28 janeiro 2010

A durona mãe Suécia


(Os quatro lados que cercam nossa casa, antes da tempestade forte de ontem que colocou 20 cm de neve no meu quintal, Malmö, janeiro de 2010)

Pessoar,

Esse post é para registrar que a Deslumbrette aqui não tem só dias de pura felicidade e que a Suécia não é bolinho para qualquer um não, como vocês já devem imaginar. Além disso, certa vez uma amiga me cobrou dizendo que eu tenho mania de frisar o que tem de bom aqui, mas acabo omitindo o lado duro e dou uma idéia meio Pollyanna demais da vida que levamos.

Verdade é que sou o tipo que detesta reclamar. Obviamente eu vivo reclamando de várias coisas, sou tão chata como qualquer outro, mas eu não gosto de oficializar minhas reclamações e de dar vazão para o que não é bom, entende? Além disso eu reclamo normalmente de coisas que eu sei que poderiam ser diferentes, mas não o são por falta de esforço meu ou de outrem.

Então, pulando para essa narrativa menos Deslumbrette depois do meu post "Halleluja"...

Mal cheguei , pus os pés na neve e estava cantarolando de felicidade quando uma virose, ou infecção alimentar, seja lá o que for, pegou a mim e ao Renato. Passamos uma noite inteirinha no banheiro, pondo tudo para fora, por todos os lados que tínhamos direito. Horrível! E nem sei se tem a ver com estar na Suécia ou não, parece que foi um queijo que compramos para o jantar ou talvez seja um tal vírus novo de gripe que disseram estar aparecendo por aqui.

Bom, resultado foi que o dia de ontem passamos imprestáveis, jogados pelo chão, nos revezando para alimentar e brincar um pouco com o Ângelo que ainda se recuperava de uma gripe pega aí no Brasil.

Isso tudo só para dizer que a Suécia é lindona, fantasticamente diferente e dá mesmo razões da gente não querer sair daqui de jeito nenhum. Por outro lado, é uma mãe dura. Sem avós, tios e tias para dar aquela mãozinha ou com todas as secretárias do lar que as amigas brasileiras contam a coisa pega num dia assim.

Lembro-me bem de uma vez, quando Ângelo contava com uns quatro meses e tinha cólicas terríveis todos os dias. Eu com ele, balançando pra lá e para cá, com compressas e tudo o mais e sozinha, já que Renato estava na China a trabalho. No skype meu cumpadi Ênio me manda um recado perguntando as novas e conto que estava com o tal probleminha. Ele me diz então, todo inocente, sem noção do que eu vivia por aqui:

- Sô leva ele num pediatra ou no pronto socorro...

E eu desconversei e tal. A situação era: 2 graus negativos no termômetro, neve e ventania por todo canto. Sem telefone de pediatra, porque a gente não tem um pediatra, como no Brasil. Ninguém telefona para o médico fora do horário. As farmácias funcionam até, no máximo dez da noite, sendo que a maior parte fecha as seis da tarde. A enfermeira que cuidava do Ângelo também não dava telefone fora do trabalho e qualquer urgência eu precisava primeiro ligar num número 1177 (e, detalhe, falar em sueco que eu não sabia ou em inglês no qual eu me sentia insegura) para ter certeza que era caso de ir mesmo a um pronto socorro. Isso porque a idéia, sobretudo no inverno, é não expor uma criança pequena a outras doenças e vírus se ela não precisar. Isso tudo sem contar que o carro estava ali fora na calçada, todo coberto de gelo branco, porque no centro da cidade onde morávamos não havia garagens para carros por ser tudo muito antigo.

Bom e eu sabia que a cólica era aquilo e não mudaria até a adaptação dele ao mundo passar.

Então tal como naquele dia, ontem a neve e a ventania corriam soltas aqui. De manhã -9, durante o dia melhorzinho. A paisagem em frente a minha casa continua estupenda! De cair o queixo. Não paro de olhar e admirar. É tudo lindo, lindo, lindo!

Linda só não está a situação da minha casa com todas as malas abertas e tudo jogado para lá e para cá aguardando o início de toda a arrumação..

Devo lembrar entretanto que ser filho da Suécia significa cuidar de si sozinho, ser forte e aguentar o vento e a tempestade, aguardar com calma a chegada do tempo bom e da primavera que já se anuncia através das revistas de moda que chegaram ao meu correio.

Hoje a tempestade lá fora é ainda mais forte que daquela noite de 2007, mas se precisar consigo falar bem inglês e me viro no sueco. Sei onde tudo fica e quais os "prontos socorros" onde posso ir direto sem ter que ligar para alguém. Aprendi a planejar tudo, inclusive o que não é muito planejável. A gente aprende vivendo e aprende sofrendo mesmo. E cresce...

Ainda que eu queira deixar registrado esses "causos" não tão super animadores, meu lado Deslumbrette não me deixa concluir que a gente deve mesmo é "enjoyar" o máximo que se pode cada momento, como pelo menos eu fiz na terça feira, porque nada melhor do que um dia após o outro, já que se há dias bem difíceis depois da tempestade vocês já sabem...

Thanks!!!

(Alguns dos amigos que pude encontrar esse fim de ano: Franco, Lu, Alessandra, Ferracini, Samanta, Malu, Lu, Re, Ângelo, Fá, Guido e Jorge, São Paulo, janeiro de 2010)

Amigas e amigos,

O Borboleta tem me proporcionado umas coisas tão legais, que de vez em quando merece ser divulgado.

Uma delas ocorreu quando reencontrei uns amigos da faculdade nessa visita ao Brasil. Qual minha surpresa ao saber que uma delas, Samanta, uma psicóloga por quem eu sempre tive admiração devido seu dedicado e carinhoso trabalho com crianças da APAE, ter me dito que ela e meu amigo Ferracini, filósofo, acompanhavam o blog de pertinho, amavam os textos e que ela ainda repassava alguns deles para amigos professores e outros.

Isso não era totalmente novidade, porque outra amiga da literatura, a Gláucia, tinha me dito algo parecido há um tempo, quando disse trabalhar os textos nas aulas de redação. Ainda assim saber que gente como elas e como outros de vocês possam apreciar coisas que passam pela minha cabeça é super gratificante.

Fiquei sabendo num churrasco com a família que uma das primas, Vanusa, com quem eu convivia na infância também virou leitora assídua. Quero dizer que é algo muito bom que eu, de alguma forma, consiga estar tendo uma troca com essas pessoas, mesmo com toda esta distância e que isso acabe servindo como uma injeção de ânimo e criatividade para mim.

Bom, a surpresa maior foi essa semana, quando cheguei e verifiquei a caixa de emails do Borboleta. Lá, num email perdido entre muitos spans, uma leitora, a Suyaen, me dizia que ao visitar meu blog de pintura, resolveu fazer a tradução do texto de apresentação de minha primeira exposição. O texto, escrito pela Dri Cechetti, minha cunhada, era lindo e havia perdido muito quando eu tinha feito uma tradução muito chinfrim numa noite corrida.

Agora meu blog de pintura, que já era bilingue, ganhou uma apresentação chiquerrérrima e à altura da artista que eu sou... :=) Só falta eu pintar mais!

Abaixo, a tradução da Suyaen... (assim que tiver um link ou souber mais dessa leitora, que eu só conhecia através de comentário deixado no blog, eu falo mais dela aqui...)

Obrigada Su! Obrigada gente toda que me anima sempre!

...


Painting in G Major

"Somnia Carvalho was born in Pedrinhas, a small town in the state of Säo Paulo, Brazil, but lived most of her life in Sumaré. As a child, she used to draw women in small pieces of paper and dare give them away as presents to her classmates. Some years later, still in Sumaré, she did not only work but also had a lot of fun organising and decorating parties and religious events.

For many years Somnia kept quiet the desire to devote more time to the art, because she was in love with her philosophy course at university. However, philosophy helped Somnia return to her previous passion as some years later she decided to study aesthetics. In 2005 Somnia had her first exhibition and her paintings reflect the union of these two passions, philosophy and art.

Her exhibition, Painting in G Major, brings out her taste for lively, vibrant and strong colours. Her topics are varied and even though there is a predominance of women from Somnia’s world, her choices are guided by an intensification of the themes and the way she feels them."


Original text: Adriana Cechetti
Translation: Suyaen Andersson

26 janeiro 2010

Brasil e Suécia: tudo ao mesmo tempo agora

(Ângelo curtindo praia, sol e suco no verão brasileiro, há uma semana, Riviera S. Lourenço, São Paulo, janeiro 2010)


(... e deslizando pela neve em frente de casa hoje de manhã, Malmö, janeiro de 2010)

Hallelujah!


(Three Trees, foto de Rutger Blom)


Deixamos o Brasil no domingo depois de mais de seis semanas de calor acima de trinta e cinco todos os dias. Depois de beijos e abraços gostosos. Depois de amor regado a comida gostosa. Depois de ficar mergulhado no mar morno do litoral paulista estamos de volta.

Do alto do avião eu vi que nossa casa estava mergulhada numa brancura só. Tudo branquinho e apenas umas casinhas que se destacavam com alguma cor. Na grande ponte, de cima do mar, deu para ver o amarelo e vermelho do pôr do sol, entre toda a neve que sumia ao longe.

São quase quarenta graus de diferença no corpo, mas a paisagem em frente a minha casa está tão tão maravilhosa que eu só consigo sorrir com os olhos.



("Rutsborgs Road", foto de Rutger Blom)

Já corri com Ângelo na neve. Ele já deslizou gritando no trenó e relembrou seus passeios de bike. Ainda que pareça inacreditável a temperatura está de-li-ci-o-sa. É verdade! Sem vento, com sol, céu azul e roupas apropriadas não se sente o frio. Brincamos e agora ele está explorando os brinquedos antigos deixados me perguntando a todo tempo "Mamãe quem me deu esse binquedo?". Isso porque ele recebeu tantos presentes dos avós, tios, tias, primos e primas e amigos que agora quer entender quem lhe deu os que ele já tinha. É como se ele enfim tivesse compreendido que também foram dados com o mesmo amor que recebeu no Brasil.

Voltar para casa depois de tanto vivido aí provavelmente não serão só flores. O frio deixa tudo mais difícil e provavelmente quando a novidade da neve passar a saudade do verão brasileiro aumentará. O que digo por enquanto é que estou feliz. Muito feliz. Feliz apesar de saber que preciso conviver com a distância.

Vi rapidamente que muito aconteceu na vida de vocês também. Vou começar a visitá-los com a calma que merecem e vou dando mais notícias.

Esqueci o descarregador de minha câmera fotográfica no Brasil e não consigo postar nenhuma foto minha agora. Aqui vai uma de um holandês, Blom, que tem 32 anos, vive por estas bandas e tal como eu parece que vive louco pela paisagem daqui.

É assim que está a frente, os lados todos daqui da minha janela onde escrevo. Assim como "rezei" nadando no mar transparente e quente brasileiro agora eu sinto o mesmo olhando para tudo isso... Estou aqui ouvindo e cantando com Jeff Buckey, seu Hallelujah... porque da comparação entre esses dois mundos e as duas vidas que tive em algumas semanas eu só consigo ter certeza de que é preciso saber agradecer tanta vida quando se tem porque o resto é nada...

Bom dia e um beijo para todos vocês! Já estava com muitas saudades!

14 janeiro 2010

Praia, chuva e o Haiti: tudo que passa pela minha cabeça agora...


Chove lá fora e não sei exatamente como começar este post, depois de milhares de anos sem escrever...

Estou numa lan house (é assim que se escreve?) com umas dezenas de crianças que jogam desesperadamente em seus computadores, matando seres estranhos que aparecem na tela. Por um segundo me preocupo com o fato de que um dia terei que saber pôr limites ao tempo de jogo do Ângelo, evitar e saber entender que essa "matação" fará parte da adolescência dele...

Escrevo da praia, em Riviera de São Lourenço, no litoral norte paulista, onde o sol me deixou total bronzeada, lindona para encarar a neve daqui uma semana em Malmoeee again.

Sim! Eu seiiii! O que estou fazendo numa sala assim enquanto deveria estar aproveitando o final das minhas férias? A verdade, super verdadeira, é que bateu uma vontade danada de conversar com vocês...

E a outra parte da verdade é que está chovendo... rs... Sem contar o fato de que meu coração está disparado, acelerado de bobeira. Eu sei que vocês não vão entender, mas desde que cheguei ao Brasil parece que meus olhos e ouvidos de mãe estão mais aguçados. Talvez sejam tantas desgraças que dizem todos os dias na TV e no rádio... sejam as notícias ruins que sempre ouvimos... sei não... eu não sou maluca de ficar imaginando desgraça, mas é fato que preciso estar sempre muito mais atenta aqui. Seja a atravessar uma rua na faixa, onde ninguém pára, mas acelera o carro sobre a gente, seja dentro de um carro a noite, sem esquecer que sequestros são comuns... Seja na piscina... pois é...

Estava na piscina com Ângelo e ele insistiu em tentar pular do alto, sem bóias, na piscina grande, porque apesar dos dois anos e meio ele acredita ser invencível, lindo e poderoso. E ele vai se jogando de tudo, sem medo de nada... E eu? Eu berrreeiii aos quatro ventos até ele se paralisar e entender o perigo! Resultado foi que todo mundo olhou para mim como seu eu fosse louca e ele começou a chorar... Ao menos não se jogou na piscina funda! Fiquei tão "nelvosa" que precisei sair e deixei-o curtir os avós enquanto eu curto um momento meu aqui só com vocês... Aqui quietinha vendo a chuva cair pelo vidro.

Enquanto cheguei no Brasil tanta coisa aconteceu... Comigo e no mundo... Hoje vi notícias do Haiti, embora eu tenha mania de evitar televisão e qualquer coisa assim quando estou de férias... Difícil não ficar petrificado em frente à TV num caso assim... Teve uma época em que eu conheci algumas pessoas, padres, freiras ou muitos outros que já tinham ido ao Haiti e à República Dominicana apenas para ajudar... Para eles a vida só valia a pena se era vivida em prol de quem mais necessitava. Eu sempre achei bonito. E talvez tenham sido pessoas assim que me fizeram procurar alguns conventos para tentar ser a Irmã Sônia que eu nunca fui.

Na mesma época eu conheci, de longe, o trabalho da Zilda Arns, porque eu trabalha com a pastoral do adolescente e ela fazia um excelente trabalho com a Pastoral da Criança. E foi aí que hoje eu fiquei pensando que eles de fato deram a vida pela causa na qual acreditavam. Ela e tantos outros brasileiros que lá estavam...

E hoje não me sai da cabeça o Caetano cantando sua "Haiti", da qual eu já havia falado aqui antes.

Creio até mesmo que foram essas pessoas e esssa época, além da filosofia e da sociologia na universidade, que me fizeram estar aqui nesse lugar lindo e prestar atenção em tanto "detalhe".

Num espaço construído pela Veja, onde há várias atividades culturais para quem está de férias eu já trouxe o Ângelo em teatro, minha sobrinha em oficinas etc... Ontem, entretanto, eu me lembrei do que é mais duro nesse meu Brasil veronil. É não se esquecer nunca de que a miséria e a desigualdade existe. E isso não nos deixa descansar. Enquanto a gente "descansava" dezenas de funcionários contratados para esse fim de ano e que vivem na região de Bertioga reclamavam de seu patrão e contavam as horas para o dia acabar. Os trinta reais que um dos seguranças disse que ganharia pelo dia todo de trabalho talvez tivesse sido gasto em um drink qualquer na praia por mim antes...

E aí as mulheres que varriam, varriam e varriam o lugar o tempo todo, porque o chefe cobra que elas não parem... Suas faces sofridas, sua cor que não nega o racismo de séculos... O mesmo percebi no salão de cabelelereiros do meu bairro... Terça foi chocante quando vi uma moça lindíssima entrar pela porta. Chocante porque ela estava um pouquinho fora do peso, mas passava uma super segurança, mas sobretudo porque foi só aí que notei que ela era a única cliente negra... A única entre umas quarenta... A única que eu vi em muitos anos que vou lá...

Eu sei que isso pode parecer horrível... mas eu não sou rica... não frequento lugares de ricos! Nada disso! Eu sempre fui pobre de marré de si e hoje em dia eu de vou a lugares "normais", quer dizer que eu gostaria que fossem normais para todo mundo que desejasse ir... mas não é.

Qualquer graninha no Brasil nos diferencia de um povão todo que sofre e que luta todo dia, mas que nunca vai ter nem uma pontinha do que a gente consegue ter...

Não é para deprimir... Não quero deprimir vocês logo depois de eu demorar tanto a aparecer... mas é isso! Estar aqui, ainda que seja maravilhoso em alguns sentidos, é como se não fosse permitido relaxar...

Bom, a mocinha veio me avisar que meu tempo está acabando e tem teens na fila para brigar de matar monstrinho!

Eu vou ali e volto provavelmente só depois de estar em casa novamente.

Ah!!!!!! O concurso da Lola terminou e a Tina foi quem ganhou o concurso! Parabéns Tina e parabéns para todas que estiveram lá! Já fiz boas amizades só com este concurso e fiquei mucho feliz com isso! Eu não tive lá um votação representativa! Fiquei em sétimo lugar e fiquei tristinha, claro! Todo mundo quer sempre arrebatar votos!

Mas a verdade é que meu texto era longo demais, creio eu e os textos que ficaram nos primeiros lugares eram de fato bons!!!

A outra, disse minha cunhada, eu fiz a pior campanha da história! rs... Segundo ela do jeito que falei do concurso e sobre todo mundo ter que ler os 25 textos para votar depois assustou qualquer um...Não sei... pode ser, mas não tem poroblema! Me inscrevo de novo e vou participando! Vou concorrendo e conhecendo gente!

Agora: fui! Beijossss e abraços apertados!!!! e visito vocês em breve!