31 maio 2010

Uma vernissagem e o início do fim de um ciclo


Esta aqui é a versão em português (ou quase, já que nem percebi que não havia traduzido o título do evento) do convite da modestíssima Vernissagem que farei aqui em casa e vocês estão todos convidados!

Você também não sentiria um comichão de torcer para a França na Copa?


(Jessy Matador, "Allez, olla, olé", Final Eurovision, Oslo, 2010)

Vi a final do Eurovision, no último sábado, no apê dos adoráveis amigos suecos, Thomas e Magnus, com quem também vimos o show no ano passado, lá na torre do Turning Torso. Não mais na Torre, mas numa vista de não esquecer nunca, de frente para o Mar Báltico, a ilha de Ven, Copenhaguem e uns barcos passeando, acompanhei já em clima de saudade, a final do festival de música europeu.

Devo admitir que lá do apê foi bem difícil não levantar do sofá e começar a chacoalhar o esqueleto todo quando Jessy Matador (foi a primeira vez que eu soube do cantor) e sua trupe francesa entrou cantando a música que também será o jingle da França na Copa...

Apesar de não terem levado o prêmio e não estarem entre os mais votados, a música é africanamente contagiante, por mais francesa em que seja cantada e por mais história da França que o "Allez olla olé" retome. É a aquele tipo de música que não só gruda na cabeça, mas faz a gente entrar fácil numa onda de gente, e ir requebrando todo feliz, sabe? Típico do sentimento que invade a gente em momentos como os da jogos de copa, por exemplo.



(Lena Meyer-Landrut, "Satellite", Vencedora do Eurovision, Oslo, 2010)

Sorte ter lá a jovenzíssima alemã Lena, com um ritmo que marcou uma certa mudança no esquema do Eurovision, já que se trata de um estilo meio diferente dos conhecidos schlager. Lena ganhou com bastante folga dos colegas e foi sorte para os países competidores da Copa que o nível do evento estivesse mais alto este ano, assim a canção animada francesa não teve chances de fazer a Europa toda cantar seu jingle antes mesmo da Copa começar... Ela era boa pra caramba, mas seria colher de chá demais para eles!

A Suécia ficou desclassificada nas semi-finais, pela primeira vez na história de décadas do Eurovision. E como os suecos levam a disputa bem a sério, como falei antes aqui, teve discussão em tevê e rádio sobre o porquê do mal desempenho, ou a não seleção, da minha candidata preferida (snif...) no Melodifestivalen, a sueca Anna Bergendah...

Portugal fez bonito de novo, embora em estilo bem diferente do folk do ano passado. A letra foi traduzida por nós (Xu e eu) para a suecada presente que delira com a beleza da língua e da melodia... Sempre poesia nas canções portuguesas!

Fora o incidente com a Espanha, quando um super cara de pau invadiu a cena e ficou lá dançando no meio do grupo como se fosse um dos bonecos, a noite correu na paz. O grupo teve o direito de se apresentar novamente e foi o último a cantar. Sem o invasor dessa vez. Creio que, no fundo, o maluco ajudou a marcar a doce participação da Espanha com "Algo pequeñito" que a amiga sueca Helena não consegue pronunciar (dá-lhe português na suecada! ta aí meu troco!)


(George Alkaios, "OPA", Final Eurovision, Oslo, 2010)

Além desses, um povo que passa e é esquecido minutos depois. Outros que ficam na memória por motivos diferentes: bonitinhos, exageradamente ou ridicularmente vestidos, outras com vozes maravilhosas, apesar do visu nada a ver de madrinha de casamento, como Niamh Kavanagh, da Irlanda, e Hera Björk, da Islândia. Parece que as européias adoram exagerar em festa formal, mesmo quando era para ser chique!

Sem contar a participação da Sérvia, cujo cantor parecia uma mistura do Roberto Leal com o Cauby Peixoto e as Borboletas (pluft!) da Belarrúsia que aparecem de repente, me assustaram e me fizeram ter vergonha do nome deste humilde blog (tô escondendo a cara com a mão direita agora), eu achei tudo super divertido.

É preciso confessar (em voz baixa) porém que foi mucho, af maria!, difícil não dar uma vibrada com aquele monte de grego dizendo "ôôôpa!" e pisando forte.... gritando como tribo grega. Não é redículo do que a gente acaba gostando quando tá em bando e em festa? Eu adorei!!! Aliás adoramos aquela pisada forte (meio exagerada no vídeo oficial) dos moços e a música cantada não em inglês, mas em grego. Oysan!

Bom, sou arroz de festa e deslumbrette por natureza. Sou o tipo que não sabe nem quem foi classificado para as Copas, mas nos jogos vibro (verdadeiramente) e faço festa como se fosse a maior apaixonada por futebol do planeta.

E, apesar de eu ter saído com Xu e Helena cantarolando e dançando no elevador "Love, oh, love, I gotta tell you how I feel about you", da jovem Lena Meyer, devo admitir que se a música dela é melhor de ouvir e dançar numa disco, em festa de apê e copa eu fico mesmo é com os os gregos e os franceses. Acho que vou encerrar minha estadia na Suécia torcendo para Brasil ao som de "Allez olla olé", ao menos se não aparecer um jingle mais colante que represente o Brasil (tem algum já?)... E sem culpa: OPA!

27 maio 2010

A Suécia e algumas histórias (3): Eileen, a escocesa cuja pátria é o mundo


(Eileen Laurie, em frente de sua instalação "As Baleias", na abertura da exposição que participou)

Eu já tenho ciência da porção de coisas das quais vou me lembrar com orgulho um dia no futuro sobre esse período vivido na Suécia, mas talvez eu possa resumi-las em duas grandes categorias: a natureza, com suas estações tão marcadas e as cores nunca vistas e sentidas antes por mim, assim como das pessoas com quem tive contato.

Eileen Laurie, uma escocesa quem deixou sua terra natal há muitos anos para viver a vida conhecendo outros países e pessoas, é uma delas. Em sua corajosa jornada, Eileen (que se pronuncia "Ailin" e eu acho lindo) contou que sempre ouve alguém cantando alguma canção ao se apresentar, já que há várias canções com seu nome. Contou também que foi depois de passar por inúmeros países e viver neles que veio parar na Suécia onde acabamos por nos encontrar no curso de cerâmica que terminei na semana passada, na Folkuniversitet.

Além da personalidade alegre, com aquele sotacão inglês suuuper bonito, Eileen é extremamente atenciosa e de uma cultura imensa. Já estou convencida de quanto mais cultura alguém tem (não estudo apenas) mais capaz ela é de assimilar as diferenças entre as pessoas e perceber suas riquezas. Ela também é capaz de enxergar o mundo com olhos menos egocêntricos do que a maioria e perceber-se como parte dele.

Eileen sempre estava a fazer peixes com a argila e isso me chamou a atenção. Lembro-me de, primeiro, ver seu peixe feito com papel e material orgâncio em tons de verde o qual adorei, inclusive porque na mesma semana eu havia escrito o post sobre consciência ambiental.


(Collografia - impressão em relevo - feita com restos orgânicos domésticos e materiais como folhas de chá, botões, sementes de coentro, etc, Eileen Laurie) "

Quando perguntei o porquê do tema e ela me respondeu ser vegetariana eu ri alto e perguntei com toda minha imbecilidade do mundo: "mas se você é vegetariana então porque ama tanto fazer algo com peixes?" Só percebi minha lerdeza assim que terminei a frase. Eu amo peixe, mas no sentido de amar comê-los. A Eileen ama os peixes a ponto de conseguir não comê-los. E assim faz um trabalho de arte misturando materiais totalmente orgânicos que ela normalmente toma do lixo. Lindo e extremamente sensível!


("Detalhe" onde se vê o quadro feito de tubos de alumínio e fios, contendo os objetos encontrados além de objetos de tecido, Eileen Laurie)

Sua idéia é aproveitar ao máximo o que é produzido pela própria natureza e que descartamos. Ela consegue tirar proveito de restos de pó de café ou de chá, em pequenos detrimentos orgânicos que se juntam na criação de suas obras. E ela não faz para fazer bonito, faz porque tem seu olhar assim desviado na direção de um todo. Numa preocupação com o meio ambiente, com o futuro, com o verde do qual somos totalmente dependentes para viver. Ela se preocupa com as pessoas que conhece e com aquelas das quais nunca ouvirá falar. E isso é algo do qual a gente não esquece!

Acabei pedindo a Eileen que me mandasse um resumo de quem era, porque desejei imensamente trazê-la para vocês conhecerem. E também divulgar um pouco do que ela faz e de seu jeito verde de ver o mundo. Acho que normalmente a gente está centrado demais nas nossas vidas, o que é normal e sadio, mas é legal ver como tem gente por aí pensando na gente, mesmo que indiretamente. Além disso, é bom aprender a tirar o olho do próprio umbigo, ou do próprio espelho e mirar em outra direção.

No caso da Eileen eu fiquei a pensar como nós seres humanos podemos formar uma corrente, ainda que sejam maneiras muito diferentes de fazer essa conexão. Se o que faço aqui faço com responsabilidade e cuidado eu, com certeza, não estarei sendo egoísta e isso me une à humanidade.

Bom, deixe que ela se apresente... Aqui uma versão (não profissional) traduzida por mim para aqueles que não se sentem tão familiares com o inglês e, logo abaixo, o texto original para quem prefere ouvi-la na "língua dela". "Come on Eileen!"

(A instalação "Baleias" de Eileen Laurie, tentativa de revelar o quanto nossa irresponsabilidade e descuido joga no mar onde vive um animal tão impressionante como a baleia, restos de lixo que nunca serão consumidos pela natureza)

"Cara Maria,
(a Eileen me chamava pelo segundo nome)

Aqui estão algumas informações sobre mim.

Eu nasci na Escócia e estudei francês, alemão e também literatura. Eu queria ler muitos livros, conhecer muitas pessoas e viajar e foi isso que eu fiz.

Eu tenho vivido e trabalhado em vários países da Europa. Também estive três vezes nos Estados Unidos e espero visitar outros lugares fora da Europa, em algum momento da minha vida. Por hora, estou focada em construir minha nova vida em Malmö, na Suécia. Esta será a minha a vigésima sétima vez que eu me mudo...

Eu gosto de fazer compras em lojas de sucata, sebos e brechós. Se eu encontro coisas nas caçambas de lixo nas ruas, e eu sinto que posso usá-los eu pego todas. Eu também uso "freecycle" (mercado, feira livre) para encontrar as coisas e passá-las para outras pessoas.

Meu projeto sobre as baleias tinha em mente muitas coisas: a quantidade de lixo que compramos, o mal uso delas ou como as destruímos e, em seguida, como as jogamos no mar ... e este lixo não vai a lugar nenhum, porque o mundo é redondo. Eu também tinha em mente nosso descuido com objetos que ainda exercem sua função, nossa impaciência e estupidez. Ao mesmo tempo o modo como apreciamos a beleza. Sem contar que eu também gosto das baleias, elas são os maiores mamíferos, elas cantam e elas são realmente inteligentes.

Estou fazendo aulas de cerâmica, porque eu estou de saco cheio de ficar sentada na frente de um computador. Eu gosto de traduzir, mas eu preciso dar uma sacudida na minha vida. Eu quero aprender e ser empurrada para coisas que eu tenho medo de fazer. Quero trabalhar com outras pessoas, tentar fazer algo bonito e/ou objetos úteis que nos cativem e que nos exijam uma atenção e um cuidado extra."

Eileen x




(Série de cerâmica feita por Eileen nas aulas de cerâmica que começou há algumas semanas)
...

Dear Maria,
Here is some information about me.

"I was born in Scotland and studied French and German language and literature. I wanted to read lots of books, meet lots of people and travel, and that is what I did.

I have lived and worked in several countries in Europe. I have been to the US three times and hope to visit other places outside of Europe at some time in my life. But I am concentrating on building my new life in Malmö in Sweden. This will be my 27th move ...

I like to shop in junk shops and flea markets. If I find things in skips (dumpsters) on the street, and I think I could use them, I pick them up. I also use freecycle to find things and pass things on to other people.

My whale project was looking at many things: the amount of crap we buy, hardly use or break and then dump in the sea ... and it doesn't go anywhere, the world is round, our disregard for well-made objects, our impatience and stupidity. But also our apprecation of beauty. I also like whales, they are the biggest mammals, they sing and they are really smart.

I am taking the ceramics class because I am dog-tired of sitting in front of a computer. I like translating but I need to shake up my life. I want to learn, to be pushed to things I am scared of, to work with other people and to make beautiful and/or useful objects that are a joy to behold and worthy of looking after."

Eileen x


25 maio 2010

"Marina, Marina, Marina..."


(Eu, feliz e literalmente de pernas pro ar (não vai pensar mal de mim!) Ales Stenar, Kåseberga, verão, 2009)



Há várias semanas, movidas pela energia da Glorinha, a gente decidiu falar, pensar e escrever sobre as cores. E viajando nelas a gente descobriu uma energia diferente vindo de cada uma e, nessa última postagem, a "Pintora Imaginária" nos pergunta sobre nossa cor preferida.

Eu não posso falar de cor preferida, mas sei falar do quanto a cor está em minha vida: nas paredes de minha casa, nos meus quadros, nas roupas, na comida, em todo canto...

E é exatamente pela força que a cor exerce em mim, o modo como ela pode me tirar de um estado de ânimo e pôr em outro que preciso falar do azul...

Estou há três anos nessa Suécia eu já tinha dito aqui que o amarelo sempre vai me lembrar este lugar, para sempre!, mas não mais que o azul... Há três anos vivendo aqui minha sensação é que nem as nossas praias brasileiras são mais azuladas, contrariando o poema...

Não sei se a perda da cor por 6 meses ou mais me faz delirar com o azul que vejo por aqui, mas é assim que tenho me sentido... Fora isso, ter vindo viver em frente ao mar, há um ano, tem me feito ficar praticamente hipnotizada pelas várias tonalidades que o mar assume aqui, por conta da posição do sol e da retidão do terreno... O céu e o mar, totalmente azuis, nunca são do mesmo tom... nunca se confundem e fazem um casamento perfeito...

Foi olhando para o mar, foi desejando não esquecer nunca esta vista do mar imensamente azul e esta sensação de plenitude que ele me passa que decidi ser mãe de novo, junto com o Renato. Foi olhando para o mar que senti os enjôos, passei horas imaginando a criatura que estaria em meu ventre... E foi olhando para este mesmo mar que o nome Marina me veio à mente...

E foram estes os mesmos motivos para que a decisão fosse tomada a dois...

Estou totalmente enamorada de Marina... do azul... dessa paz que invade a gente quando se tem em frente tanta água...

Marina significa a que pertence ao mar, a que veio do mar ou a que nasceu do mar... No caso da nossa Marina, a que foi gerada, a que nasceu entre os mares da Suécia e do Brasil...

Marina azul, o mesmo azul (e não rosa) da primeira roupinha que comprei assim que soube que esperava uma menina...

E é com essa cor que quero ficar, encerrar a prazerosa participação, ainda que não tão frequente, na blogagem da amiga pintora virtual e dizer: "Valeu Glorinha!"



(Brincando nos campos de futebol em frente de casa e admirando o Torso e as manifestações da Primavera, Malmö, primavera de 2010)


(O azul contrastando com o branco da neve, Malmö, fevereiro de 2010)

(O porto, as marinas e o mar azul de outra cidade sueca inspiradora, Göteborg, 2008)


(Ângelo em passeio com a mãe pela praia num fim de dia qualquer da primavera de 2009, Malmö,)


(A imensa ponte que liga Malmö e Copenhaguem e a vista que a gente nunca mais vai esquecer... Malmö, primavera de 2009)



(Cruzando uma das inúmeras pontes da Dinamarca, em direção à Legolândia, primavera de 2008)


(Os "moinhos" modernos, produtores de energia eólica que têm me deixado se ar há três anos, caminho para Berlin, primavera de 2008)

24 maio 2010

Dança comigo?

("Goodnight moon", Shivaree)

Cê quer dançar comigo no meio da sala? Então embala aí essa música fantástica da trilha do Kill Bill 2...

Tá aqui uma outra coisa que eu vou mor-rer de saudade dessa Suécia! Meu programa de música grátis Spotify! (o programa só funciona legalmente na Europa)

Não vai ter graça nenhuma ter que voltar pros meus cedês véios e arranhados (porque eu sou o tipo de arranha cd), limitados ao tanto que pude comprar até hoje , ou o i-tunes mirradinho...

Acho que entre as coisas mais divertidas proporcioandas pelo programa sueco é descobrir, sem querer, uma música maravilhosa atrás da outra... Ontem ouvi umas valsas do Chopin que eu não conhecia, quando procurara por uma que adoro... e aí descobri essa da Shivaree, quando acessei a trilha sonora do filme do Tarantino, Kill Billl...

Clique aí e vê se não dá uma vontade de dançar e uma alegria danada apesar de ser segunda-feira?

Sei lá eu porque! mas dá!
Dança comigo vai! Solta essa franga!

E se quiser cantar, tá aqui a letra... Ótima segunda de novo!


Goodnight moon

There's a nail in the door
And there's glass on the lawn
Tacks on the floor
And the TV is on
And I always sleep with my guns when you're gone

There's a blade by the bed
And a phone in my hand
A dog on the floor
And some cash on the nightstand
When I'm all alone the dreaming stops
And I just can't stand

What should I do I'm just a little baby
What if the lights go out
And maybe and then the wind just starts to moan
Outside the door he followed me home

So goodnight moon
I want the sun
If it's not here soon
I might be done
No it won?t be too soon 'til I say goodnight moon

There's a shark in the pool
And a witch in the tree
A crazy old neighbor and he's been watching me
And there's footsteps loud and strong coming down the hall
Something's under the bed
Now it's out in the hedge
There's a big black crow sitting on my window ledge
And I hear something scratching through the wall

What should I do I'm just a little baby
What if the lights go out
And maybe and then the wind just starts to moan
Outside the door he followed me home
So goodnight moon
I want the sun
If it's not here soon
I might be done
No it won't be too soon 'til I say goodnight moon

(Shivaree)

Amizades nada virtuais: Sonildes e Camilitas: a Noruega, a Suécia, o Brasil no mesmo jardim


(Os opostos se atraem, Lars norueguês, quietinho e discreto com sua Camila falante e toda brasileria, Malmö, 2010)

Este fim de semana rolou churrasco com direito a um solzão lindo em frente de casa e 20 graus no termômetro.

Não fosse eu explicar para meus amigos daqui como conheci senhorita Camilíssima, nossa amizade passaria por uma outra qualquer.

Conheci Camilitas através de nossos blogs. Não me lembro quem descobriu quem primeiro. Foram trocas de comentários e muitas idéias em partilhadas. Adorei logo seu jeitão direto de falar, suas falas super críticas e o conteúdo de vida que trazia através de tanta jornada pelo mundão afora dentro de um navio gigante.

Fui ficando íntima, desse jeito que a gente é íntimo pela internet... Celebrei com ela seu casamento e sua alegria ao encontrar A-ha e chorei as lágrimas da perda de seu pai aqui de longe... Trocamos alguns emails e desejamos um encontro...


(As amigas de centenas de posts papeando e comendo juntas, repare no detalhe do Torso ao fundo e nas minhas havaianas nos pés da convidada íntima, Lars, Babak, eu e Camilitas, Malmö, 2010)

E, aqui entre meus amigos muito reais, Camilíssima e seu Lars aniversariante estavam com a gente no último sábado.. Quando a amiga Xu perguntou-me: "E então foi estranha a sensação de conhecer alguém que você só conhecia assim virtualmente?" E eu: "hãnn? Ah! Verdade! A gente não se conhecia pessoalmente! Não! pra mim é como se a gente se conhecesse há séculos!"

E essa é a mais pura verdade!

A Camila com quem aprendi a pensar muito mais sobre o meio ambiente neste ano que passou é apaixonada pelo seu norueguês e pelas coisas... Ela é o que ela disse sobre mim: "ela é ela mesma!"...

Uma de suas frases (em inglês porque tinha gente de outras nacionalidades aqui em casa) foi: "Você sai de Copenhaguem que é aquela agitação toda, tanta coisa bonita para ver, cruza a ponte, chega em Malmo e aí esta cidade é simplesmente adorável de se estar!"...

Tá vendo!? Tudo o que eu venho dizendo há três anos uma pessoa esperta e sensível resumiu em uma frase... Eu e Camilitas temos tudo a ver! E vou me despedir dela daqui há pouco no centrinho de Malmoeee para um café especial!

Até agora não falamos de blog, nem de internet, nem nada! E eu nem mesmo me lembrei de tirar uma foto só eu e ela juntas aqui em casa, creditam? Isso porque eu devo ter mesmo sentido que ela é amiga véia e daí que não tenho foto com ela pra postar pra vocês!

Beijão! E no café com Camilitas agora eu vou pensar em todos vocês que eu adoraria desvirtualizar! Ótima segunda-feira!

20 maio 2010

Do lixo ao luxo, parte 3: a história de uma cadeira esquecida


Há algum tempo tenho tido um siricutico danado por pegar peças do lixo ou objetos usados e antigos e tentar transformá-los. E isso começou mais propriamente com a história de uma cadeira, mais de um ano atrás, o que também me inspirou a escrever a sessão "Do lixo ao luxo" e também outros posts acerca do cuidado com o meio ambiente.

Eu queria muito dar nova vida e novo lar a algo já usado e esquecido por alguém, por essa razão havia sugerido à amiga Xu (que tem uma mala linda do seu avô em sua sala moderna) o empreendimento. Tendo ela topado, compramos primeiro um tecido que ela gostasse de ter em casa, numa cadeira, em uma das lojas de departamento daqui, a Ahléns.

Estacionamos num sábado qualquer num dos Second-hand (loja de segunda mão) de uma cidadezinha ao lado de Malmö, a fim de achar uma cadeira velha, surrada, mas com condição de ser transformada.

Logo de cara bati o olho nessa cadeirinha aí. De madeira excelente, tinha uns formatos interessantes, embora o tecido estivesse maltrapilho e nojento. A cor dele e da madeira desbotada, mas vi tanto potencial naquele móvel que contaminei Xu logo de cara.

Pagamos o equivalente a uns 17 reais nela.


A primeira etapa da transfomação, propriamente dita, foi lixar toda a madeira, e limpá-la para a pintura.


A segunda foi aplicar a tinta especial para madeira, encontrada aqui na loja Panduro. Escolhi cores que faziam um bom casamento com o tecido comprado.



Tentei dar realce às formas da cadeira, descobrindo suas formas originais, valorizando o desenho que um dia alguém pensou para ela... Descobri que sua forma lembrava a copa de uma flor. Tentei várias e várias cores diferentes.


Testamos qual deles iam melhor com as flores do tecido...

Acabei voltando a este projeto apenas nos últimos meses quando finalmente retirei o tecido antigo do assento, os pregos enferrujados, as espumas cheias de poeira. Limpei tudo, colei e costurei o tecido novo.

Mudei mais umas vezes algumas cores e cheguei à combinação desejada.

O resultado ficou assim...

(Mademoseille Flaviá, por Somnia Carvalho, 2010)

Da poeira da loja de segunda mão, amontoada entre dezenas de outras companheiras, a cadeira esquecida agora vive no apartamento colorido, jovem, cheio de energia do par romântico Xu e do Gus.

E a missão foi cumprida, a história da cadeira mudada e nosso olhar também...

Sonhando num cavalo branco...


("Cavalo sonhador", Sascalia)

Estava aqui entre uma pilha disso e daquilo para fazer quando recebi uma rápida ligação de minha amiga Nikol, aquela alemã de quem já falei muito aqui antes.

Depois de 41 semanas e 4 dias (na Suécia e em quase toda a Europa não se força a cesareana se tiver tudo bem com o bebê e a mãe) a Nikol deu à luz a um menino chamado Luís.

("Mãe e filho", Sascalia)

Ter acompanhado sua gravidez desde o início e ouvi-la falar dos planos com o segundo menino... Assim como sua angústia das últimas semanas, depois que ela parou de trabalhar e estava apenas a esperar sua criança e ver sua carinha saudável... E agora, depois de ter ouvido sua voz cansada do parto ao mesmo tempo tremida de emoção, juntamente de um chorinho leve de bebezinho recém nascido me deu uma alegria tão tão imensa, uma emoção incontrolável que parei o que estava fazendo para escrever.

Pintei uma tela que não gostei com uma Marian vestida de branco para o post da semana da Glorinha... mas agora pensei que o nascimento do Luís é o post que eu queria para essa cor... A paz que a Nikol está sentindo, a luz que vem do nascimento dessa e de qualquer criança, o branco de tantas páginas da vida dele que está por ser escrita, tudo isso resume o que sinto da cor branca. Paz e vida.

A morte é mesmo um mistério e pode ser negra, mas a vida com certeza é um milagre... E é branca que só...

19 maio 2010

Maluca beleza, com certeza!

(Suco de maça, cerveja sem álcool, chop, tudo que se tem direito para celebrar o encontro e talvez a despedida de 11 amigos em Praga, Kenth, Ângela, eu e Ângelo e o pessoal invisível do outro lado, Fabinho, Liana, Tiago e Gigi, República Tcheca, maio de 2010)

Estava escrevendo esta resposta lá nos comentários e estava tão gigante que achei melhor virar um postezinho, já que perto do tanto que escrevo ele é quase pequeno... Aqui vai...

"Molerada querida que me escreveu no último post e quem leu e ficou tristonho com ele,

Quer dizer então faço todo mundo chorar as pitangas junto comigo? rs...

Obrigada, de coração, por toda essa torcida para que tudo dê muito certo na nossa nova velha vida no Brasilzão desse nosso Deus!

Obrigada pelos elogios tão sinceros de quem lê o blog e gosta... "das veiz" eu não acredito muito que os textos possam agradar a alguém, daí vocês me lembram que sim, que muitos gostam, se sentem bem e tal e me dá aquela vontade de novo! E muitas vezes eu me inspiro lendo vocês mesmas... Inúmeras vezes! É realmente uma troca!

Só uma coisa que queria acrescentar a este último post depois dos comentários de vocês: vocês já sabem que eu sou maluca não é! De carteirinha! Vocês se lembram não é mesmo?

Eu sou pisciana, tenho até PHD em filosofia, o que não é para qualquer maluco, só para os apaixonadamente malucos! E eu sou metida a arrrtista! Dá para entender que eu sou o tipo intenso, mesmo quando eu não quero. Eu sou piegas. Eu falo de emoções com uma breguice só minha e eu falo de meus amores e ódios do mesmo jeito!

De fato todas vocês perceberam que eu "sofri" escrevendo este post, eu choooreeeeei horrores enquanto escrevia, mesmo porque eu estava segurando de falar isso pra voces desde janeiro, entendem?

O post que iria ser sobre o visitante 100 mil virou também o post do anúncio da mudança, desse meio começo de despedida e tudo o mais. Apesar disso, ir embora não é algo que me faça sofrer no sentido literal do termo. Eu tenho momentos de tristeza quando penso nas perdas. E eu tenho momentos de extrema alegria e excitação quando penso no que poderei voltar a fazer tendo minha velha vida, trabalho, casa, minha família e meus velhos amigos comigo de novo!

É fato que eu soltei o buááá escrevendo o post a vocês... É muito especial viver isso tudo, falar disso com vocês e ser ouvida... mas a verdade é que eu subo e desço muito rápido. Me empolgo de um minuto pra outro com algo e aí morro de rir, me sinto cheíssima de felicidade...

Fico imensamente grata pela internet e um simples blog me proporcionar tanta troca boa! juro! Eu agradeço mesmo! É tão bom saber que quando eu queria tannnto falar aquilo tudo tinha gente com consideracao como vocês... Por outro lado, quero dizer que os tipos como eu, sofrem alguns minutos e riem o restante...

Tenho comprado coisas lindas que sempre olhei e queria para minha casa no Brasil ou para a nova membra da família. Tenho planejado encontrar minha sobrinha Luana e curtir, curtir sua presença como se o tempo não tivesse passado. Quero tagarelar com meus irmãos sobre nós e nossa infância e lembrar de nosso pai. Quero ver o Ângelo brincando com os sobrinhos moleques, Jú e Gus, comer a comida da minha mãe e as sobremesas da minha sogra. Passar fim de semanas na praia, comer comida mexicana com a cunhada, dar um pit stop nas amigas e ficar até tantas em casa em jantares especiais com amigos queridos e seus filhos.

Tudo isso pra dizer então que hoje, por exemplo, eu tô subindo as paredes de alegria de pensar na ida, toda cheia de planos etc... Daí se penso nas perdas (que não são poucas se a gente fica comparando o que se pode ter na tranquila, organizada Suécia e não se tem no nosso Brazil veronil) eu volto a pensar: "putz! que melda não ter o melhor dos dois mundos ao mesmo tempo!" E desisto de querer o impossível... e me conformo de que não há mudança sem sofrimento e adaptação, ou readaptção no meu caso...

E assim vou, tenho ido desde que cheguei nessa Suécia, desde que me conheço por gente...

E por tudo isso, por eu ser eu mesma aqui e ter essas conversas malucas com vocês: obrigada!
Eu vou tentar de alguma forma não deixar morrer o "Borboleta pequenina" mesmo que não seja mais somniando na Suécia...

Beijão grande de quem tem uma centena de posts sobre essa vida aqui na cabeça para publicar antes de ir embora e espera que vocês estejam aí para ler!
Sônia."

18 maio 2010

Os ventos do Norte que movem moinhos




O que nos leva daqui pra lá e de lá pra cá como uma pena ao vento?

Essa pergunta feita pelo ser humano desde sua existência, tema de acirradas discussões religiosas ou filosóficas tem inúmeras e diferentes respostas.

Cada qual de nós provavelmente terá a sua própria, embora não saibamos exatamente qual delas é a correta. O que sei é que desde o início deste blog, o destino, as escolhas diretas e indiretas que vocês e eu fizemos nos fizeram cruzar caminhos.

E foi neste ir e vir, nesse voar ao sabor do que sentia no momento que me fez escrever 553 posts em quase três anos. Foi a Borboleta Somniando e vivendo na Suécia. Foi o desejo de se jogar no mundo e de ser levada por outros ventos, como os ventos do Norte.

E esses mesmos ventos trouxeram na semana passada a Denise pela primeira vez por aqui enquanto o contador do blog virava para 100 mil visitas.


(Hanns Zimmer, tema de abertura do filme Forrest Gump)

Sei pouco dela, mas sei que tem um blog, onde tece idéias, divide sonhos, poesias e músicas das quais gosta. Sei também que ela deve gostar demais de uma das músicas que eu mais amo ouvir, já que esta é a abertura de seu blog. O tema do filme Forrest Gump, aquele de piano que toca enquanto a peninha fugida das mãos de Tom Hanks viaja ao som do vento e do destino que a leva, é uma das músicas e também a trilha mais ouvida por mim desde a estréia do filme em 1994.

1994 foi o mesmo ano que deixei de viver com minha família, deixei meu emprego de assistente de administração na Transportadora onde havia trabalhado por muitos anos e fui estudar Filosofia na Unicamp e morar com gente que ali havia chegado através de outras tantas milhares de escolhas e acasos. Foi com amigas que fiz lá que vi o filme e curti muito a trilha, todas deitadas na cama, dividindo projetos, sonhos e frustrações...

O mesmo lugar onde conheci o meu companheiro de jornada, Renato, com quem tenho dividido entre tantas coisas, essa vida de sonhos e também de labutas nesta pacata e deliciosa Suécia.

Parabéns Denise! Espero que você tenha recebido todas as energias super positivas que emanei para o visitante 100 mil lá de Praga.

E obrigada a cada um de vocês que passou por aqui neste tempo! Obrigada para quem passa com demora e me proporciona trocas tão incríveis! A vocês um abraço muito, muito apertado. Espero ainda encontrar vocês e ver onde o vento vai nos levar...

(Eu e quem tem me feito fazer diferentes escolhas, deitadas no gramado do Castelo em Potsdam, Alemanha, maio de 2010)

Por hora devo dizer só que, depois de três anos e quatro meses sendo essa quase personagem que aqui vive e escreve, a Borboleta terá em breve outro destino.

Deixará a Suécia, lugar que tomou como segundo lar.
Deixará os amigos queridos e inesquecíveis que fez aqui...
Deixará o verde, o colorido das flores da Primavera e o branco de neve do inverno,
Deixará de cantar de bicicleta com seu Ângelo pelos parques e ciclovias,
Deixará de olhar para o imenso mar que divide a fronteira entre a Suécia e a Dinamarca,
Deixará de somniar na Suécia, porque também os ventos do Norte movem moinhos...


(Duas formiguinhas no meio da multidão que invadiu Praga no último fim de semana, Sônia e Ângelo, foto do Renato lá em cima da Torre do Relógio Astronômico, República Tcheca, maio de 2010)

Depois deste tempo,
Depois de tanto aprendido,
De tanto vivido,
Da saudade e da ausência sentida,
Da família crescida,
E de tantas escolhas, ventos e mais,
A Borboleta irá sonhar novamente no Brasil.

Ela, seu Renato, seu Ângelo e sua Marina.


(De olhos fixos no Relógio Astronômico no centro de Praga, Ângelo e eu, República Theca, maio de 2010)

E será nesta nova praça que talvez a gente se encontre...
Em fim de julho os ventos do Norte me mandam de novo para o primeiro lar...
Então não reparem no tom de despedida... Tenho me despedido daqui desde janeiro, quando voltei do Brasil imaginando que seriam os últimos meses, mas do qual só tive certeza agora...

Me despeço com alegria, mas também sofrer porque tudo que vivo vivo assim, intensamente, impossível de não ser sem muitas lágrimas... não por medo ou lamento do futuro ou do passado, simplesmente porque viver para mim é isso. É se jogar tão leve e profundamente nas coisas que é impossível de não amá-las como sendo sempre suas... Viver é estar aberto às mudanças, mesmo quando se sabe que haverá perdas com elas...

E acho que é nisso que reside a dureza, mas sobretudo a graça das coisas...

12 maio 2010

Um abraço e um aplauso para o visitante 100 mil diretamente de Praga!


Gente boa,

Chove bastante aqui hoje, o dia está feio e estou fazendo as malas enquanto o Ângelo brinca.
Eu havia perdido um tempão terminando um post que queria muito publicar ainda na semana da postagem verde da Gloríssima. Perdi todas as correções que fiz hoje e inserções por conta de falha no blogspot. Fiquei verde de raiva, mah tudo bene! Só não tenho mais tempo de refazer tudo novamente (o post era bem grande!). Vou viajar sem o post da semana e sem conseguir responder comentários, emails etc. Farei tudo semana que vem, depois de voltarmos.

Estamos indo conhecer Praga, capital da República Theca, lugar que sempre tive uma curiosidade infantil de conhecer, já que uma de minhas tias, Vicentina, se casou com meu tio João, cuja família vinha de lá, através de um programa de rádio da época. Lembro dela contar que se encantou por ele ser "meio estrangeiro" e desse lugar tão distante. Lembro-me de pensar tanto nesse lugar distante e tentar imaginar como era a terra de onde meu tio havia saído.

O desejo só aumentou com leituras de Kafka e quando conheci clássicos da música nascidos por lá.

Vamos numa viagem de carro com parada em Berlim na ida e Potsdam na volta. Encontraremos três casais de amigos brasileiros, Liana, Flávia e Ângela e tenho certeza de que será uma viagem marcante.

Sei que no Brasil não é feriado, mas aproveito para mandar um abraço para quem passar por aqui e sobretudo a quem for o visitante número 100 mil.

Prestem atenção aí no contador do lado e se você for o número 100 mil deixe um recado pra gente. Eu estarei mandando super energias de Praga, então sendo você o visitante 100 mil você terá uma semana inteirinha de muita sorte e com chances de se tornar famoso ou famosa aqui no Brabuletis.

Hasta la vista Baby!

07 maio 2010

Do Brasil e de Cabo Verde: duas almas perdidas e achadas na Suécia

("Artista inspirada", Marc Chagall)

Há vários meses eu conheci bem por acaso uma cabo verdiana chamada Edith, moradora aqui de Malmö também. No encontro casual no meio do circular trocamos umas palavras e email, mas nunca mais nos falamos.

Lembro-me que logo de cara eu adorei ouvir aquele sotaque tão franco de um português de Portugal, o qual me fez tomá-la primeiramente por uma portuguesa. Só depois entendi que a terra da Edith era a mesma de Cesárea Évora, quem aprendi a ouvir na voz de uma amiga do Porto. A terra da Edith tivera os mesmos colonizadores que a minha. Nossa língua a mesma, nossa história tão semelhante. Ambas apaixonadas pelas artes plásticas (ela é artista plástica profissa e professora na rede privada de Malmö), as duas provindas de países quentes, onde a semelhança está no sangue africano que corre nas veias, no ritmo das músicas, no jeito caloroso de ser.

Hoje, voltando com Ângelo num ônibus do centro topei com Edith novamente. Seu sorriso logo se abriu e já sentamos ali juntas para conversar, como só "bons amigos" da mesma terra fazem. Obviamente o mesmo nunca aconteceria se ela fosse mais sueca, terra onde tomou como lar há muitos anos, do que cabo verdiana, sua terra natal.


("No mar", Encontro perefeito entre a voz da cabo verdeana Cesárea Évora e da brasileira Marisa Monte)

Na conversa rapidíssima Edith me fala do quanto gosta do meu blog. Blog? Pergunto eu. Você lê meu blog? Sim. Edith disse ler o blog todos os dias e ainda lamentar (obviamente no belo sotaque portuga) com o marido "ah, a Borboleta não escreveu hoje!".

Como eu disse foi um encontro muito rápido, de minutos. Foi suficiente para eu receber uma injeçãozona de ânimo e alegria, quando a Edith comentou alguns últimos posts e o quanto ela havia gostado deles, como aquele sobre as afinidades eletivas, ou da TV nos locais de saúde e que "us quadrus ixchtão muitu bonss!"

Melhor ainda mais quando vem num dia feio, com Primavera de vetania forte e 7 graus no termômetro. Eu não tinha tido nenhuma vontade de postar esses dias, mesmo tendo feito rascunhos...

Dias ruins e dias bons todo mundo tem... o que nem todo mundo tem é a chance de ter esses encontros casuais energéticamente miraculosos. E eu agradeço por eles... Ouvindo a Edith eu sempre me lembro o quanto de gente anônima interessante tem aí atrás dessa tela, trocando figurinha comigo, apesar de estar quietinho e quietinha, apenas assinalado pela bandeirinha do meu contador...

(A Bandeira do Brasil e a de Cabo Verde, símbolos de uma Pátria encarnada em nós)

"Obrigada pelo blog!" gritou a Edith hoje de dentro do ônibus enquanto eu saía pela porta toda atrapalhada com o Ângelo, sem conseguir responder.

"De nada, Edith!"... Na verdade os três anos em que tenho vivido na Suécia escrever neste blog tem sido um privilégio porque posso falar dessa experiência que grudou em mim... essa Suécia que me mudou para sempre ao mesmo tempo que continuo tão brasileira.

É um prazer ter gente como você e esses outros que por aqui passam... E olha que já me dá até saudade dessa vidinha internacional da Suécia e de tanta história pra contar...

Bum dia pra toduxu vucêis!

04 maio 2010

Delícia é encontrar raparigas aralanjadas como nós

("Fertilidade", Somnia Carvalho, 2006, pertencente à amiga Vanessa Pinto)

Antes de me decidir engravidar pela primeira vez eu vivia entre a dúvida cruel de terminar o doutorado, dar minhas aulas e "parar tudo" para ter um filho, porque na minha cabeça as duas coisas pareciam mesmo não muito conciliadoras. Me dedicando a um eu não faria direito o outro e vice-versa.

Aquele meu pensamento tinha obviamente um fundo de verdade. Não é possível mesmo fazer tudo que se fazia antes de ter filhos ao mesmo tempo que se tenta cuidar bem deles. É preciso priorizar uma coisa ou outra. Ao contrário, porém, do que eu esperava da gravidez e daquela fase que eu imaginava meio que levar literalmente empurrando com a barriga consegui me sentir ativa, cheia de energia e criatividade.

E com o segundo barrigão não tem sido diferente.

Hoje comecei o dia lavando as muitas janelas de vidro de casa, limpei, arrumei, organizei a casa, cozinhei etc. Algumas atividades que normalmente eu tentaria empurrar com a barriga se não estivesse grávida eu não passo adiante. Faço tudo! E ainda ando de bike pela cidade (aqui é comum grávida andar de bike até estar gigante), vou daqui pra lá, de lá pra cá e a cabeça não pára de ter idéias.

Pintei mais quadros nas últimas semanas do que em três anos de Suécia. Me sinto simplesmente assim cheia de energia, quase o tempo todo!


("A Imperatriz", imagem da personagem mitológica que me inspirou a pintar a tela acima e a engravidar do Ângelo)

Na gravidez do Ângelo escrevi mais capítulos de minha tese do que havia escrito em meses e meses, mudei 3 vezes para casas diferentes, pintei o quarto dele inteiro sozinha aos 7 meses e meio. Eu mesma me surpreendia com a qualidade dos raciocínios, a beleza de algumas construções de frases escritas por mim na tese e a teia de significados que eu era capaz de criar.

Este estar, literalmente, tão cheia de vida para mim é um negócio meio mágico, embora normalmente eu não seja alguém sem vida. É uma energia que ao mesmo tempo parece vir "do nada", te conecta ao mundo todo e faz você entender que é parte do Universo como aquele bichinho ali, aquele outro lá.

Gerar a vida e sentir uma crescer em você é simples e intenso demais. A gente sente que pode mover o mundo e algumas montanhas, cruzar o deserto num burrinho ou atravessar nove porteiras...

("Duet", a bailarina Lexie em dueto com..., in: Vimeo, música: Beirut)

A mesma energia que move a bailarina deste vídeo, o qual vi tive conhecimento através do "Raparigas como nós", de algumas criativas e cheias de vida artistas brasileiras, cujo projeto Loja de Estar, conheci através de outra mulher, blogueira toda intensa, a americana Holly Becker.

Vendo o vídeo reconheço a leveza e a técnica da bailarinha, mas vocês podem rir do que vou dizer: eu mesma poderia ser a personagem de "Duet". Se não com a mesma beleza e técnica com certeza com a mesma alegria quase sem explicação que acomete tantas das mulheres grávidas, como eu.

Ou como algumas de vocês...

Isso é coisa só de grávida artista ou o bicho carpinteiro pega mesmo todas nós quando estamos "embarazadas?

...

Ah! Energia e cor laranja da postagem gloríssima da semana tem tudo a ver, mas embora eu tenha tentado ardentemente ontem, pintando uma tela e deixando outro no meio, eu não gostei nada do resultado... De modosque ainda estou trabalhando nisso...

Ahhh2! Curiosidade que só entrei no site "Loja de estar" porque a propaganda delas eram um campo de papoulas lindíssimas na cor muuuito laranja...

02 maio 2010

Sobre as afinidades eletivas que nos conectam aos outros e aos nossos vários eus

(Daníssima que sabe exercitar bem a alegria de ser livre, no Alles Stenar em visita à Suécia, 2009)

Uma das grandes "brigas" que a gente tinha em casa, quando eu era adolescente, era o fato de viver meio que na rua, na igreja, onde quer que fosse com amigas e amigos. Eu passava quase o fim de semana todo organizando festas, quermesses, o santo a quatro, só para passar na companhia de minhas amigas e nos divertirmos. Sim, eu era quase uma santa adolescente! Até uma freira carmelita me dizer com todas as letras "você não tem vocação para ser freira, querida", vá namorar!

Lembro de minha mãe sempre dizendo de sua tristeza por eu parecer "preferir" as amigas ao invés da companhia da família, embora, no fundo, ela nunca tivesse me proibido ou dificultado meu desejo de sair sempre para o mundo. Seja quando quando pensava que seria freira, depois quando quis largar o trabalho para estudar filosofia em tempo integral e depois quando vim morar na Suécia.

Naquela época minha irmã também me dizia o mesmo e eu ficava em dúvida se eu era mesmo uma desnaturada com a família. A verdade é que eu não amava ninguém mais do que minha família, mas era fato que eu era o tipo que adorava estar com os amigos. E eu estava bem na fase de querer buscar um grupo para me identificar. Em minha cidadezinha pacata era mais fácil e rápido ter companhia nos amigos da igreja.

E com os amigos e amigas (as duas com quem eu mais ficava grudada, Rose e Solange, perdemos em um acidente de carro na época) eu amava brincar de ser outra Sônia. A Sônia que, em casa, normalmente eu não tinha oportunidade de ser, tocando violão até altas, falando de sonhos quase impossíveis... Isso porque a gente sempre desempenha papéis extremamente diferentes quando está com os pais, com o marido, com os amigos e amigas, com colegas de trabalho.

Somos tantos em um só e isso é algo do qual sempre tento me lembrar, porque sei que preciso, assim como minha mãe precisa, meu marido e meu filho precisam, de gente diferente ao meu redor. Não quer dizer que finjamos ser alguém que não somos, mas não acredito ser possível falar de tudo com todo mundo. É mais fácil soltar um lado nosso em companhia dessa ou daquela pessoa.


(Recebendo um abraço carinhoso de minha amiga amiga Dani, Davos, Suíca, abril, 2010)

Por essa razão, creio que as relações e os laços que criamos com os amigos nunca podem se comparar aos da família. E também não podem ser comparados entre um amigo e outro. Ao menos para mim. Mesmo que em família também nos sintamos amigos e mesmo que com amigos a gente quase se sinta uma família, eu vejo nesses relacionamentos formas muito diferentes de amar e de se relacionar.

E no fundo acho que quando se tem amigos e se convive muito com eles a gente aprende a cuidar melhor da amizade com a família. Foi quando saí de casa para morar na moradia da Universidade e o afastamento dos meus pais e da rotina que nos envolvia que eu pude valorizar o jeito deles me amarem. Foi sendo tratada de forma diferente pelas amigas, pelas mães delas (às vezes muito bem, às vezes muito mal) que fui vendo outras formas de se viver em família e perceber as peculiaridades da minha.


(Minhas amigas moradoras da Suíca, Dani, Gi com o marido e a filha, e Lud ouvindo as minhas baboseiras engraçadinhas de sempre, Baden, abril, 2010)

Essa reflexão me pegou essas últimas semanas novamente quando estive na Suíça pela segunda vez na casa de meus amigos brasileiros queridos, Dani e Rogério, que lá vivem já há alguns anos. Também fui tomada pelo mesmo pensamento ao fazer uma "noitada" quase adolescente de mulheres com minhas amigas brasileiras, Xu, Li e Ângela.

No primeiro caso foi um sentir-se muito acolhida, um sentir-se entre velhos amigos com quem se pode falar asneiras, rir alto e feio, chorar as pitangas, ouvir e filosofar sobre o rabo da lagartixa. Foi o jeito deles porem a cama e o café da manhã pra gente, a maneira como nos fizeram sentir totalmente em casa que me deixou até emocionada.

Conheci a Dani num projeto voluntário, chamado Universidade Solidária, iniciado e idealizado conosco no ano de 1996 por Ruth Cardoso. A idéia era levar universitários do Brasil todo para lugares muito pobres do sertão do Nordeste, fazendo com que nós ao mesmo tempo que nos sentíamos ajudando o povo de lá com cursos educacionais fôssemos, na verdade, afetados e educados a respeito da dura realidade do povo nordestino. Ficamos um mês juntas com mais umas dez pessoas. Cada qual de uma área. Nunca mais fui a mesma depois daquela experiência e acho que a Dani também.

Quero dizer: tenho afinidades com a Dani que não tenho com a maior parte dos outros amigos. Foi uma situação, um pensamento e um posicionamento nosso totalmente diferente que nos uniu naquela época.

Depois, dividimos festas, amores e dificuldades financeiras na moradia, onde passei anos inesquecíveis de minha vida. Fui madrinha de casamento dela com Rogério, acompanhei anos de sua vida, nos separamos fisicamente e a amizade foi resistindo bravamente através de emails ou falas corridas no skype. O mesmo que faço com a maior parte dos antigos amigos e amigas.

O encontro nas montanhas suíças nos reuniu como amigas de sempre. Os laços e as afinidades estavam quase intactas, apesar das nossas experiências particulares dos últimos anos terem sido bastante diferentes.

(Celebrando a alegria de estar junto, Liana, eu, Ângela e Xu, na nossa noite adolescente do pijama, Malmö, abril, 2009)

No segundo caso, uma "noite do pijama" juntou-me a algumas amigas que fiz na Suécia na casa da Xu que, com o marido viajando, abriu sua casa como abre normalmente o coração. Do jantar preparado a muitas mãos ao café da manhã do outro dia nos demos a oportunidade de brincar de sermos solteiras e descompromissadas. Falamos até as altas horas, dançamos, brincamos, dividimos nossas coisas mais profundas. Sabe aquela coisa bem teen de se sentir entre as amigas queridas e deixar a hora passar sem pressa? Foi assim. Apoio total dos maridos que também têm apoio total nosso para criar programas masculinos legais nos quais se divirtam e se sintam moleques de novo.

Para mim é curioso perceber como essas saídas além de servir para nos alegrar e nos dar aquela oportunidade de desempenharmos os vários papéis que nos cabem e nos realizam na vida, também nos junta mais a quem deixamos. Voltei no outro dia tão cheia de saudade, tão cheia de energia nova.

Estar entre amigos e trocar profundas experiências, desempenhar lá um dos papéis que me cabem significa entender melhor sobre eu mesma. E entender melhor quem sou me ajuda a ficar imensamente grata por ter alguém que me tolere dia e noite, semana após semana... com todos meus defeitinhos e defeitões, me amando na tristeza e na alegria.


(Conversa séria e conversa fiada, brincando de ficar bonitas depois de ficar muito feias, Malmö, Suécia, 2009)

E isso acho que é algo que é possível com algumas amizades, mas sobretudo em família, entre marido, mulher e filhos.

Estar entre amigos nos ajuda em família e vice-versa.

Lembro-me de um dos muitos casais doentios que já conheci até hoje, uma estudante com quem morei pouco tempo na mesma casa na república universitária, a qual o namorado a pegava para tomarem café da manhã juntos antes de ir pra facul, daí iam caminhando ou de ônibus juntos, almoçavam no bandeijão, depois voltavam juntos e ela só jantava com ele. Cozinhavam sozinhos na cozinha, enquanto o resto eu e as meninas da casa nos juntávamos para comer todos os dias. Nem sei direito quem era ela, porque simplesmente não pude trocar nada com ela. Fim de semana? Claro! Juntos!

Era tão sufocante que até os de fora se sentiam enclausurados.


(Afinidades para lá das listras que nos unen, eu e Xu na casa dela, Malmö, Suécia, abril, 2009)

Acho que para mim relacionamentos ciumentos e sufocantes são intoleráveis porque as afinidades que nos ligam a amigos, à família e aos relacionamentos amorosos são cada qual importante de uma forma diferente. Não dá para viver apenas com uma delas. Não dá para desprezar nenhuma delas. Não dá para querer que alguém que amamos possa viver só do nosso amor ou vice-versa. Além de ser uma atitude egocêntrica demais não prova amor nenhum.

Ciúme combina bem com insegurança e revela também egoísmo. E tanto insegurança quanto egoísmo não são provas nem combinam nada com amor.

Mãe que acha que é a melhor amiga da filha e de que esta nem mesmo precisa de ter outra, marido ou mulher que tem ciúme da companhia dos amigos do outro etc ao meu ver são formas inseguras de amar.


(Minha amiga curtindo meu Ângelo e vice-versa, Alles Stenar, Suécia, verão de 2009)


Na minha opinião a completude e a felicidade de "todos os meus diferentes eus" se dá quando reconheço as mais diferentes afinidades que me conectam às pessoas com quem mantenho contato. Isso porque elas exigem de mim diferentes tipos de amar, diferentes formas de conversar e ser. E, por sua parte, são capazes de me dar uma complexidade de sentimentos muito maior do que uma pessoa ou um grupo só me daria.

E é nesse ser livre para ser eu mesma, mesmo quando não quero ser totalmente eu mesma, que está minha grande alegria de viver...