30 maio 2009

Você mora na Suécia e ainda não tem uma bicicleta?

(Ângelo, que já aprendeu o que é direita e esquerda na sua cykel, num passeio de domingo de sol,  Malmö, maio 2009)

Quer sair por aí cantando "Every day is like a sunday?", então você precisa de uma bicileta.
Desde que ganhei a Madalena, há alguns meses, mesmo em dias de 5 graus por aqui eu saio cantarolante que nem passarinho.

O Renato me insistiu por anos por pedalar com ele nas nossas férias em montanhas no Brasil. Eu fazia, caía, ralava o joelhão e buáá, as férias acabavam. Eu, na verdade, detestava porque o esforço era muito grande. Além disso, eram minhas férias. 

O mais legal de ter bike aqui é fazer do dia a dia suas férias, mas sem chororô. Além disso, a cidade é tão preparada para que a gente use bike o tempo todo que meus caminhos se tornam mais curtos e economizo tempo indo de Madalena do que indo de carro e ônibus. De carro é difícil estacionar e gasto em qualquer canto da cidade onde parar. De ônibus demoro 3 vezes ou 4 o tempo que demoro com minha bicicleta.

Eu ando tentando convencer as brasileiras amigas que ainda não tem bicicleta a comprar uma. A vida, eu juro, eu prometo! é outra! Como a Suécia é planinha planinha não tem chorumelas nem joelho ralado. 

Eu já havia falado que no contador próximo a minha casa antiga, no centro, marcava em média 6 mil bicicletas passando por lá por dia. E lá é apenas um cruzamento das ciclovias que a gente tem por aqui. Pois é... desde que a Primavera chegou tem marcado 8.000. E a Prefeitura não pára de investir em incentivo. Há propagandas espalhadas pela cidade toda incentivando o uso das Madalenas da vida. E eles também tem renovado todas as ciclovias da cidade, deixando lisinho lisinho.

Além da Suécia, ao menos a Dinamarca que eu conheci e a Noruega que o Renato conheceu, parecem ir na mesma onda. Muita gente de bicileta e costume desde pequenininho. Cena bem comum é ver os pais pedalando as suas bikes e os pequenos pedalando cada qual sua pequenininha. Em Copenhaguem a gente vê umas bikes mais poderosas, cheias de coisas para levar a molecada. É muito legal de se ver!

(Mãe e filhos pedalando em Copenhaguem, Imagem de Lunkens blog)

Todo santo dia que tô indo pro mercado, pra escola, buscando Ângelo, academia, o que seja, eu deixo sentir a brisa no rosto e agradeço pela oportunidade de viver um tempo sem o trânsito e a fumaçã escura no rosto da gente. Ver tanta gente pedalando pela cidade o dia todo e andando três, cinco, dez quilômetros todos os dias para ir e voltar do trabalho ou de seus afazeres, incluindo senhores e senhoras de 50, 60 e 70 anos, eu penso que a Madalena me deu muitas oportunidades: de me sentir livre toda manhã que pedalo, livre do vidro fechado do carro, livre da lerdeza do ônibus ou do metrô abarrotado de gente, como o que eu tomava em Sampa. Me fez reparar mais na paisagem da cidade, me fez conhecer as centenas de ciclovias da cidade que me ajudam a tomar caminhos mais e mais diferentes todos os dias. Me fez perceber que ter uma vida saudável e aproveitar essa oportunidade de exercitar-se é auma das coisas que faz um sueco optar pela sua bicicleta, inclusive quando ele tem em casa um ou mais carros importados e caros da família que ele usa no fim de semana ou nas férias. A outra todo mundo sabe: sueco adora gastar pouco e bike é baratinho que só. A terceira, creio eu: eles aqui estão bastante preocupados e comprometidos com a questão ambiental. Oito mil bicicletas na rua significa ao menos a metade de carros a menos. 

Essa é uma lição incrível que alguns países deveriam ensinar pra gente. Quando passeio por cidades de praia do Brasil, que são planas, pequenas e nas quais a população e turistas querem usar bicicleta não entendo, não entendemos eu e Renato, como não há incentivo para isso. É tristíssimo de ver sei lá, Caraguatatuba, Bertioga, Ubatuba, só para citar o litoral paulista, com aquela falta de estrutura para biciletas. 

É por isso que eu insisto com você, se está aqui, não deixe passar: deixe sua vida mudaaaarrr! 

Beijos e ótimo sábado para vocês que não estão na Suécia tombém!




(Ângelo "consertando" sua bike, "mamãe, rrumá cyclel", porque cada um aqui tem que assumir sua responsabilidade desde cedo...  Vida dura na Suécia, Malmö, maio 2009)

28 maio 2009

O dedo de vocês na leitura da obra de Kurt Trampedach

("Morgen. Gruppe af kvinde og mand henholdsvis liggende og siddende på en seng",Kurt Trampedach, 1972-1973)

Vocês ainda se lembra da escultura do dinamarquês Kurt Trampedach, a última das três obras dinamarquesas que coloquei na seção "O que você vê nessa obra?". Sim, foi há quase dois meses e a minha mudança para a nova casa me fez esquecer de concluir a leitura com vocês. 

A partir da minha tradução do título em inglês que havia abaixo da obra no Museu (já que eu não leio dinamarquês) foi que a maioria de vocês acabou por conduzir sua leitura a respeito da obra do artista.

Eu traduzi o título "Morning. Group of Woman and Man, one lying and one sitting on a bed" como "Manhã. Grupo de mulher e homem, um mentindo e o outro sentado na cama. "

Entretanto, minha tradução rápida não levou em conta que lying também pode ser entendido como deitado, prostrado. Minha tradução teve a ver, claro, com minha leitura da obra. Eu também vi um casal infeliz. Por algum motivo eles haviam brigado, se distanciado. E em minha leitura a mulher fingia dormir enquanto o homem se remoía por algo. Vi aí o jogo de interesses que há entre os casais e vi um jogo de sedução também, apesar de ver que o homem sofria mais do que a mulher que "jogava" com o parceiro.

Foi a leitura da amiga e leitora Xu que me fez despertar para o título em dinarmarquês da obra.

Vendo como 4 pessoas (até agora) enxergam de formas diferentes o mesmo tema, eu comecaria pelo título da obra. 
Ao ler a legenda em inglês, não traduziria "lying" como mentindo... e sim como (apenas) deitado. Também enxergo a escultura mais de madeira que de gesso. Não apenas pela tonalidade, mas pela rigidez da cena. A imagem me mostra mais tédio e mesmice, que briga ou mentira.
Para mim, uma típica manhã de um casal é: ou a correria do dia-a-dia (que não é o caso), ou curtir juntos a preguica de um sabadão! Estes dois parecem estar cansados de ter que olhar um pra cara do outro todo dia de manhã.
Vidinha mais ou menos, hein!

Beijos
Xu

Incrível eu querendo dar uma de "crítica de arte" e indo parar na minha tradução da tradução. Eita nós! Bom, o fato é que não tenho um dicionário de dinarmarquês e vou pedir ajuda para os "univeristários". Quem aí sabe dinamarquês pode talvez ajudar se a melhor leitura seria deitado ou mentindo... Embora eu ache que a tradução da Xu parece muito coerente e embora, também, a obra deva falar por si mesma e pode falar diferentes coisas para cada um de nós.

"Morgen. Gruppe af kvinde og mand henholdsvis liggende og siddende på en seng".

De qualquer forma queria relançar a obra aqui de novo e pensar na possibilidade do título ser lido como a Xu sugeriu...

Então, pergunto de novo: o que você vê nessa obra? A mudança de título sugere outra leitura a você? Você concorda com a Xu sobre o tédio e mesmice ou vê outra coisa aí?



(Kurt Trampedach, 1943)


Só para acrescentar uma informação: a escultura do homem que aí está foi moldada no próprio corpo de Trampedach. O artista usou a si mesmo como modelo para várias de suas obras e ficou famoso por isso também. Qual seria, na sua opinião, o intuito de Trampedach ao usar o seu corpo e não o de outra pessoa como modelo? O artista quer revelar-se a si mesmo e revelar seus dilemas e angústias? É o Kurt Trampedach sentado ali tão desiludido e cheio de tristeza ou é qualquer um? 

A data em que foi feita a escultura, início dos anos 70, pode sugerir alguma via de leitura?

Sou toda ouvidos! Para tudo o que vier!

27 maio 2009

A música, o biquini e o véu que a gente não escolhe

(Os biquinis necessários)

Eu imaginei que o post sobre minha colega iraquiana não passaria sem causar alguma polêmica, embora eu tenha até me surpreendido (positivamente) com a rapidez e animação com que vocês se manifestaram.
 
Desde que me mudei para a Suécia eu desvio do assunto quando penso em escrever um post sobre as enormes diferenças que há entre os estrangeiros vindos do oriente médio e o os vindos de outros cantos do mundo. Desvio porque sou o tipo que evita muita polêmica. Acho que os oito anos que trabalhei como professora de cursinhos, nos quais discutia três, quatro vezes por dia o mesma tema sempre muito polêmico, para tentar ajudar os alunos a pensarem argumentos que eles não haviam pensado contra a tese que sustentavam no início das aulas, e tinha que trabalhar de mediadora para que eles não se pegassem na sala, me deu uma coisa nas veias de sempre querer ver dois lados das moedas. 

Além disso, o tema sobre o uso do véu e como os israelenses, iraquianos, paquistaneses e outros vivem sua cultura mesmo dentro de um país ocidental sempre dá muito pano para a manga e acho que muitas vezes acaba caindo naquele: todo mundo é diferente e ponto. Então, desisto antes de começar.

Entretanto, a fala interessantíssima de vocês ali no post de baixo não me deixa ir dormir antes de tentar explicar com maior profundidade o porquê de minhas últimas frases do post anterior. 

É claro que a diferença entre as minhas colegas do oriente médio com as europeias, latinas, algumas africanas, chinesas, japonesas etc salta aos olhos, já que milhares delas, apesar de viverem aqui há muitos anos, em certos casos, há dezoito, vinte e tantos, continuam a usar o véu e a roupa preta que cobre o corpo todo delas. 

Para começar a argumentação lembro que o fato de eu ser dona do blog não faz de mim dona de nenhuma verdade. É claro que eu creio que o que penso é o que faça mais sentido, se eu não achasse isso mudaria meu pensamento para outro qualquer. Contudo, sou partidária da discussão, ainda que calorosa, porque sempre que discuto, ouço, troco, eu aprendo. E creio que a gente pode aprender junto alguma coisa. Espero.

Quando eu disse que não entendo como uma mulher pode usar o véu porque seu marido a obriga eu não o fiz sem conhecimento do fato de que muitas dessas mulheres "optam" pelo uso do véu. Seja no país delas, seja aqui na Suécia. Eu já conversei com várias dessas colegas de curso, a maior parte na faixa dos trinta anos, casadas, com filhos e, nessa ala que estudo, todas com nível universitário. Muitas, inclusive, falam inglês, procuram trabalho aqui na Suécia e gostam de estudar. 

A colega personagem do post anterior, que chamarei de Hana, por exemplo, estudou língua árabe (o nosso curso de letras) na universidade no Iraque. Hana é casada com um professor de Biologia da Universidade de Lund e fala bem o inglês. Então Hana não é uma mulher desinformada, que apenas repete, sem noção nenhuma de história ou conhecimento de mundo, parte do comportamento que as mulheres de sua terra tem feito há milhares de anos. 

Se eu perguntar para Hana, assim como perguntei a várias outras no curso de sueco, ela provavelmente me dirá que quer usar o véu. O que eu acredito é que a Hana não usa o véu porque ela quer, mesmo que ela repita isso para si mesma. Ela não escolhe usar o véu, porque simplesmente não houve nunca outra opção para ela. 

Imaginemos uma moça de uns trinta e poucos anos que tenha nascido numa cidade qualquer no Brasil. Vamos chamá-la Laura. A Laura era de família classe média brasileira, filha de uma mãe dona de casa com um pai dentista. Imaginemos que depois de crescer aí, dentro dessa família a Laura acabe tendo optado por estudar odontologia, já que seu pai fazia muito gosto e sua mãe prometeu-lhe ajudar com os custos da faculdade particular do interior. 

Laura educou-se, obviamente na mesma carreira, pensando ela ter escolhido por si mesma, enquanto apenas repetiu o que se esperava dela e o que precisava fazer para ser a boa filha e boa moça que achava que precisava ser. Cresceu como mulher, trabalhou e conheceu seu marido, também dentista, na universidade. Depois do namoro, do apoio dos pais dela, católicos, e dele, católicos não praticantes, para a festa e a celebração de casamento vamos imaginar que ao invés de casar de véu branquinho e grinalda e entrar naquela igreja imensa com toda a pompa e circunstância que as noivas brasileiras normalmente fazem, eles tenham decidido por casar numa mesquita. 

Vão contra os pais, começam a achar interessante a religião muçulmana porque tiveram um amigo na faculdade que era de Israel e ela acabe desejando usar o véu, não no casamento, mas o véu que lhe cobre o rosto, mesmo morando aí no Brasil.

Dá para imaginar uma situação assim? Será que é tão fácil optar por algo tão diferente quando a gente foi educado para ser e pensar de um jeito desde que nasceu? Algo que está tão em nós que não sabemos mais se é nos que um dia decidimos por aquilo ou não? Ou é mais fácil imagina a Laura casando com o Paolo, um rapaz super bacana, de família com valores mais ou menos parecidos, de religião similar e condição econômica não tão diferente ? E o bebê não será lá na Igreja da família batizado? Ou mesmo se não for, essa não é a cena mais comum que a gente encontra numa situação assim?

Pois é assim que eu vejo minha colega Hana. A Hana poderia não usar o véu na Suécia, aqui em Malmö? Poderia. Ela não o faz porque, de acordo com a cultura onde foi educada, uma mulher de respeito usa o véu. Está escrito na Bíblia que a mulher não deve revelar seu corpo. O corpo da mulher não é para causar prazer e não pode levar os homens ao desejo. Se um homem na rua vê o corpo dela e a deseja a culpa é dela, entende? Não é dele. Por isso Hana pode usar decote na frente do marido, mas não do irmão dele. 


(O véu "escolhido")

A tese de que Hana não é livre, ainda que pense ser, vale também para nós ocidentais, em muitos e muitos casos. Concordo totalmente com quem diz que também somos oprimidas por uma cultura machista. Sim! O decote cavado no corpo magro, o batom vermelho na boca carnuda, o cabelo longo no bumbum saliente. Tudo isso é também uma exigência cultural machista brasileira, por exemplo, mesmo quando é a gente que queira usar de todos os apetrechos. Até mesmo o biquini cavadinho brasileiro que eu a a minha querida leitora Telecoteco preferimos, em detrimento do biquini sueco grandão, é uma escolha que a gente não faz. Mesmo vivendo em outro país, onde a maior parte das mulheres usa um biquini grandão na parte de trás, acabo procurando até achar um que seja como os que eu usava no Brasil. Aqui o biquini precisa ser grande, creio, porque o banho de sol se estende aos quintais, parques e praças, não só à praia e piscina como no Brasil e porque aqui o biquini não precisa, como no Brasil, salientar tanto o pedaço do corpo da mulher que o homem brasileiro mais admira e mais deseja. Não sei qual a tara deles aqui, mas bunda realmente não parece ser. Agora vejam que mesmo num assunto tão simples eu não consigo mudar meu hábito. Para mim, estar bonita e sensual num biquini exclui um biquini que tampe meu bumbunzinho todo. Sou eu que penso isso, mas eu penso porque sou brasileira o que seria com certeza diferente se eu não fosse.

Se, por um lado, eu não ache que as mulheres do oriente médio são as únicas a se submeterem a exigências machistas, por outro, eu não acredito que dá para comparar como se fosse a mesma coisa. Sim, é verdade que não tenho liberdade nem mesmo para escolher a música que ouço, já que a indústria da cultura fabrica seus ídolos e me faz crer que eu os escolhi e que o gosto seja meu, já diziam os filófosos e sociólogos Theodor Adorno e Max Horkheimer nos anos 30, com os quais aliás eu concordo totalmente, Não escolho nem mesmo meus biquinis sem ter em mente toda a história que veio comigo desde que comecei a ser mais mulher. Todavia se eu resolver ir à Ubatuba, ao Leblon com um biquinão suecão grande não vou arrancar pedras de ninguém. Não serei linchada, não serei banida da família e dada como sem valor. Se for de roupa escura grandona do mesmo jeito. Receberei uns olhares de desaprovação, com certeza, mas a agressão vai parar por aí.

Se a nossa colega imaginária Laura resolvesse converter-se ao islamismo ou a uma religião bem diferente da de seus pais ela provavelmente enfrentaria a cólera deles e a rejeição dos amigos, mas não creio que eles se sentissem no direito de machucá-la. De tirar dela seus direitos, seus filhos, caso ela tivesse algum. E se o fizessem na nossa sociedade eles é que seriam punidos por não dar a ela liberdade e usarem de violência.

Vocês me entendem? Na minha opinião, simplória, porque conheço apenas de "ler" e "ouvir" a cultura do oriente e desse pouco contato com as mulheres das quais falei na escola, não há liberdade para as mulheres do oriente médio. Elas precisam aceitar a violência, porque está escrito no Corão. Precisam aceitar a poligamia de seus maridos, porque é da natureza do homem desejar muitas mulheres. Precisam ter o número de filhos que os maridos lhes proverem, porque não podem usar nenhum método contraceptivo. 

E mesmo quando estão a viver num país que tenta respeitar todas as diferenças possíveis, como a Suécia, elas "optam" por manter o mesmo de antes. Optar, nesse caso, não significa para mim ter capacidade de escolher entre um leque de opções, mas sim escolher aquilo que menos causará polêmica e com o qual elas poderão viver mais tranquilas e sentindo-se mais valorizadas. Eu respeito, acho até que entendo, mas não consigo não achar estranho.

...

Li alguns posts em outros blogs e em alguns jornais que são muito interessantes para se ver muitos lados da questão. Se você quiser e só clicar:






O véu que cobre seu rosto é o véu...

(Minha colega de curso de sueco iraquiana, no meio de uma de nossas aulas, Malmö, 2009)

O número de imigrantes do Oriente Médio na Suécia, e em Malmö sobretudo, é muito grande. No início muitos deles eram refugiados de guerra e, com os anos, foram trazendo suas famílias e parentes junto. 

No Komvux, um órgão de ensino do Estado, que dá cursos gratuitos para estrangeiros, o número de iraquianos e israelenses é também muito alto. Então, em meio a gente do mundo todo, de culturas totalmente diferentes, há muitas mulheres desses lugares, como a moça que vocês vêem na foto, que usa o véu e uma roupa preta quando está na rua.

No esquema que estou estudando aqui, no Språkverket, isto é, uma ala dedicada ao pessoal que já tem uma base do sueco, nós nos dividimos em quatro salas diferentes, nas quais são dadas aulas em que a gente mesmo se inscreve e planeja qual quer, com cinco professores diferentes também. O esquema é interessante, embora tenha alguns itens desfavoráveis. Ele também não ajuda muito com que eu consiga realmente fazer amizade com as colegas do oriente, porque estamos sempre nos vendo em aulas curtas e muitas são mais tímidas e preferem ficar entre as outras de mesma cultura.

Mas, dias desses, numa dessas aulas, calhou de ser um grupo pequeno, com apenas mulheres na sala. Assunto vai, assunto vem, falávamos de roupa e cultura, sei lá o que... e minha amiga Liana, brasileira, paulista, do mesmo bairro que eu, disse que achava que o véu dava um tom místico a essas mulheres. E eu emendei que pra mim era uma coisa misteriosa... E então ela perguntou:

- Misteriosa? 

- É. Disse eu. Toda vez que olho pra você e suas amigas eu fico imaginando o que tem aí por debaixo do véu... Qual a cor do seu cabelo, que tipo de roupa você usa. Se usa decote, e se por baixo dessa roupa toda vocês não têm uma lingerie ousada... Se vocês não são umas danadinhas...

Ao que ela respondeu: 

- É... eu posso mostrar.

- Nejjjjj! Nãããooo...???? Você pode??? Perguntou toda a mulherada em povorosa.

- É Claro. Desde que fechemos a porta.

Então sucedeu-se que nossa colega do oriente médio era linda. Não era a mulher feia e nem a senhora a que eu imaginava que ela fosse. Ela é muito jovem. A roupa a envelhece uns dez anos ou mais. Ela tem os cabelos longos, encaracolados e tingidos num tom de vermelho. Os dois minutos que durou a tirada do véu deixou a gente de queixo caído. 

A moça bonita iraquiana, que também tem nível universitário, disse que em casa ela usa decotes para o marido sim. E se faz muito bonita. E também pode ficar sem o véu quando está só entre as mulheres que ela conhece.

E é claro que depois disso eu queria mesmo era discutir como alguém se submete a se esconder assim porque o marido exige. E como milhares de mulheres o fazem porque milhares de homens o querem... Mas me calei. Nós nunca discutimos assuntos culturais polêmicos no Komvux porque não tem como. É diferença demais e é fácil cair no desrespeito e preconceito.

Num outro dia na aula tirei essa foto dela aí, mas prefiro não escrever seu nome. 


(A colega iraquiana e a colega romena, Malmö, abril de 2009)

25 maio 2009

"Na Suécia também não tem"... câmera no elevador

(Cartaz do fantástico livro de George Orwell, "1984", cujo tema é a sociedade vigiada)


Uau! Vi agora o montão de comentário nota dez que vocês enviaram e estão enviando sobre o post dos sapatos na Suécia. Vou fazer um outro texto deles todos, porque eles merecem!

Por agora só não aguento não comentar essa outra coisinha diferentésima da Suécia em relação ao Brasil. E se você vive em cidades grandes, como eu vivia em São Paulo, você vai notar a diferença com certeza!

Há um bom tempo percebi isso, mas voltando agora há pouco da casa da Wilma, um amor de senhorinha carioca de quem eu comprei uns salllgadinhos bem brasileiros, me dei conta disso de novo. Eu estava lá no elevador e fiquei olhando pro espelho fazendo caras e bocas, medindo se meu cabelo tava acertado, se a sombrancelha tava tirada, contando o número de rugas do lado direito, sabe essas coisas? E aí me veio assim: "nossa! será que alguém viu isso tudo?". Por alguns segundos esqueci-me de onde estava e remeti-me ao Brasil onde eu vivia dois anos atrás. 

E dei um suspiro aliviada me lembrando de quando eu, aí no Brasil, me sentia vigiada quase o tempo todo. Lembro-me do ódio terrível que eu sempre tive das câmeras por todos os lados, mas sobretudo nos elevadores dos prédios onde eu morei e por onde eu passava. Até naquele momentinho íntimo de descer do meu apê até a rua eu sempre parava o que tinha vontade de fazer, como conferir a cabeleleira como fiz hoje, porque olhava para meu rosto refletido naquela bola preta no teto do elevador e... parava.

Eu vou pesquisar mais ainda com Renato e outras pessoas que trabalham em empresas aqui e posso continuar a falar do assunto se vocês tiverem mais material aí. Até onde eu conheço, como prédios públicos, museus, hospitais, escolas, apartamentos particulares não há câmera nos elevadores. Em dois anos aqui eu mentiria se dissesse que vi uma câmera em algum elevador e também não vi em nenhuma vendinha, lojinha ou o que seja. Não vi mesmo!

E por que não tem câmera no elevador? Porque não tem porteiro. Eu sei que isso dá outro post da série "Na Suécia também não tem...", mas é isso aí. Não tem porteiro porque sai caro demais ter alguém só para olhar a entrada do prédio. Sai caro porque há pouca mão de obra não especializada aqui e um porteiro não seria mão de obra barata como é no Brasil, já que o índice de alfabetismo é de 99% e o pessoal todo acaba querendo trabalho especializado. Então, não ter porteiro deve ser o primeiro item de uma lista de muitas explicações para o fato de não ter câmera no elevador. Massss... acho que essa é uma explicação mirradinha. Não tem porteiro porque a Suécia é um país razoavelmente seguro. Se eu comparar com o Brasil, no item criminalidade, parece jardim da infância. 

Se há crimes aqui? Claro, há sim, mas a maioria - felizmente - diz respeito a roubo de bicicletas, carros ou casas. O número de assalto a mão armada é baixo e é não é comum ver isso nos jornais. 

A capa de um dos jornais gratuitos que circulam por aqui hoje, por exemplo, trazia um cara que roubou o cofrinho do MC Donalds de um fundo para crianças, na cara de todo mundo, mas até onde entendi o texto e vi a foto ele não estava armado não. Contudo, uma notícia assim e é algo que incomoda muito quem vive aqui há mais tempo. E isso também é algo bom. Não tomar como normal é o primeiro passo, creio.

Já ouvi muitos suecos ou gente que está aqui há anos dizendo que Malmö está muito perigosa. Apesar disso, é bom lembrar que a gente deixa as bikes e os carros estacionados nas calçadas a noite toda. A gente vai para o playground e deixa as bolsas nos carrinhos, onde há dezenas de crianças com seus pais brincando a tarde toda. Eu já voltei algumas vezes da casa de amigos ou do cinema, o que seja, para casa a meia noite, uma da manhã com Renato ou sozinha,a pé ou de bike, cantarolando. Sem medo, sem lenço e sem documento. 

Isso só para ilustrar rapidamente porque eu creio que não seja necessário o porteiro nos prédios daqui... E agora eu preciso parar porque tenho que continuar a escrever meu trabalho do curso para amanhã cedo, e porque esse post me daria material para escrever uma tese de umas 300 páginas pelo menos...

Eu creio que graças a um sistema social mais igualitário, graças a uma segurança que ainda se pode ter por aqui as câmeras na Suécia não são, ainda, uma neura e uma necessidade que se faça notar. Isso tudo quer dizer que se você vier visitar a Suécia, ou ao menos Malmö, a cidade da Suécia onde eu moro que é a terceira maior do país, você poderá fazer maquiagem rápida, ajeitar o cabelo, acertar a gravata, conferir o batom ou até mesmo fazer aquela limpeza geral nas suas queridas narinas, acertar a roupa íntima que está incomodando, fazer caras e bocas ou falar sozinho feito doido banguela. Não importa. Sem Big Brother, sem nada você poderá provar de alguns bons minutos de liberdade. Só não vale liberdade com odor, ok?

Bom, deixa eu ir! Me desmintam aí se eu estiver errada ou se vocês conhecerem outras realidades por aqui que seja diferente dessa que descrevi e me ajudem a rezar para que assim seja por muito e muito tempo, amém!

24 maio 2009

Por favor você pode tirar o seu sapato?


Depois que escrevi aquele post sobre a gente ter de tirar os sapatos nas casas aqui na Suécia e de ter lido os comentários interessantíssimos de vocês eu fiquei pensando que as tradições familiares ultrapassam as tradições culturais de um país todo.

Eu também nunca fiquei "de sapatos" dentro de casa no Brasil. Não porque minha mãe proibia ou algo assim, mas porque sempre adorei ficar descalço ou, no máximo, com minhas havaianas, legítimas ou não.

O fato é que ouvindo tantos de vocês dizendo que as mães, as avós ou vocês mesmas adotam esse costume em casa, aí no Brasil, achei que a gente pode levar a conversa adiante.

Eu não sei se quando escrevi o post todos vocês entenderam que se trata de não entrar na casa com o mesmo sapato que estava na rua. Isso também acontece nos hospitais, nas academias, em muitos outros lugares públicos, onde a gente deve colocar um plástico azul para proteger o chão da sujeira que estamos carregando nos sapatos.

Então, embora no Brasil a gente não ficasse de sapatos dentro de casa, a gente podia entrar e trocar lá no quarto, entende? Não é sem educação entrar casa a dentro com ele, mas a gente acaba optando por ficar sem.

Aqui e em muitos outros países que fui (todos eles com inverno mais rigoroso), como a Bélgica, França, Inglaterra, Holanda o costume parece ser o mesmo. Aqui me pareceu (impressão rápida) mais forte a regra. Na entrada das nossas casas aqui tem espaço pra pendurar casacos e espaço para guardar botas, sapatos, tenis etc. Você não passa da entrada sem tirar os tais. E faz o mesmo na casa de outras pessoas. 

Quando pensei que a diferença fosse tão grande pensei nisso, mas percebi que muita gente no Brasil talvez faça o mesmo e achei que seria muito curioso se vocês vocês dissessem quantas pessoas conhecem que tem a mesma "tradição" de tirar o sapato quando chega em casa. Não entrar com eles, de jeito nenhum. Isso porque com essa pesquisa virtual super feita a muitas mãos a gente pode concluir melhor sobre até que ponto somos mesmo ou não diferentes nesse quesito. Até que ponto minha argumentação lá com as polonesas do curso (não eram suecas, viu gente? eu não estudo com suecos, já que o curso é de língua sueca) foi meio baseada em poucos casos.

Adoraria saber.

Começo por mim. Creio que de cada dez pessoas que conheço, nove trocam de sapatos quando chegam em casa, mas sem rigor com ter que tirá-los na porta. Minha família e quase todos meus amigos entram com eles casa a dentro e, quando sentem que é mais confortável, trocam por uns chinelos ou coisa assim. Em festas, almoços, jantares etc todos continuam com os mesmos sapatos com que entraram.

No Brasil eu não conheci ninguém que pedisse pra pessoa não entrar com os sapatos e tirá-los na porta. E também não fui a nenhuma casa que tivesse essas caixinhas cheias de quadradinhos que tenho aqui para guardá-los. Só para lembrar a tela do Van Gogh que coloquei no outro post, creio que o holandês pintou tantos e tantos sapatos no início de sua carreira, porque ele os via ali, todos empilhadinhos na entrada da casa, tal como vejo aqui. 

Eu não sei se Van Gogh tivesse vivido no Brasil ele teria tido esse tema. Será?

Agora é com vocês! Vamos deixar rolar essa pesquisa!


21 maio 2009

A vida segue bem boa. E eu sinto saudade...

(Domingo de passeio no campo de futebol para apoiar o papis na pelada, Malmö, maio de 2009)

Hoje é feriado aqui. Os cristãos celebram a ascenção de Jesus aos céus. Eu havia confundido com o Corpus Christi, porque li rapidamente no calendário sueco (Kristi himmelsfärds dag - Dia da subida ao céu de Cristo ou algo assim). Depois de falar com minha irmã e ela dizer que Corphus Christi era só em junho eu vim aqui me corrigir. 

Bom, aqui o dia está lindo, maravilhoso. Acordei com tanta, mas tanta saudade da família e dos amigos no Brasil que dá até raiva dessa diferença de cinco horas que não me ajuda a conseguir falar com ninguém direito.

Estava ouvindo "Good morning Starshine" e todas as músicas de um cd chamado "This is 1969" que encontrei naquele Spotify sueco fantástico. Os meus queridos Renato e Ângelo estão ali no parquinho do jardim do prédio brincando na areia e minha função é escrever rapidinho aqui e fazer minha arrumação da casa pro almoço. 

Passei então pra dizer que tudo está tão bem. Estamos tão felizes e numa época em que cada minuto estamos mais apaixonados pelo Ângelo. Cada coisa e palavra nova que ele descobre deixa a gente tão orgulhoso e tão feliz. Como casal a vida fica bem mais fácil e boa novamente quando a criança está nessa época também.

Mas tenho me lembrado de minhas amigas. E é uma coisa maluca o fato de eu ter conquistado tantas amizades boas e companheiras aqui... Acabo levando minha vida aqui, como de fato devo fazer, mas não tenho mais tempo para manter as amizades do Brasil. A gente mantém porque se ama e tudo meio que volta quando nos falamos por telefone, email (o que é realmente raro) e quando volto para visitar todo mundo.

Sinto sempre saudades de minha sobrinha Luana, do sobrinho Ju, de minha mãe, meus irmãos de um jeito dolorido, mas também saudável do mesmo jeito que provavelmente eles e a família do Re sentem de nós. Sinto saudade de todos. Dos almoços na casa dos pais do Re e de encontrar minhas amigas queridas e papear. Não sei porquê exatamente em alguns dias a ausência de algumas pessoas é mais presente.

É isso... vou correr pros meus afazeres de feriado... A vida aqui vai boa que é uma beleza, mas não dá para negar que tem hora que queria que vocês aparecessem de surpresa pro almoço! Beijos e amamos todos vocês demais.  Separei um tanto de foto para que dividam aí com a gente um pouco do que viemos vivendo nessa Primavera abençoadamente colorida.

(Pessoal todo na cozinha de casa no fim do primeiro churrasco que fizemos aqui. Malmö, maio de 2009)

(Ângelo, eu e Iven fazendo festa e caretas pra foto no churrasco da semana retrasada. Malmö, maio de 2009)


(Mais um dia super especial. A primeira bicicleta, montada junto com o papai provavelmente a gente nunca esquece... ainda que seja pequeno demais para se lembrar... Malmö, maio de 2009)


(A primeira festinha do Ângelo na escolinha. Era para ele cantar um monte de musuquinhas que ele adora, mas quando me viu, ele chorou... Malmö, maio de 2009)


(Domingo de futebol pros homens e  torcida das mulheres em frente ao campo... Dia de curtir sol e a criançada... Aqui na foto, eu segurando aquela florzinha legal e a Nikol..Malmö, maio de 2009).

(O papis de laranja, la no meião, na pelada do domingo em frente à praia. Malmö, maio de 2009)

(Minha amiga molé tentando ensinar o Ângelo a patinar depois de ele insistir muito. Malmö, maio de 2009)

(Ângelo num dia de semana qualquer, depois que voltamos da escolinha... "Mamãe vê avião". Malmö, maio de 2009)

No churrasco dos queridos amigos poloneses Grzegorz e Agnieska que estão grávidos do primeiro filho...


Eu e a suecada toda na noite do Eurovision, na torre do Turning Torso... Algo para se lembrar por muitos e muitos anos...

20 maio 2009

"Na Suécia também não tem"... como entrar de sapatos na casa dos outros


("Um par de sapatos", Vincent Van Gogh, 1886)


Eu incorporei tanto essa mania européia e também muito sueca de tirar os sapatos todas as vezes que visito alguém ou em minha própria casa que eu quase me esqueci que por mais de três décadas eu havia existido de jeito diferente.

Lembrei-me disso outro dia na aula de sueco, durante um grupo de conversação. O tema sobre o que pegava bem e o que pegava mal de se fazer na Suécia acabou parando nessa coisa de tirar ou não os sapatos. O pessoal que estava no grupo era da Polônia, da Bulgária e da Inglaterra. Então o professor foi deduzindo algo assim, depois de todo mundo concordar que haviam de tirar os sapatos na casa de um sueco, ou ao menos perguntar se deveria ou não. Disse o coordenador do grupo: "ah! okey, parece que nisso há um consenso e em todos os países é igual.

E então eu parei: "pera lá! No Brasil não é assim não..." Quando eu então expliquei que no nosso país a gente não tem esse hábito coisíssima nenhuma e que eu vim adquirir isso aqui, as duas polonesas começaram a rir e a comentar algo do tipo "nossa! que povo mais estranho! Imagina chegar da rua com  o pé sujo e entrar na casa de alguém sem tirar o sapato!"

Daí blá blá blá eu fiquei tagarelando com meu sueco fraco, mas com meu teatro forte e explicando pra uma das polacas que era mais insistente que ela só achava "a-normal" porque ela sempre havia vivido num lugar onde o hábito é esse. E expliquei ainda com muita paciência o óbvio: se ela fosse viver no Brasil acabaria por entender melhor que não temos tanta essa necessidade como se sente em países frios e provavelmente ela se aculturaria como eu me aculturei. 

E diante da cara de espanto e desaprovação delas e do sueco que liderava o grupo fiz questão de enfatizar: "Sim. Não tiramos. Isso porque o clima é to-tal-men-te diferente do da Polônia e do da Suécia e são raríssimas as vezes em que pegaremos lama e neve do lado de fora de casa. Ninguém entra com sapato cheio de lama, mas se você for numa festa na casa de uns amigos vão entrar com seu salto alto lindo simmm!

É claro que existem exceções, do tipo se você mora numa fazenda, se você tá reformando o quintal, sei lá... mas o comum é que a gente chegue casa adentro com os mesmos sapatos que estávamos na rua. 

E elas? Elas ainda continuavam lá com aquela cara de que falavam com alguém de outro mundo (outro mundo muito deselegante, claro!). Foi então que não tive dúvida e emendei: "No Brasil, inclusive, se você fosse convidada para um jantar na casa de alguém de quem você não é super amigo ou parente, por exemplo, e chegar tirando o sapato e entrando de meia preta, como os suecos e europeus fazem aqui, você teria chance de ser encarada de três maneiras. Um: "putz! que nega mais sem noção, tirando sapato na casa de quem nem conhece!", ou seja, ficar sem sapatos na casa de estranhos não combina, porque tirar sapato sugere intimidade, totalmente o contrário do hábito daqui. Eu preciso tirar os sapatos e tenho tirado nesses dois anos na casa de qualquer um que fui, principalmente se não sou íntima da pessoa. A chance número dois seria de que os outros olhassem pro seu pesão sem sapato e pensassem: "Cacilda! deve estar um chulezão com os trinta e oito que estão fazendo hoje!". E a chance número três seria de acharem que você estaria bem mal vestida sem seus sapatos.

Bom, só sei que, embora elas não tenham se dado por vencidas, eu sei que aculturar-se e acabar achando que o que se vive no momento é o normal é algo beeem comum. Vivo isso diariamente e creio que, em muitos pontos, conhecer algo diferente e mudar os hábitos é mesmo muito interessante. As polonesas deveriam passar um tempo no Brasil pra aprender a usar um salto alto lindo numa festa na casa de alguém. Deveriam conhecer um lugar que lhes pusesse à prova! 

Agora vejam vocês que, apesar de ter brigado em sueco com as chatinhas da moçoilas, e ter tentado fazer com que elas e o pessoal entendesse as diferenças culturais me dá até uma coisa de pensar que no Brasil você vai invadir minha casa de sapatão... Que seu salto vai riscar o meu carpete de madeira e que, pior, a sujeira grudada no seu sapato vai contaminar aquele ar de lugar limpinho e meio sagrado que é a minha casa e a casa de todo mundo...

Isso não é totalmente contraditório???

Pois é assim que a gente fica quando vive num lugar tom diferente. Meio maluco, total neuras!... Você não acha???

17 maio 2009

Quem levou o Eurovision foi a Noruega e quem dançou fui eu

(Alexander Rybak, ganhador do Eurovision 2009)

Vocês não acreditam que lugar é aquele Turning Torso por dentro. 
Que maravilha! Que vista!  Que moderniade! Que tudo!

Mas se eu fiquei babando na vista de lá eu também fiquei de queixo caído quando fui vendo que dos 42 países votantes ontem, a maioria ia dando seu voto para Alexander Rybak, o menino russo, crescido na Noruega, que acabou levando o prêmio do Eurovision desse ano na noite de ontem.

Eu dancei em todos os sentidos. Feliz da vida, eu dancei mooito na companhia do pessoal dono do apê e de minhas amigas Xu e Helena (eu vou falar do encontro em outro post, porque esqueci minha câmera e tô esperando fotos do pessoal).

E dancei e cantei com eles e tiramos fotos e demos risada hahá hahá... mas dancei em não estar razoavelmente preparada para perder pra vizinha Noruega. Quem ganhou foi minha amiga Lu que vive por lá e eu devo confessar que fiquei tinindo de raiva... Ô ralhos! além dele ganhar tantos pontos, minha amiga opera singer, Malena, levou muito pouco... mas isso, vocês sabem, tem explicações sociológicas muito fáceis de se dar. E eu? Eu agora vou pôr a boca no trombone, vou pôr em prática toda minha ex-periência com crítica da indústria da cultura. É simmm! Há muito para se analisar e nada de ficar curtindo música não!

Quando eu farei isso? Hummm... eu farei! Calma lá! É que agora tô cansada demais né? Celebrar Eurovision de um dos maiores e mais famosos prédios do mundo cansa a beleza sabe? E não ganhar nada no prêmio da noite cansa também. Cansei e vou me recolher.

Um beijo pra vocês todos, exceto praquela moçoila lá que vive nas Noruegas, Luciana Halland. Sem beijo e sem boi pra ela! Ela já ganhou demais ontem e já festejou demais enquanto a gente lamentava. 

Boa noite!

16 maio 2009

O Princípio do Vazio

(Sentimento de vazio, Ben Goossens)
 
Já faz um bom tempo que eu não reproduzo textos de terceiros aqui no blog. Eu realmente só o faço quando gosto muito e faço de outros as minhas palavras.

Recebi a versão de "O princípio do vazio" em espanhol de minha amiga Jéssica. O texto d Joseph Newton foi originalmente escrito em inglês, mas aqui divido a tradução para o português.

Procurei mais sobre o autor, mas não encontrei nada além de milhares de reproduções desse mesmo texto em muitas outras línguas.

Ótimo sábado ao som de música de coral em latim daquele meu programa fantástico...


...


Princípio do Vazio

Tens o hábito de juntar objectos inúteis, acreditando que um dia, não sabes quando, poderás precisar deles?
Tens o hábito de juntar dinheiro, pois pensas que no futuro te poderá fazer falta?
Tens o hábito de guardar roupas, brinquedos, sapatos, móveis, utensílios domésticos e outras coisas que já não usas há bastante tempo?
… E dentro de ti?
Tens o hábito de guardar o que sentes, discussões, ressentimentos, tristezas, medos, pessoas, etc?
Não faças isso!
É anti-prosperidade!
É preciso criar um espaço, um vazio, para que as coisas novas cheguem à tua vida.
É preciso eliminar o que é inútil em ti e na tua vida, para que a prosperidade venha.
É a força desse vazio que absorverá e atrairá tudo o que tu desejas.
Enquanto estiveres material ou emocionalmente carregado de coisas velhas e inúteis, não haverá espaço aberto para outras oportunidades.
Os bens precisam de circular.
Limpa as gavetas, os armários, o teu quarto, a garagem, dá tudo o que já não usas.
A atitude de guardar um montão de coisas inúteis, amarra a tua vida.
Não são os objectos guardados que param a tua vida, mas o significado da atitude de guardar.
Quando se guarda, considera-se a possibilidade de falta, de carência.
É acreditar que amanhã poderá faltar e tu não tens meios de prover as tuas necessidades.
Com essa postura tu estás a enviar uma mensagem para o teu cérebro e para a tua vida.
1 – Tu não confias no amanhã.
2 – Tu crês que o novo e o melhor, não são para ti, já que te alegras em guardar as coisas velhas e inúteis.
Renova-te…
Limpa a tua alma, joga fora os ressentimentos, as mágoas, os medos, os desentendimentos, as tristezas.
Essas coisas amarram a tua vida.
Guarda somente alegrias, carinhos, felicidade, confiança, fé, amigos, bondade, amor…
Coisas que te fazem voar bem alto.
Sê feliz.

Joseph Newton

15 maio 2009

Nesse sábado no Eurovision vote na Suécia ou em Portugal

(A sueca Malena Ernman, no Melodiefestivalen que a elegeu para o Eurovision de 2009)

Eu queria tanto escrever um post bem dos bons, cheio de análises e coisa e tal, sobre a final do Eurovision, a competição mais famosa de música aqui da Europa, antes de amanhã, mas não vai dar.

Estou um caco e o fim do dia quer vai me empurrar pra cama já já. Entretanto, porém, todavia, não posso ir dormir sem dar uma passadela no que irá acontecer amanhã por aqui.

Nessa terça-feira passada assisti a semi-final aqui em casa com as amigas Xu e Ângela e o Re. A última parte da versão sueca, o Melodifestivalen, em que os cantores suecos disputaram entre si em três etapas, eu havia visto com a Xu e um grupo de suecos na casa da sueca Helena, e foi então que eu acabei entrando pra essa roda. 

Foi o Eurovision que lançou o ABBA ao mundo e essa competição faz com que mais da metade da Suécia pare para ver o programa. Amanhã, na final, a NOSSA candidata, minha amiga Malena Ernman irá representar a Suécia, com sua canção misto de pop com ópera, misto de inglês com francês. Junto com ela outros 17 finalistas, incluindo outros dois que eu gostei muito: a portuguesinha Flor de Lis que tem a voz suave e uma música alegre de dar "sôdadis" e um grupo da Bósnia & Herzegovina, cuja música em cadência vai dando uma sensação profunda e boa. Apesar disso, eu não espero que o grupo ganhe, já que a melodia se confunde com demais com outra de Kiki Lesendric e dizem que também uma do U2. Até terça eu não sabia da coisa do possível plágio e havia torcido pro grupo, mas depois que ouvi a do Kiki não vai dar mais não.

No Brasil eu escrevi um mestrado (A crítica de Adorno à cultura moderna) no qual eu analisei, a la Adorno, a indústria da música o que me deu fama de chata entre amigos e alunos, já que sempre fui das que não tem paciência pra musiquinha de rádio. E eu provavelmente não veria o Eurovision se eu tivesse sempre vivido aqui. Entretanto, a verdade é que como "gringa" tudo me é interessante. "Including" o Eurovision que apesar de ter uns momentos legais é cheio de muita cafonisse e música ruim de dar nos nervos também. 


(A portuguesa Flor-de-lis, concorrente da final do Eurovision 2009, com integrantes de seu grupo)

Masssss eu agora já estou envolvida. Votei na Malena no Melodiefestivalen, dancei e fui seduzida pela mania dos suecos. Eu me empolgo com a música da Malena (que o Re detesta) como me empolgo com Dancing Queen do ABBA. É uma delícia dançar, imitar, dançar e brincar de ser vesguinha igual minha "querida amiga" cantora de ópera.

Além disso, eu não sei explicar porque me empolgo tanto. Pensando um pouco sério talvez o fato de eu me sentir tão em casa quando estou aqui, o fato de me identificar com as aguras e alegrias de tantos suecos faça com que eu esteja meio que irmanada nessa festa do Eurovision. 

Então amanhã é alegria geral. Malena está na final! Hehebe samba bão! Aliás final cheia de festa e glamourrrr: vou ver a final amanhã na torre do Turning Torso (um das grandes construções modernas do mundo e cartão postal de Malmö) com uns suecos fãsérrimos de Eurovision e mais a Xu. Fui convidada de "honra", mas eles disseram que o pagamento será fazer um post no blog com muita foto deles todos pra vocês! Eu aceitei. Agora vocês podem participar de um outro jeito. 

Se você gosta de mim que sou uma pessoa legal e fina, mas não tem candidato eu posso pedir um favor: amanhã vota em uma das duas! Eu preferiria que você votasse na minha amiga sueca, mas se não quiser de jeito maneira, você pode votar na Flor-de-lis que e em sua canção quase brasileirinha que é linnnda. Ou se não quiser mesmo nenhuma delas, você pode escolher qualquer outro desde que não seja o Chapolin Colorado e as desajeitadas das finlandesas. Sem democracia aqui! Brincadeirinha!

Beijos, bom fim de semana e até minha cobertura completa!

14 maio 2009

No meio do caminho havia... dois patos e cinco patinhos

(Cena do dia a dia estressante da primavera de Malmö, maio de 2009, foto da minha amiga Xu-Muié)


Desde o início da Primavera todos os patos do mundo vieram voando pra Malmö e a cidade encheu-se deles por todos os lados, mas foi só depois dos danados, que vieram cheios de segundas intenções, terem se reproduzido aos milhares que a cidade literalmente tem parado pra ver.

Essa é uma cena típica do nosso dia aqui. Em qualquer canto da cidade há famílias inteiras de patinhos atravessando as avenidas. Essa aqui é uma das grandes da região da praia e cruza a frente da minha casa. Com essa foto que minha amiga Xu tirou de manhã, indo pro trabalho, dá para ter uma idéia da vida estressante que a gente leva na Suécia.

Tem gente que detesta. Eu, vocês já sabem de longa data, sou deslumbrete e adoro. Acho demais a família rebolando pra lá e pra cá atravessando a rua com cuidado. E sempre vai a mãe (eu imagino que seja a mãe porque é um pato menor) e o pai atrás protegendo suas crias de uma forma invejável. Semana passada, quando eu voltava da escolinha com a minha cria, no banco detrás da minha bicleta, um pai-pato fez um "qrrrrrr" enfurecidíssimo pra mim! Ele imaginou que eu talvez fosse atropelar os seus pequenos.

O povo daqui respeita a época e os patos. Nem atropela (só vi um caso até hoje) e nem come...

Vida na Suécia é assim: eu tenho direito de ir e vir e o pato e sua família também!

...

ps: a semana foi intensa por aqui. Muito trabalho no curso e muita reunião na escolinha. Estou frustrada por não ter conseguido responder os super comentários da semana que passou e por ter postado tão pouco

10 maio 2009

Manhêêê!!!

("Ângelo dá um abraço na mamãe para a gente mandar a foto pra Vó!", eu e Ângelo hoje de manhã no meu abraço de dia das mães, Malmö, maio de 2009)

Hoje é dia das Mães aí no Brasil. Os suecos comemoram (sem tanta farfalha no comércio) em outra data, a qual eu nunca me lembro.

Eu teria tanto pra falar de minha mãezinha, Dona Maria, assim como você provavelmente pode falar maravilhas de sua mãe e pensar como seria sua existência sem essa criatura. 

Eu também tenho um infinito de coisas pra dizer do que é ser mãe do Ângelo e de como eu me sinto diferente desde que o tive... mas eu não estou muito inspirada hoje para escrever coisas bonitas.


(Eu e meu Ângelo no meio da Praça São Pedro, Roma, abril de 2009)

Eu acordei cedo, Ângelo acordou chamando: "mamãe!" e estou aprontando o café da manhã enquanto os "meninos" tomam banho. Estou ouvindo música espanhola, as sevillanas que eu dançava quando aprendia flamenco. Eu estou feliz com o sol maravilhoso que invandiu minha janela desde as quatro da matina. E uma coisa que me veio bem forte hoje logo que acordei foi o abraço que o Ângelo me deu ontem, colando seu rosto no meu, afagando sua cabecinha num gesto meio de pedindo proteção, cuidado e carinho só porque ele havia tropeçado em algo e estava com sono.

Eu me lembrei também de como todas as vezes em que eu tasco minha canela numa mesa, que eu tenho uma dor de barriga ou fico doente eu chamo pela minha mãe. "Ai, ai, ai mãe!" É como se minha mãe ainda pudesse me acudir sempre. Eu lembro dela nesses momentos assim como lembro em todas as vezes que olho pra qualquer flor, qualquer planta, qualquer nascer ou pôr do sol. 


("Tia Dí, Sánda, vovô, Alê...., Ângelo querendo dar muitos abraços para enviar pra todo mundo na família, Malmö, maio de 2009)

Minha mãe está em mim mais do que qualquer outra pessoa está. Talvez ela esteja da mesma forma curiosa e profunda que meu filho está em mim e isso é algo que a gente não explica muito. A relação de mãe e filho, filho e mãe é tão diferente que se perde em explicações.

Eu hoje até poderia inventar umas mil palavras bonitas e de agradecimento, mas nada nunca vai explicar o que sinto pela minha mae, assim como o que é sentir-se amada por uma criaturinha que você gerou, esperou, acariciou, cuidou e ama tanto. Nada pode explicar o que é amar tanto uma senhora Maria que vive há milhares de quilômetros de mim e tê-la aqui comigo como se fôssemos quase uma.

Ter mãe e ser mãe é ter presente essa ligação que a gente não desfaz. É ter na gente defeitos que a gente não queria e qualidades que a gente se orgulha. É querer agir de forma a deixar aquela senhora contente, mesmo que ela nem saiba o que anda ocorrendo em sua vida.

Eu nem mesmo comprei um presente pra minha mãe. Eu acabo ficando desleixada, já que ela mesmo não é ligada em que a gente se preocupe com datas. Ela prefere amor espontâneo, quando queremos, sem convenções do comércio. 


(Nós diante da Madonna do Raphael, Panteon em Roma, abril de 2009)

Eu presenteio minha mãe quando me dá na "sapituca", assim como presenteio a carinhosa mãe do meu marido também.

Ser filho é sentir-se tão em casa, tão a vontade para dizer só assim: "mãe, amo você!". Hoje é dia das mães e eu não tenho presente não. Eu também não enviei flores pela internet como já fiz antes... Mas eu tô aqui mãe querida e você está comigo, está em mim tanto quanto o ar que eu respiro.

Espero, mãezinha, que esse amor, mesmo que à distância seja suficiente porque só algo me dói todos os dias: não poder demonstrar a gratidão que eu tenho por ter me criado assim e por ter me ensinado ser mãe do jeito que sou.


(As amigas que fiz na Suécia no churrasco de "agradecimento" da mudança. Ângela, Jéssica e Nik, Maria, Nikol, eu e Ângelo e Xu, Malmö, 2009)

Feliz Dia das Mães pra minha mãe Dona Maria!
Para minha irmã Sandra e minha cunhada Vanessa que tá grávida do meu terceiro sobrinho, o Gustavo!!!
Para minha querida sogra Irene e sua mãe Dona Conceição!
Para minha avózinha Maria,
Para você, para todas as Marias que um dia deram à luz a alguma criatura e que eu conheço e não conheço!!!
Mas parabéns para aquelas que desejam muito ser mães e ainda não são!
Para aquelas que não deram a luz, mas cuidaram de alguém, filho, sobrinho, afilhado, aluno como se o tivessem feito!
Para aquelas que abriram mão da maternidade por outra coisa...

Parabéns porque pra mim mim, ser mãe é amar e amar e amar e se você ama muito você já participa do universo da maternidade. 

Ótimo domingo e desculpa aí porque eu comecei pensando que ia escrever três linhas e escrevi três páginas!

08 maio 2009

Ferlot mig! Parece que o CD só morreu na Suécia!

(Cd-morto, foto de Orion Optiglot)


Descullllpa minha gennnnte!

Após eu comentar no jantar agora há pouco com meu marido tecnologizado que vocês não estavam conseguindo acessar o Spotify, aquele site de músicas que sugeri que vocês usassem no velório dos cedês de vocês, ele me disse que ACHA QUE o site só está disponível onde? onde?

Aqui, onde euzinha e elezinho moramos: na Suécia!

O site é demais, mas por enquanto vocês terão que vir morar aqui ou passar férias comiga para aproveitar, ok?

Como eu não sou nada ligada a nada eu dei esse furão com vocês, mas a gente continua amigo não é?

Sabe como é né? morar em lugar assim super prafrentex é um negócio que faz até a gente aposentar coisa que ama... mas vendo pelo outro lado polianístico: vocês não precisam ir a velório algum! Nem vocês aí no Brasil, nem vocês de outros lugares tão supimpas quanto o Brasil, tipo o Sérgio e a Marilena, no Canadá, por exemplo!

Enquanto eu, vejam só! posso até conseguir ouvir numa qualidade incrível músicas que eu nunca sonhei encontrar ou bandas que a gente ama e nunca teve dinheiro pra investir em cds, massss, porém, contudo, todavia eu vou ter que colocar meus colegas no mesmo museusinho onde coloquei meus pouquíssimos vinis que eu também amava, mas quem eu definitivamente troquei e esqueci também.

Brincadeirinhas a parte: eu insisti enquanto escrevia esse post com meu "marizado" e ele disse que a gente acessa porque foi convidado por alguém. A gente pode convidar outras pessoas, mas nem ele nem eu sabemos ainda direito como e se esse convite pode se estender a outros países. 

A pedido meu ele vai pesquisar e me dizer mais! ok?

Enquanto isso Ju, escreve aí sobre o site, porque você deve saber mais que a gente fofa!

Beijos e Ferlot mig! Desculpa aí! Sem velório, sem chorumelas e sem nada! Ótimo sábado!

06 maio 2009

O velório do finado Zé Cedê

("O pianista", Somnia de Carvalho, 2004, acervo particular: Cindy Bataglia)


Ontem foi a morte de um querido e amado meu, o CD e o que eu posso dizer é que o funeral tem sido animado e à base de música muito boa.

O Renato, meu marido tecnologizado, já me dizia há alguns anos a mesma frase chatinha: "Sônia, pra que carregar esses cds para a outra casa? O CD morreu!". Ui, como eu detestava essa coisa dele, insistindo pra eu deixar meus cds velhinhos, de capas quebradas, onde eu coleciono gente que eu amo e que me acompanha todo santo dia.

Eu sou o tipo que não vive sem música. Eu tenho música especial pro café da manhã, como Madredeus, Fortuna e clássico barroco. Eu tenho música pro dia feliz, como Cake e músicas do mundo e seleciono a dedo música pros dias tristes, pra ajudar no chororô. Eu preciso de música especial pra trabalhar na pintura, normalmente as instrumentais e fortes. Um exemplo foi como o Concerto número 3 do Rachmaninov que eu já amava, mas que depois de ver o documentário Nelson Freire me ajudou, em 2004, a criar a tela do pianista que vocês vêem acima. E eu adoro música alegre e brega pros dias de faxina e dias de festa, como Sindey Magal e Genival Lacerda, como tocamos no fim de semana. Isso sem contar nas músicas infantis que eu ouço com meu Ângelão e danço rodando a baiana com ele aqui. 

E aí não pára mais. Eu ouço trilha sonora dos meus filmes prediletos e ouço música de qualquer canto do planeta, como as tradicionais da Ucrânia e Rússia, como algumas indianas e árabes. Acho que por isso fiquei horrorizada na aula de sueco esses dias, quando algumas colegas iraquianas disseram só ouvir música árabe.

Bom, a verdade é que eu nunca me imaginei sem meus cds, mesmo tendo o i-tunes e mesmo tendo o youtube e outros sites que eu conhecia.

Ontem, ao contrário, quando o anunciante do velório me mostrou o site Spotify (Clique aqui e acesse o mundo) eu soube que minha relação com meus antigos companheiros não seria mais a mesma.

O site é perfeito. Você pode selecionar música de qualquer canto do mundo. Ouvi Bjorn e ouvi Oswaldo Montenegro numa qualidade incrível. É possível acessar os álbuns dos cantores e fazer as buscas de formas diferentes. 

E, então, depois de fuçar e achar música da Dalida, do Cinema Paradiso, tanta coisa que eu adoro tudo ali tão facinho, tão bonito e tão prontinho só tocando nas minhas caixas eu perguntei ao senhor sabe tudo: "mas como assim? Não tô entendendo? É pirataria?" "Não", respondeu ele. "Mas, então, o que eles ganham com isso, eu nao entendo!?". Aí meu Renato me explicou que há algumas propagandas no meio, como se fosse uma rádio. Se você não quiser ouvi-las, você paga algo por mês. 

Eu ouvi e não me incomodou. Aqui, estão em sueco. Estou agora, por exemplo, ouvindo a trilha de "Le clan Pasquier", de Caroline Petit que é lindo e eu nem sequer conhecia. Cheguei até ali porque pesquisava sonatas do Chopin e acabei ouvindo de curiosa. 

Eu sei que por um lado é triste admitir que aquelas centenas de pacotinhos que você comprou com tanto carinho (eu nunca consegui comprar cd pirada nas ruas, porque sempre pensava no cantor) ou ganhou de gente amiga vão ficar ali, como se fossem um pequeno museusinho, mas pra mim é essa a relidade agora.

Se é chato admitir por um lado, por outro você verá um mundo novo se abrindo. Acredite! e o velório vai ser bom que é uma beleza!

A visita da prima e a resposta aos comentários

(Foto da vista de um das dezenas de  "barcão" que  encantam o Ângelo e passam aqui em frente o dia todo, a pedidos da minha mãe, Malmö, abril de 2009)


Bom dia, bom dia e ótimo dia!

Fui tentar responder os comentários dos últimos dois posts, mas não entra. Eu consigo entrar para postar, mas não consigo responder. Vou esperar um pouco mais e ver se resolve o "porobrema", mas tento dar mais ou menos as respostas aqui...

Aqui o sol deu uma sumida e está uma chuvinha há uns três dias. Ainda assim a claridade não deixa o dia ficar sem graça e temos tido um dia muito longo. O sol tem nascido muito muito cedo e praticamente ainda temos dia as dez da noite.

Da vista que vocês viram a gente tem vivido esses dias como se fossem todos fins de semana. A Primavera na Europa faz a gente viver como se fosse passarinho, como se fosse um esquilo pelo bosque. 

Em todos os blogs de colegas que vivem por aqui vocês verão algo parecido. As cores são muitas e muita alegria. É tanta vida que é quase impossível imaginar o que era o mesmo lugar há umas semanas atrás.

A cada árvore colorida que vejo ou montes e montes de cores espalhadas pelo caminho eu tenho vontade de fotografar, quero mostrar, quero partilhar.


(Uma das milhares de árvores da minha vizinhança, especial para minha mãezita, Malmö, abril de 2009)

Aquelas plantações amarelinhas, típicas da região e que todo ano encantam a gente já nasceram e estão colorindo todas as estradas e todo canto. Tá lindo demais! Eu penso todo dia na Dona Maria, minha mãezinha, que gosta tanto de flores e plantas e cuida delas com tanto cuidado.


(Um planador (?) que a gente "encomendou" pra animar o churrasco do fim de semana, Malmö, maio de 2009)

Sobre o grupo de capoeira no centro de Malmö foi sim especial encontrá-los ali, mas a minha sensação, diferente da que alguns de vocês descreveu, foi mais algo assim super "sentir-sem em casa", entende? Foi bem gostoso, porque eu me senti parte desse outro mundo que as pessoas daqui só tentam imaginar mas não conhecem.

O grupo, até onde entendi, é de professores e alunos de uma escola de capoeira daqui da cidade, mas eu sou péssima de memória e vocês já sabem... então...

Até mais ver!!! e vou tentar mais tarde novamente responder os comentários deliciosos de vocês!

beijocas!

03 maio 2009

A ginga brasileira e os olhares suecos

(Grupo de brasileiros de uma escola da cidade, jogando capoeira no centro, Malmö, abril de 2009)

Foi num final de semana desses aqui da Primavera que eu e o Ângelo estávamos passeando pelo centro da cidade. Numa das praças centrais, a Gustav Adolf, tinha uns moços e umas moças brasileiras sentados tocando o berimbau, chamando aos poucos o povo pra ver uma cena de capoeira.

A sensação super gostosa de ouvir nossa língua e de sentir-se tão em casa no meio da Suécia fez com que sentássemos ali do ladinho deles e fez com sangue brasileirinho do Ângelo gritasse forte. Ele começou a dançar feliz, assim como algumas dezenas que estavam por ali começaram a chacoalhar seu esqueleto.

Mais um e mais um grupo parando... "Capoeira. É do Brasil", alguns muito informados diziam.

E então mais alguns cinco, dez, vinte, cinquenta... Uau! Em uns dez minutos a praça juntou umas centenas de pessoas em círculo. Tudo totalmente natural, tão natural quanto se junta gente em torno daqueles caras que ficam no centro de São Paulo e conseguem juntar gente em torno deles em minutos, apenas contando "causos".

E então os morenões e morenonas com camiseta do Brasil começaram a jogar capoeira. E mais gente parando... e mais comentários e olhos esbugalhados.


(O olhar curioso do Ângelo e de centenas de passantes , Malmö, abril de 2009)

Foi tão curioso ver tantos suecos e alguns estrangeiros vendo com um olhar tão diferente para aquilo que eu já conheço tanto e me é tão familiar. A capoeira tem, inclusive, assumido uma dimensão diferente pra mim desde que estou aqui. Há capoeira na aula de body combat, por exemplo, e eles são tão fascinados que eu pensei: "caramba! como posso dizer que sou brasileira sem saber jogar capoeira?"

Bom, só sei que o pessoal ficou embasbacado. E os meninos que jogavam faziam numa discontração danada. Sem nenhum esforço. Tranquilos e falando com aquele sotaque todo nordeste: "cara tô quebrado!", disse um deles que não deu conta de fazer o salto no ar.

E eu? eu lá cantando as letras conhecidas, com o Ângelo comendo uma banana e uma pêra balançando as perninhas. E eu? eu tirei foto feito estrangeira e pedi o nome do grupo (que eu evidentemente esqueci) a um deles para escrever no blog...

Enquanto isso, no meio da roda de curiosos, os loiríssimos suecos, adolescentes ou mais velhos, parados em frente, com seus cabelos lindões preparados para "tentar pegar as suequinhas" na Primavera ficaram com um olhar tão babão, tão perdidos quase lamentando assim: "agora com esses caras de calça grudadinha, dançando assim com esse corpão moreno como é que a gente vai atrair a atenção?"

É e foi assim mesmo que eu vi na rua do lado um rapaz sueco a tocar seu violão solitário. A roda de capoeira virando a esquina havia desviado dele todos os olhares. Ninguém o ouvia, inclusive porque o berimbau, o batuque e a voz dos brasileiros tomou conta do pedaço.

(O cantor sueco solitário, perdendo na própria casa, Malmö, abril de 2009)

Foi um dia de sábado muito bonito do início da Primavera em que o Brasil invadiu a Suécia e que os brasileiros provaram o gostinho de serem os melhores entre os suecos no meio de uma cidadezinha sueca.