29 abril 2010

Yellow na música e na pintura


("Yellow", acrílico e massa corrida sobre tela, Somnia Carvalho, 2010)

Estou aproveitando toda a inspiração provinda dessa nova fase da gravidez e da Primavera e pintando tudo que tenho vontade.

Estipulei um prazo para fazer por aqui uma pequena vernissagem (já que funciono sobre pressão) para os amigos e a tela acima é mais um resultado.

Para quem gosta do amarelo vai essa que faz parte de uma série que estou fazendo baseada toda em música. A idéia é deixar-me contagiar pelo que ouço e aí ir pintando, ou transferindo, minha leitura da música para a tela, entrelaçando as duas artes.

A primeira tela da série foi comprada pela amiga Nikol e se chama "The hours with Despeche Mode". A azul foi pintada ao som da maravilhosa "The poet acts", tema do filme "As horas", de Philip Glass e a parte vermelha e mais escura ao som de "Precious" e "Enjoy the Silence" do Despeche Mode.

A segunda é mais recente. Toda em tons de azul foi feita enquanto eu saboreava "Hallelluya, de Jeff Buckley".

O processo é mais ou menos assim: às vezes tomo uma música que não me sai da cabeça e começo a tela. Ouço-a repetida e incasavelmente enquanto pinto. Em outros, tomo primeiro a sensação, como quando estou muito reflexiva ou muito feliz ou muito triste e aí busco uma música que, na minha opinião, reflete isso. Normalmente acontece com uma ou, no máximo, duas músicas para cada caso.


("Yellow", acrílico e massa corrida sobre tela, detalhe inferior, Somnia Carvalho, 2010)


Nesse aqui foi um casamento simultâneo entre uma vontade de (re) ouvir Coldplay e um desejo fortíssimo de pintar algo em amarelo... Tomei deles a música Yellow, inspirei-me na letra que fala do quanto se recebe de brilho, mas não se percebe, do medo de algo (ambos representados no amarelo) e ao mesmo tempo do amor (vermelho) e ouvi, pintei, ouvi, pintei até sentir que estava safisfeita.

Aqui vai então Yellow, na voz do Coldplay e no pincel da Somnia. E se você clicar no link das músicas pode ver as tela e ouvir o que as inspirou. Seria legal saber se para vocês o casamento parece legal ou não.

E se você é daqueles que odeiam amarelo, deixa estar que logo eu pinto mais...




(Yellow, Coldplay)


Yellow

"Look at the stars
Look how they shine for you
And everything you do
Yeah, they were all yellow

I came along
I wrote a song for you
And all the things you do
And it was called yellow

So then I took my turn
Oh, what a thing to have done
And it was all yellow

Your skin
Oh yeah, your skin and bones
Turn into something beautiful
You know, you know I love you so
You know I love you so

I swam across
I jumped across for you
Oh, what a thing to do

Because you were all yellow
I drew a line
I drew a line for you
Oh, what a thing to do
And it was all yellow

Your skin
Oh yeah, your skin and bones
Turn into something beautiful
And you know for you
I'd bleed myself dry for you
I'd bleed myself dry

It's true, look how they shine for you
Look how they shine for you
Look how they shine for
Look how they shine for you
Look how they shine for you
Look how they shine

Look at the stars
Look how they shine for you
And all the things that you do"

Coldplay


....

Amarela
(tradução livre minha)

"Olhe as estrelas,
olhe como elas brilham para você,
e para tudo que você faz,
yeah elas estavam todas amarelas.

Eu vim de longe,
Eu escrevi uma canção para você
E para tudo que você faz
E ela se chamava 'amarela '

Então eu aproveitei a chance
Que coisa para se fazer!
e ela foi toda amarelada.

Sua pele,
oh sim sua pele e ossos
Transformam-se em algo tão bonito
Você sabe, você sabe Te amo tanto
Você sabe Te amo tanto

Eu atravessei o oceano,
Fiz tanto por você
Mas que coisa para fazer!
Pois você não teve coragem.

Eu coloquei um limite
Eu coloquei um limite para você
Mas que coisa para fazer!
e ele era toda amarela.

Sua pele,
oh sim sua pele e ossos
se transformam em algo bonito
E você sabe que eu derramaria meu sangue por você
por você eu sangraria...

É verdade, olha como brilham para você
Olhe como brilham para você...

Olhe nas estrelas
olhe como brilham para você
e todas as coisas que você fez..."


"Todo mundo sabe que eu não sou sueca quando..."

("Um casal feliz", tela, bem mal fotografada, que fiz muito antes de sonhar vir morar na Suécia, Somnia Carvalho, 2003)


...passo em minha bicileta de manhã, com 7 graus no termômetro e céu nublado, cantarolando em voz alta como se já fosse primavera.


Explico:

Os suecos só usam preto ou roupas escuras no inverno e música na bike só se for do walkman. Apenas quando a temperatura aumenta para uns 10 graus e a Primavera começa meio que oficialmente é que se mudam as cores das roupas e todo mundo se sente feliz e se sente bem em demonstrar isso...

Sem cantar na bicicleta obviamente, porque eles são suecos não deslumbrados como eu.


______________________________

ps: começo hoje esta sessão nova, fazendo um brincadeira com os posts de minha amiga Ju Moreira quem, baseada num livro daqui, escreve uma sessão intitulada "Você sabe que é sueco...", confira neste link.

28 abril 2010

"Na Suécia também não tem..." TV em consultório e hospital



(Menina lendo livro, escultura de bronze, site do Jardim Japonês, Inglaterra)


Esse assunto é velho, velho para mim, porque simplesmente todas as vezes que fui a um hospital ou clínica de saúde aqui na Suécia eu pensei neste post, mas passou...

Ontem, eram 7:47 da manhã e peguei minha bike para ir a uma consulta que seria as 8:00 da manhã. Cheguei lá 7:51. O lugar fica há dois quarteirões de casa.

A clínica é particular (Cura Kliniken, para quem vive aqui), onde comecei com o Dr. Bo (dá pra ver o simpático doutor "velhinho" que na foto deve estar uns 20 anos mais jovem, e que no Brasil já estaria aposentado), mas mesmo assim não pago consultas ou ultrassons que estejam na lista dos direitos de grávida, estabelecidos pelo sistema de Saúde.

Por isso posso usar a clínica do lado de casa e chegar em três minutos. Ter atendimento bom e não pagar nada mais por isso. Coisas de Suécia!

Outra coisa de Suécia é que ao chegar eu vou lá para uma saletinha especial, com sofás super confortáveis, mantinhas, almofadas, quadros legais na parede, revistas e livros (maternidade e infantis), com aparelho de som e cds com música de relaxamento, caso a gente mesmo queira colocar.

Tomei a dose de melado pra fazer o exame de diabetes e pluft! capotei no sofá... Acordei e me deu aquele tchum! A memória pegou a última vez que estive em hospital e clínica no Brasil aí no fim do ano e eu e o Renato nem conseguíamos falar tão alto era o volume da Tevê na clínica particular (TV é sinal de ser chique, porque ser chique é ter dinheiro pra comprar tralhas como tevê) que estava na sala.


(Aparelho de televisão da Casa de Saúde Pública de Jardim de Seridó, exibida como uma das provas de que a Prefeitura havia feito investimentos no lugar, RN, Brasil)
Assim sempre foi em quase todo consultório que fui ao Brasil. Todo o povo de pescoço pro alto olhando o aparelho televisivo. E o canal? Na última vez era uma coisa de um monte de gente parecendo modelo, sei lá o que numa fazenda, um reality show, bem daqueles de "super alto nível" passando durante o dia. Todo mundo ligadão. Procuramos por revistas legais. Nada. As que tinham lá eram de pelo menos 3 anos atrás. Rasgadas. Livros? Nem pensar!

E muito tempo de espera. A médica chegou quando chegamos e já tinha outros 5 pacientes na espera.

Aqui? Horário marcado pra você, sem esticar, sem atraso e com programação da hora que volta pra casa. Tem exceções, mas como digo, exceção, não a regra. Ontem, por exemplo, meu horário deveria ir das 8 às 10. As 9:54 a enfermeira parteira colheu meu exame e viu no mesmo instante o resultado. Sem diabetes. "Tudo bem Sônia", pode voltar pra casa. Eram 10 da manhã.

Bom, mas o caso é que lá, naquela sala deliciosa sem tevê, sem um tumulto de gente porque cada qual tem seu horário e respeita (sueco odeia quem chega atrasado para qualquer coisa e odeia chegar atrasado, essa é uma das coisas em que eles são bem chatos) me fez pensar que uma das coisas que marca o subdesenvolvimento é essa troca dos livros pela tevê.

E o que estou descrevendo não é algo sobrenatural. Foi exatamente do mesmo jeito que fiz o pré-natal, em 2007, quando estive grávida do Ângelo, num hospital da rede pública de Lund.

Nessa Cura Kliniken, há, numa das salas do lado, uma tevezinha, bem pequenininha. E essa também foi a única vez que vi uma delas em qualquer clínica ou hospital onde estive (e estive em muitos!). A diferença é que o volume é muito baixo, quase não se ouve, porque há legendas. E o programa? um programa especial da clínica, criado por médicos que explica como tratar algumas doenças comuns.

E as pessoas? Em duas vezes que estive ali, duas em cada 10 davam uma rápida olhada, mas 9 delas tinham revista do consultório ou livro que haviam trazido de casa. Ah! também há muitos livros e brinquedos para as crianças.


(Lennart Hellsing, chefe de biblioteca de 90 anos, lê livro para crianças na biblioteca infantil para Lucas Lindberg, 2 år, e Alexander Signell, 1 1/2 år, em programa criado por ele há anos atrás, Stehamra, Suécia)

Eu tenho aversão à televisão, então sou suspeita de falar. Também o que dizer, eu estudei Adorno! Hahá! Eu gosto mesmo é de livro, bliblioteca, livraria se for para me informar, de tevê eu gosto assim como gosto de qualquer aparelho eletrônico na minha casa. No entanto, a idéia daquela coisa ligada e das pessoas em volta (nossas salas no Brasil são quase sempre decoradas com os sofás viradinhos para o altar onde fica a deusa televisão), onde se pode ver qualquer tipo de besteira, já que confundimos liberdade e expressão com "faça qualquer coisa para chamar atenção e ibope", onde muita gente se torna quase zumbi, ali olhando para nada me deixa arrepiada.

Enquanto a vida passa, adormece-se...

Eu sei obviamente e acho incrível porque a tevê pode servir a causas incríveis. Pode nos tirar do desânimo e nos animar com coisas legais (como o rádio pode servir), pode comunicar, informar etc, pode nos sintonizar com o restante do mundo...


(Moça lendo em parque de Londres, Mail online)

Entretanto, ainda acho que enquanto formos a lugares como até um consultório médico, hospital público e particular e ficarmos em estado "off" em frente a um aparelho de televisão, bebendo da superficialização, aceitando a exploração da tragédia e do sofrimento alheio como informação, tendo nesse veículo de comunicação quase a única forma de buscarmos conhecimento, nós também não teremos clínicas muito boas e baratas a 3 minutos de casa. E teremos que enfrentar trânsito ou sistema público de transporte ruim para chegar lá. E quando chegarmos não seremos atendidos no horário ou seremos mal atendidos. E aí sentaremos e colocaremos os pescoços para o alto, em reverência ao nosso grande deus colorido...

Eu talvez tenha tanta aversão à televisão, porque compreendo que toda a miséria e barbárie está conectada a falta de entendimento e esclarecimento verdadeiro. E a tevê no Brasil é, quase na maior parte dos casos, um excelente veículo que ajuda a disseminar ignorância e alheamento.

...


ps: esse post não tem o objetivo de comparar o sistema de saúde da Suécia e do Brasil. Tentarei fazer isso num outro post.
ps1: só para constar, eu tentei buscar imagens de crianças e jovens lendo no Brasil no google e as primeiras imagens eram apenas imagens montadas para divulgar algum livro. Em inglês ou sueco elas aparecem rapidamente.

27 abril 2010

Deu azul!



(Coleção bebê primavera verão da loja sueca H&M)

Sim! O resultado acabou sendo azul.

Depois que fizemos o ultrassom hoje e confirmamos qual o sexo do nenenzinho aqui dentro da Violeta Paz (além de saber que está tudo crescendo muito bem) eu passei numa das lojas que gosto daqui e comprei essa primeira roupinha pela qual eu vinha babando as últimas semanas...

Azulzinha, exatamente da cor da nossa menina.


(O ultrassom de 18 semanas da primeira netinha da Vavá e do Vô Caetano e da segunda da Vó Maria, 14 cm e 220 gramas, Malmö, 2010)


26 abril 2010

Violeta Paz é que eu me chamo!



("Violeta Paz", detalhe da tela que fiz hoje, inspirada pela postagen lilás, Somnia Carvalho, abril 2010)

Semana passada eu fui contagiada pelo vermelho de vocês e tentei, tentei ardentemente criar uma tela em vermelho...

Eu queria mostrar como essa cadeia de influência, essa rede que se chama internet pode nos afetar negativa ou tão positivamente.

Depois de ler a história do vermelho cabelo da avó da Glorinha eu queria pintá-la... queria pintar sua força e sua ingenuidade. Queria pintar sua feminilidade e queria pintar o amor de sua neta por ela. E como minha tentativa de expressar em cores o que sentia não funcionava fui tentando outras telas.

Tentei em três telas diferentes algumas idéias... criar uma tela em vermelho (a partir de uma foto preto e branco) da minha sogra Irene no dia de seu casamento sendo pega pelo meu sogro Caetano, num ato espontâneo de amor... Depois tentei uma dançarina de tango e parei na metade... Depois minha linda amiga Liana deitada na minha linda chaise longue vermelha... Não deu...

Enxaquecas fortes e não sei mais o quê não me deixaram que a inspiração passasse à tela e preferi não postar nada em vermelho, já que eu ficara mais era vermelha de raiva... Fazer por fazer não me pareceu ter sentido.



( "Violeta Paz", Somnia Carvalho, abril 2010)

Hoje comecei a segunda-feira ouvindo Fortuna e sua "Buena Semana". Escrevi para uma amiga querida com quem aprendi a ouvir essa cantora e passei à leitura de alguns blogs.

Foi então que fui, novamente, recebendo a energia colorida da Lilás, da Lucinha, as primeiras que fui lendo, e a cor foi de novo entrando em mim. Parei de ler, porque precisava aproveitar o momento e o que vinha à mente. Vesti novamente meu vestido roxo de bolinhas e formas geométricas amarelas e vermelhas que minha amiga Márcia ontem disse ter amado e juntei com minhas plumas de cor lilás do Melodifestivalen e comecei a pintar um auto retrato.

Fui olhando minha barriga já saliente num longo espelho e ouvindo Violeta Parra, uma cantora chilena, extremamente intensa de quem sempre amei, mas costumava ouvir mais na voz da argentina Mercedes Sosa.

Aqui está a tela. Ela é resultado dessa intensa mistura de várias tonalidades de azul com várias do vermelho e rosa. Eu não usei roxo pronto para pintar, eu misturei com o pincel diretamente na tela. Não desenhei. Fui fazendo livre e só sentindo a música... "Gracias a la vida...", "Volver a los 17", "So le pido a Dios" e muitas outras...

("Violeta Paz", perfil, Somnia Carvalho, abril 2010)

(Eu, de "Violeta Paz", registrando o auto-retrato que deu origem
à tela, Somnia Carvalho, abril 2010)

Me deixei contagiar por todos os tons de violeta que eu conseguia criar ao mesmo tempo que me contagiei com a voz de Violeta. Não sei se pensei muito, parece que só senti... Senti o bebê que cresce dentro de mim (e de o qual veremos daqui alguns minutos num ultrassom que faremos na clínica) e fui ficando tão em paz...

( "Violeta Paz", retrato, abril 2010)

Numa paz violeta. Violeta e lilás da cor de muitas flores que estão brotando nessa Primavera que enfim chega por aqui. Então eu me tornei Violeta Paz. E espero contagiar alguns de vocês, porque eu acredito que a energia corre entre nas palavras que falamos, nos gestos que expressamos, olhares que lançamos ou tentamos esconder, nas cores que usamos e nos posts que escrevemos...

Não é preciso falar de flores o tempo todo. Nem é necessário ser crítico e cabeça toda manhã. É preciso apenas ser. Com intensidade. É a intensidade da forma de ser e viver que contagia. Para o mal e para o bem. Para a desinformação ou formação. Para a morte ou para a vida. Basta apenas escolher e viver.

"E Buena Semana para todos vocês!"



(Fortuna, "Buena Semana")
"Se achar que precisa voltar, volte!
Se perceber que precisa seguir, siga!
Se estiver tudo errado, comece novamente.
Se estiver tudo certo, continue.
Se sentir saudades, mate-a.
Se perder um amor, não se perca!
Se achá-lo, segure-o!
“Circunda-te de rosas, ama, bebe e cala. O mais é nada”.

Fernando Pessoa

20 abril 2010

Estamira! Para toda ação há uma reação...

(Cena do documentário "Estamira", de Marcos Prado, 2004)

Desde o post da semana passada sobre minhas ações com o meio ambiente, tenho ido de bicicleta levar parte do meu lixo que eu não conseguia reciclar no prédio onde moro atualmente.

Na Suécia, o sistema de reciclagem do lixo é bastante organizado e está entre os melhores do mundo, apesar de eu perceber que não há uma padronização em todos os condomínios e também que há gente que reclame da demora do recolhimento das caçambas em áreas distantes.

O sucesso da reciclagem do lixo no país é uma combinação de várias ações diferentes, cada qual tomando para si sua responsabilidade:

1. A Prefeitura cobra que todos os prédios comerciais e residenciais usem latões de plástico, onde são feitos a coleta seletiva pelos moradores, incluindo os que vivem em casas no centro ou fora dele.

2. Há cobrança de um aluguel mensal pelos latões que são distribuídos pela Prefeitura, então, cuidar do lixo acaba custando no bolso, de alguma forma.

3. Não existe lixo colocado em saquinhos nas calçadas ou nas ruas. Todos eles são depositados nos latões, normalmente colocados em uma sala especial dentro dos condomínios ou na garagem das casas.

4. A coleta é feita separadamente por caminhões diferentes que passam em datas também diferentes para recolher o lixo.

5. Os moradores precisam separar:
- lixo orgânico (restos de comida para os quais são distribuídos sacos de papel em alguns condomínios)
- latas e alumínios
- cartão: embalagens de leite, suco, bolachas etc de papel duro (sem as tampinhas de plástico)
- plásticos (incluindo garrafas pet, embalagens, saquinhos de supermercado, tampinhas de embalagens de leite etc)
- jornais (revistas e jornais com exceção de cartas e envelopes)
- pilhas e baterias
- lixo especial: móveis, roupas, aparelhos eletrodomésticos ou eletrônicos.

6. Os moradores limpam as embalagens antes de colocá-las no lixo.

7. Existe centenas de caçambas espalhadas pela cidade com todos quase todos os itens de reciclagem para que o morador possa fazer a coleta corretamente, caso seu condomínio não o faça.


8. Há, fora do centro, alguns pontos de coleta para lixo especial, já que grande parte dos condomínios não tem uma ala separada para isso. É preciso, então, levar até esses centros e depositar em novos latões onde se separa madeira, ferro, eletrônicos, roupas etc.

Esse trabalho pessoal imenso que se tem apenas com a coleta seletiva de lixo foi das maiores coisas que notei logo que me mudei para a Suécia.


(Criança em propaganda em site da Prefeitura de cidade sueca sobre a necessidade de se fazer coleta seletiva de lixo. A visita aos centros de coleta começam ainda no jardim da infância, como visitas guiadas para a criançada)

Enquanto moradores de condomínios no Brasil, o que fazíamos era apenas separar alimento de qualquer outro produto reciclável, abrir a porta do elevador de serviço e depositar no corredor para que o funcionário do prédio juntasse os sacos de orgânicos e não orgânicos e os colocasse na calçada da rua, todos juntos, para que o recolhimento da Prefeitura.

No fim do dia o caminhão da coleta passava e jogava em sua caçamba todos os lixos juntos. Isso tudo na sexta maior cidade do Planeta, São Paulo, que mesmo sem incluir as regiões metropolitanas possui muito mais habitantes (mais de 14 milhões) que toda a Suécia (que deve chegar em torno dos 10 milhões este ano).

Quando falei no post anterior sobre tomar as rédeas do nosso comportamento irresponsável alguns de vocês talvez tenham se sentido julgados, pois já tem atitudes responsáveis quanto a coleta de lixo e não vêem muito como fazer mais que isso.

O post era, sobretudo, dirigido a mim mesmo. Cada santa e isolada vez que eu no último ano, vivendo neste novo prédio, joguei no "lixo especial" as embalagens de plástico e papel duro, para as quais vergonhazamente nesse imenso prédio não há espaço, eu me senti irresponsável. Eu pensava na minha reação em cadeia e em como eu não queria sair da minha zona de conforto para agir como eu já sabia que deveria agir.

Nesses três anos de Suécia eu também ouvi de muitos amigos brasileiros, também acostumados a ter seu lixo tirado pelo funcionário do seu condomínio no Brasil, dizer que esse não era um serviço que eles se prestavam a fazer, porque dá muito trabalho.

Vi em outros apenas o costume de jogar tudo junto no lixo, porque talvez achem que muita gente já faça a coleta seletiva aqui. Vi em gente que gosto esse descaso com sua reação em cadeia. A mesma reação em cadeia que faz os moradores da Ilha das Flores se diferenciarem de outros seres humanos.



(Documentário "Ilha das Flores": tenha paciência e chegue até o final, há muito o que perceber)

Quando eu falei sobre como os suecos chamam a atenção de outros na rua quanto a jogar lixo, sujar lugares públicos etc, a verdade é que eu não queria dizer que vocês têm que fazer o mesmo pelas ruas do Brasil, eu estava mesmo era querendo enfatizar como a educação vem não só de ensinar-se, mas de se cobrar.

Eu sei que estamos quase a anos luz nessa questão do lixo. E é também fato que os países mais desenvolvidos, como os nórdicos, já solucionaram bastante (não totalmente) o problema da miséria, da fome, da violência e que, portanto, o assunto ecológico consegue atingir tanta gente.

É só pensar que qualquer um pode apenas escolher qual curso deseja fazer na Universidade, porque tem (desde o jardim da infância) seus estudos pagos pelo Governo. Educação é obviamente uma das primeiras exigências para se ter um povo que entende o resultado das suas ações. Ainda assim, quase metade dos jovens suecos (segundo dados informais que tenho) não tem interesse de cursar universidade, já que, entre outras garantias, há a de que independente do trabalho que se escolha fazer a remuneração será boa e garantida.

Pintor de parede, pedreiro, faxineiros, atendentes, engenheiros, professores recebem bem pelo que faz. A valorização do outro e do que ele sabe fazer, sem detrimento de cor, religião, beleza ou idade, é um dos caminhos, além da educação, para que o ser humano sinta que tem não só deveres, mas também direitos. Ou vice-versa.

Sentir na pele e estar preocupado com a reação do meu ato isolado, sozinho, quando ninguém está olhando é parte de uma atitude ética e moral. Quer dizer que entendi alguns valores chaves para a convivência pacífica entre seres humanos. Cuidar do Planeta acaba mesmo sendo consequência, porque cuidamos uns dos outros, primeiro.

Se não respeito nem mesmo a quem está na linha que segue minha cadeia de ações provavelmente não me fará pensar se o Planeta vai ou não explodir daqui vinte ou cinquenta anos.

(Poor Fauvette, 1881, astien-Lepage (1848-1884)

Isso tudo me lembra uma lição (por mais maluca que essa idéia possa parecer à nossa sociedade do "tudo é pra já") que tirei das aulas de meu professor Giacóia sobre Kant, filósofo alemão, idealizador de uma filosofia da Ética e da Moral*. Entre as frases que não esqueço está:

"Age de tal modo que a máxima da tua ação se possa tornar princípio de uma legislação universal".

Explico: máxima significa aquela ação que eu entendo como sendo necessária nesse exato momento como, num exemplo bem simplista, ultrapassar o sinal vermelho, porque excepcionalmente estou com muita pressa. Se eu universalizar minha máxima isso significaria que, não só eu, mas todas as pessoas que estão com pressa poderiam cruzar o sinal vermelho no trânsito.

Isso porque, segundo Kant, a LEI precisa valer para qualquer indivíduo. Sem diferença nenhuma. Essa Lei, criada pelo Estado a partir dos valores morais e etícos humanos, precisa ser universalizada para ver se há como ser aplicada.

O que aconteceria se todas as outras pessoas agissem como eu?

O caos, com certeza.

A pergunta então fica: eu posso aplicar a minha máxima? Não. Minha ação é moral e ética? Não. E se a ação não é conforme a moral e a ética eu não devo agir assim. Eu sei que não porque a lei me diz que o sinal de que posso passar o semáfoto é verde e não vermelho. E eu ainda devo seguir a lei não porque ela vai me afetar, mas porque eu devo ter "amor" (palavras do filósofo) à lei moral, por seguir uma lei ética.

É claro que a discussão pode ultrapassar centenas de posts e é polêmica, mas creio que a idéia central é que no fundo nós sabemos o que é certo e errado. Quase todo mundo sabe.

Revendo hoje o "Ilha das Flores", que recebi da amiga Mafer esses dias, me lembrei de Estamira, um documentário sobre uma senhora que viveu sua vida toda em um dos lixões do Rio de Janeiro e que, apesar de sofrer todos as consequências de uma sociedade desigual e falsa, ainda sente que é no cuidado do lixo que podemos ainda ter esperança para o futuro.

Pensando ainda em tudo que vocês falaram na semana passada, em nosso comportamento e na realidade sueca, brasileira e de tantos outros lugares eu quero ficar com a brava e lutadora Estamira e com meu velho amigo otimista Immanuel Kant...


"A culpa e do hipócrita, mentiroso, esperto, ao contrário, que joga pedra e esconde a mão..."

Estamira

“Não preciso pois de perspicácia de muito largo alcance para saber o que hei de fazer para que o meu querer seja moralmente bom. Inexperiente a respeito do curso das coisas do mundo, incapaz de prevenção em face dos acontecimentos que nele se venham a dar, basta que eu pergunte a mim mesmo: 'Podes tu querer também que a tua máxima se converta em lei universal? 'Se não podes, então deves rejeitá-la, e não por causa de qualquer prejuízo que dela pudesse resultar para ti ou para os outros, mas porque ela não pode caber como princípio numa possível legislação universal."

Immanuel Kant**

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* A Filosofia da Moral Kantiana está reunida em três obras: "Fundamentação da metafísica dos costumes (1785)", "Crítica da razão prática" (1788)" e "Metafísica dos costumes" (1798).

**Kant, I., Fundamentação da Metafísica dos Costumes, Editora Abril, Col. Os Pensadores, SP, 1973, p. 205, 4 Idem, p.

16 abril 2010

Vulcão na Islândia e caos em todo norte da Europa

(As lavas do Vulcão que explodiu ontem na pequena Islândia)

Se não provocasse tanto caos e oferecesse perigo, ver um vulcão em erupção estaria entre os grandes efeitos da Natureza maravilhosos de se ver. Na verdade está para muitos turistas que se dirigem para regiões vulcânicas a fim de ver os efeitos destes.

Ontem, um enorme vulcão, na pequena ilha chamada Islândia (terra Natal da amiga Karen) entrou em erupção e paralizou as atividades de dezenas dos mais importantes aeroportos da Europa. Centenas de milhares de pessoas tiveram seus vôos cancelados e os trens não foram suficientes para dar conta de quem queria voltar para casa.


(Islândia: a pequena Ilha cravada sobre dezenas de vulcões e o norte da Europa, afetado pela fumaça negra)

Nosso amigo Gustavo, marido da frequente leitora e comentadora Xu, que voltava à Suécia ontem de um vôo da China, aterrisou na Polônia porque o aeroporto Kastrup, em Copenhaguem, fechou as portas, sem condição de adminstrar vôo nenhum.

O mesmo ocorreu na França, Portugal, Alemanha, Inglaterra, toda a Escandinávia, Irlanda e dezenas de outros países. Para se ter uma idéia da situação de paralisação, a Inglaterra, fechou todos os aeroportos pela primeira vez na sua história.


(Milhares de pessoas presas em aeroportos do mundo todo, aqui na capital da Irlanda)

O perigo do vulcão, nesse caso, ao contrário do que rapidamente vem à nossa mente, não são as lavas, já que é possível evacuar as regiões de risco a tempo, mas as cinzas que a erupção provoca. Elas podem ser jogadas na atmosfera até uma distância muito grande pelo tempo que demorar a erupção, atingindo aeronaves e afetando seu sistema de vôo de forma até mesmo a derrubar um avião. O que se verifica no texto abaixo (íntegra aqui) que incluí no post após comentário da amiga Camila que vive na Noruega) e não como deduzi, após ter visto um jornal em sueco ontem a noite e entendido mal a língua que a visibilidade fosse um grande problema.


"Segundo estudos os especialistas dizem que essa fumaça cinza é capaz de quebrar as janelas e balançar as estruturas de um avião e até mesmo parar as turbinas causando assim um acidente, o especialista em vulcões da BBC David Rothery disse que se pequenas partículas de um vulcão forem parar dentro das turbinas do avião podem se acumular e derreter partes do motor causado a parada de tal, o que provocaria um acidente."


(A nuvem gigante de fumaça negra e as cinzas lançadas ao ar pelo vulcão)

O cancelamento de vôos por dezenas de países é quase um efeito em cadeia só visto antes pela tragédia do 11 de setembro.

Não se sabe ainda quando o caos provocado pelas cinzas lançadas na atmosfera pelo vulcão da Islândia poderá ser resolvido, já que a última vez que este vulcão entrou em erupção foi há centenas de anos atrás, quando trens, carros e sobretudo espaçonaves estavam longe de ser uma realidade na Terra.

Mais alguns dias de cinzas na atmosfera e caos na terra? Não se sabe ainda, afirma um especialista da Universidade Upsala. Talvez algumas semanas, talvez meses. Tudo dependerá do que está ocorrendo dentro daquele enorme vulcão (como é possível conferir neste excelente vídeo da CBC do Canadá)


(Aeroportos fechados e vôos cancelados em inúmeros países até que a névoa passe)

Essa resposta com certeza não consegue dar conforto a quem tem parentes viajando ou está preso nos aeroportos, longe de casa, sem estadia ou comida paga pelas companhias aéreas, mas o caos provocado pelo vulcão na pequena Islândia não parece estar ao alcance de cientistas e companhias aéreas. O risco de choque é grande e a única coisa a se fazer é aguardar.

Apesar desses problemas causados, os cientistas garantes que as cinzas do vulcão da Islândia não oferecem risco à saúde das pessoas em solo. Elas se espalharão pelo ar e provavelmente não chegarão a causar outros problemas, inclusive dificilmente serão vistas por nós.

O melhor que se tem a fazer agora é aguardar. Sem pânico, já que o caos tem sido gerado exatamente na tentativa de se evitar tragédias. Até agora, fora os ânimos, o restante está sob controle. Estou na torcida para que a amiga Flávia e quem mais de vocês que tenha gente próxima presa em aeroportos por aí tenham logo os seus em casa...

De resto, até onde vimos em reportagens aqui, não há perigo para ninguém.

...

Você tem alguém que foi afetado por essa situação?
Ou está preso em algum aeroporto?

Partilhe com a gente sua história...

13 abril 2010

Do lixo ao luxo, parte 2: tendências "cabeça"

(De Paulo Coelho a Dante e Nietzche: "Assim falava Zaratrustra", "A Divina Comédia" alguns das dezenas de livros que peguei em meu lixo, títulos em sueco e inglês, Malmö, novembro 2009)


Uma das idéias mais fortes que assimilei nos últimos tempos foi que especialistas de tendências e meio ambiente estão provando que nossas atitudes de ser, viver e consumir precisarão passar por uma mudança radical para que a vida no Planeta sobreviva.

Entre tais tendências de comportamento lembro-me de que comprar produtos de segunda mãos era a mais forte delas, algo que vem acontecendo entre peguenos grupos, normalmente em países de primeiro mundo.

Uma jaqueta valerá cada vez mais pelo valor passado que teve. Haverá marcas e assinaturas nas roupas para provar que o tempo que ela tem "vivido". E quanto mais usada, mais valor comercial terá.

Comprar trecos e bugigangas será considerado crime e, em pouco tempo, os países precisarão ter medidas muito fortes contra o comércio desandado e o acúmulo irresponsável de lixo.

Eu já havia falado no primeiro post dessa série "Do lixo ao luxo", como transformei um móvel sem graça encontrado no lixo do meu condomínio em algo que tenha a ver comigo e minha casa.

(O móvelzinho antes e depois da decoupage, Malmö, novembro 2009)

E também já havia dito que minha paixão por lixo, antiquários, sebos, brechós etc é antiga. Quando Renato me contou o resultado dessa palestra com super especialistas de tendências para o futuro senti que estava no caminho certo.

(Mesinha vermelha com xícara pintada a mão inglesa, pegas na semana passada, Malmö, março de 2010)
Malmö, uma cidade com 300 mil habitantes, tem em seu centro comercial (até onde tenho conhecimento) uns 15 second-hand. São lugares que recebem tudo quanto é tipo de doação, vendem e arrecadam dinheiro para enviar a países de terceiro mundo, incluindo a África e a América Latina.

Ainda assim, tenho vizinhos que apenas jogam lixos como os que vocês estão vendo nessas fotos, embora tenham carro ou telefone para avisar esses lugares que repassam o que ganham com o lixo para quem precisa.

É um lixo precioso e valioso. Embora algumas peças eu tenha como meta reformar e dar uma nova cara, fazendo arte com eles, inclusive vendendo-os depois, a maior parte serve para ser usada como está.


(Escrivaninha com os muitos livros, pegos no mesmo dia, mais a cadeira transformada por mim, Malmö, novembro 2009)

Além de valioso esse lixo é jogado numa ala especial, limpa, onde se jogam apenas material que não se sabe como reciclar.

Dias desses encontrei o mesmo lustre (lembram dele?) que eu recolhi e remontei do meu lixo numa loja de design dinamarquês e verifiquei que seu preço é de 600 reais. O mesmo para minha chaleira vedete, de outra de design dinamarquês super famosa daqui, Bodum, que custa em torno de 300 a 400 reais.

Eu sei que a primeira vista isso parece tudo caído do céu e que qualquer um, em meu lugar faria o mesmo. Essa, porém, não é a verdade.

(Mesinha simples e útil do IKEA, novinha em folha pro meu ateliê, Malmö, novembro 2009)

Meus amigos e amigas adoram meu lixo recolhido da minha "lojinha dinamarquesa" (já que grande parte do que pego provém de uma família dinamarquesa que vive aqui) e muitos até me pediram para repassar mais coisas se achar, mas a verdade é que eu conheço pouquíssima gente que tem a disposição ou o mesmo interesse que eu. Conheço meu professor de cerâmica e talvez outros que também vivam por aqui, além de minha ex-professora de pintura, Elô, que vive em Sampa. O que constato é que quase ninguém está disposto a fazer o mesmo.

Primeiro, porque dá trabalho. Eu carrego sozinha, limpo, dou uma consertada geral e aí arranjo em casa. Sempre penso numa utilidade para a peça e também se posso passá-la adiante. Já dei outras coisas que não tenho foto aqui para mostrar a vocês que também recolhi lá.


(O livro de receitas que não deve nem ter sido folheado mais a chaleira da Bodem, Malmö, novembro 2009)

Eu creio também que, para grande parte da população brasileira, acostumada a se guiar pelas propagandas e pelos modismos televisivos, pegar algo do lixo soa como algo de gente que não tem dinheiro para comprar o bom e novo em folha. Me lembro muito bem do comentário de alguém aí que me disse certa vez que se era verdade que eu ganhava dinheiro dando aula e fazendo mestrado então porque eu ainda não tinha um carro novo?

Pensar que milhões dos tais "europeus", por exemplo, aos quais as novelas sempre retratam como chiques optam por andar de bicicleta, tomar metrô e trem ou ônibus como atitude coerente com a necessidade do meio ambiente é algo que para muitos ainda soa como coisa de gente esquisita.

No Brasil está cada vez mais difícil optar por sistema público de transporte e chique mesmo é construir mais uma via na marginal Tietê...

Haha... Essa idéia de usar o meu carro, o meu isso e aquilo, ou de que quanto mais novo é o que tenho ou mais caro mais prova do quão importante eu sou está para lá de ultrapassada.


(Uma das duas poltronas totalmente novas que meu vizinho dinamarquês se desfes ,mais a mesinha, estatueta e tulipas de madeira, todas no lixo, Malmö, novembro 2009)

No fim do ano passado, antes de ir ao Brasil, visitei um second-hand bem bacana daqui, que só tem roupas e objetos caprichados, e comprei 2 vestidos bem de senhorinha para minha avó Maria, mãe de minha mãe. Eles tinham a cara dela e eu fiz questão de comprar lá porque minha avó sofre de Azheimer e sua memória tem a traído cada vez mais. Comprar algo que já tinha pertencido a outras pessoas, uma roupa que tinha, digamos assim, uma memória preservada foi exatamente meu intuito. E custou a mesma coisa que custaria numa loja de departamento daqui. Não era caro, mas não o preço não foi o que me fez comprar os vestidos.

A idéia de que preciso ter para ser é algo que por alguns cantos da Europa é um tanto diferente, embora eu também veja isso em muita gente, muitos de vocês aí pelo Brasil. Por isso os tais second-hand daqui estão sempre cheios de gente.

Essa é uma tendência totalmente contemporânea, necessária e urgente.

Todos nós sabemos que não se acha lixo como esse em qualquer canto, mas os brechós, antiquários etc estão aí fazendo o mesmo. Reciclar, reinventar é preciso e é delicioso. Experimente.

(Mesinha simples com a qual vou fazer uma decoupage toda de listras, Malmö, novembro 2009)

12 abril 2010

Salvar o Planeta? Que tal fazer exatamente aquilo que você já está careca de saber?



"There's no time for us
There's no place for us..."

Meu (segundo) passeio aos Alpes Suíços me fez pensar demais na minha relação com a Natureza. E me fez relembrar casos e histórias que quiz contar aqui antes, mas não contei.

As montanhas brancas, o poder que elas exerceram sobre mim e a beleza que pude desfrutar "gratuitamente" não me deixaram voltar a mesma, ainda que minha relação com a natureza e o meio ambiente já tenha mudado tremendamente nos últimos três anos de Suécia.

Eu sou o tipo neurótica com sujeira na praia ou em qualquer lugar.

No Brasil, em Riviera de São Lourenço, eu quase tive um colapso nervoso com uma família (aparentemente muito bem de renda) de umas 15 pessoas. A família "cóin cóin" comeu de TUDO que se possa imaginar das barraquinhas, porque tinha grana para pagar suas regalias. Até aí tudo bem. Ou não.

Problema não foi que todos comeram muito. E que também beberam muito. Além de consumir MUUUITA água de côco diretamente da fruta. Super natureba. O grande problema foi que, enquanto se saciavam, foram jogando o lixo embaixo das mesas na areia da praia, assim comos os antigos romanos faziam. Côcos, pratinhos, latinhas, tudo. Fui observando, urubuservando e pensando: "Não é possível que eles não irão recolher no final!". Eram 15 pessoas adultas, fortes, saudáveis.

Não recolheram. Saíram com cara de "posso pagar por tudo" e deixaram o lixo ali. Provavelmente porque imaginam que pagar pelo côco inclui pagar o moço que vende para limpar a praia. E o moço e o pessoal das barraquinhas olharam (outros nem olharam, porque a cena é corriqueira) para a sujeira indignados porque devem ter pensado que toda classe média quer fazer deles empregadinhos, e foram para suas casas empurrando seu trailler.


("Parem de construir rodovias!". Renato, Rogério, Ângelo e Dani, no trem vermelho que nos levou a Davos. Uma das lições que o Brasil ainda não aprendeu: não existe desenvolvimento sem transporte público de verdade! Suíça, abril de 2010)


Essa relação "porcôoo" com a natureza que muitos de nós brasileiros ainda temos é bem mais raro aqui. Na Suécia, na Suíça, por exemplo. Não na Europa toda, porque quanto mais turistas, mais lixo também se vê nas grandes cidades.

É fato que os antepassados de muitos povos daqui depredaram muito do mundo (aliás algo que odeio é quando a mídia brasileira se refere ao número de florestas destruídas pela Europa no passado para justificar que nós agora não precisamos nos preocupar tanto com o que fazemos, como se tivesse chegado, enfim!, nossa vez de poder destruir um pouco e tentar ser civilizado um dia), mas é também verdade que seus descendentes tentam muito agir de forma diferente. E é fato ainda que esse "ter que cuidar bem" nasce de uma consciência de que quem deve cuidar sou EU. EU sou responsável, não a mocinha para quem paguei a caipirinha.

Taí outra coisa que tem gente que odeia e eu acho incrível na Suécia: quase sempre somos responsáveis por recolher nossos pratos em restaurantes e shoppings etc. Deixamos tudo razoalmente usável para quem vem depois. Há gente que não faz, mas é 2 em cada 10.

EU tenho obrigações de limpar, catar, reciclar o meu lixo. No exemplo que me refiro da praia no Brasil, havia ali na areia mesmo tambores gigantes, bem organizados, com lixo reciclável e orgânico a 20 metros de onde a família cor de rosa fez sua refeição.

Eu fiquei até a imaginar os Alpes Suíços sem cuidado. Imagina se quem subisse pra esquiar sozinho aquelas cadeias fossem jogando latinhas, saquinhos etc lá para cima?


(Vista "de baixo" que tínhamos do trem de algumas montanhas dos Alpes Suíços, a caminho de Davos, abril de 2010)

Essa não é uma apologia aos europeus e uma idéia de que brasileiro é porco! Por favor me compreendam. O que tô tentando dizer é que muitos de nossa gente - e não estou falando de quem não tem recursos e formação escolar - ainda consome e suja o mundo como se fossem os úncios a viver nele.

E tô dizendo ainda que essa relação com a natureza poderia, quem sabe, talvez ser mudada se essas pessoas se abrissem para novas experiências e visões.

A Suíça é tão tão organizada com lixo que faz a Suécia parecer bagunçada nesse quesito, onde eu vi, semana passada, um ferro de passar roupa no meio do lixo orgânico aqui no prédio onde vivo. É raro, já que quase todo prédio tem uma separação muito boa de lixo, mas acontece.

Aqui, há não só separação do lixo em todos os prédios comerciais e residenciais, como também em casas. Quando se tem casa é obrigatório pagar aluguel dos latões de reciclagem. E MEGA IMPORTANTE é totalmente proibido colocar sacolinha de lixo nas calçadas, como primitivamente ainda se faz no Brasil.


("A culpa não é minha!" A frase que autoridades e a grande maioria dos cidadãos brasileiros adora para tirar de si as responsabilidades que lhe cabe, São Paulo, Estadão, setembro 2009)

Em São Paulo, durante nossa viagem de fim de ano, fomos passear numa noite, em Alto de Pinheiros e nos Jardins (bairros onde só gente com dinheiro vive e compra) e fomos passando por entre os amontoados de sacos pretos de lixo espalhados pelo meio das ruas, levados pela água de uma chuva que caiu por meia hora.

Era tanto lixo espalhado que parecia cena de filme Highlander, de fim de mundo, coisa assim.
Lemos depois que a Prefeitura de São Paulo tem negligenciado o projeto para impôr as caçambas de lixo obrigatórias que deveriam substituir as primitivas sacolinhas.

Então quando há tragédias como as que São Paulo teve recentemente e o Rio está vivendo de desabamentos e alagamentos não dá para ouvir e engolir que ficamos indignados, mas ainda nada fazemos.


(Vista "de cima" de algumas das montanhas limpíssimas de Davos, onde Renato, Dani e Rogério esquiaram, com dezenas de latas de lixo, Davos, abril de 2010)


"There's no chance for us
Its all decided for us..."


Será que não temos ainda nenhum poder de reação e decisão?

A separação que se faz na Suíça e a quase perseguição que se tem a uma pessoa se ela acaso jogar lixo em lugar errado é uma consciência da "emergência" do momento que eles criaram.

O controle rígido da reciclagem inclui multas para quem não o fizer, que podem ser aplicadas depois de se checar quem foi o responsável pelo lixo errado.

É uma relação de respeito com a natureza que a gente brasileira precisa criar. Como fazer isso? Ensinando, cobrando de boca, cobrando multa, organizando coleta seletiva decente etc. Mais que isso: fazendo algo que eu não tive coragem de fazer e me sinto participante da porquisse dos outros: apontar, denunciar, mudar o comportamento.

Eu deveria ter chamado a atenção da família cóin cóin cheia de dinheirinho na praia, assim como devia ter tirado o ferro do meio do lixo orgânico. Aliás essa é uma das boas coisas que tenho aprendido na Suécia. Eles são chatos. E não sem importam com isso.

Seja no trem, no ônibus, nas ruas, já vi muitos suecos e suecas chamando atenção de adolescentes, crianças e adultos desconhecidos com coisas do tipo: "você não pode jogar o lixo aí", "tire os pés do banco, porque você o está sujando!"

Eu passei adiante porque não fui eu quem fez errado. É quase um ligar o "f"-se porque eu tô fazendo a minha parte.

E tá errado. E é muuuito pouco.


(Reciclar e criar menos lixo é preciso: cadeiras que colhi no lixo de meu prédio: antes e depois da transformação para habitar nossa casa, Malmö, novembro de 2009)


"But touch my tears with your lips
Touch my world with your fingertips
And we can have forever
And we can love forever"

Sair da zona de conforto, como disse minha amiga consciente e chata (porque todo mundo que toma pílula vermelha vira chato pra quem só toma a azul), Camilinha, é o ato mais corajoso que se pode fazer hoje em dia. E a gente não sai por razões mil, mas a gente precisa. Ser pessimista de vez em quando é preciso.

Eu quero agradecer o azul em frente de casa, mas, apesar de eu amar meus óculos azuis, eu não quero usá-los para disfarçar o que vejo.

Eu sei que você nem eu vamos viver para sempre. "Who wants to live forever?", mas a gente precisa entender que o tempo de achar que a destruição do planeta aconteceria, já aconteceu.

Eu preciso fazer alguma coisa porque eu quero que Ângelo e seu irmão ou irmã, seus amigos, que os filhos de vocês e os netos deles e delas, possam desfrutar dos Alpes Suíços, da amarelinha ou azul Suécia, das praias brasileiras ensolaradas como a gente ainda pode.

Eu proponho uma coisa essa segunda-feira azul ultramar (da corzinha que está o mar lindíssimo aqui na minha frente e da cor da postagem que muitas e muitos de vocês estão fazendo): que a gente faça um movimento REAL para sair da nossa zona de conforto. Denunciando e agindo.

Chega de fazer cara de "tudo bem" quando os amigos desperdiçam litros de água na nossa frente para lavar aqueles talheres. Chega de ver jogando o lixo pela janela do ônibus e ficar com cara de "ó" que horror. Sem briga, mas com atitude de ensino.


(Não dá para ser feliz sem ser responsável. A família que eu tenho agora desfrutando de uma das maravilhas dadas de graça pela Mãe Natureza. Ângelo, eu e Re, em Davos, abril de 2010)

Então, para começar, a gente vai escolher 3 coisas que nos deixam MUITO IRRITADAS e IRRITADOS no comportamento alheio, quanto ao cuidado com o meio ambiente.

E, segundo, a gente vai escolher 3 coisinhas que a gente já sabe que deveria fazer, mas não faz, para tentar ainda salvar nosso planeta azul.

Minha lista do que eu não suporto no comportamento de gente querida ou não é:

1. Lavar louça deixando a água escorrer, enquanto se ensaboa ou faz outras coisas. Tenho pessoas queridas que gastam mais do que uma máquina de lavar gastaria em 3 lavagens para lavar louça de duas, três pessoas.

2. Não reciclar o lixo por preguiça e comodismo. Tenho amigas queridas que dizem "eu não tenho paciência pra isso!"...

3. Deixar lixo na praia, jogado, ou em sacolinhas, para que alguém pegue mais tarde.


(Aprendendo brincando: a relação de amor e respeito com o meio ambiente precisa começar cedo, Sistema de irrigação como brinquedo, num parquinho de Baden, Suíça, abril de 2010)


"Forever is our today"

Minha (vergonhoza) lista do que sei que posso fazer muito fácil e ainda não faço, mas que vou mudar, junto com vocês:

1. Dizer para quem gosto e conheço E para quem não conheço que ela DEVE agir diferente e repetir o porquê, ainda que pareça primário. (Na Noruega há uma campanha universitária constante na qual os alunos saem às ruas e pegam o lixo de alguém que atirá-lo no chão, dizendo: "você perdeu isso?"

2. Caminhar uns 500 metros até a coleta de lixo mais próxima para depositar o material que meu prédio não separa, já que me sinto culpada todos os dias por não fazê-lo por puro comodismo e ou falta de tempo.

3. Ensinar o Ângelo com brincadeiras a economizar água ou outras atitudes legais. Ele já tem o costume praticamente natural de jogar todo lixo que encontra na lata, mas ainda desperdiçamos comida demais, quando ele brinca de cozinhar.

O futuro é agora.

E, por mais piegas que possa nos parecer, depende de mim e depende de você, e não só de quem tem o grande poder nas mãos. O poder de grandes mudanças está nas mãos de todos. Eu posso tentar sozinha, mas sozinha eu não vou conseguir muita coisa. Eu preciso de vocês. E vocês precisam de outros que vocês conhecem. E assim a gente forma uma corrente em torno desse Planeta Azul.

E, então, o que você pode fazer para mudar o mundo? HOJE?