30 agosto 2010

Uma caipira quase sueca na capital paulista, 1

("Abelha", Redmachined)


"Nós continuamos estrangeiros"...

Essa foi uma curta e sábia frase dita pelo meu querido Renato, sábado passado, quando nos dirigíamos a um restaurante e após eu fazer algum comentário do tipo "eles acham que", me referindo a algum modo comum de agir dos brasileiros.

Na Suécia "eles" eram os suecos. Nos sentíamos e éramos muito diferentes dos que por ali haviam nascido e crescido. Apesar de respeitar, admirar, negar ou copiar seus modos e jeito de pensar tínhamos a consciência de que suecos nunca seríamos. Éramos brasileiros e ponto. Ou ao menos isso era o que pensávamos na época.

Sábado, um mês depois de nossa volta, a frase do Renato resumia nosso sentimento de agora não se reconhecer como brasileiro e, de muitas vezes, negar o vínculo que temos com o povo daqui.

Bom, a minha frase "eles acham que" vinha logo depois de eu ter sentido sacudir meu ventre todo numa pancada muito forte que duas paulistanas deram na traseira do nosso carro.

Estavam com pressa, não nos viram, não sei, mas buzinaram alto, enquanto o Renato havia parado na esquina para ver se alguém vinha no cruzamento. Com o solavanco meu útero se contraira todo. Fiquei sentada, paralisada. Estacionamos para ver o que acontecia. Eu estava (fisicamente) bem, Marina estava bem e o carro okey. Elas fugiram, em seu carro estilo esportivo, antes que Renato conseguisse se aproximar para conversa. Estilo de quem acha que tem aventuras na cidade. Estilo de quem anda com muita, muita pressa, mesmo no sábado a noite. Foram embora buzinando muito porque obviamente achavam que nós estávamos errados.

As tais foram assunto do nosso jantar quase romântico. Pela primeira vez Ângelo passaria a noite na praia com os avós e tia e tínhamos a noite para celebrar o fato de algumas coisas estarem finalmente começando a andar e se resolver, a três, claro... Além delas, uma outra personagem feminina, responsável por eu passar a tarde do sábado no Poupa Tempo (local onde se tira segunda via de documentos) na Praça da Sé, foi tema do nosso jantar de estrangeiros.

Terça feira passada, quando saía atordoada de um táxi, com muita, muita dor de cabeça, provocada talvez pelos 12% de umidade quase desértica que tem atingido a capital paulista, alguém roubou minha carteira assim que a deixei cair na calçada. Tudo muito rápido. Percebi passos depois, voltei, perguntei aos seguranças que ali estavam e a explicação: "Ah... a moça acabou de achar e disse que deixaria ali na banca da esquina".

Não deixou. Nunca deixará. A coitada da dona da banca da esquina é que ficou de mal e de álibi para a história daquela que me roubou e provavelmente havia visto que a carteira pertencia à grávida barriguda que havia ali aportado.

O assunto do nosso jantar ainda teve como personagem mais uma mulher, além dessas três. A mãe de família e quem vinha fazendo uma experiência de trabalhar 3 dias por semana aqui em casa, conseguiu me tirar noites de sono. Mesmo sendo sugerida por pessoas queridas e de confiança ela conseguiu só nos primeiros 15 dias levar vários pacotes fechados de doces e comidas para casa. Custou para eu admitir que isso poderia sim acontecer dentro de casa, com alguém a quem eu havia prometido um salário acima da média e a quem eu tratava muito decentemente. Não sei ainda se levou mais, mas quando me dei conta já havia sido muito.

A mesma pessoa com quem já nos primeiros dias eu fui dividindo a estranheza de ter voltado e dividi algumas angústias de se sentir estrangeiro, de quem eu tinha ouvido as histórias de adaptação na grande São Paulo, já que ela vem de outro estado brasileiro...

Em minha cabeça todas as justificativas tentaram se anexar à minha raiva: talvez necessidade, desespero... eu não sabia. Só sabia que sem confiança não se faz relação nenhuma e deixei as coisas dela na portaria, junto ao dinheiro prometido e mais um pouco. Num bilhete eu apenas disse que não teríamos condições de contratá-la e então ela teria uma semana paga para procurar outro local.

Em conversa com quem pensava que a conhecia bem a confirmação: não. Não há situação financeira de desespero. E comigo pelo telefone depois a mesma mulher me cobrava: "e agora o que eu vou fazer sem o trabalho? Você ferrou a minha vida..."

Pois é...

Vai ver as moçoilas do carro esporte acham que o Renato ferrou a vida delas ao parar na esquina, antes de continuar a viagem. Vai ver a outra que tomou minha carteira que eu adorava, lembrança da Suécia, cheia de cartões, documentos importantíssimos (como a carteirinha do plano de saúde que eu iria usar ali mesmo no ultrassom) e algum dinheiro, ache que ela é ferrada suficiente e pode ferrar com a vida de outros também.

Bater na traseira do carro à sua frente não é errado.
Ficar com o dinheiro e pertences de outra pessoa, só porque você não a conhece também não é errado.
Levar pacotes de doces e comida escondido do lugar onde você trabalha não é errado.
Ao menos não o é para muita gente brasileira.

Eu te ferro. Tu me ferras. Nós nos ferramos porque é assim que a lei da selva manda.

Vejo que preciso deixar de ser tão estrangeira e caipira (no bom sentido do termo), porque é muito estranho se sentir assim tão frágil e ameaçada o tempo todo na minha própria terra.

Assim sendo, alguém tem uns ferrões para emprestar por aí?


17 agosto 2010

Estranhamento no. 2: Minha deusa, a tevê


("Acerca do futuro 1984" 58/365, TwistedPrincess ' photostream)

Eu já havia escrito várias vezes sobre a relação quase doentia que acredito que nós brasileiros temos com a televisão, sobretudo em dois posts da série "Na Suécia também não tem... ". O primeiro deles sobre TV em consultório e hospital" e o segundo sobre câmeras no elevador". Por essa razão não imaginei que esse seria tema dos meus muitos estranhamentos na volta ao meu país.

Tenho pensado em escrever sobre o tema há vários dias, mas hoje vendo a constatação do Leo (morador de minha antiga cidade, Malmö), sobre o que ele ainda acha impressionante de ver na Suécia, eu quis muito falar a respeito desse meu estranhamento e adiantei o que deveria ser o número três na sequência dos posts.

Logo na primeira semana de retorno ao Brasil, com virose e dores abdominais, fui parar num hospital lá pelas cinco da matina. Para ser simpática (e porque um hospital particular tem desses luxos "necessários" à recuperação de um doente, a recepcionista nos mostrou onde sentar e esperar o médico e ligou o aparelho televisivo, meio colado ao teto. Ela e uma amiga pararam em frente para ouvir a notícia,dada em alto volume: um homem havia matado o filho da ex-amante, um menininho de uns dois ou três anos, e atirado nas vizinhas dela, porque não se conformava com a separação.

Tendo ouvido, voltaram-se para o trabalho e continuaram suas vidas. Nada havia mudado. Nem lá, nem cá. Explorar a violência parece dar até ibope, mas não transforma a realidade, apesar das emissoras e de muitos de nós afirmarmos o contrário.

Depois disso, frequentei algumas padarias deliciosas do meu bairro. A que mais gosto comprou dois televisores a mais desde o último verão. Ambas gigantes, tecnologia LCD, e as colocou assim, no meio das mesas, para que os clientes possam almoçar e ir se informando sobre tudo que acontece. A padoca caiu no meu conceito, mas não no de muitos que por ali passam.

E então eu via o pessoal, classe média, no horário do seu almoço, devorando a comida, com olhos arregalados no televisor. Se sozinho, a tevê era companhia. Se acompanhado, todos podiam partilhar da mesma notícia e soltar alguns comentários senso-comum, superficiais sobre o assunto e passar à sobremesa.

O detalhe ficava por conta do canal escolhido: outro de notícias bizarras e exploração da violência. Esse estilo mais nojento Datena de ser da vida. Ou é isso ou então algum programa onde pessoas estão trancadas, quase peladas e se esfregando num local fechado... Ou o contrário total para dizer que todos estão perdidos, menos você que está conectado naquele outro programa religioso ou naquele futebolzinho que distrai dos problemas diários.

E assim tem sido: no salão fazendo manicure e pedicure eu posso ver umas duas grandes tevês ligadas. E também na concessionária de carros, no açougue, no restaurante do shopping, no barzinho descolado da vila, na casa de todos por onde passo.

Ligada em volume bem alto ela está lá. Colorida e poderosa. Ditadora. E ela não perde para nada e ninguém, porque outro mundo, outra vida que não passe por ela com certeza nem mesmo existe. Existe? Não... só se por acaso se tratasse de gente biruta, desconectada e desantenada do mundo... gente que com certeza não entende o importantíssimo papel que nossa Deusa tem.

Ou então ETs de um país gelado, sem graça e distante... onde o povo ao invés de preferir imagens prefere as letras... no trem, no ônibus, na sala de espera do médico, no restaurante, em casa...

Gente estranha, com gostos e hábitos esquisitos...


16 agosto 2010

"Jag vill tacka livet", quero agradecer à vida hoje, mas em sueco...


("Jag vill tacka livet", Arja Saijonmaa, versão de Gracias a la vida de Violeta Parra)


Em vários momentos diferentes dos últimos anos eu postei ou citei a maravilhosa canção de Violeta Parra aqui... (Provavelmente a maioria de vocês já ouviu na voz da sempre doce Mercedez Sosa...)

Em dias em que olhava para o mar Báltico azulzinho em frente da antiga casa na já longígua Suécia. Normalmente em manhãs em que sempre me dava conta de que a vida pulsava em mim e à minha volta nas pessoas que amava tanto...

Hoje acordei pensando na antiga "Casa Nova", a forma como Ângelo sempre se referiu à casa onde ele mais viveu até hoje e tive muitas saudades. Ao mesmo tempo tudo parecia quase parte de um grande sonho, sabe? um lugar onde se acordava de frente para o mar, ouvindo passsarinhos, vendo o colorido das flores na primavera e o branco da neve no inverno... onde eu me locomovia sentindo o vento nos cabelos em minha "Madalena" preferida junto com Ângelo.

Senti saudades e senti também Marina se mexendo toda dentro de mim... São 35 semanas agora e ela está grande, quase pronta para viver essa vida com a gente.

Ao deixar o irmãozinho dela na escolinha agora de manhã, onde ele ficará até meio dia, ganhei dele um beijo tão gostoso, tão cheio de amor e cumplicidade, um beijo que me prova que minha casa é onde estão eu estes três grandes amores, pelo menos!

E aí, agradecendo à vida, eu quis agradecer em sueco... vim ouvir essa canção na versão sueca, cantada pela finlandesa Arja Saijonmaa, que os escandinavos adoram e que eu conheci através do médico urso Björn quem tratou e curou uma infecção que tive no tendão do carpo... Björn é uma daquelas pessoas especiais demais, capazes de contagir o mundo com sua calma, sua beleza, seu sorriso e seu jeito afetuoso de tratar os outros.

Nesses momentos eu sempre penso que não há nada, nada nessa vida mais precioso do que a vida, ela mesma...

Foi então que pensei em rapidamente dividir a canção com vocês, hoje na outra língua que aprendi a amar...


"Jag vill tacka livet"

Jag vill tacka livet
som gett mig så mycket.
Det gav min två ögon
och när jag dem öppnar
kan jag klart urskilja
det svarta från det vita
och högt där uppe
himlens mantel strödd med stjärnor.

Jag vill tacka livet
som gett mig så mycket.
Det har gett mig hörseln
som i all sin vidhet
fångar natten och dagen,
syrsor och små fåglar,
tubiner, hammare, ett hundskall
och ett ösregn
och röstens ömhet hos den jag älskar.

Jag vill tacka livet
som gett mig så mycket.
Det har gett mig ljudet
och hela alfabetet
så att jag fick orden
för tankarna jag tänker,
moder, vän och broder, ljuset som upplyser
den karga väg min älsklings själ ska vandra.

Jag vill tacka livet
som gett mig så mycket.
Det gav mig lång vandring
för så trötta fötter
genom djupa vatten,
jag gick genom städer,
över stränder, berg, öknar och på stäppland
hem till ditt hus och dina gröna ängar.

Jag vill tacka livet
som gett mig så mycket.
Det gav mig ett hjärta
som i grunden darrar
när jag ser på fruken
av det hjärnan skapar,
och det goda långt borta från det onda
när jag ser in i dina klara ögon.

Jag vill tacka livet
som gett mig så mycket.
Det har gett mig skrattet,
det har gett mig smärtan
så att jag kan skilja lycka ifrån sorgen,
de två ting som skapar alla mina sånger
och mina sånger som är era sånger
och alla sånger som är samma sånger.

...


ps: Antes de começar a cantar nesse vídeo, a finlandesa Arja faz uma piadinha sobre os suecos e diz que estes acham que Violeta Parra é parte do patrimônio musical sueco. Imagino que ela tenha sugerido que os suecos não conhecem música latina direito e porque "Gracias a la vida" é tão famoso no país, os mau informados apenas repetem a versão, imaginando ser a compositora uma conterrânea deles...

E então termina, morrendo de rir e dizendo em sueco: "Então vamos cantar uma canção nacional sueca..."

12 agosto 2010

Estranhamento n. 1: a minha, a sua, a nossa língua portuguesa

("Rasgado", Catherine G McElroy)

O primeiro dos muitos estranhamentos sentidos por mim, neste meu retorno ao Brasil, depois de quase 4 anos na Suécia, deu-se ainda no Heathrow, maior aeroporto em Londres, onde fazíamos conexão.

Na Escandinávia vivem e passam muitos brasileiros, como em todo canto do mundo, mas quase nada se compararmos com as mais famosas capitais mundiais. Quando você chega lá, você nota facilmente isso, o que talvez lhe deixe triste por não conseguir decifrar nadica de nada do que se fala nas ruas, nos shopping center, nos bares e restaurantes. Mesmo no aeroporto em Copenhaguem, de onde se faz conexão do sul da Suécia para cá, por exemplo, é muito raro ouvir português e na Suécia eu poderia contar as vezes em que encontrei brasileiros falando pela rua.

A Escandinávia não é, sem sombra de dúvida, o destino de turismo escolhido pela maior parte dos brasileiros.

Foi por conta disso minha primeira sensação muito esquisita no imenso aeroporto inglês: comecei a reconhecer e entender 100% o que algumas centenas de pessoas falavam por ali... Eu também entendia o inglês de outros, mas toda aquela gente ali comigo falava a mesma língua que eu. E não havia nenhuma palavrazinha que eu precisasse decodificar.

"Ali tem uma loja de roupas linda!", falavam duas moças entre si.

"Cadê meu passaporte, foi você quem disse que iria pegar?", "Não fui eu não! Eu vi você guardando no bolsinho da mala!", respondia a mulher a seu marido nervoso.

"Mãe pára! Por que você faz sempre isso comigo?!", dizia uma jovem meio revoltada à sua mãe.

"Oi, filha?, estamos no aeroporto e estou trazendo sua encomenda... O Edu já chegou?"

E falavam e brigavam. E discutiam coisas pessoais. Em alto volume, claro.

Foi então quando eu, brasilianamente, tentei cochichar com Renato que estava ficando cansada de entender tudo o que todo mundo dizia em voz tão alta que percebi que eles também podiam me entender perfeitamente.

Eu sabia conscientemente que era parte do grupo que ali estava. Eu era brasileira como todos, falando com a mesma naturalidade com a qual respiro e ao invés de ter uma sensação confortante e gostosa senti um enorme estranhamento, como se eu fosse um bicho estranho no ninho...

Estranho perceber que a língua que eu desejei ardentemente ouvir quando havia chegado na Suécia, a qual eu amava e havia por anos ensinado outros a amar era tão esquisitamente assimilada por mim.

E ouvindo os comentários grudentos de uma mãe ao telefone com a filha, controlando de Londres o que ela faria naquela noite eu pensei horrorosa e preconceituosa comigo mesma sem poder expressar o que sentia: era melhor quando eu podia não entender bulhufas e ninguém podia entender o que eu dizia!

Estranho e ruim esse despertencimento. Talvez minha raiva contido fosse só a frustração que assola todos os expatriados em sua volta à terra mãe: nem mesmo minha língua portuguesa conseguia dar conta do sentimento de não ser sueca e não ser brasileira.

E eu sabia que começar a reconstruir minha identidade perdida não seria nada, nada simples. E eu precisaria muito mais do que a língua para me sentir unida ao Brasil de novo.


"Ando devagar..."


Continuo escrevendo rapidamente de uma mesinha mi+núscula e baixinha no único cantinho do meu apê onde consigo ter acesso à internet.

Isso significa que para além das muitas coisas que ando a resolver fora de casa, aqui dentro ainda falta muito para ajeitar, inclusive porque o barrigón pressionado só aguenta uns 15 minutos aqui parado.

Desde que saímos da Suécia há quase 3 semanas, acho eu, tenho em mente uma série de posts sobre as primeiras impressões. Escrevo-os mentalmente e estão todos aqui guardados para serem partilhados.

Não tenho fotos para partilhar, sorry Lucinha! Nossa bagagem havia sido dividida entre as que trouxemos dos dias do hotel, algumas caixas por avião com coisas urgentes e a grande, vindo por navio. Cabos e muitas coisas não estão aqui. Estamos mesmo vivendo com o que trouxemos na mala do hotel. A lentidão, burocracia estupidamente exagerada brasileira faz com que tudo nosso esteja ainda na Inglaterra.

Boas notícias são que Ângelo já passou por adaptação numa escolinha e começou definitivo. Está adorando e já incluindo muitos amigos e novas palavras ao seu vocabulário. Brinca falando em sueco e brincamos com ele um pouco todos os dias. Quem sabe conseguiremos manter algo da língua na qual ele já era fluente...

Marina continua firme e forte, chutando e se movendo o tempo inteiro.

Sinto saudade da vida virtual também... Ando bem devagar com isso, embora eu tenha andado o tempo todo nas ladeiras do meu bairro colocando a vida daqui nos eixos. Entao, sinto saudade de visitar com calma cada um e ver no que andam pensando.... mas vou tentando ir com calma. Tudo vai se ajeitando e volto a borboletiar por aí com vocês em breve.

Abraço grande,

Somnia.

06 agosto 2010

Sou feliz porque Sou...: sobre a relação de causalidade entre maternidade e da felicidade

(Eu, Marina e o Mar, Litoral Paulista, agosto de 2010)
Gente boa,

Só para linkar para vocês dois posts da Lola a respeito do quanto se é ou não feliz tendo ou não filhos. Assunto interessante e quase sempre espinhudo também.

Esses dias deixei um comentário sobre o assunto lá, quando ela refletia humoradamente ("Mentiram para mim: ter filhos não traz felicidade") sobre uma pesquisa que provava que ter filhos não garante felicidade para grande parte de quem os tem. Hoje ela fez um outro texto muito legal ("Mães extremamente felizes respondem) tratando do meu comentário e o de outra leitora.
E por falar em Lolíssima aproveito para divulgar o novo concurso de blogueiras que ela está promovendo. Passem lá, se inscrevam, divulguem posts legais porque a troca vale muito a pena!
Bom, deixa eu ir comer a comidinha deliciosa da minha mãezita Dona Maria, porque disso eu andava mesmo com muita saudade...

"Disseram que eu voltei americanizada...": sobre o retorno ao "lar" a e os primeiros estranhamentos

("As costas de Luísa", Sami Charmine)

Queridas e queridos, o post abaixo foi escrito por mim logo no início da semana passada, numa madrugada em que havia perdido o sono por conta do fuso.
Salvei no word e só hoje estou conseguindo postá-lo da casa de minha mãe. Não vou reler porque possivelmente me decidiria por não publicá-lomais.
Vi abaixo vários comentários carinhosos me pedindo notícias. Muitos amigos me mandaram emails e querem telefone, celular, respostas pela internet. Estou meio sumida aqui também. Nossa primeira e segunda semana foi assim um turbilhão de coisas acontecendo. Desde chegada com virose brava minha e do Ângelo, passando por reforma sem água no prédio onde moramos e atraso total das nossas bagagens por conta da burocracia brasileira.
Foi um tempo de procurar escolinha, rever a família próxima, fazer exames e acertar o parto e tudo que podem imaginar de uma volta ao país de origem com 8 meses e meio de gravidez.
Tudo corre bem. A (re) adaptação não é simples e é disso que falo abaixo.
Ainda não tenho internet pela casa e um canto para escrever e isso me trava muito. Praticamente não tenho navegado na rede e o farei assim que sentir a poeira baixando. Por enquanto, um abraço para quem está aí. E podem deixar notícias de vocês que eu consigo ler... Somnia.
...
"Nossa “volta pra casa” tem sido recheada de sensações estranhíssimas se considerarmos que havíamos vivido no Brasil quase toda nossa vida (mais de trinta e poucos) em contraposição com apenas quse 4 anos de Suécia.

A volta, mesmo programada, pensada e decidida nos joga num mar de reconhecimento. A sensação nesses primeiros dias ainda é de misto de saber e sentir que somos brasileiros, porque nascemos aqui, crescemos e construímos nossa vida aqui. De se sentir brasileiro porque falamos a língua de todos, entendemos a cultura, pertencemos ao lugar onde temos raízes que nos ligam a pessoas amadas.

Por outro lado, deixar uma terra onde se viveu uma vida tão imensamente diferente, onde falávamos outra (outras) línguas, vivemos outro tipo de cultura local, outro modo de viver e priorizar a vida, outros valores, outra música, outro tipo de conhecimento acerca do mundo é quase como viver um choque.

Muito curioso foi percebermos esses dias que se imaginávamos um choque na ida e na adaptação nos esquecemos totalmente que ele também existe no regresso. Isso talvez ocorra porque tentamos nos adaptar ao máximo no lugar onde escolhemos ter essa experiência de viver fora de nossa terra.

Pensando ontem a noite com meus botões fiquei imaginando porque quando falo normalmente do que é muito ruim no Brasil as pessoas me respondem coisas, ou insinuam respostas do tipo:

- “Não adianta comparar, lá é Suécia, aqui é Brasil.”
- “Em todo lugar tem coisa ruim e coisa boa, se conforme!”
- “Se lá era tão bom por que foi que você não ficou por lá?”
- “Não suporto o frio, então a Suécia não pode ser lugar bom pra se viver!”
- “Hum, mas agora você só sabe comparar e reclamar, que companhia chata e pessimista você se tornou!”
- “O Brasil tem problemas, mas se pensar bem é ótimo para se viver!” (na verdade eles querem dizer, é praticamente o melhor lugar para se viver)

Provavelmente minha conclusão seja ingênua, porque toma apenas um argumento como dado, mas pensei muito nas pessoas locais que conheci na Suécia. E também nos europeus que por ali viviam. Não é regra, mas em geral muitos deles parecem ter uma noção muito boa sobre o que cada país vizinho na Europa oferece de bom e ruim, assim como o seu próprio.

A proximidade dos países europeus faz com que ainda criança se possa cruzar em duas, três horas de carro uma outra terra, outra língua, outra cultura. A necessidade de se falar mais que sua língua materna começa cedo assim como a compreensão de que o mundo está um pouco para além de sua própria terra.

Quase metade dos poloneses imigram a procura de trabalho e não voltam a viver no país de origem. Milhares de suecos têm experiências de estudo e trabalho em outros países, assim como seus vizinhos.
Esses fatos me ajudam a entender porque de minha amiga Nikol, que veio de Munique para Malmö para viver experiência semelhante à minha, não ter se sentido ofendida quando critiquei duramente seu povo após outra experiência ruim que tive em terras alemãs.

Voltando de Praga, na República Tcheca, paramos numa linda cidadezinha chamada Potsdam, bem próximo de Berlim, na Alemanha. A grosseria dos alemães que por ali passavam, sua falta de empatia, seu jeito de olhar como se qualquer estrangeiro fosse menos que eles me fez pensar coisas horrorosas sobre todo o povo que vive lá.

Generalizei, claro, porque não havia sido a primeira vê que sentia essa falta de educação e falta de vontade de ser simpático dos alemães comigo. Também havia sentido algo parecido na Suíça, mas minha pequena experiência não me deixou concluir muito sobre o restante da população.

Quando falei a Nikol que me senti “judia” na terra de Hitler ela sorriu tristemente e disse: não é assim em todas as cidades, depende do tamanho e da região, mas infelizmente é verdade que os alemães, no geral, são mesmo um povo muito sem educação.

Bom, nós brasileiros somos conhecidos pela nossa generosidade e por nossa simpatia. Qualidades que provei já nesses primeiros dias de volta, seja no sorriso mais freqüente das pessoas, seja na sua forma meio de tentar ajudar como for possível. E é fato que sabemos dessas qualidades, as conservamos e as reconhecemos como sendo características nossas.

Então, se somos elogiados quanto a isso, sempre reafirmamos que sim! Os brasileiros são muito gente boa e recebem muito bem os estrangeiros. Estranho é que se alguma crítica é feita ela normalmente é tomada de forma muito ruim. Normalmente com pensamentos como os que citei acima. Sinto que nós brasileiros lidamos muito mal com crítica, seja porque a tomamos como verdade absoluta e imutável e nos deprimimos com ela (“Eu odeio o Brasil, daria tudo para viver fora dele!”) ou como algo vindo de alguém que não ama verdadeiramente seu país (“Brasil: ame-o! ou deixei-o!”).

Disso tudo sinto que por enquanto meu encontro com o meu Brasil não pode ser franco e gostoso suficiente. Se eu dizer que é ótimo, lindo e maravilhoso voltar para cá estou mentindo, sendo outra pessoa que não eu, porque não sei viver otimamente, lindamente e maravilhosamente num lugar onde há tantos problemas para se resolver, tantas coisas erradas e tanta cegueira para a verdade. Problemas com os quais eu sei que é importante saber conviver, mas dos quais não quero esquecer e pretendo ajudar a combater, de alguma forma possível.

Meu reencontro tem sido de alegrias em partes e tristezas em outras. Reconhecer problemas e encará-los como também responsabilidade sua não é normalmente agradável, embora necessário.

A conclusão que tiro no momento talvez seja boba demais, mas é o que venho sentindo: quanto mais saímos de nossa terra, mais aprendemos sobre ela, mais valorizamos alguns aspectos e sentimos saudades de vários outros. Ao mesmo tempo é a uma chance incrível de olhar para tudo de fora, com olhar estrangeiro, com certo desligamento emocional que só a distância, a vivência em outro lugar possibilita.

A crítica é preciso. A reflexão e a avaliação devem passar pela crítica. Caso contrário é como se eu apagasse tudo que vi, que ouvi e aprendi para apenas dizer como muitos brasileiros que afirmam amar seu país com discursos vazios, mas apenas nadar a favor da corrente que transforma este lugar em um lugar tão pouco conhecido ainda.

Eu amo o Brasil sim. Amo estar aqui em vários aspectos, embora eu desejasse ardentemente conseguir mudar muitas coisas e pessoas. Fico feliz de saber que viver na Suécia não me cegou para o que aqui tem de bom e, sobretudo, para o que aqui tem de ruim. A Somnia continuará borboletiando e somniando no Brasil, mas sem tentar se passar por outro borboleta que não ela. A sinceridade, ainda que seja mais sutil em um ou outro post, continuará existindo, porque é para isso que blogs existem e é só por isso que eu amo tanto escrever aqui."