28 setembro 2010

A Chuva... "Tillbaka till samtiden"

(Das paisagens que nunca mais sairão da minha cabeça, Småland, setembro de 2009)

É noite.
Me acalento no som intenso da chuva que cai.
Retorno à infância, quando costumava deitar-me sob as cobertas em dias chuvosos e sorrir no escuro sozinha.

A chuva caindo assim tão pesada é algo mais brasileiro do que a caipirinha e o carnaval.
Adoro.

Há pouco tinha em minhas mãos um longo e caprichado encarte de uma banda sueca, Kent, presente que um amigo querido ofereceu ao Renato antes de nos desperdirmos. Algumas fotos abstratas feitas a partir de paisagens suecas, a dedicatória escrita em inglês, na letra corrente do amigo alemão - "Eu lhe desejo tudo de melhor meu amigo, obrigado for todos os momentos bons..." - deixaram meus olhos marejados...

A água da chuva, a água em meus olhos... O passado, o presente...


(De momentos que adorarei lembrar, a assanhada e a tímida, Xu e Nikol ao som de Dominguinhos, festa do Midsommar na Casa Nova, julho 2009)

Sinto tão verdadeiramente neste instante o quanto a vida é feita mesma de momentos felizes e inesquecíveis...

Com o livro nas mãos é como se pudesse sentir o cheiro da antiga morada, a longíqua Suécia...

Por alguns segundos sou capaz de me transportar às ruas e ter um pouco da sensação maravilhosa de se sentir estranha...

Andar, perambular ou viver num lugar de onde se sabe pouco é como ter rapidamente o mundo em suas mãos...
É sentir-se um tanto poderoso e capaz de ir e vir por entre diferentes multidões...
É ficar satisfeito em ser uma formiga micro no macro...
É ter o coração batendo mais acelerado, uma sensação jovial e desafiadora.
De-li-ci-o-sa...

A chuva se acalma lá fora...

As lembranças se aquietam aqui dentro. Sorrio feliz e satisfeita.
Todo o passado e todo o presente me pertence.


...

* Tillbaka till samtiden, De volta ao presente, é o título do álbum da banda Kent.

24 setembro 2010

Brothers and sisters... Ângelo e Marina

(Na saída do hospital, com a roupa vermelha da sorte, dada pela tia Dri, S. Paulo, Marina, setembro de 2010)


A nova fase começou.
Estamos em casa desde terça-feira, depois da Marina ser liberada do banho de sol contra icterícia.
Ela é calma e serena. Nem sequer chora. Faz uns barulhinhos ou dá uns gritinhos solos se é hora de mamar ou de ser limpa.

Estou me recuperando dos inconvenientes do pós parto e tudo caminha muito, muito bem.

De tudo só tenho a agradecer, inclusive ao carinho de tantas de vocês aqui... Confesso que dá uma coisa tão boa toda vez que vejo no meu email algum recado novo no blog. O Borboleta continua a ser muito bom em minha vida. Só me falta agora sentar e escrever os posts que estão na cabeça...

Estou feliz que só! E de tudo, ver o amor do Ângelo pela irmã, o jeito como fala com ela e quer protegê-la é indescritível. Até agora o ciúme se revela em pequenos gestos, como querer que eu faça tudo para ele ou como ontem ao pedir que eu me deitasse com ele em sua cama a tarde para vê-lo dormir...

É um milagre bom demais ter os dois em casa, um falante, sorridente e a outra quietinha, cheia de olhares e um cheirinho hum... delicioso.

O mesmo sinto quando vejo o cuidado do Renato, o jeito como ele baba na sua pequena filhinha... uma partilha que não tem preço.

Isso tudo, somado ainda à alegria da família toda em poder tocá-la, são coisas que têm dado à volta ao Brasil um gosto diferente, uma paz que ainda não tinha experimentado desde que cheguei e me fez lembrar algumas das boas razões de termos decidido voltar.

A vida segue e devo dizer que segue bem boa...



(No aconchego do lar e no colo do meu irmão Anjo, S. Paulo, Marina e Ângelo, setembro de 2010)

(No bercinho que minha mãe e meu pai trouxeram para mim da Suécia querida deles, Marina, setembro de 2010)

(Dizem que sou a cara de um e a cara de outro, mas eu sou mesmo é a Marina, setembro de 2010)

(Qualquer semelhança não é mera coincidência: sou mesmo a cara do Angelinho, mas devo lembrar que eu sou única e sou a Marina, setembro de 2010)


(Qualquer semelhança não é mera coincidência: sou mesmo a cara Marina, mas eu era e sou o Ângelo, Ângelo, Malmö, julho de 2007)

19 setembro 2010

Bem-vinda Marina!

(Marina, que nasceu ontem as 8:11 da manhã, São Paulo)

Sem tempo para delongas, mas com algum para partilhar a alegria de termos aqui berrando no quarto, Marina, embora a foto de irmã de angelinha acima negue o que digo...

De parto normal, 3 kilos e 48 cm, chegou ontem, 9 dias antes da data chegou quem tanto a gente esperava!

Beijo enorme para quem sempre esteve aí mandando energias super positivas!

E bem-vinda Marina!

(Como é que eles podem sair tão prontinhos?, eu, Marina e minha vã filosofia, setembro de 2010)

16 setembro 2010

O que você vê nessa obra? "Bleu", Somnia Carvalho


("Bleu", Somnia Carvalho, Malmö, maio de 2010)


Lendo o comentário da Dani no post abaixo, Bleu, e suas "viagens", sensaçães acerca do que vê na tela que postei, fiquei com desejo de recuperar aquela antiga série de reflexões de pinturas e obras de arte e perguntar:


Essa é a primeira vez que coloco uma tela minha na série. A a última foi uma de Munch, "Garota na Ponte", a qual teve bastante participação. Minha motivação é apenas e tão somente a curiosidade de entender o efeito de cores, composições, idéias e o efeito da arte em cada um de vocês. Saber como algo que criei pode ou não afetar as pessoas. Se passa em branco, se faz pensar, se irrita, incomoda, se faz refletir.

É claro que se alguém disser que gostou da tela é bom de ouvir, mas o que você sente e o porque de você sentir é o mais interessante. Divague com isso e se deixe levar mesmo que seja pra dizer: me sinto péssima! odiei! rs...

Tente pensar o que na tela e qual parte da tua própria história te remete a tais sensações.
Tente dizer se o que contei de como fui motivada a fazê-la e o que está conectado a ela muda ou não o fato de gostar.



("Bleu", Somnia Carvalho, Malmö, maio de 2010, detalhe)


Na verdade o ideal seria que eu não tivesse contado nada a respeito de como fiz, como tive a idéia, mas ainda assim acho a brincadeira divertida e interessante.

Vou adorar viajar com vocês nisso e vocês me ajudarão a pensar em mais coisas que o azul do Mar e azul da Marina... rs...

Bleu: porque somos pura complexidade

("Bleu", Azul, Somnia Carvalho, Malmö, maio de 2010)

Estava fazendo uma recordação da Suécia com Ângelo ontem. Ele gosta de ver fotos e vídeos de vez em quando e é triste notar que sua cabecinha de três anos já tem substituído tão rápido suas lembranças.

Ele começa a esquecer nomes, lugares onde foi, músicas e até mesmo o sueco, língua na qual era tão fluente... Difícil lutar contra a natureza, me parece...

É curioso pensar que tantas milhares de recordações, experiências pelas quais vivemos em nossa vida na primeira infância ficarão perdidas na memória... elas inspirarão atitudes e sentimentos, mas serão como um sonho, um filme distante. Vejo isso quando Ângelo franze a sombrancelhinha tentando lembrar algum vídeo em que se vê fazendo algo na Suécia, lugar onde nasceu e viveu desde que tinha nascido até algumas semanas atrás.

Dias desses eu discutia exatamente isso com uma antiga amiga quem veio nos visitar, Ludmila. A Lud perdeu sua mãe pouco antes do Natal passado. Eu estava no Brasil e foi um choque saber que Carmem havia se ido. Sempre ficam as promessas não cumpridas, as culpas, os "e se..." os quais fazem a perda ser ainda mais dolorida.

Minha amiga chorou pensando no que poderia ter feito e sentido pela mãe, uma mãe que ela não entendia o porquê, mas a amava tanto. Então filosofei com ela, tendo Ângelo dorminhoco em meus braços: provavelmente haveria tantas recordações de infância, tanto vivido entre elas que Lud não consegue lembrar, mas que tinham já sido suficientes para que sua mãe a amasse para o resto da vida.

O toque da mão de uma criança segurando a sua, um abraço cheiroso, sentir seus cabelos entre os dedos, olhá-la enquanto dorme, beijar sua face... Tudo isso, imagino, deve ficar para sempre na recordação dos pais. Eu disse isso pensando em mim no futuro, pensando no meu pai que também já se foi e em minha mãe, quem eu só vi duas vezes desde que estou de volta no Brasil. Pensei em como eles certamente me amaram tanto e eu não me lembro.

Essas idéias estiveram, de certas forma, presentes quando fiz a tela acima. Pintada às vésperas da Vernissagem que fiz na nossa "Casa Nova", antes de deixar a Suécia, ela foi comprada por Nik, nosso amigo e também marido de uma das maiores amigas que fiz lá, a Nikol.

Nik (o primeiro homem a comprar uma tela minha em mais de nove anos em que pinto) disse ter amado a tela. A melhor de todas, segundo ele. Gostou das cores, gostou da música com a qual me inspirei para pintá-la. Eu, por minha conta, não sei explicar a tela. Sei dizer que num certo dia de maio acordei com a cor azul na cabeça e a música do filme "Bleu", de 1993, o primeiro de uma inesquecível trilogia do polonês Krysztof Kieslowski. Fiquei a ouvir a trilha sonora com os pincéis, um punhado de azuis e brancos e uma tela em branco a minha frente.

A trilogia de Kieslowski vinha me rondando, porque dias antes eu havia usado a mesma tela tentando compor vermelho, ao som do terceiro filme "Rouge". Sem conseguir o que queria eu havia desfeito tudo e passado novamente branco por cima da cor.



(Piano de Zbigniew Preisner, cena do filme "Bleu", 1993)

Nessa nova tentativa meu sentimento ao ouvir o piano, composição fantástica de Zbigniew Preisner, ao mesmo tempo em que a atmosfera do filme, ainda viva em mim, ia dando vasão a uma série de emoções, foi se somando às cores lançadas na tela.

Bleu, enquanto substantivo, faz clara referência ao tom azul, à atmosfera artística e azulada na qual o filme está mergulhada. Quase tudo é azul e é impossível fechar os olhos e não ter esse tom em mente depois de ver ou relembrar o filme. Ao mesmo tempo bleu, como adjetivo no francês, significa triste. E tristeza é certamente o grande tema do filme. Azul e tristeza no francês estão conectadas, embora no português seja mais comum pensarmos em algo como "tudo tranquilo".

No filme a tristeza é provocada também pela perda. A perda, provocada por intempéries da vida, das quais não temos nenhum controle, como a que sofre a personagem de Juliette Binoche logo no início do filme, quem perde, num único acidente, o marido músico e sua pequena filha. O azul como reflexo desses dois sentimentos ainda abrange a temática da culpa, da solidão e da saudade.

Acho que está aí o curioso da arte: eu não sei exatamente o sentimento que o amigo alemão Nik tem ao olhar para a tela que compus. Eu não necessariamente estava triste ou me sinto triste ao contemplá-la. Lembro de estar mais contida e silenciosa e de ouvir até cansar aquele piano e fazer e refazer cores até chegar numa combinação que desatava um certo nó na minha idéia.

Hoje, tive desejo de começar a postar as telas vendidas na vernissagem, já que preciso ocupar a mente cheia de Marina com algo mais. Ao escolher esta tela, batizada também de "Bleu", todas estas recordações de conversas e vivências me vieram à mente.

Talvez reflexo do dia meio cinza e chuvoso de São Paulo. Talvez também de certa saudade do meu ateliê em frente ao azul do mar na fria Suécia. Talvez ainda desejo de tomar café na casa de Nik e Nikol e ver Ângelo brincar com Iven... De abraçar minha amiga Liana hoje, no dia de seu aniversário, depois de voltar de bike do curso de sueco. Ou de uma espera ansiosa por recordações e experiências que ainda virão com a nova Marina? Quem sabe? Quantas coisas, quantas milhares de experiências cravadas em nós todos os dias nos levam para este ou aquele caminho, esta ou aquela sensação.

A única coisa que consigo pensar para encerrar este post é algo que eu queria ter dito claramente à minha amiga Lud na semana passada: nem tudo pode ser lembrado ou recuperado, isso é fato. É preciso, por outro lado, pensar que nem todo amor precisa ser dito para ser vivido. A vida é mais intensa, mais complexa e abrange muito, muito mais do que as palavras e os gestos são capazes de expressar. E esta não é uma limitação só dela, minha, da mãe dela. É de qualquer ser humano.

E talvez isso seja o que de mais "bleu" Kieslowski tenha tentado passar com seu filme... Somos meras tentativas de. Tentativas de viver, ser e amar com perfeição. Por essa razão qualquer coisa mais que aceitar isso é mero jogo de sofrer.

13 setembro 2010

39... tic tac, tic tac...

(À espera de Marina, eu ontem em casa, setembro de 2010)

Esse fim de semana brinquei com minha cunhada Adriana de fazer umas fotos e guardar para, ao menos, mostrar para Marina como sua mãe estava no final da gravidez...

Agora começando a semana 39 o que fica na gente é mesmo aquele negócio assim: quando será? hoje? Amanhã? Durante a noite ou de dia? Minha bolsa vai estourar ou minhas contrações ficarão fortes até eu começar aquelas cenas de corre-corre de filme?

Como eu não páro o dia todo fico imaginando que de repente vou sentir assim um quente entre as pernas, a bolsa estourando no meio da rua e eu toda feliz ligando para o Renato: "chegou a hora!"...

Na Suécia, minha barnmörska, uma mulher especialíssima de nome Kerstin, dizia que pesquisas mostram que grande parte das mulheres tem o mesmo sonho nessas semanas: uma janelinha pequena se abre na barriga e o bebê sai por ela... Só não sei se a pesquisa incluía mulheres brasileiras, já às mulheres brasileiras, já que a cada dez com quem encontro nas consultas, 9 tem a cesareana marcada.

Há tantas profundas diferenças entre o modo de ver a gravidez e o parto na nossa cultura e na escandinava que tenho em mente um grande texto sobre o assunto, assim que eu tiver terminado essa segunda experiência.

O que espero é meu corpo continue trabalhando como está até a hora de começar a "expulsar" o bebê naturalmente e que ele saia assim nos meus braços como Ângelo saiu, embora eu saiba que nunca há garantia de que tudo corra assim... Sempre há risco de necessidade de cesareana. O lado bom é que meu médico (o que eu também não tive na Suécia, já que somos cuidadas por parteiras especializadas se não há complicações) é a favor do parto normal e tem me apoiado nisso, o contrário da maioria dos médicos de assistência privada brasileira os quais forçam com todo tipo de história furada do mundo para convencer uma mãe com dor, angustiada e ansiosa a cortar a trilha pelo caminho mais rápido.

(À espera de Marina, eu e Ângelo ontem em casa, com bercinho sueco ao fundo, setembro de 2010)

Ontem minha cunhada me pediu pra fazer uns sorrisos para as fotos e foi fácil pensar em algo que me deixa realmente feliz nesse momento: eu terei epidural!!! hahaha... foi o que eu disse em muitas das fotos e caí na risada. Saber que meu médico fala a mesma língua e sabe de meus desejos mais íntimos e respeita isso é algo bem tranquilizador.

Na verdade é uma anestesia combinada a qual nunca me lembro o nome, garantida por ele como super eficaz e que deixa toda parturiente sorrindo.

Ao contrário daqui, na Suécia as próprias mulheres optam por não receber nenhuma medicação para o parto. Isso inclui analgésicos, o gás relaxante que recebi (e que no Brasil não existe), a epidural etc. A maior parte de minhas amigas não teve nada e é assim que as suecas vêem a questão. Cesareana? Tem até crescido o número de cesáreas no país, mas a proporção é quase contrária a do Brasil: do que ouvi, 1 em cada 10 tinha cesareana e normalmente por conseguir provar que teve problemas no primeiro parto.

(À espera de Marina, o enfeite de porta de maternidade que minha amiga Dani me lembrou que eu deveria ter e me ajudou a fazer, com a bonequinha sueca que comprei pra Marina, setembro de 2010)

Na minha humilde opinião há o exagero tanto lá quanto aqui: lá, devido o sistema ser todo público há uma pressão muito grande para o parto normal. É possível dizer que praticamente não há opção de você chegar numa consulta e dizer que quer uma cesareana. Quem decide isso é o médico e a equipe no momento do parto. Cirurgia é vista como algo anti natural, uma saída drástica para algo que deveria ser um procedimento normal da natureza. Com isso, há ocorrências de erros (não mais do que no sistema público brasileiro, nem se compara!) e problemas decorrentes de demora etc.

Aqui, por outro lado, há essa cultura de que é chique poder marcar sua cesareana. As mães que têm convênios médicos (e isso inclui a minoria das mulheres brasileiras) sentem que é um luxo poder marcar uma data para o parto e não sentir dor. Há uma cultura do medo do parto, do medo da dor. Essa cultura não existe na Suécia e já falei disso muitas outras vezes aqui. Há uma diferença muito grande na forma como a mulher vê seu corpo, vê suas capacidades e vê o processo de engravidar e parir.

Me lembro de ter sofrido muita dor no primeiro parto. Tomei uma dose de epidural leve no início do parto e porque, mesmo depois de estar com o colo todo aberto o neném não passava, tive que aguentar mais 6 horas no processo sem nada para aliviar a dor.

Foi terrível, lembro bem disso, mas também não me esqueço de um dos momentos mais marcantes de toda minha vida: quando enfim consegui empurrar Ângelo para fora e ouvi seu choro... Todo o mundo parou. Era como se eu nem mesmo respirasse. Silêncio profundo e só sua vozinha num choro rápido. As "parteiras" colocaram-no direto nos meus braços, ainda todo sujo e ensinaram Renato (quem havia trabalhado como parteiro junto delas) como cortar o cordão umbilical. Nessa fração de segundos entre tirarem ele de dentro de mim e entregarem em meus braços eu devo ter dito umas cinquenta vezes em inglês, que era a língua com a qual me comunicava na Suécia na época: "Thank you!".


(À espera de Marina, coelhinho de pelúcia da Suécia e bonequinha brasileira dada pela Vavá, setembro de 2010)

Obrigada, obrigada, obrigada... eu não me cansava de dizer, tão agradecida eu estava por terem me dado força a ir até o fim com o processo natural.

Enrolados numa toalha ficamos eu e ele ali e Renato junto... Orientada e livre para amamentar segurei-o firme em meu peito, ainda meio desajeitada. Alguns minutos depois aquele bebezinho pequeno foi se movendo como qualquer outro animalzinho desse planeta... Foi se virando com dificuldade. A cabeça era pesada e tentei ajudá-lo... Foi sentindo meu cheiro, se aproximando mais e mais até chegar conseguir de fato agarrar o bico do peito. E começou a mamar.

Aquele está os mais profundos momentos nos quais me senti muito fêmea e muito mulher, mais humana, mais criatura divina, mais animal junto à natureza. É inexplicável e consigo entender a frustração de tantas mulheres que sonham com o mesmo e não têm tal oportunidade, apesar de imaginar que a emoção de ter um filho e filha não se restrinja a esse tipo de experiência que tive.

Não acho que todo mundo precise viver o mesmo para ser feliz e se sentir conectado a suas crias. Não mesmo! Acho que cada mulher deve ter opção de como quer parir, de como deseja amamentar e se deseja. O que sinto é que normalmente essa "opção" é falsa. Na Suécia talvez muitas desejassem não passar pelo parto como passa a maior parte. Aqui tantas dizem que gostariam de sentir isso que senti e são podadas porque o médico está interessado num parto rápido e rentoso para a equipe. A verdade é que só acredito em escolha quando há, no mínimo, informação sobre os caminhos a serem tomados.

Com tanto incentivo a nunca sentir dor, como se sentir dor ao parir fosse algo anti natural eu não acredito que a mulher brasileira tenha grande escolha. Com tanto propaganda sobre os riscos da medicação para o bebê (o que nem se pode provar de fato) eu não creio que toda mulher sueca escolheria esse caminho tão mega alternativo. Devo confessar, entretanto, que em minha opinião (você deve e pode ter a sua!) entre nossa cultura do medo da dor e da cesareana marcada ainda no início de uma gravidez eu ainda sou a favor da cultura européia e também americana: parto é parte do processo e intervenção cirúrgica é caso para falta de opção e riscos com saúde.

Desde que engravidamos nosso corpo se transforma totalmente para este processo que vai culminar com a expulsão do bebê através de contrações e restante. A não ser que haja mesmo algo errado com o processo, isso vai acontecer tão naturalmente como foi seu peito produzir leite, seu útero abrigar o bebê... Eu realmente sonho com que tantas mulheres brasileiras que só aprovam a cesárea como saída consigam um dia ver essa naturalidade. Sem contar que aqui as opções de alívio de dor são garantidas. É só perguntar para quem teve parto normal com anestesia.

(À espera de Marina, eu finalmente com o bercinho que chegou no avião semana passada, setembro de 2010)

Bom, por ora eu fico com essa idéia. Torcendo mesmo para que tudo saía bem e dentro do planejado. Será meio frustrante para mim se passar por uma cirurgia, mas obviamente essa decisão não está totalmente em minhas mãos e nem deveria.

Aqui fica um pouquinho dessa segunda história de amor... Há três anos e meio fiz o caminho inverso: saí daqui com Ângelo na barriga e o tive na Suécia. Agora saí com Marina de lá e a terei aqui. Fico imensamente feliz de ter tido essas duas oportunidades, inclusive de experiência com o parto em dois países tão diferentes.

(À espera de Marina, Ângelo e Renato num papo cabeça com Marina, setembro de 2010)

Sinto que estou pronta de novo. Montamos o ninhozinho que trouxemos da Suécia, ajeitamos tudo e agora é só esperar para ver a carinha e ter Marina de forma mais concreta. E que muita saúde esteja com a gente, porque amor já tem sobrando! Amém!

09 setembro 2010

"Mirem-se no exemplo..."

("Mulheres de Atenas", tela que pintei há mais de seis anos, nunca mostrei a ninguém e vive no depósito de casa. A idéia esquisita que a inspirou foi a de que cada mulher tem em si multi personalidades e nenhuma de nós é igual a outra. Nossa beleza é de sermos únicas, ainda que estranhas, Somnia Carvalho, 2003)


Era o ano de 1983 e eu tinha 12 anos de idade.

Cravada no interior de São Paulo, no meio de uma vilinha da COHAB, eu vivia junto de minha família como se o Universo todo fosse o caminho que ligava minha casa à escola.

Pega-pega na rua, bonecas, esconde-esconde e outras brincadeiras se somavam à rotina da sexta-série. Sessão da tarde na tevê com meus irmãos, o pôster de Michael Jackson na parede e o "Like a Virgin" da Madonna (quem na época eu nunca sonhava encontrar) no rádio velho do meu pai.

Eu não pensava em muito mais, ou ao menos não me lembro de pensar. Minha vida era simples e eu era só mais uma garota boba do interior. Ou ao menos assim o mundo queria que eu o fosse.

E foi dessa maneira que, num dia qualquer daqueles anos, nossa professora, Dona Léa, da antiga e obrigatória disciplina Educação Moral e Cívica, chegou na sala e disse que teríamos uma aula muito diferente.

- Ôbaaa! pensei em voz alta comigo mesma, enquanto mais alguns e algumas demonstravam o mesmo empolgamento.

E então Dona Léa, uma mulher calma, de voz suave, cujo óculos conjugava um falso (hoje eu sei) ar intelectual, foi nos contando como tudo iria ocorrer.

Tratava-se de uma aula especial para meninas. Todos os meninos deveriam sair da sala, porque nós iríamos discutir algo extremamente importante naquele dia. Nossa aula seria sobre educação sexual, incluindo informações de como se prevenir contra doenças e gravidez e se cuidar bem.

Toda aquela molecada e meninada se olhou curiosa. Os meninos estavam ainda com olhar questionador quanto ao que viria, quando ela completou:

- Vocês todos podem ir até o páteo e jogar bola até que a aula acabe. Vamos!

E então foi um alvoroço. Os moleques se levantaram radiantes, falando em voz alta, empolgadíssimos com a aula enforcada, ao mesmo tempo em que eu soltei um sonoro:

- U QUÊÊÊ?

Alguns deles pararam para ouvir e a professora olhou para mim calmamente e perguntou:

- Qual o problema Sônia? Você tem alguma questão?

E então fui falando meio esbravejante, assim mesmo com indignação quase política saída não faço idéia eu de onde:

- Se a aula é de educação sexual porque é que só nós meninas somos as interessadas? Que eu saiba a gente não consegue engravidar sozinha! Não tô entendendo porque eles vão jogar bola, enquanto a gente fica com a parte chata! Eu prefiro ir com eles!

Argumentei do meu palanque na segunda carteira e esperei pelos aplausos que não vieram, obviamente.

Foi minha perdição.

Eu já era (ao menos eu achava que era) considerada meio esquisitinha na sala. Eu tirava excelentes notas e era meio tratorzão com o pessoal. Eu não era loirinha, de olhos azuis e corpinho que prometia para a adolescência. Magrela e alta estava sempre no grupo das inteligentes, embora eu entenda agora que não era mega inteligente, mas era apenas um pouquinho mais esforçada que a maioria. Eu não estava e nunca estivera entre as queridas e populares da sala. As professoras adoravam meu interesse pelas aulas, mas a verdade é que no intervalo o que eu normalmente levava na brincadeira do "Beijo, abraço ou aperto de mão" era só um apertão na mão com o corpo bem longe um do outro.

E foi então que minhas coleguinhas famosas da sala me olharam com aquele olhar penetrante, fuzilante. Com as cabecinhas levemente abaixadas, me encarando e balançando para lá e para cá, fazendo aquele som com a língua presa entre os dentes, elas me julgaram. Até hoje me lembro perfeitamente de seus olhares: eram como donzelas, Penélopes charmosas que entendiam perfeitamente como se portar na vida e na escola para um dia arranjar um bom casamento. Elas tinham tanta certeza de que já faziam a escolha certa.

- Esquisita! Esbravejou uma falando sozinha para o chão.

E assim também o fez a professora Léa. Com cara de "ai sua tolinha!" ela explicou fingindo paciência aquilo que eu já deveria ter entendido antes sozinha mas que, felizmente, ela estava ali para me fazer compreender. Seu discurso, o qual não consigo reproduzir literalmente, mas me lembro bem o conteúdo, dizia algo mais ou menos assim:

- Sônia se cuidar é tarefa da mulher. Os homens sempre vão se relacionar com uma, duas, mais mulheres e não se cuidam, porque é assim que é. Eles se envolverão com prostitutas, porque é assim que eles são e gostam de ser. Você precisa cuidar de seu corpo e tomar cuidado. Hoje em dia uma moça que perde a virgindade acaba caindo na vida. Você precisa entender que se não tiver orientação vai ser usada pelos homens e deixada de lado. Ou você não pretende se casar?

Nóóó!!! Aquela pergunta fora a consagração da minha sentença. Toda a sala olhou curiosa para mim, incluindo as minhas duas amigas inteligentes, "feias" e próximas, Zilda e Helena. Eu era péssima menina seja porque não demonstrava interesse em me casar, seja porque não queria me cuidar para não ser usada e jogada fora.

Eu, que na época não acreditava mesmo em casamento e até tinha planos secretos de ser freira missionária para "salvar-gente-pobre-de-marré-de-si--carente-de-minha-ajuda", pra ser sincera, não sabia do casamento mais do que o que via em casa e na casa dos vizinhos. O que eu sabia era que não gostava nada do que via e ouvia e tinha muito medo de reproduzir o mesmo um dia. Por isso respondi mentalmente: "E daí se eu não quiser!?"

Bom... ladainha vai, ladainha vem, fato é que tive de permanecer na sala. Ouvi tudo, assim de braços cruzados sabe? Porque o corpo da gente fala e eu quis falar do meu jeito o que sentia, ainda que ninguém ali estivesse a fim de me ouvir.

Eu não estava aberta para aquela aula de Educação Moral e Cívica, que incluia os "horrores" todos acerca de sexo entre gêneros iguais, aborto, sexo anal (o qual segundo minha professora fazia a mulher não ter mais controle das suas próprias fezes e a obrigava a viver de fraldas feito bebê), Informações cheias de conteúdo que o governo e a Igreja da época a obrigava a nos jogar goela abaixo.

Passados todos esses anos eu lembro desse episódio com um certo orgulho infantil. Todas as vezes que alguém fala de feminismo eu fico me questionando como foi que o meu se deu início e fico ainda sem resposta exata.

Todos os anos de eleição, quando volto à minha antiga escola para votar, eu normalmente reencontro algumas daquelas meninas, hoje mães de muitos filhos, e também alguns dos meninos. A maior parte vive na mesma vila, vai ao mesmo supermercado, educa seus filhos na mesma escola e bebe de valores comuns que parecem ser suficientes para lhes trazer alguma felicidade.

A beleza prometida na infância nem sempre se concretizou na vida adulta ou ao menos não se eternizou e não sei como lidam com isso. A vida deles segue e a minha que não prometia muito também. Há, porém, uma grande ponte que me separa da Sônia da década de 80 e a Sônia atual: hoje eu sei que não era eu a esquisita. Esquisitas eram todas aquelas meninas que pensavam ser obrigadas a assumir o papel que alguém havia preparado para elas na vida.

O que eu era? Eu era uma pequena feminista. Era isso sim o que eu já era!


Quase lá... mas não ainda

(La coqueta VII)

Nem é justo que alguém que suma assim como eu ainda receba emails preocupados, telefonemas carinhosíssimos e comentários ávidos por informação. Eu sei disso!

Estou tentando há semanas fazer umas fotos desta minha última gravidez, dessa preparação toda e não consegui ainda. Queria registrar o momento, minha barriga pontuda e já caída e só vou daqui pra lá e de lá pra cá todos os dias.

Me emocionei agora pouco vendo um vídeo do parto normal, enquanto tentava contar as contrações, embora eu já tenha visto milhares de vídeos assim antes do parto do Ângelo.

O bercinho pequenino da Marina está arrumado. Ângelo espera por ela ansioso, assim como toda a família. Eu acordo muitas vezes a noite com contrações e bexiga cheia e estou naquela fase do quando será?

Tenho três centímetros de colo aberto, foi o que disse meu médico ontem! Contrações fortes, às vezes compassadas que vêm e desaparecem. Meu corpo se prepara intensamente para a grande jornada e mal posso esperar para ver a carinha de quem esteve comigo estes últimos 9 meses.

Eu sei que parece piegas, mas esta experiência de gravidez é tão arrebatadora que me faz chorar quando me banho e canto para minha pequena menina: "Marina, você é muito bem vinda!".

Tenho mania disso. Mania de ser piegas e apaixonada. E se já sou pelo Ângelo do jeito que sou não consigo nem pensar o que será esse amor em dobro!

Então vocês já sabem. Ela ainda está aqui, só não sei quanto tempo mais. Se seguir a previsão primeira ainda tenho mais três semanas, já que completei 37 agora. Veremos! E como sou personagem central da novela "Fogo no rabo" já programei na cabeça assim: quando for para o hospital, jogo um post antes de pegar a mala do hospital, porque eu vou adorar saber que vocês estarão celebrando com a gente!

Beijos nas bochechas de todo mundo que passa por aqui e obrigada!

Somnia.

ps: A propósito, publiquei acima um post sobre as origens do meu Feminismo e que deve aparecer em breve no concurso da Lolinha. Ainda falo mais sobre isso em outro texto. Bye Bye!!!

02 setembro 2010

"Até que você não tenha tudo, você não será livre"

(Ser e não ser livre, cena do filme "In to the wild", Na natureza selvagem)

Eu tenho mania de "beber" na fonte de diferentes lugares em diferentes situações. Não sou o tipo que consegue ser leitora assídua de nenhum canto, seja por conta do tempo que tento otimizar, seja porque minhas necessidades não são as mesmas todos os dias. Ah! isso nunca são! Talvez de ninguém o seja...

Dias desses, tentando beber por aí em fontes agradáveis, voltei ao blog do Luis Coutinho, um portuga de quem já tinha falado outra vez aqui... Lá Luis filosofava poeticamente (porque os portugueses não sabem fazer diferente!) sobre o que realmente importa na vida e a contradição em que sempre nos colocamos entre a vida que pede mais e mais para termos coisas em detrimento de exigir que sejamos alguém.

Junto ao belo post uma música inspiradora, tema do filme que com certeza irei logo assistir e cujo título em português é "Na natureza selvagem". Tomei esta canção, a voz de Vedder e a letra para mim como daquelas coisas que a gente ama, aperta a favor do peito e se sente mais cheio de vida.
Coloquei abaixo o vídeo e a letra para que vocês possam se apossar assim como eu...

Sim. É verdade que estou aqui nesta capital maluca e, em tantos aspectos, das mais amedrontadoras capitais do mundo. É fato que estamos indo dia e noite no esforço de reencaixe, de buscar assentar a poeira, de um pouco de mais conforto e coisas que nos permitam sentir um pouco do que sentíamos antes... A dificuldade, entretanto, é saber eleger quais são essas coisas e quais delas realmente precisamos para sorrir e fazer a vida aparecer como filme em câmera lenta.

Carro novo? Casa maior? TV moderna? Sapatos e roupas mais descoladas? Coisas que nos ajudem a sentir menos inquietude? É verdade que elas são parte da vida, mas como até sofridamente meu colega Luis concluiu: nossas coisas só podem ser nossa medida, só podem servir para explicar quem realmente somos se, no mínimo, temos alguém para partilhar tudo isso. E ter esse alguém, e partilhar, creio eu, está acima de todas as coisas, ainda que não tenhamos tantas coisas quanto desejamos.

Saber desejar aquilo que realmente nos importa é quase um desafio de sabedoria.

Da Suécia eu me lembro sempre e todos os dias da liberdade. A liberdade de sair à rua e caminhar sem preocupação. A liberdade de sentir o vento nos cabelos em cima de minha bicicleta. A liberdade de ir de roupão ao supermercado. A liberdade de escolher falar e ficar quieta. A liberdade de ser uma borboleta somniante mesmo quando não não haviam todas as condições para que assim fosse...

Agora só preciso compreender de quais coisas essa borboleta precisa para aprender a voar nesse velho-novo lugar, porque aprender a se refazer é essencial à vida.

...

Ah! me dei conta ontem que curiosamente não mudei meu perfil ainda... continua tudo escrito lá como ainda vivesse na Suécia, mas resolvi me permitir não mudar até que realmente eu me sinta, aqui dentro, que agora pertenço a este outro canto...


("Society", do filme "In to the wild", Eddie Vedder)



Society

"Oh, it's a mystery to me
We have a greed with which we have agreed
And you think you have to want more than you need
Until you have it all you won't be free

Society, you're a crazy breed
Hope you're not lonely without me...

When you want more than you have
You think you need...
And when you think more than you want
Your thoughts begin to bleed
I think I need to find a bigger place
Because when you have more than you think
You need more space

Society, you're a crazy breed
Hope you're not lonely without me...
Society, crazy indeed
Hope you're not lonely without me...

There's those thinking, more-or-less, less is more
But if less is more, how you keeping score?
Means for every point you make, your level drops
Kinda like you're starting from the top
You can't do that...

Society, you're a crazy breed
Hope you're not lonely without me...
Society, crazy indeed
Hope you're not lonely without me...

Society, have mercy on me
Hope you're not angry if I disagree...
Society, crazy indeed
Hope you're not lonely without me..."

...

Sociedade

"É um mistério para mim
Nós temos uma ambição que concordamos.
E você pensa que você tem que querer mais do que precisa.
Até você ter tudo, você não estará livre.

Sociedade, sua raça louca.
Espero que não esteja solitária sem mim.

Quando você quer mais do que tem
Você pensa que precisa.
E quando você pensa mais do que você quer
Seus pensamentos começam a sangrar.
Acho que preciso encontrar um lugar maior
Pois quando você tem mais do que imagina,
Você precisa de mais espaço.

Sociedade, sua raça louca.
Espero que não esteja solitária sem mim.
Sociedade, realmente louca
Espero que não esteja solitária sem mim.

Tem aqueles achando, mais ou menos, que menos é mais
Mas se menos é mais, como você mantém um placar?
Quer dizer que pra cada ponto que faz, seu nível cai
É como começar do topo
Você não pode fazer isso.

Sociedade, sua raça louca.
Espero que não esteja solitária sem mim.
Sociedade, realmente louca
Espero que não esteja solitária sem mim.

Sociedade, tenha piedade de mim
Espero que não fique brava se eu discordar
Sociedade, realmente louca
Espero que não esteja solitária sem mim."