30 setembro 2009

Quer uma mãozinha para arrumar uma namorada ou um namorado na Suécia?

("We are sleeping together", by Frischauge)

Eu não me lembro bem quem, mas alguém tava aqui em casa falando que o pai de não sei quem arrumou uma namorada super bacana na internet. Daí eu emendei com um causo que gosto muito sobre minha tia Vicentina, a irmã mais nova de meu falecido pai, com seu marido João.

Os dois se conheceram, na década de 60, se minha excelente memória não me deixa mentir, através de um programa de rádio. Naquela época o rádio fazia o papel que a net faz agora: reunia gente interessante, sozinha e com dificuldade de encontrar sua alma gêmea. Toda vez que lembro deles ou os vejo vem na minha cabeça a Blitz cantando: "Estou a dois passos do paraíso.."

Bom... Só sei que o assunto parece que vem batendo sempre a minha porta, porque uma outra amiga, jovenzíssima e solteira, que mora por essas bandas, me contou que ela se inscreveu num site de namoros daqui da Suécia.

Eu adorei e pedi o endereço para passar para vocês, caras leitoras e caros leitores, que moram na gélida Suécia e acham difícil achar alguém para bater um papo num bar qualquer ou procuram um pezinho para esquentar o seu debaixo do edredon.

Para quem não sabe sair na night e conseguir achar um sueco ou sueca para namorar não é uma tarefa assim tão fácil. Eles são tímidos. Olham, mas precisa um copinho ou um site para a coisa render mais... Elas são total na delas. Independentes e auto confiantes é preciso que você arranje um copinho ou use da internet para conseguir pôr as sereias na rede...

O fato é que no site que indico abaixo você poderá encontrar escandinavos e escandinavas, em geral, e também gente de outros países. Eu sei que, de início, pode rolar um preconceito com o canal escolhido, mas creio que, se minha tia e meu tio vivem até hoje juntinhos e quase ainda apaixonados muito-bem-obrigado, já tá em tempo de acreditarmos em vias alternativas de encontros e... arriscar!

O site é o Match e o endereço é:



Boa Sorte!!!

E vê se me convidam para o casamento, festa ou o que seja, caso eu acabe trabalhando como cupido heeeemmm???

29 setembro 2009

Como blogueira virei uma péssima respondedora de emails...


O email também morreu?

Não sei quanto a vocês, mas tenho me tornado cada vez mais péssima para pôr meus emails em dia.

Provavelmente tem a ver com falta de tempo. Depois de ter filho percebo que aqueles emails gigantes nos quais eu elocubrava sobre a vida de quase todas minhas amigas e também sobre a minha parou quase completamente. 

Tem a ver também com o fato de ter me mudado para a Suécia há dois anos e meio e ter me distanciado da vida real dos amigos, portanto, o email acabou se tornando um meio mais ou menos superficial de manter contato, já que eu preciso manter toda a relação virtual e não só um pedacinho dela.

Isso pode ser explicado também, segundo meu marido tecnologizado, através da mudança que vem ocorrendo de comportamentos. O email, para milhares de adolescentes e jovens, já tem sido visto como algo ultrapassado, velhinho assim como as cartas. E gente que tem usado de outros meios mais rápidos e dinâmicos de comunicação, como os sms dos celulares, sites de perfis como orkut e facebook e blogs (como é caso de moá) não tem sentido mais desejo de escrever e responder emails.

Sim! É verdade que não sou mais adolescente, nem jovenzinha, embora me sinta como tal, mas segundo Renatão, eu (e vocês amigos e amigas blogueiras aí) me encaixo no perfil de gente bem moderna em comunicação.

Creio que meu caso se explique por todas essas e algumas outras razões ainda. 


O blog do ciúme

Um outro fator interessante e que foi me dando bode de responder emails foi que, mesmo após ter enviado a muitos amigos o endereço de meu blog, eles terem me escrito várias vezes com perguntas do tipo: "E aí Sônia, como anda a vida na Suécia?"...

Okey! Eu entendo que escrever no blog não é a mesma coisa que falar diretamente com cada um, mas se o blog, que traz aquilo que mais tem me interessado a cada momento, não interessa a quem gosta de mim, o que posso esperar então? Preciso escrever contando como anda a Suécia e enviar foto pessoal para cada amigo querido? Bom, a vida anda meio corrida e aí, como eu já disse, cai em outro problema.

Minha amiga alemã, Nikol, me disse que ele adora usar o facebook. Eu uso também, mas não tão bem como poderia. Segundo ela, o blog é algo sobre mim e no facebook eu posso saber dos amigos. Sim! É verdade e eu gosto. Deixei de usar o o orkut por todos os motivos anteriores também e porque comecei a ficar com preguiça de responder comentários repetitivos como: "E aí, tudo bem?". Ainda assim eu sei que poderia sim me dedicar mais a isso, mas não me dedico. 

Se não escrever email, perder o interesse por orkut etc pode ser falta de interesse nos outros então me pergunto: seria eu ou muitos dos blogueiros egocêntricos?

Falamos nós apenas do que nos interessa e o resto não tem pressa nenhuma?

Sei não. Pode até ser, mas não somos os únicos a sofrer desse mal.
Mesmo amigos e amigas queridíssimos meus sofreram com o meu interesse pelo meu blog ou ainda sofrem. Alguns me confessaram, inclusive, o quanto sentiram raiva, ciúme ou tristeza quando viam que eu vinha até aqui e falava de algo nada a ver, mas não "tinha tempo" para escrever para elas.

Mesmo quando eu, tentando tirar forças de onde eu não tinha, escrevia algo mais animador e alegre, alguém entendia que eu não tinha problemas e que estava sendo egoísta de pensar só nas minhas férias ou na minha vida na Suécia. 

Lembro de uma querida amiga que passou um bocado de tempo chorando a troca de sua faxineira, quando eu não tive tempo de falar que vinha me matando para dar conta do neném, casa, escola e tudo aqui sozinha, sem família no inverno, mas como eu só havia dito no blog que tinha ido viajar, ela deduzira que comigo, claro! estava tudo sempre ótimo.

Houve vezes em que até mesmo pensei eu em deletar o tal blog do ciúme, já que gente que eu adorava ficava maior triste de ver que eu viajava e estava super mega ultra feliz (coisa que elas, na verdade, imaginavam do pouquíssimo que eu escrevia aqui), enquanto elas sofriam que só sem que eu me mostrasse solidária.

A verdade é que o blog do ciúme tem um pouco de realidade e tem um pouco da Sônia, mas é pouco demais para conseguir causar esse furor todo. Eu não consigo fazer do blog um diário. Eu acho um porre diário, para ser sincera. E eu sou Polyana mesmo! Eu não tenho vontade de falar quando p da vida, eu gosto de tagarelar quando feliz... Sou assim!

Daí que pensei que "dane-se!". Quem quisesse pensar que eu não me importava, quem quisesse concluir que eu não tinha mesmo nada para fazer na fria Suécia e por isso vivia escrevendo, que pensasse! Eu, por minha conta, continuaria escrevendo o que me interessasse e trocaria com quem estivesse a fins de.

O que concluí é que meus interesses são muitos. Talvez por isso, inclusive, pincelo alguns blogs por semana e acabo escolhendo os temas de cada um segundo meu interesse do dia ou da semana. Tem dias que quero escritas suaves e animadoras. Tem dias que quero idéias críticas e audazes. Tem dias que quero poesia e música e em outros cores e idéias para decorar e criar. Não consigo visitar os blogs que gosto diariamente. Admiro quem consegue, mas eu não consigo admistrar meu tempo mais do que isso. 

Tudo isso é totalmente normal, mas como vocês já sabem que adoro um chicotinho nas costas, fico me punindo diariamente com a idéia: "Não escrevi ainda para fulana!" "Não respondi aquele email da ciclana!" "Preciso contactar minha querida fulana de tal..." "Preciso perguntar como foi a viagem de ...."

Os emails não vão e a culpa fica. Não porque acho que eu seja obrigada a fazê-lo, mas porque adoro demonstrar amor por quem eu realmente me importo. Entretanto, contudo, todavia, vou empurrando com a barriga e, encontros mesmo, eu só tenho com os amigos do Brasil e que vivem em outros países, quando volto a minha terra duas vezes por ano, ou quando eles me visitam. 

A maior parte dos meus amigos e amigas não me escrevem mais. Não sei se porque eu não escrevo ou porque, eles próprios, também estão vivendo o desinteresse pelo email.

E mais um dia e noite se vão sem que eu cumpra o item eterno da lista de tarefas. Ao invés disso, depois de tomar meu banho quentinho e por meu pijama listrado, sento na minha caminha limpinha, da qual troquei todos os lençóis e capas de edredon. Me aconchego no meu quarto cheirosinho que limpei até agora pouco, ligo a luz do abajur e escrevo um post como esse. Meio sem pé nem cabeça, mas que continua a me coçar nos dedos mais do que qualquer outra coisa...

Como blogueira virei péssima respondedora de emails também porque escrever aqui é bão que é uma coisa... E viceia que é uma praga...


28 setembro 2009

"Eu vejo flores em você!"

("Wood & Wool Stool, in: Decor8)

Gente bonita do nosso Brasil veronil e gente desse mundão belezura todo,

Tivemos aqui uma semana muito das gostosas com a visita da minha sogritia Irene e da Tia Lourdes do Renato. A coisa de reencontrar a família e sentir-se num laço de irmandade é muito saudável. Faz bem para o corpo e para a alma.

Tenho fotos e tal, mas não tive tempo nenhum de postar nada até agora. Espero ainda fazê-lo...

As duas embarcaram hoje de manhã e ficamos orgulhosos delas que estavam ressabiadas no começo, porque não falavam outra língua que não o português, mas tudo saiu muito bem e estão agora quase nas bandas da Holanda.

A casa tá meio vazia e fica saudade, mas a nossa rotina continua e vamos vivendo nossa Suécia linda e logo fria de cada dia.

Eu, por hora, volto às minhas aulas e tenho aqui em mãos um livro super bonito de uma história bem sueca, Anna Hanna och Johanna. Preciso terminar de ler, escrever um resumo e apresentar amanhã lá na escola.

Vou voltando aos poucos com vocês e aí no espaço de vocês.

Por enquanto só para dizer que o outono chegou com todas as folhas vermelhas, amarelas e marrons possíveis. O frio começa a dar também as caras e estamos na casa dos 15 graus. Hoje, vento e chuva. Dia nublado e ótimo para eu investir nos estudos e limpeza.

Espero que tenham uma ótima segunda-feira. Obrigada pelo carinho de quem passa aqui e me faz companhia. Adoro esse Café chamado Borboleta. Acho até que vou colocar como codinome do blog com um leminha mais ou menos assim:


"Sejam sempre bem vindas e bem vindos ao nosso Café Borboleta, onde se proseia de tudo um pouco, onde se toma um café com leite de creminho em cima, ou chá de aromas e ervas com bolo de chocolate numa canequinha de latinha mineira, onde e onde a gente quer mesmo é se sentir a vontade..."

Beijos e essas flores, que vi ontem num blog de decoração americano que gosto muito, vão para cada um de vocês!

Bom dia!

23 setembro 2009

Finalmente as respostas!

(Tia Lourdes, Renato, a sogritia Irene e Angelinho, tomando "glas" em frente ao "Castelo do Hamle", em Helsingorg, Dinamarca, setembro de 2009)


Gente querida,

estou com a visita da sogritia e da Tia Lourdes aqui e não tive tempo de passar pelo blog nos últimos dias. Passeamos e Ângelo tem curtido a farra com elas aqui.

Acabei de responder todos os comentários até o post do "Na Suécia também não tem que... vestir menina de cor de rosa".

Desculpem mesmo pela demora! Eu sei que é muito chato voltar e ver que vocês estavam falando pras paredes, mas não mais!

beijocas e ótimo dia!

18 setembro 2009

"Só a bailarina que não tem...", carta aberta à Luana, um dia depois do seu aniversário


(Luana, num dia qualquer brincando comigo de pintura de bailarina, Brasil, janeiro, 2006)

Lu, lindona da Tia,

Ontem foi seu aniversário e a Tia Sônia se esqueceu totalmente. A Tia pensou muito em você nuns dias antes, mas ontem tinha muitas coisas para a Tia fazer que o dia acabou e a Tia não se lembrou.

Hoje a Tia ligou pra você no seu telefone algumas vezes, mas acho que você estava na escola. Agora seu pai disse que você foi no cabelereiro. A Tia Sônia quer dizer com essa carta no blog que apesar de ontem ter esquecido seu dia e não ter falado com você sobre como seria sua festa do pijama com suas amigas, a Tia te ama muuuuito. Te adora como adora as coisas mais valiosas que tem na vida.

A Tia Sônia também acha que você é a melhor sobrinha do mundo. Ah! e também a mais inteligente, porque até participa de campeonato de xadrez não é? E também uma das mais lindonas, tão linda quanto à bailarina que não tinha namorado, lembra? E também a mais atleta e esperta? Lembra seu título de natação? E ainda consegue ser a sobrinha mais artista do mundo, porque faz desenhos e pinta quadros que deixam a Tia Sônia babando...

A Tia baba tanto na Lu e a admira tanto que ainda trata a Lu como se ela fosse muito menininha...



(Luana, tirando mais uma das milhares de auto retratos que tira de si mesma, Atibaia, Brasil, janeiro, 2009)
A Tia Sônia se lembra sempre do dia que veio para a Suécia e se despediu de você no aeroporto? Lembra como a gente se matou de tanto chorar? Então, sempre que a Tia se lembra cai uma lágrima de tristeza, mas a tia Sônia também lembra de coisas super legais que a gente fazia junto e que a gente pode fazer quando são férias e a tia Sônia vai para o Brasil.

A Tia Sônia lembra do dia que você nasceu e pegou você bem miudinha nas mãos. Depois lembra também de quando você vinha passar férias na casa dela em São Paulo e lembra de você chutando ela, feito relógio, na cama, quando dormiam juntas.



(Lu lindona posando para a tia Sônia, Atibaia, Brasil, janeiro, 2009)
Mas a boa notícia é que só mais uns mesesinhos e a gente poderá fazer tudo de novo e passar alguns dias juntas e contar histórias, dançar, brincar de um monte de coisas de novo.

E a Tia Sônia quer pegar no seu cabelo bonito e levar um monte de prisilhinhas linda para você.

Lu, a tia é muito feliz na Suécia. Você sabe que aqui tem um monte de coisas legais não sabe? Mas sabe o que é mais difícil pra tia? Ficar longe de você... sim Lulu a Tia Sônia pensa tanto em você quanto você pensa nela. Ainda assim isso não quer dizer que seja algo ruim não.



(Luana, no dia do meu aniversário desse ano, mandando uma homenagem pela internet, Sumaré, Brasil, março, 2009)


A gente sente saudade porque se ama muito. Sente saudade porque toda vez que estamos juntas a gente se diverte e adora ficar uma na companhia da outra.

A Tia quer dizer também que seu aniversário é uma data especial sim! E você fez muito bem de querer fazer uma festa super legal do pijama, mas o fato de a Tia ter esquecido do seu aniver não quer dizer nada. Só quer dizer que os adultos são desligados e bobos as vezes, tá? Veja, por exemplo, que você não se esqueceu do aniversário da tia em março....

Um beijo enorme! Espero que seu cabelo fique lindão! Que você se divirta muito hoje na festa do pijamas com suas amigas que eu queria muito ajudar a organizar e participar! E que você me mande logo aquela carta que me prometeu mandar pelo correio contando tudinho, tá certo?

Agora vou precisar dormir, porque a Tia Sônia ficou gripada e tá cansada demais, mas amanhã te liga de novo!!!

Te amo lindona!

Tia Sônia.


(Luana,na noite de Natal em minha casa, usando a saia bailarina sueca que eu levei para ela de presente, São Paulo, Brasil, 2008)

17 setembro 2009

Nove porteiras: o longo caminho até o paraíso das mães

(Eu, recebendo um delicioso abraço de Dia das Mães do Ângelo, sem querer aparecer direito na foto, porque não estava bonita o suficiente, maio de 2009)

Eu e minha santa mãezinha Maria nunca fomos de ficar de muitas confissões sobre o que sentimos. Minha mãe fala muito e eu também, mas não falamos muito de nós mesmas. Falamos indiretamente. É nosso jeito de funcionar. Ela, extremamente amorosa e dedicada, eu agradecida e carinhosa como uma boa filha tenta ser.

Eu não teria nada de novo para contar, não fosse uma conversa que tivemos no skype, bem ao estilo de mãe e filha, nas minhas últimas semanas, ou últimos dias antes de eu dar à luz ao Ângelo, dois anos atrás. Eu já com algumas contrações e com medo do que viria perguntei: "Mãe, como foi seu parto quando eu nasci? Ao que minha mãezinha, que vivia naquela época no meio de uma roça no interior de São Paulo com meu também santo pai José, me respondeu:

- Ihhh... Eu tive que passar nove porteiras pra chegar ao hospital Sônia!

- O quê? Como assim nove porteiras mãe?

E foi então que ela me contou sua sina daquela noite antes ter sua primeira filha, aos dezessete anos de idade. Naquela madrugada ela acordou meu pai, porque já estava com as contrações muito fortes e ele, que como quase todo homem era lento que uma coisa, foi lá, desamarrou o cavalo no estábulo, colocou a charrete, tudo na maior calma. Dona Jovem Maria acabou subindo sozinha na condução, pegou literalmente as rédeas da situação, foi levando a charrete, enquanto meu pai descia, abria a porteira seguinte, fechava, subia len-ta-men-te na charrete de novo. E os dois fizeram isso até que a nona porteira tivesse sido aberta e fechada.

Esse seria um número que ela não esqueceria. Minha mãe teve que aguentar não só nove meses para que eu nascesse, mas praticamente na hora de eu nascer, pelas mãos da parteira em Pedrinhas Paulista no interior de São Paulo, ela teve que atravessar nove simbólicas e difíceis porteiras para chegar ao hospital da cidadezinha.

Essa história não saiu mais da minha cabeça. Eu sempre pensei nela com muito carinho e na noite que fui para o hospital desesperada, porque achava que Ângelo estava quieto demais na barriga, eu pensei nas nove porteiras de minha mãe e enfrentei as minhas. Eu sabia que se ela havia conseguido lá na sua vida simples no meio da roça, em cima de uma charrete naquela noite de 18 de março de 1971, eu certamente me sairia bem no carro possante do meu Renato e no hospital de primeiro mundo da Suécia de 2007.



(Minha mãe Maria e eu, depois de tantas porteiras, juntinhas de novo no último Natal no Brasil, dezembro de 2008)

Desde aquela conversa e desde que atravessei minhas nove porteiras eu tenho entendido bem melhor os mistérios que rondam o universo da maternidade. Foi com isso que fiquei refletindo há alguns dias, quando presenciei a cena entre uma mãe e um filho aqui na Suécia.

Numa dessas tardes do fim do verão, estava eu com Ângelo num parquinho em frente à praia, depois de voltarmos da escolinha. Ele e duas dezenas de crianças brincavam, pulavam, escorregavam, se mexiam na areia, enquanto tinham sobre si os olhares atentos e amorosos de seus pais e mães.

No sobe e desce, desce e sobe, um dos loirinhos de olho azuladíssimo, um suequinho minhonzinho de um ano e meio talvez, cuja mãe o segurava pelos bracinhos, tropeçou na escada do escorregador e foi com tudo de boca nos degraus. No mesmo instante, até mesmo antes que ele chorasse sua jovem e também loira mãe soltou um lamento:

- AAAAAiiiiiii.... gemeu ela muito alto.

O menino chorou muito com um pouco de sangue na boca e, embora seu choro fosse também de dor, ele não era mais intenso do que aquele gemido de sua mãe e do que os sons que ela continuava emitindo baixinho.

Tentando consolá-lo, ela abraçava, beijava e dizia para si mesma: "Aiaiaiai". Fiquei ali sentada, quase numa atitude calma, olhando para ela, enquanto suas amigas já vieram acudi-la rapidamente. Não me movi, porque tudo foi rápido e o pouco que poderia ser feito já estava sendo, mas o olhar daquela jovem mãe para seu filho, o jeito como ela tentava se desculpar acariciando-o me deixou comovida. Me deixou ao mesmo tempo com pena dela, pena de mim mesma e pena de todas as mães do planeta.

Eu pensei muito na idéia de "culpa" naquela tarde. E pensei na culpa que, aos meus olhos, toda e qualquer mãe carrega. A culpa que aquela mãe sueca carregou naquela tarde não era diferente da culpa que vi minha mãe mineira- brasileira carregar sua vida toda. Não era também distante das minhas culpas e das que vejo minhas amigas, também jovens mães, enfrentarem diariamente.


(Eu e Ângelo no primeiro passeio com nossa bike Madalena, eu culpada por não saber andar direito e com medo de acabar derrumbando meu menino, Malmö, inverno de 2008)

No meio de tanto amor e dedicação delas há sempre o lamento do que poderia ter sido feito. Elas assim o fazem, e também o fazem suas mães e as mães de suas mães. É assim que tenho ouvido desde há muito tempo.

E então eu pensei que ser mãe, entre tantas coisas maravilhosas de serem ditas, é algo entre saber trabalhar com a própria culpa. Com a culpa produzida por fatores externos e pela culpa que a gente mesma cria.

Um filho que escorrega no parquinho é algo quase sempre fora do nosso controle, mas nós nos sentimos culpadas. Culpadas porque tínhamos que ter visto antes do bichinho ou da bichinha cair e, claro, tê-los apoiado a tempo para que não houvesse choro nem dor.

Do mesmo jeito que aquela jovem iludiu-se aquele dia e culpou-se crendo que poderia ter evitado o quase inevitável eu, sinceramente, acho que muitíssimas de nós, fazemos isso quase diariamente. Fazemos até mesmo antes daquele momento do "empurra!", "empurra!"

Já na gravidez entre mudanças inexplicáveis e milagrosas no nosso corpo a gente sente culpa: porque tem medo do que virá, porque engordou demais ou de menos, porque talvez aquele remedinho extra que tomou possa causar algum problema na formação do bebê...


(Minha super amiga maluquinha Luciana Dias, de barrigão e com medo de não ser boa mãe, janeiro de 2009)

A gente se culpa os nove meses porque ora quer desesperadamente o filho, ora quer manter a mesma antiga vida para sempre. Se culpa porque não consegue amamentar ou, se consegue, porque tem pouco leite, ou talvez tenha leite demais. Se culpa porque a comidinha estava quente e queimou a boquinha dele ou dela, porque não acertou no prato que eles queriam naquela tarde ou porque tem que dizer não a um sorvete pedido com carinha de pena.

A gente se culpa a infância toda dos filhos e, até onde observo, a vida toda deles. Se é preciso deixá-los na escola ou com a babá, se não vão tão bem em matemática, se um amiguinho deu-lhes um empurrão ou se a merenda da escola não é tão saborosa quanto deveria ser.

A gente se culpa porque os filhos não se casam, ou se eles se casam, porque as vezes não são totalmente felizes, ou porque sentirão dores e terão dificuldades quando forem ter seus próprios filhos. A gente se culpa por cada noite de sono perdida, pelas doenças bobas e pelas sérias, pelas viagens e trabalhos mal sucedidos e por sonhos que filhos e filhas fizeram em vão.

A gente também se culpa porque quer estar sozinha e não quer barulho. Se culpa porque preferia ver um filme, sair com as amigas a estar em casa cozinhando e trocando as fraldas. Se culpa porque queria voltar a namorar o marido como antes, porque queria poder ter o direito de ser egoísta, sem achar que haverá um dedo apontando para seu nariz.


(Eu boba de amores por Ângelo, curtindo alguns dos momentos mais maravilhosas da maternidade, Malmö, noite de Natal de 2007)

Hoje eu acredito que uma mãe ama tão intensamente quanto se culpa. Essa foi a minha leitura daquela tarde de sol na tão distante Suécia. Esse foi o dia em que vi, pela primeira vez, que as mães "emotivas, intensas e exageradas" brasileiras ou latinas não são lá muito diferente do que de fato o são as mães "controladas, calmas e frias" suecas.

Isso porque a maternidade é de fato uma experiência transcendental. Ela transcende tudo o que a gente imagina poder um dia sentir e ser na vida. Isso inclui ser a mais cheia de amor possível, desprendida, corajosa, doadora, carinhosa, meiga, engraçada e cheia de energia... Inclui também ser neurótica, controladora, medrosa e, entre tantas outras coisas extremamente humanas, totalmente culpada por tudo o que já foi e pelo que virá.


(Minha queridíssima amiga Mafer curtindo seu primeiro momento com o segundo filho Miguel, ainda sem pensar na culpa de dividir o amor que dava para João, seu primeiro, março de 2009)

Talvez todo esse drama nada paradisíaco se explique porque onde há o laço materno há sempre uma mistura muito forte de sentimentos bons e ruins. E talvez porque para ser mãe é preciso ser mulher e porque, sendo mulher, a gente esteja sempre muito perto de achar-se culpada. A diferença entre a culpa sentida antes de ser mãe é que, na pele dessa, a gente não se conforma por ainda sentir culpa. Todos os problemas deveriam ser resolvidos, todo o paraíso foi conquistado não foi? Então por que podemos ser tão ingratas e não ser apenas agradecidas o tempo todo?

Na minha pouco experiente opinião porque é possível viver sim o paraíso em milhares de vezes na qual se está com nossas crias. E porque não sabemos mais nos imaginar sem elas. E porque a vida sem elas passou a ser uma página linda, mas da qual parece ter valido a pena abrir mão. E, ainda, porque ao mesmo tempo que se sente a "Magnificat" uma mãe também se sente a responsável por ser expulsa desse próprio paraíso.

Eu não sei direito, mas vou cá viajando... embora grande parte da culpa das mulheres-mães venha delas mesmas, provavelmente venha também grande parte de fora, daquilo que as outras mulheres, outras mães e os Adãos esperam dela. Ter que negar diariamente todas as outras faces de Eva que se tenha e mostrar apenas aquela que parece viver eternamente num paraíso é um peso para qualquer mulher.

Eu não acho que seja preciso padecer no paraíso para ser mãe, mas para isso é preciso atravessar as nove porteiras que nos esperam todos os santos dias, todas as santas horas e todos os santos minutos da nossa santa vida sem tanta culpa. Talvez seja preciso começar aceitando nossa humanidade e a humanidade dos outros, aceitar que qualquer papel que representemos na vida é cheio de ambiguidades, inclusive o papel de mãe.

16 setembro 2009

"(I've had) the time of my life..."

(O ator Patrick Swayze)

Eu não sei mais porque cargas d'água ontem a noite fui ver uns sites de músicas e aí acabei lendo rapidamente sobre a morte de Patrick Swayze, aquele moço louuuro-lindo que fez eu e muitas outras mocinhas sonhadoras dos anos 80 imaginar um príncipe que dançasse com a gente balançando os ombros e olhando com aquele zoinho fechadinho, como ele fez em Dirty Dancing.

Vi e li tanto e quis escrever um post ali mesmo, mas acabei deixando para hoje de manhã...

Eu sei que é loucura, coisa de gente muito simprinha mesmo, mas eu tinha uma paixão por esse ator. Uma paixão adolescente daquelas que a gente não esquece. Mesmo depois de vinte e tantos anos, toda santa vez que eu via Dirty Dancing repetir na TV eu ficava lá parada olhando.

Certa vez, estávamos em Milão, sim! em Milão, e a TV italiana reprisava o filme. Do quarto do hotel, eu tentava ver rapidamente entre uma troca de fralda e outra do Ângelo, mas desisti depois do Renato passar umas trocentas vezes em frente e dizer: "baita filme velho Sônia! E com esse cara feio!". Há há, claro, baita cara feio!

Eu sei. Filme velho, ator antigo e talvez fraco. Nada disso me interessa. Me interessa pensar que eu amo dançar "The time of my life" e fazer de conta que sou a mocinha feiosinha do filme (qualquer adolescente que não fosse lindíssima deve ter se identificado com ela no filme) voando naquela hora do salto final. Acho maravilhoso lembrar de meu irmão dançando Hungry Eyes, nos bailinhos dos amiguinhos dele nos anos 90, tentando parecer o Patrick.

Eu não sei se tem a ver só com o que a mídia pode fazer com a gente, porque, claro, eu não sei nada mais do Patrick Swayze a não ser o que construí em minhas fantasias a partir de sua vida no cinema. É parte fantasia, porque quando se vai um ídolo é a imagem criada dele que a gente vê morrer.


(Cena do filme "Dirty Dancing", quando o moço pobre e talentoso triunfa sobre a sociedade preconceituosa que o cercava..)

É... Talvez seja só total viagem ou total inocência, mas eu acho que tem um pouco mais que isso. Por exemplo, eu tinha posters gigantes do Michael Jackson (sim, eu confesso) no meu quarto teen, mas eu não senti quase nadica de nada com a morte dele. Quer dizer eu tive pena. Pena por tantos motivos, mas eu estava mais ou menos conformada em pensar que alguém que se arrisca a tomar remédios e ter uma vida louca como a dele não há muito como reclamar quando a morte chega meio cedo.

No caso do Patrick Swayze foi o contrário. Aquele grandão loiro, com carinha de tímido, era casado há 34 anos com a mesma mulher. Eles tinham filhos e ele sempre tentou lá fazer sua carreira subir depois do estrondo que foi Ghost. A Demi Moore conseguiu muito mais, mas ele nunca teve exatamente respeito como ator.

Não me importa o pouco ou o muito sucesso que ele tenha feito.

Me importa que era um cara normal, com uma vida mais ou menos normal, entende? Tinha lá seus desejos e seus talentos. Escreveu sua "She´s like the wind" e cantava, quando jovem, com aquela sua voz rouca. Me interessa pensar nisso tudo e também em sua pessoa real, a que as câmeras não pegavam.

Olhando uma foto da internet, tirada enquanto ele, já bem doente, e sua esposa participavam de um programa televisivo, dá para ver a cumplicidade dela. Dá para sentir no olhar de Lisa Niemi, o olhar da companheira que viveu e viu tudo junto dele. De quem dividiu o café da manhã, os dias ensolarados e os dias escuros. Dá para ver seu pesar, mas também seu apoio. Dá para ver amor. Amor real. E eu já acho que o mundo sempre perde muito quando perde alguém que deixa gente que o ama.

E perder alguém que luta durante um ano e meio contra um câncer no pâncreas não é nada nada fácil.

Ontem, eu me peguei horrivelmente procurando fotos para confirmar o que eu havia lido. Eu não estou mentindo, estou sendo piegamente sincera: eu fiquei muito triste. Pela família, por ele que teve que se encarar não só no espelho e ver que sua beleza e saúde deu lugar há um corpo esquelético e velho depois das sessões de quimioterapia.

Eu pensei no quanto uma pessoa assim precisa aceitar o que o "destino" lhe dá. Em uma entrevista na TV, logo depois dele ter recebido o diagnóstico do médico ano passado, Patrick disse à apresentadora: "Sim eu estou com medo... Sim, eu estou com raiva... Sim eu estou perguntando: por que eu?".

E talvez todo este post meloso seja de novo aquela coisa que falei há pouco tempo: essa vulnerabilidade que nós e as pessoas que amamos temos diante da vida é o que mais causa medo. E o medo talvez venha mesmo de não conseguir aceitar que a vida se esvaia de um corpo cheio de carinho, amor e vida para dar.

Aceitar um câncer, viver com ele, morrendo aos poucos durante um ano não é para poucos. E, embora muitos tablóides reforcem que essa foi a maior luta do ator, eu quero pensar que foi só uma delas. Ele viveu 56 anos e tenho certeza que sua família tem coisas maravilhosas para se lembrar que não sejam só os últimos meses. É com essa lembrança a que prefiro ficar também.


15 setembro 2009

Sabe aquele negocinho?

(Casal maluquinho, Liana e Thiago-Otávio na nossa festa do Midsomer, julho de 2009)

Eu já falei muitas vezes sobre como isso de viver em outro lugar, falando uma língua que não é a nossa diariamente, ou, normalmente, falando duas línguas a mais que o português, acaba provocando uma confusão na hora de se expressar e mesmo um monte de dúvidas na hora de escrever.

Eu faço isso o tempo todo, mas não com tanta graça e elegância.

Veja só:

O Thiago (ou Otávio para os íntimos), amigo de uma amiga nossa, a Liana, morou na Dinamarca desde seus 16 anos e agora está vivendo aqui na Suécia. Na volta de nossa viagem do fim de semana ele vinha explicando a sua mulher que ele havia gostado muito da viagem, patati patatá... mas que o único problema de fazer a pesca da lagostinha no lago era que:

- ... o terreno era muito ingrid!

Quiá quiá quiá! A gente não consegue parar de rir até agora.

Bom, mas o papo cabeça entre o casal internacional não parou aí. E Liana comentando que a paisagem era linda disse algo assim:

- Quando o sol foi clarecendo...

Hahahá ha!

Eu fico feliz de ver que não sou a única pancada da thurma! E fico feliz que eu possa sempre ter essa explicação da nossa internacionalização quando cometemos um erro tão ingrid assim! hihihi...



14 setembro 2009

Na Suécia também não tem... que vestir menina de cor de rosa


(Foto de dois meninos brincando de bonecas numa das pré-escolas suecas exibidas no site de propaganda do lugar, fonte: Bjurhovda Södra Förskola)


Eu venho pensado este tema há algum tempo, mas vinha adiando porque queria muito ter mais material para ele. Entretanto, o último post da Lola no qual ela fala do quanto a língua portuguesa é machista, bem como outras tantas, me fez lembrar do assunto. Decidi jogar o tema na mesa para discutirmos e aí vou tentando acrescentar a medida que conversamos juntos. Ou deveria dizer eu: juntas? já que a maior parte das pessoas que me lêem parece ser de mulheres?

Eu sei que não existe (ainda) paraíso de igualdade entre os gêneros, mas a Suécia está muitos passos adiante do que vemos no Brasil e no mundo. Talvez por isso eu tenha sempre em mente tantas comparações e por isso coloque tanta atenção em coisas que uma amiga sueca, por exemplo, nem notaria.

Há vários e vários exemplos de maior igualdade entre mulheres e homens aqui. Bom exemplo é a boa representatividade na política, nos empregos, em geral, e na forma de como cuidam dos filhos e das suas casas.

O fato de que na Europa não há tanta mão de obra barata, como temos no Brasil, já é consequência de outra coisa diferente: pouca gente tem empregada doméstica, babá, jardineiro, cozinheira, faxineira, costureira e por aí vai. Só nas frases ditas até aqui eu penso em desenvolver uns dez posts, porque é assunto demais, mas vamos ao tema desse...

Um dos argumentos que mais gostei no texto da Lola é: "A língua é um reflexo da sociedade que a usa. Se a nossa língua continua preconceituosa, é porque a sociedade continua preconceituosa (...)".

Quase sempre que recebo alguém visitando a Suécia eu adoro levar esse alguém nos playground daqui. É neles que levamos os filhos para brincar e trocamos algumas idéias com outras pessoas. Como há segurança nas ruas a gente pode sair e brincar, sem medo etc. E é aí que uma cena tipicamente sueca pode ser vista: em meio a dezenas de mães, a gente vê também outras dezenas de pais (no caso, homens mesmo) cuidando de seus filhos e filhas. Eles dão comida, brincam, trocam fralda, levam ao médico. Isso num dia de semana qualquer. Não estou falando de horas vagas, estou falando do dia a dia de milhares de homens suecos, porque eles são exemplos de pais que tiraram licenca paternidade, enquanto suas esposas estão trabalhando. Esse é um direito que os casais suecos tem. A licença de um ano e meio pode ser dividida como deseja o casal e como convém para ele.

Com as mães e pais com quem já conversei nesses lugares e em outros vejo que é bastante comum entre os casais suecos que estes dividam a licenca. Isso não me pareceu ser tão verdade quando o homem é estrangeiro ou a mulher. Normalmente quando um deles não é Europeu acontece o que normalmente acontece entre casais brasileiros: a mulher é praticamente a única responsável por cuidar dos filhos e da casa. O marido sueco delega isso se sua mulher vem de um país onde ela aprendeu a assumir tudo sozinha ou a mulher ou a mulher sueca acaba assumindo isso se o marido veio de um país onde ele sabia que seu papel era outro que não esse.

Bom, a coisa mais engraçada (ou triste, depende do ponto de vista) é que, se alguns de meus visitantes acham a cena louvável, outros a acham muito estranha. Feia. E ver tantos homens, no horário de trabalho, ali "não fazendo nada" como tantas outras mulheres incomoda. Por que? Porque trabalha sério mesmo é quem trabalha fora de casa. Quem pica cartão na empresa e tem salário no fim do mês. A maior parte de nós está tão acostumado a pensar o trabalho de mãe, dona de casa etc como uma tarefa feminina que acha que homem que faça o mesmo é meio vagabundo.

Isso não quer dizer que as pessoas que sentem um certo estranhamento ao presenciar essa igualdade de gêneros aqui na Suécia tenham má vontade com as mulheres. De jeito nenhum. Muitas são também mulheres. O fato é que está tão grudado na nossa cabeça que quem deve sair para matar a fera todo santo dia e manter o "sustento da família" é o homem que elas, ao ver uma cena de parquinho assim, sentem como se o homem é que estivesse algo fora do seu lugar natural, isto é, fora de casa.



(Menino e menina sueca limpando o quintal do prédio onde morei, com um pouco de ajuda e supervisão do pai, no dia que o rodízio da limpeza era da família, Malmö, novembro de 2008)


O mesmo acontece quando o assunto são as mulheres que trabalham em empregos tidos como "masculinos". Muitíssimas mulheres daqui são pintoras de casa, ou mecânicas, ou jardineiras, motoristas. Sempre vejo umas aqui no condomínio que vêm para consertar problemas de toda ordem. E elas usam aquelas roupas cheias de apetrechos de arrumar tudo. Eu fico babando na parafernália e queria ter umas caixas daquelas só para mim.

Normalmente a piadinha que nós brasileiros fazemos é sempre é se elas não são "sapatas". Mulher que faz serviço mais pesado ou tido como de homem não é muito mulher, mesmo quando a gente provavelmente é quem resolve tudo isso também dentro de casa. Se esse for um serviço pago, reconhecido fora, então é muito esquisito. Só se a gente fizer quietinha, no lugar do marido, sem reclamar que não é ele quem troca a lâmpada, fura parede, conserta a tampa do vaso sanitário. É claro que se for o homem que tem um emprego fixo, registrado fazendo aquilo que também conseguimos fazer aí tá tudo certo.

Bom, talvez essa igualdade sueca até seja engolida para alguns machistas ou algumas machistas de plantão, mas se a gente não tocar num ponto x da questão. Nas escolas suecas não há (até onde tenho conhecimento, vocês que vivem aqui podem me ajudar nisso) separação de atividades femininas e masculinas. As meninas aprendem a jogar futebol e todos os dias há dezenas disputando campeonato aqui em frente de minha casa nos campos onde outros homens também jogam. Da mesma forma, os meninos aprendem inúmeras atividades ditas "pra mulherzinha" na escola, durante o primeiro grau. Aulas de tricô, costura etc são para ambos os sexos. Sim! O povo sueco e as escolas suecas acham que um homem deve saber trocar o botão da própria camisa, assim como deve saber lavar uma louça (e limpar a pia depois que lava), cozinhar (e manter a arrumação depois disso), passar (se for preciso, já que é normal que a gente quase não passe roupa na Europa porque não tem a Zoraide para fazer o "selviço").

É claro que quando estamos entre amigos aqui os nossos maridos adoram brincar que os meninos suecos aprendem a ser florzinha na escola. Mesmo os maridos que ajudam muito em casa, como qualquer marido sueco, acabam não conseguindo ceder a esse ponto, porque, aos olhos deles, aí já é demais!



(Foto que tirei de uma das prateleiras da loja de brinquedos há um bom tempo, com intenção de fazer um post que se chamaria "Os brinquedos que eu nunca daria a uma filha, se eu viesse a ter uma um dia...", Malmö, setembro de 2008)
É mesmo engraçado como nós separamos tudo ao longo da vida. Os filhos homens não precisam pôr o prato na pia, nem arrumar a cama etc. As meninas sim! É claro! O que se espera de uma menina que não faça isso?

São poucas de nós, mães, de ontem e de hoje, que conseguimos dar uma educação mais igualitária para os filhos em casa. Brigamos com os maridos para que eles deixem de ser folgados e tirem as meias sujas do meio da casa, mas deixamos que o filhinho lindinho deixe seus brinquedos todos espalhados pela casa depois de brincar.

Acho incrível o número de exemplos que tenho todos os dias para pensar o machismo na nossa sociedade e, embora, eu afirme com certeza que no Brasil ele é centenas de vezes pior, aqui também não foge a toda regra.

Fui comprar um brinquedo para dar para a filha de uma amiga sueca na semana passada. Como tenho um menino eu nunca havia me dado conta de como nós pais e mães são conduzidos para repetir exatamente o padrão machista de alguns milhares de anos. Eu desisti de comprar um brinquedo para Moa, a menina de três anos, depois que vi que numa loja gigante 80% - ou mais - dos brinquedos para meninas eram bonecas. Bonecas com carrinho de bebê, bonecas Barbies lindas, bonecas para trocar o cabelo, boneca para trocar a fraldinha, boneca que pintava a unha, boneca que falava, ria e fazia côco... E uma ou outra coisinha bem besta, como tábua de passar roupa, ou acessórios que repetiam a idéia de Princesa ou gata borralheira. Segundo as lojas de brinquedos as meninas só tem que pensar em ser lindas, aprender a cuidar de bebês e se preparar para esperar o príncipe. De preferência rico, porque aí dá para dar uma de princesa e fazer outra mulher qualquer fazer o papel de escrava que ela talvez não queira.



(Outra foto do mesmo dia que a anterior... Toda criança adora brincar de limpar a casa e varrer, mas por que o único brinquedo desse que tinha na loja deve ser rosa? A cor tida como sinônimo de coisa para mulheres? , Malmö, setembro de 2008)
Na ala dos meninos (que tomava 70% da loja e vinha com fotos de meninos nas capas dos brinquedos) tinha de tudo: jogos super legais, carros, tratores, aviões, espadas, roupas, bolas, jogos esportivos diferentes etc. A variedade me mostrava uma segunda coisa: se as meninas devem se preocupar basicamente em serem lindas para um dia achar um príncipe, o príncipe provavelmente deveria ser alguém que conseguisse no mínimo jogar futebol, ser bem esperto para ganhar nos jogos de conhecimento, forte para ganhar uma luta de espadas, saber pilotar bem avião, carro, trator, ambulância, polícia, consertar todo tipo de coisa etc. Ele deveria saber lutar e defender. Deveria estar em várias posições diferentes. Um príncipe precisa ser não só bonitinho, precisa ser inteligente, forte e tem que saber se divertir a beça!

Talvez você que é mãe de menina discorde comigo e ache que há sim mais coisas do que as bonecas para as meninas. Até concordo que dá para a gente oferecer outra coisa, mas o que tô dizendo é que se eu me guiar pelas fotinhos de meninos e meninas nos pacotes aí sobra quase nada mesmo.

Não vou me alongar como foi meu horror na loja de roupas, onde obviamente os números se invertiam. A ala das meninas é gi-gan-tes-ca, com centenas a mais de opções do que tenho para comprar pro Ângelo. Cores, acessórios, modelos diferentes estavam ali para dizer para quem perdeu a lição da loja de brinquedos: deixe sua filha linda, compre muuuita roupa para ela, porque senão ela não será capaz de um dia conquistar um belo, forte, inteligente e rico príncipe.

De tudo isso percebi duas coisas: a primeira que machismo e desigualdade social estão intimamente ligados. A desigualdade sustenta uma sociedade que, como disse outra blogueira (a Bárbara, uma brasileira que vive em Londres), dias desses num post ultra interessante sugerido pela Lu, está cheia de gente que terceriza absolutamente todas as funções chatas, sujas e entediantes de se fazer, porque custa muito pouco.

A segunda, que os livros foram o melhor achado. Sempre foram para mim e tem sido quando dou presente para os filhos dos outros também. Acabei comprando um livro de contos do Hans Christian Andersen, lindíssimo, cheio de figuras, com as histórias originais do dinamarquês (as versões brasileiras seguem as versões da Disney que são suavizadas e romantizadas, ao contrário do que as histórias de fato são). Tá certo que a gente conhece mesmo quase só as histórias de princesas dele, mas há outras maravilhosas... ainda assim, eu tô aqui pensando quanta coisa deve ter nas entrelinhas de um aprendizado e quanto provavelmente haverá de repetição de posturas no livro que dei...

Se pensar só nesse meu texto a quantidade de vezes que escrevi "outros", deles, etc tentando falar de mulheres e homens ao mesmo tempo a gente já vê que é mesmo preciso começar a mudança por algum lugar. E se nem nós mulheres blogueiras, que somos a maioria hoje no mundo dos blogs, conseguimos perceber e, ao menos quando é possível, escrever um texto menos linguisticamente machista, aí vai precisra de muitos e muitos outros séculos para que tudo isso que falei aí acima comece a tomar algum rumo diferente.

Disse também a Lola:

"(...) Ao mesmo tempo, a sociedade é moldada pela língua. As crianças crescem ouvindo homem e mulher. Não é apenas pela língua que elas vão se dar conta dessa hierarquia, mas é também pela língua."

Começar pela língua, acredito que seja um pequenino, mas um significativo começo, já que se eu achar muito difícil mudar apenas o gênero das palavras de um texto meu, então se conformar que o mundo sempre será assim, não tem jeito mesmo e não adianta reclamar...

11 setembro 2009

Cabana, lagosta e pesca: tudo que manda o figurino sueco

(Um dos senhorzinhos suecos super animados (falante, atleta e dançarino) que conhecemos na festa da Lagostinha no Malmöfestivalen, agosto de 2009)

Gente boa,

eu vi aí várias respostas ao post das fotos e outros, mas não vou conseguir responder antes da semana que vem...

Voltei da escola e vou correr para arrumar uma bagagem gigante para sairmos hoje rumo à cidade Småland, aqui na Suécia.

Vocês se lembram daquele festival da lagostinha do qual falei? Pois então, a gente vai para lá ficar em chalés com os amigos brasileiros, vários casais, e vai pescar - repito pescar - a lagostinha direto do lago que tem lá. E a pesca começa a meia noite - re-pi-to, a meia noite!. É claro que quando digo a gente eu não me incluo porque eu moooorro de meda de pensar em aranhas ou meu pé enfiado na água do lago a essa hora da noite, mas muitos dos maridos e algumas moleres estão animadésimas.

E será assim que vamos participar de uma das mais antigas tradicionais suecas: pescar e comer sua própria lagosta. Eu acho que será uma farra, embora eu não vá nem pescar e provavelmente nem comer as bichinhas.

Então ótimo fim de semana para vocês!
Ontem nos despedimos da mãe de uma amiga, a Dona Verinha, mãe da Xu, leitora desta humirde blogueira que vos escreve e de quem sentirei muuita saudade. Ela voltou para meu Brasil veronil! Entretanto, semana que vem chega a Vavá Irene, minha com a Lourdes, tia do Renato. Estamos a todo vapor pensando em levá-las para fazer topless em Malmö, mas parece que elas não estão lá muito animadas. Vamos ver o que dá para fazer com as moçoilas!

Beijocas! Ah! E já recebi umas dez fotos dos nobres leitores do Borboleta! Lindossss! Eu nem sequer tive tempo de ver as fotos, mas já achei lindo me mandarem. Não vi porque acabei de checar agora para escrever este post! Mas vou lá conferir e dou mais uma semana para que vocês mostrem sua cara daí faço o post!

Vamuuu lá pessoal, solta essa franga!!!

09 setembro 2009

Leitor, mostre sua cara!!!

(Eveline Kupske Schwartzhaupt é um leitor tipo "gente que faz!!!" a diferença...)

Essa lindona aí de cima é a famosa Eveline.

Você nunca ouviu falar dela? A Eveline é uma das cento e trinta, cento e poucas pessoas que passam por esse blog diariamente. O número não é alto não, mas a qualidade é bótima!

Essa minha leitora começou a me deixar recados há bom tempo atrás e sempre me deu uma coisa tão boa e super positiva. Entretanto, ao contrário de algumas de vocês que tem blog e quem de quem eu conheço ao menos um pouquinho, eu não fazia idéia de quem ou de como se parecia essa pessoa tão carinhosa que me escrevia sempre.

O jeito de falar da Eveline me lembrava muito duas amigas brasileiras, de muito tempo atrás: sempre que falavam comigo elas pegavam na minha mão, de tão carinhosas. A Solange e a Susette. A Solange já se foi e a Susa mora em Bragança Paulista.

Agora não é curioso que a gente se sinta tão próximo de alguém que nunca viu? E como podemos admirar gente que lemos em outros blogs, pensar nelas e citá-las na hora do jantar com o marido como se fossem de nossa família?

Isso é engraçado, curioso e incrível.

Fiquei tão animada ao ver a foto da Eveline, que enviou para meu email a pedido meu, que pensei se você que está aí escondidinho, bem quietinho, ou nem tanto, não quer dar sua cara para aparecer também.

Não precisa aparecer no blog, se não quiser, mas me mande por email. Vou adorar. E ainda pode escrever algumas linhas com nome, profissão, onde vive, como descobriu o blog. Quero fazer um post só com essas informações e ficaria honrada em conhecer mais alguns de vocês.

Quando recebi a foto da "amiga" Eveline, o jeito como ela sempre me chama quando escreve os comentários, eu senti como sendo um contato real. É uma coisa tão boa saber que ela e eu temos a mesma idade (e ela não é uma senhorinha super simpática aposentada, como eu imaginava pelos comentários), que ela trabalha com contabilidade e é do Rio Grande do Surrr. Agora eu até entendo melhor seu sotaque. A Eveline é realzona, acessa meu blog e lê o que sinto e penso. De algum jeito estamos conectadas e há uma pequena troca, assim como há com tantas outras e alguns poucos outros de vocês. Há gente especial que já passou bastante e sumiu e outras que ficaram. Há gente que vem, concorda ou não, gosta ou não, volta ou não... gente que passa e de quem eu não sei literalmente bulhufas, mas gostaria de saber. Gente como meu digníssimo leitor da famosa cidade de São João da Manteninha que um dia bateu nessa porta.

Agora eu espero que mais de vocês façam o mesmo. Acho que a super Lilás já pensou algo parecido quando colocou uns slides com nossa fotoleta lá no blog dela. Minha idéia é mais simples, é um post mesmo... mas ainda que você já tenha um blog e eu saiba como é sua carinha, me manda a foto pra eu usar.

Se você for dos tímidos ou cheios de complexo é só dizer: "Não use!" haha... eu entederei muito e respeitarei. Mas pode me mandar informações que uso mesmo não usando as fotos. Não vou dar seu endereço no blog, fique tranquilo. É só uma idéia que tive para escrever sobre quem não me escreve, sobre quem está do outro lado da linha.

Beijos e ótima semana! Ah! e o email é:

borboletapequeninanasuecia@gmail.com

07 setembro 2009

DIálogos inesquecíveis com Ângelo: o sorvete du hooomi

(Vídeo: Ângelo tentando comprar sorvete na Alemanha, eu e Renato de "coadjuvantes" ao fundo, tia Dri filmando, agosto de 2009)


Em, Hamburg, na Alemanha, Ângelo achou uma lanchonete com o símbolo da Kibom (que tem em todos os países aqui, mas muda o nome).

Enquanto eu e Renato procurávamos o caminho do Museu, tia Dri filmou a tentativa dele de abrir a lanchonete fechada e comprar o glas (sorvete) com o dono do lugar, o o "homi" que ainda nem havia chegado...


Diálogos inesquecíveis com Ângelo: que bicho é esse?

(Ângelo curtindo a cama nova que tem duas ovelhinhas na cabeceira ou, segundo ele, dois bä bä vita lamm, agosto de 2009)


Com um livro cheio de bichos nas mãos...

- Ângelo, diz para a mamãe que bicho é esse?

- É a Mamamuuu!

- Como é que a vaca faz?

- Múúú!

- E esse?

- Magaruga! (que quer dizer: tartaruga)

-Ah... olha Ângelo...

- Ahhh!!! (com cara de muito surpreso!) O bébé vita lam! (que quer dizer ovelha). Bérr Bérrr!!!

- E esse outro?

- Popónatu!

- Hum... como o Hipopótamo faz?

- Uaaauuu!

- Olha Ângelo o tigre!

- Não... (balançando a cabeça sério) não é tigui mamãe, é a onnnça!

- Ah... então tá. E esse?

- Cavalo! faz ió ió ió!

...

Pequeno glossário sueco-português:
* Vita: branco
** lamm: carneirinho
*** bä bä vita lamm: nome de canção infantil sueca

04 setembro 2009

Sobre os amores e amizades "incondicionais"

("Amigos são mágicos", Sascalia)

No caminho de volta da escola, vinha eu e minha amiga Liana no ônibus já que o vento e a chuvinha nos fizeram desistir de pedalar. Entre uma prosa e outra acabamos por falar dos diferentes tipos de relações que desenvolvemos com as pessoas.

O assunto começou depois dela virar pra mim e dizer: "Vê se pára de reclamar! Você já reparou como reclamou hoje?"

É claro! Uma alfinetada na sexta-feira não é nada tão aprazível, mas levei mesmo numa boa. Mesmo porque ela disse numa boa e temos daquelas amizade saudáveis onde se tem abertura pra falar o que se está sentindo. E foi aí que expliquei a ela que eu já havia percebido que sou mesmo o tipo reclamão quando estou com ela. Não quer dizer que eu não adore sua companhia etc. Eu gosto e muito! Minha amiga é carinhosa, sabe ouvir, é divertida e é companheira. Sem contar que é meio multi uso, do jeito que admiro.

E obviamente eu não sou só uma mala sem alça ao lado dela, caso contrário, ela também seria maluca de querer alguém assim ao seu lado todo santo dia na escola e fora de lá.

Mas a questão que ficou para mim foi: por que a gente se permite ser um tipo de pessoa com um e um outro tipo com outra?

Quem me conhece no blog deve imaginar uma Sônia super ultra mega positiva o tempo todo? Não sou. Algumas amigas podem até pensar que sou a fala besteira e pensa em sexo e em bobeira vinte e quatro horas? Também não. Intelectual e sempre criativa? Errou de novo. Ah! mãezona e esposa dedicada? Nem sempre. Sou um monte de gente numa só. E tenho certeza que você também. 

A única coisa diferente é que vestimos uma "cara" dependendo do ambiente e com quem estamos.

A gente é sempre uma mistura de tantas coisas. Vocês todos sabem disso e isso não nenhuma novidade.

O que se revelou uma novidade foi eu perceber há algum tempo como eu me permito ser uma chatonilda do caramba com a Liana ou pegar no pé dela e como eu me permito ser super Polyana com outras amigas. 

É curioso perceber os vários "casamentos" que vamos fazendo ao longo da vida. Como a combinação de duas personalidades diferentes ou não resulta num terceiro tipo de relacionamento que não é igual a nenhum outro.

Refletindo sobre a amizade que temos com diferentes pessoas eu tentei explicar a minha amiga que só com ela e mais umas duas outras eu sou de ficar fazendo gracinhas, pegando no pé e reclamando da vida. Me permito ser a Sônia maior chata com ela, mas não quer dizer que o sou com todas as outras. Ela ficou chateada com minha explicação. Porque eu deixo o lado bom para os outros só? 

Não sei se viajo demais na maionese, mas pensando com meus botões eu diria que algumas pessoas não amam incodicionalmente, mas elas parecem amar incondicionalmente.

Pessoas assim estão lá todos os dias e lhe sorriem quando você chega. Elas parecem amar independente do que você faça e estão sempre prontas para lhe ouvir e parecem sempre disponíveis para fazer o que você precisa. Elas cedem o tempo delas e trocam suas atividades pelas suas. Elas deixam de pensar nos próprios problemas para lhe ajudar a pensar o seu. Elas preparam jantares gostosos, trazem presentinhos especiais, cuidam de suas coisas como você mesmo se esquece de cuidar. E você nunca vê. 

Eu faço isso com outras pessoas, faço até no casamento, mas não o faço com Liana. Nem com ela, nem com minha irmã, por exemplo, de quem eu também creio receber amor incondicional. Nem com minha mãe. Talvez eu não faça com gente que não me cobre nada e vai me dando... dando como seu eu só pudesse delas receber. Ou como se não fosse preciso que elas também recebessem de vez em quando. 

A gente geralmente não percebe muito porque está centrado na gente mesmo e, claro, tem a certeza de que esse outro estará amanhã e depois de amanhã também ao nosso lado, pronto para receber a gente de braços abertos. E sorriso no rosto. E ouvido atento.  

A verdade, porém, é que isso é mentira. Elas não estarão lá sempre. Elas provavelmente irão se cansar uma hora. Talvez se distanciarão, talvez simplesmente partam. É assim que acabam as amizades e é assim que acabam os casamentos e relacionamentos amorosos.

O grande erro é que a gente ache que exista algum amor incondicional. Eu não sei nem se o amor de mãe o é. Talvez até seja ou talvez seja diferente. Uma mãe pode amar muito mais intensamente ou mais carinhosamente dependendo do tipo de amor que damos a ela em troca. De uma coisa eu tenho certeza amor entre amigos e entre casais não é e nunca será incondicional.

É preciso regar aquela tal plantinha e dar água em troca. É preciso cuidar da porcelana delicada da qual é feita o amor entre amigos e amantes. É preciso dar e não só receber. 

Isso eu já havia aprendido há um bom tempo quando eu era a plantinha não regada por amigas que não percebiam que só sugavam, sugavam e sugavam. Percebi que de algumas amizades eu deveria me afastar, já que não havia praticamente nada de mão dupla e o amor - qualquer que seja - precisa ser recíproco para ser saudável. Para ser amor de verdade.

Percebi sim isso quando eu fazia o papel de quem só dava, mas só agora venho percebendo que, em alguns casos, eu é que estou na outra posição e posso fazer do outro o que faziam de mim. 

Ainda que minha amiga venha e diga: "Não é bem assim, também tenho coisas legais com você", e eu tenho certeza disso, sei que se é preciso ser mais cauteloso todos os dias para não deixar que amizades morram e se percam porque não se soube cuidar delas. Ou que amores deixem de ser tão intensos porque não soubemos receber.

E todas as vezes que alguma amiga me disser algo que me ajuda a acordar para isso eu sempre vou agradecer porque só isso pode ajudar a construir amizades sinceras e duradouras.

Obrigada querida Liana.

02 setembro 2009

"Je suis en enfant", Diário de bordo, parte 2: Paris é nossa!

(Museu Des Invalides, foto de Dri Cechetti, antes de minha chegada, agosto de 2009)

A primeira coisa que aprendi quando voltei de minha (até tardia, mas antes tarde do que nunca!) primeira viagem internacional, em 2003, foi que não dava e não adiantava tentar contar tudo. Percebi que ninguém entenderia o que havia se passado naquela viagem. Foi o que ocorreu quando fui mostrando as fotos de Lisboa, um lugar que só de falar o nome eu ouço o fado no meu ouvido, bem como quando mostrei as fotos de Madri, onde gastei mais horas dentro do inesquecível Museu do Prado do que pelas ruas e em Paris, o lugar de sonhos onde nossa viagem terminara naquele ano.  


(Num restaurante qualquer de Lisboa, degustando o fado pela noite afora, ,Lisboa, setembo de 2003)



Lembro-me de mostrar o álbum e dizer: "Mas esse monumento era muito, muito grande...", tentando explicar a sensação que fora estar diante daquilo. Entre todas as imagens, o Jardim de Versailles era a coisa que mais tinha me deixado estonteante... Havia sido tão maravilhoso ter estado lá, sentir-se um grão no meio daquele imenso e indescritível jardim que eu tentava e tentava passar algo do que havia vivido, mas era mais ou menos em vão...

Só estando em frente a uma coisa assim que você entende o intuito de quem a projetou, ou você pode entender um pouco do que leu nos livros e dividir um pouco do sentimento que a humanidade tem ao visitar aquele lugar... Contudo, a experiência ainda é totalmente pessoal e então, era difícil ser entendida, ainda que a pessoa soubesse do que eu estivesse falando. 



(Vista do Jardim de Versailles, olhando do Palácio, foto de Dri Cechetti, antes de minha chegada, agosto de 2009)


(Eu e "mon amour" no lago do Jardim de Versailles, setembro de 2003)

Uma viagem é assim, principalmente se você se entrega a ela. Principalmente se você está aberto a qualquer coisa que aconteça e se olhar com o coração qualquer coisa que lhe passe pelos olhos. Então é possível querer recontar, e é delicioso que alguém queira ouvir, mas a gente sabe que é uma parte daquela enorme coisa que te aconteceu por dentro que você tenta dividir. Depois de uma grande viagem (não precisa ser internacional, precisa ser para fora de si mesmo), principalmente as primeiras, nós nunca mais somos os mesmos e o mundo nunca mais será visto com os mesmos olhos, a mesma cabeça. 

"Viajar é preciso" sim, mas é impossível prever o que vem pela frente depois... Nós mudamos para rumos inesperados e tomamos a coragem dos grandes navegadores.

Lembro-me de minha primeira saída sozinha para "longe" de casa, aos 17 anos. De violão nas mãos, indo para um retiro espiritual no interior de Bragança eu rezei sozinha no ônibus: "Meu Deus, ajude-me a ser sempre alguém que sai e descobre o mundo", tal era a sensação maravilhosa que me continha...

...

Minha quarta (ou quinta, juro que não consigo saber) viagem a Paris terminou seu primeiro dia na torre do Museu Pompidou e o dia havia sido tão intenso que meu diário de bordo havia parado na chegada de trem. Eu já havia estado lá numa de minhas idas à cidade e visitado Mondrian, Picasso, Miró, Dali e tanta gente que já havia estado comigo em momentos só meus no Brasil. Dessa vez, a Dri, que é bem antenada e espertinha, tinha feito reservas para o restaurante que fica no topo daquele prédio vermelho, cheios de vidro, super moderno. Subimos pelas centenas de escadas rolantes transparentes, olhando ao longe a cidade iluminada. Ao ver a Torre, a Sacre-Coeur ficamos dando pulinhos, gritinhos caipiramente deliciosos de alegria. 

Tudo parecia tão perfeito que me senti literalmente dentro da "Noite estrelada" de Van Gogh. 


(Dri, nas escadarias do Pompidou, rumo à nossa "Noite estrelada", Paris, agosto de 2009)

Subimos, subimos e subimos. A francesinha da recepção do resturante me atendeu com um "Bon soir" e eu fingi falar a língua assim como fingi falar sueco direito com o motorista do ônibus em Malmö. Não durou mais que três segundos e emendei no inglês. Tomamos nossa mesa e começamos a noite...

O restaurante ficava no topo a céu aberto e comi a carne mais macia do mundo e a Dri uns camarões lindíssimos. Esse foi nosso único "luxo" da viagem. No mais, passamos com crepes e sanduíches pelas ruas, mas valeu cada centavo pago por aquele jantar no Centre Pompidou.


(Vista do alto do Pompidou, la Torre Eiffel, foto de Dri Cechetti Paris, agosto de 2009)

(Vista do alto do Pompidou, ao longe a inesquecível Notre Dame,  foto de Dri Cechetti, Paris, agosto de 2009)

De longe podíamos ver os pontos mais conhecidos no mundo, lá quietinhos, iluminados, cheios de história para contar e a gente cheias de vontade de ouvir. 

Suspiramos milhares de vezes, felizes e radiantes da vida. Relembramos nossas saídas em Sampa, pela Vila Madalena, e refizemos nossos caminhos até ali. Talvez uma das coisas mais incríveis de conhecer lugares novos ou fazer viagens diferentes seja sempre essa revisão, seja sempre olhar para o próprio caminho e reconhecê-lo como importante. 

(Eu, numa das salas fechadas do restaurante, bancando a filósofa francesa, Paris, agosto de 2009)

Essa era a primeira vez que eu estava olhando a cidade de Napoleão sem meus dois heróis. Antes, Ângelo não existia, mas havia sido eu e Renato lá. Agora eu tinha os dois e era totalmente diferente das vezes anteriores e me senti um pouco orgulhosa de minha própria caminhada. Senti-me também orgulhosa de brindar o vinho branco com a Dri, no meio de gente do mundo todo que também fazia sua história por ali. Senti-me infantilmente feliz no meio daqueles garçons que parecem sempre muito chiques, já que quem fala francês sempre parece chique mesmo se estiver falando que a descarga do banheiro está entupida.

Pelo celular eu falara com Renato minutos antes. Ângelo já estava dormindo e eu, ainda que com saudade, senti que aquele momento era meu e isso não excluía os dois. Nada de culpa, nada de pena. Re estava feliz de ter cuidado bem do menino e contou as peripécias dos dois pelos parques da cidade nas atrações do MalmöFestivalen.

Meus pés doíam da caminhada do dia, pois havíamos andado e pedalado por horas. O calor dessa época não deixa os passeios a pé tão agradáveis. Prefiro mesmo viajar na Primavera, quando não o ar não sufoca, mas foi a chance de usar vestidinho de alça e chinelos, coisa que na Suécia só é possível poucos dias do ano.

Eu refiz quase todos os lugares que eu já conhecia, mas não sei se porque amo mesmo o lugar ou se o fato de ser a primeira vez da Dri na cidade e sua empolgação com ver tudo que ela ouvira falar nos guias e das pessoas que tudo ainda me pareceu tão excitante. 


(Primeiro piquenique assim que pisei em Paris: Jardim de Luxembourg, Paris, agosto de 2009)

Os piqueniques (se você vem à Europa, você precisa - tem que! du måste! - fazer piquenique) estão entre as coisas mais boas de se fazer por Paris. Pode-se fazer em qualquer parque, gramado, em frente aos monumentos espalhados pela cidade. Compramos uma baguete com uns breguetinhos deliciosos de um francês metido a chef e trouxemos tudo debaixo do sovaco, tudo igualzinho aos franceses. Enchemos de queijos deliciosos e acompanhamos com um vinho de 3 euros comprado na vendinha do Senhorzinho da esquina. 

Só para ilustrar a importância desse tipo de celebração ao ar livre, em uma vendinha, no dia seguinte, a Dri, que é a cara de pau mais bem sucedida que conheço, pediu pro tiozinho colocar o vinho na geladeira dos refrigerantes, porque a garrafa estava quente demais. O homem, que me pareceu de algum lugar do Oriente Médio, não sei dizer direito, não entendeu bulhufas, mas deixou a folgadinha usar a geladeira. Esperamos um tempo do lado de fora e fomos para o piquenique da noite. 



(O povo todo subindo pelo Champs Elysee em direção ao Arco do Triunfo. E nós atrás... Paris, agosto de 2009)


(Parada no Sena, as super bikes parisienses e as poderosas brasileirinhas, Paris, agosto de 2009)

Eu não me lembrava mais, mas é possível alugar bicicletas, espalhadas pelas ruas de Paris, pagando-se muito pouco e com uma comodidade incrível. Além disso, dá uma coisa boa demais sentir o vento no rosto e explorar os pontos da cidade sem estar trancado dentro dos metrôs. 

Agora que eu sou craque em bikes foi fácil e aventuristicamente delicioso ir do Quartier Latin até o Arco do Triunfo. Subindo pela Champs Elysee, entre os carros, entre os monumentos todos eu e Dri éramos as próprias donas do mundo. 


(A top Adriana posando para Revista Brabuletas, Paris, agosto de 2009)

A única coisa "chata" era que o calor era tanto, tanto que parávamos o tempo todo para abastecer de água, coca ou sorvete. 


(O Arco do Triunfo, lindo, lindo, lindo!  foto de Dri Cechetti, Paris, agosto de 2009)

Do arco, deixamos as biciletas (que você pode sempre devolver em qualquer um dos pontos de bikes que tem pelas ruas) e fomos de metrô até Montmartre. Pra mim, Montmartre é puro Impressionismo. Eu não consigo estar lá sem ficar imaginando o Monet, Manet, Pisarro e tantos outros tentando pintar seus quadros. Eu sempre encontro Vang Gogh angustiado e sedento por ser compreendido pelas ruas. É como se eu pudesse andar entre o passado, estando no presente.


(Vista da Sacré-Coeur, Paris, agosto de 2009)

("Borboleta pequenina" que saiu fora do rosal... Sacre-Coeur, Paris, agosto de 2009)

Além disso, ainda tem a maravilhosa sensação de estar diante da branca e exuberante Sacre-Coeur que é mais linda por fora do que por dentro, é verdade, mas sempre imperdível. Dri deitou-se na grama, relax como há tempos eu queria vê-la. Em paz...


("A paz invadiu o meu coração... de repente me enche de paz... Dri em frente Sacre-Coeur, Paris, agosto de 2009)

Pedi a um "talvez italiano" sozinho que estava com uma baita câmera poderosa na mão que tirasse uma foto nossa. Segundo a Dri, esse é o melhor esquema para ter boas fotos de viagem, quando você não tem como fazer a foto sozinho. E o rapaz, vai ver que contagiado pela nossa beleza, cortou metade da Igreja numa foto e nossos pés em outra. Ele conseguiu ao mesmo tempo estragar a lembrança e jogou por terra a teoria da pobre da mocinha. 

Voltamos andando com calma, entre as lojinhas de artistas, entre gente circulando. Comemos nosso crepe de chocolate (um entre muitos dos quais não tenho nenhuma foto) e fomos andando em direção ao hotel. Ali mesmo onde tanta gente por quem sou apaixonada também viveu e circulou. Era hora de tomar banho, perfumar-se, pôr um vestido caprichado e ir - a pé- claro! para nossa noite inesquecível na Torre do Pompidou. Um jantar a duas nos esperava e havia muito ainda para viver e sentir nas próximas horas corridas que nos esperavam...

...

* As fotos são minhas ou da Dri, obviamente, mas fiz questão de citar o nome dela nas paisagens tiradas por ela para não ficar com os créditos e louvores para mim.