeiro post de como havia sido a vernissagem que criei para expor minhas telas ainda lá na Suécia.

Na ocasião falei apenas das flores recebidas e de como havia sido gostoso aquele momento. A intenção de escrever outros posts e falar mais a respeito do que me inspirou a pintar cada uma delas, e também como brotara a idéia de fazer uma vernissagem para os amigos em minha despedida, deu lugar para assuntos mais urgentes e o tempo passou.

Acabei tentando dar sequência nisso com o post "Dicas de como fazer de você sua melhor empresa", quando recebi um comentário no meu site. Minha intenção era mostrar como normalmente as coisas nos acontecem quando insistimos naquilo que gostamos de fazer, como era o caso da portuguesa Constança de quem falei lá. Além disso, queria provar como é preciso que achemos uma forma de expor nosso trabalho, dar a cara a bater e ver o resultado.

(O francês Jocelyn e a sueca Maria, concentradíssimos, Malmö, junho 2010)

Eu vivi na Suécia por quase quatro anos e foi uma das experiências mais intensas de minha vida. A outra foi a maternidade o que, aliás, eu comecei fazendo junto desse experimentar viver fora de meu país.

Durante minha estadia lá houve momentos uau! muito, mas muito difíceis, sobretudo no primeiro ano o qual coincidiu com o primeiro ano de vida do Ângelo. Eu poderia ter parado e lamentado o frio, a saudade, o jeito distante dos suecos, a língua difícil, a falta de ajuda, o não poder trabalhar fora e tantas outras milhares de coisas.

Sim, dias ruins não foram exceção, mas o fato é que não sei exatamente de onde me veio sempre mais e mais desejo de me jogar naquela experiência e de deixar os dias ruins de fora do álbum da Suécia. Quanto mais me jogava mais gostava, mais fazia amigos, mais amava aquele país e sua gente. Me identifiquei tanto com a gélida Suécia que às vezes não parece que vivi tantos anos de minha vida num lugar tão diferente.

Bom, fato é que não lamentei. Tornei-me, ou elegi-me, a "Embaixatriz Deslumbrette" e vivi a Suécia com toda paixão que me foi permitida.

Da paixão e das paisagens tirei algum extrato para voltar a pintar nos últimos dois anos. Pintava e ouvia de todos os amigos e amigas de lá porque é que eu não vendia minhas telas. Sim, eu já havia vendido muitas aqui no Brasil antes. Havia cavado uma exposição, pintado e oferecido e muita gente tinha me pago dinheiro por tantas horas de prazer.

(Juliana e Jéssica no maior bate papo, Malmö, junho 2010)

Decidi então pôr todas as idéias e inspirações para fora. Pintei o quanto consegui no primeiro semestre de 2010 e divulguei uma vernissagem para os amigos e amigas de lá. Organizei na nossa casa, pedi ajuda das amigas próximas e recebi umas quarenta (não me lembro mais exatamente) pessoas em casa.

(E muitas perguntas pra cima da artista, a brasileira Jéssica e eu, os suecos Kerstin e Magnus e a portuguesa Ludvina, Malmö, junho 2010)

Foi um sucesso. Foi sim. Não só a "começar pelas flores" dadas por muitos que sei queriam me incentivar, parabenizar etc.

Eu não sou uma grande pintora. Nem eu mesma me apresento como artista, já que ainda me considero professora de redação, de filosofia, acima de tudo. O fato é que num grau mais agudo eu amo criar. E pintar consegue me arrebatar ainda mais do que lecionar o faz.

Pensei que se amo tanto pintar e se tanta gente até andava brigando (três amigas disputaram a mesma tela antes da vernissagem) para ter uma tela ou outra que eu tenha feito então era hora de eu fazer alguma propaganda do que vinha fazendo.

Para a exposição, criei uma forma de todo mundo ir ouvindo as músicas que haviam me inspirado em cada tela. Com fones de ouvido e um celular com a trilha da vernissagem, cada qual ia escolhendo a tela que mais lhe convinha ver e ouvia a pintura. Isso porque a maior parte delas eu havia criado num projeto de juntar música e pintura, como naquela tela Yellow, o que tentarei explicar e detalhar melhor num próximo post.

Expus também os móveis pegos do lixo dos vizinhos ou velhos, como a Miss Xu, e reformados e algumas cerâmicas que havia feito num curso em Malmö.


(O dinamarquês iraniano Babak, as polonesas Dorota e Caterina e Nina, Malmö, junho 2010)

Indiquei nomes, tamanho das obras e colei pela casa resumos dos projetos pensados por mim. Em inglês e em português, já que havia amigos de muitas nacionalidades.

Ver o pessoal zanzando pela casa como se fosse uma galeria, ouvindo, olhando e vindo me perguntar coisas foi uma sensação maravilhosa. Um amigo francês, o Jocelyn, queria que eu desse detalhes de como era o processo criativo: se eu primeiro pensava a tela e escolhia a música ou vice-versa...

Delícia para quem gosta de viajar na maionese, filosofar sobre pintura.

Então estão aqui algumas fotos daquele dia bem como as telas vendidas. Lembro bem da sensação no final daquela tarde: um orgulho de mim mesma tão grande que prometi não deixar aquilo parar. E é por essa razão que este post precisou ser escrito hoje, ainda que com tanto atraso.

05 janeiro 2011

"Esses horrorosos, os trabalhadores braçais!"


Eu acho muito curiosa (para não dizer deprimente) a mentalidade de muita gente da classe média brasileira.

Dias desses ouvi um zunzunzun entre duas mulheres no prédio onde moro e fiquei pensando que, não dificilmente, quem tem "nível" acaba agindo igualzinho àqueles que "não têm".

O bafafá começou mais ou menos assim: uma mulher no andar de cima jogou água de forma inapropriada em sua sacada e esta acabou caindo lá embaixo, no parquinho, onde as crianças, inclusive o Ângelo, brincavam. A avó de uma das crianças reclamou em voz alta qualquer coisa e a outra retrucou. A coisa continuou e cada qual respondia mais feio a ponto de, neste momento, eu e qualquer um da vizinhança ouvir a troca de elogios. Até que a de cima disse algo bem grosso como:

- "Fica quieta sua velha maluca!"

Ao que a outra retrucou algo no sentido de que era velha, mas ao contrário dela, muito educada.

- Vai estudar!, esbravejou. Você faz jus ao trabalho que faz mesmo! Sua trabalhadora braçal! Vai, vai estudar! Trabalhadora braçal!

Bom, não vale a pena continuar a descrever o show de horrores das minhas vizinhas. O fato que me deixou mesmo perplexa, desanimada foram as argumentações. Tão preconceituosas. Tão limítrofes.

Uma delas acha que idade é sinônimo de inutilidade, caduquice, embora a "velha" de quem ela falasse não deva ter mais que uns 65 anos. Como ela se sente mais jovem também se vê no direito de gritar aos quatro ventos que está em vantagem e é superior à outra por conta da idade.

A outra, no mesmo nível de estupidez, embora tivesse falado com voz mais sauve tentando imitar gente fina, acredita que fazer trabalho em casa, limpar, faxinar, cuidar dos filhos é algo que só mesmo uma gentinha poderia executar. Ela, inclusive, sempre está no parquinho com seu neto acompanhada da babá (quem, por definição, deve ser de baixo nível, embora sirva para cuidar do seu netinho querido). A mesma babá quem, vestida de branco, ouviu toda a discussão fina da patroa.

E isso é uma das coisas ex-tre-ma-men-te frustrantes no Brasil: cuidar dos filhos, ainda que por tempo determinado, lavar você mesma sua roupa, fazer sua comida é entendido como uma ação quase imoral. De baixo nível. Quem tem nível paga para que outro o faça. Quem é chique tem que aparecer com a babá no parquinho.

A inversão de valores é absurda!

Não acho que todo mundo precise e consiga executar ele mesmo todas as tarefas de casa e com seus filhos. Eu não gosto da idéia de se ter babá para cuidar das minhas crianças que logo crescerão e não precisarão mais de mim, embora eu também adore ser outra Sônia, a que trabalha, por exemplo, e sei que tal escolha não é tão simples para a maioria.

Entretanto, inverter isso nesse nível como minha "educada vizinha" e tantos o fazem só prova como não temos mesmo nível nenhum, porque essa mentalidade é para lá de ultrapassada, é muito terceiro mundista.

Obviamente essa mentalidade existe em qualquer lugar do mundo, porque em todo canto do mundo existe gente imbecil. Até mesmo na Suécia os ditos trabalhos braçais são, em grande parte, executados por imigrantes, mas ainda assim vejo diferenças gritantes.

Talvez pelo fato de que lá a gente precise pagar muito caro para qualquer tipo de "ajuda" braçal que precise (isso se conseguir uma), seja ela uma manicure, uma faxineira, um pintor ou pintora, normalmente não há esse destratamento com quem o faz. Não há - e não deve haver - diferença entre quem empacotou minhas coisas para a mudança e eu, porque ambos temos valores como pessoa e nosso trabalho vale pelo que é e não pelo que se estudou para fazê-lo.

Isso tudo só me faz pensar ainda mais no quanto Marx estava muito certo ao afirmar que uma das coisas mais podres do capitalismo é o fetiche da mercadoria, ou seja, o quanto cultuamos algo pelo valor pago por ela e não pelo que vale. O trabalho, tratado como mercadoria, sofre do mesmo fetiche e se o trabalho vale muito pouco, como o trabalho braçal, a perversidade é ainda maior. E triste.