31 março 2009

Das muitas relações possíveis

(Menina colhendo flores e se enfeitando no Marrocos, foto de Maryan of my Marrakesh)


Ouvindo uma música de tirar o fôlego, hoje de manhã, no blog do Luis, um português que tenho na minha lista, e lendo posts de gente muito interessante que acompanho aí pelo Brasil, aqui pela Suécia e por muitos outros lugares por onde passo, eu já vinha pensando sobre as relações a partir da internet.

Aí, agora pouco, vendo essa foto ma-ra-vi-lho-sa e cheia de ternura do blog de uma escritora americana (também excelente fotógrafa) que vive em Marrocos, eu fiquei pensando: "uau! estar conectado ao mundo assim não tem nada de virtual. Eu sinto e danço a música de um "amigo" desconhecido e vivo um pouco do que ele vive. Eu sou capaz de quase sentir o cheiro dessas flores e me encho de uma coisa boa que emana dessa fotografia. Eu penso a respeito do que leio nos posts de vocês, eu aprendo com o jeito que escrevem e isso vai construindo meu jeito de ser no meu blog e na minha vida também.

Essa relação é bem mais real do que eu mesmo um dia imaginei. 

Por isso, obrigada!

30 março 2009

O que os suecos fazem bem que é uma beleza?

(Ângelo mandando ver numa banana, no carrinho do zoológico, Höör, março de 2009)

Ontem o dia começou bem bonito por aqui e fomos com a pequena família da minha amiga Nikol ao zoológico, em Höör, o Skånes Djurpark. Lembra? Aquele zoológico hiper mega discreto?

Eu continuo achando os bichos suecos um exemplo de discrição, tanto em cores quanto em barulho, mas dessa vez, eu devo admitir que foi bem mais divertido. Talvez por isso a gente deva sempre lembrar que o que dissemos tem a ver com o momento que vivemos.



("Passou, papai!" Ângelo vencendo desafios, Höör, março de 2009)

Com o Ângelo maior, e conseguindo enxergar os animais beges, cinzas e marrons a gente fez uma festa danada quando encontrava cada um deles. 

Ao contrário das outras vezes em que fomos, nas quais o zoo estava totalmente lotado de gente com a filharada toda, ontem tava bem vazio. Tão vazio que nem comida tinha pra gente lá no páteo do urso.

Os suecos têm esse "defeitinho" que irrita quem veio de cidades, como São Paulo, ou do Brasil, em geral. Até meus amigos alemães se irritam bastante com a falta de gente trabalhando nos fins de semana. 

A verdade é que os suecos privilegiam o estar entre a família. A vida pessoal é sagrada. Essa e a razão deles saírem as quatro ou quatro e meia da tarde do trabalho, por exemplo. Então,ontem, mesmo com o zoológico aberto não tinha gente no restaurante, ele estava fechado. Afinal de contas, tanto quanto a gente, os caras que trabalham lá tem direito de aproveitar seu fim de semana! 


("Óce!" Ângelo e Iven admirados com o tamanho do alce, Höör, março de 2009)


Lembro-me de quando o Ângelo tinha nascido e berrrava que era uma coisa de cólica, a gente correu na enfermeira (hoje minha amiga Inga-lill) pra pedir conselho e ajuda. No fim o Re perguntou se ela não poderia passar o telefone, caso ele tivesse algo a noite e ela disse: "não... a noite eu também estou dormindo..." 

Bom. Então esqueça aquelas barraquinhas de amendoim, de coisinha sendo vendida em todo canto. Sem salsicha e sem nada, a gente conseguiu fazer um piquenique improvisado com o que as duas "mammas" tinham levado pra criançada. E foi uma delícia mesmo! 


(Iven e Ângelo num papo muito cabeça e cheios das risadas dentro do carrinho puxa puxa Höör, março de 2009)


Quando estive no Brasil no fim do ano passado eu fiquei perplexa com uma coisa que eu não havia me dado conta antes. Os brasileiros de classe média (que tem financeiramente o equivalente ao que o pessoal em geral tem aqui) aproveitam muito pouco seus filhos. Lembro de ter ido ao Parque da Mônica e enlouquecido de raiva, porque você precisa entregar o filho pras monitoras. Elas é quem vão "brincar" com seu filho, embora elas façam isso com uma baita cara de marilyn! 

E quando fomos a um super hotel em Juqueí, havia quase um exército (branco - não no tom da pele, mas no uniforme) de babás no restaurante dando comida pra criançada na hora da jantar. E no café da manhã. E no almoço também. Ah! e eram elas quem brincavam na praia e na piscina com a molecada também, porque os pais estavam nas lojinhas do centro ou fazendo caminhada.

No hotel fazenda, a mesma coisa. Uma centena de monitores. Aí desses eu gostei mais, porque as crianças tinham atividades legais para fazer e se socializavam com as outras crianças. Ainda assim, quando Re comentou com a suecada do trabalho, eles ficaram absortos. Na opinião deles esse é um luxo muito esquisito... E, contra nós mesmos, eu devo admitir: de país de terceiro mundo, onde os salários são tão diferentes e é possível pagar tanta gente por tão pouco pra fazer tudo pra você. Infelizmente é uma dura verdade, com a qual eu já não consigo mais concordar tanto, ainda que o argumento seja "pelo menos eles tem trabalho!".

Eu sei que soa esquisito eu achar esquisito essa esquisitice. Mas acho que vivendo esse tempo fora e não tendo tido filho aí a gente meio que se adequou mesmo à cultura "faça você mesmo". E quando a gente volta ver que pra tudo nós queremos gente "particular" (vou escrever outro post só sobre isso outra hora) pra fazer soa mesmo absurdo.

Outra coisa é que aqui é difícil você ir num shopping ou loja e deixar os filhos numa saletinha cheia de brinquedos para ir fazer suas compras. 

(A incrível Mamãe urso com seus filhotes liiindos!,  Höör, março de 2009)


Aqui isso é bem difícil acontecer por algumas razões. Primeiro, não tem monitor ganhando uma porca miséria pra cuidar de mal humor do meu filho. Não tem por outras várias razões. Os suecos não acham que isso seja normal. A família é minha, quem cuida sou eu. Segundo, porque eles curtem mesmo cuidar dos filhos, terceiro, porque mesmo se tem gente que queira largar a molecada, não há pessoal terceirizado para isso.


(Entre os amigos-quase família: Nik, eu, Ângelo, Nikol e Iven, Höör, março de 2009)

Bom, além desses domingos em família, então, uma outra coisa divertida na Europa, em geral, são os piqueniques. Me lembro de uns alunos, certa vez num cursinho, dizendo assim: "Professora, cê acredita que ele teve coragem de levar "marmita" pro passeio do Hopi Hari? Daí ele foi barrado, porque revistaram a bolsa dele na entrada e tiraram toda comida que tinha dentro!."

Absurdo! Imagina que a gente paga pra ir num lugar e não pode levar comida própria? Mas a gente tá tão acostumado com isso que os meus queridos alunos achavam que o amigo era quem estava errado e não os folgados do Hopi Hari. 

(Ângelo tomando a direção das coisas e se sentindo muuuito grande, Höör, março de 2009)


Pra todo canto no zoológico ontem tinha gente (as poucas que tinham) fazendo churrasquinho de salsicha. Não precisa torcer o nariz não! As salsichas aqui não tem nada a ver com esses plásticos da perdigão e sadia que a gente come. São realmente deliciosas e muito melhor que carne, quase sempre, já que a carne é que não é nada boa. 
Eu morri de vontade de subornar uma família perfeitinha sueca que tinha um montão de "korv", essas salsichas deliciosas e estavam lá assando e comendo.

Pensei em pagar umas muitas coroas suecas em troco de algumas prontas, mas desisti porque eles não tinham cara de que se deixavam levar por dinheiro.


(Brincar nesses alces é uma delííícia!!! Ângelo, eu e Iven, Höör, março de 2009)

Ah... acho que outra coisa que eu realmente admiro e gostaria tanto que a gente um dia deixasse de pensar assim é que fazer piquenique, cuidar você mesmo dos seus filhos no fim de semana, assar uma salsicha e mergulhar na lama, literalmente, com a criançada não é sinal de "pobreza", coisa de gente pobre como a gente diz aí no Brasil. 


("E vai e volta, e vai e volta". Aproveitando o máximo do tempo, já que ele passa rápido demais, Höör, março de 2009)

A idéia é exatamente o contrário: porque você não é pobre, porque você tem educação e entende que brincar, correr, pular, conversar com seus filhos e dar a eles o que você tem de melhor durante seu tempo livre é que você não delega isso para alguém que não seja exatamente você mesmo. Com exceção das escolinhas e escolas, onde há gente mais "especializada" em educação, quase não há opções de "tercerização das crianças". 

Não dá para negar que essa tarefa que eles tomam pra si totalmente (inclusive sem ajuda dos pais e família próxima, já que os suecos não ajudam mesmo a cuidar de netos etc) não seja cansativa. E, com certeza, eles próprios se sentem exaustos. Foi ótimo, por exemplo, poder sair aí no Brasil e deixar Ângelo com os avós e tias. Ou, raramente, contar com a ajuda de alguém aqui pra poder sair sozinho. Por outro lado, não dá para negar que a gente vê pais assumindo com muita responsabilidade o cuidado dos seus filhos, ainda que sejam muito jovens. Se tem uma coisa que os suecos realmente sabem fazer é assumir o cuidado de seus filhos com unhas e dentes. 

Há prós e contras. Eu ando curtindo os prós, porque o tempo passa rápido demais.



28 março 2009

Amanhã começa o horário de verão na Suécia



Não faça igual o bonitão da foto! Não fique perdido no que fazer quanto ao horário de verão que começa amanhã, dia 29 de março.

Ele, claro! não lê o Borboleta, mas você que lê sabe que a Europa, incluindo a Suécia, adiantará todos os relógios para aproveitar melhor o dia que tem começado cedo.

Isso porque, no papel, o inverno chegou ao fim. Uma coisa óbvia de ser compreendida, já que, pasmem! Hoje o tempo está ótimo, fazendo 9 graus lá fora! Um calor de rachar mamona!

A gente vai precisar adiantar o relógio em uma hora. Então, bonitão, preste atenção: ao invés de ser meia noite, por exemplo, você deve botar seu relógio em uma hora a frente: 00:00h passa a ser 01:00h. Você vai perder uma hora amanhã no encontro com a namorada, mas vai poder acordar enquanto o sol ainda não esteja tão forte.

Com o horário de verão a diferença de tempo entre o Brasil e nós fica de 5 horas e não mais de 4 como até hoje, então eu lastimo perder uma hora para falar com a família, mas eu fico feliz que ao menos no relógio o inverno esteja acabando.

Até 25 de outubro a gente faz um rebolado para encontrar com vocês que ficam dormindo até mais tarde ok?

Hasta la vista baby!

27 março 2009

Por que a Kirstine anda tão desolada?

(Retrato da artista dinamarquesa Kirstine Roepstorff, 2009, in: MUSAC)

Acabei de ler os últimos comentários "surtados" e adorei!

Acho que a idéia da desvairada da Kirstine era essa mesmo! Deixar todo mundo louco de pensar! Por isso ela não deu nada facinho. Ela escreveu aquelas frases que parecem tão simples, daí colocou as bandeiras e banners todos para pirar a cabecinha da gente na maionese.

Mas vamos lá a alguns símbolos que acho que podem ser mais facilmente interpretados. Fiz uma pesquisa procurando por duas das bandeiras, já que eu nunca fui boa em bandeiras do mundo. Encontrei uma, mas ainda estou procurando pela outra, que parece ter alguma coisa a ver com a Alemanha, segundo o Renato.


Símbolos:

- Bandeiras de países: creio que as bandeiras, somadas às quatro frases espalhadas pela obra são a chave para entender a crítica da artista. Uma bandeira é de Cuba, símbolo do socialismo de Che Guevara e de Fidel. Outra é dos Estados Unidos. Dá para pensar neles como grande potência e seu domínio no mundo todo. Pode-se pensar na relação complicada entre eles e Cuba. A outa é da Inglaterra, um dos maiores conquistadores do novo continente e da África. A luta pela independência do domínio da Inglaterra ainda é real para muitos outros países miseráveis. A bandeira vermelha com a lua e o sol em amarelo é da Tunísia. Na época da obra de Kisrtine, a Tunísia vinha sendo acusada de inúmeros crimes contra os direitos humanos. Por mando do governo, muitos jornalistas, imprensa e gente contra o mandato foi morta. 

- Caveiras: a artista abusou delas. Caveiras são sempre sinal de morte. Impossível pensar em algo que seja bom, quando olhamos para elas.

- Motocicletas: essas motos grandonas aparecem também mais de uma vez. Uma delas, aliás, costurada em cima da bandeira dos Estados Unidos, onde tanta gente gosta dessas motos e da "liberdade" que elas e seu estilo de vida traz. Então, eu vejo na moto esse falso ideal de liberdade e de conquista. Ou ao menos a gente pode olhar para elas como símbolo do desejo de se ter liberdade. É bem comum homens de meia idade que caem de amores por elas e pelo desejo de "recuperar um tempo perdido". Pode-se pensar então em retomada de liberdade também.

- Homens ou exército vermelho com boina: eles deveriam proteger, mas em tantos países se tornaram os inimigos públicos. Creio que pode ser tanto a polícia e o exército quanto homens da guerrilha ou de grupos de marginais organizados. Em qualquer caso, eles não trazem a paz ou a tranquilidade prometida. Eles estão aí e se tornam uma ameaça à sociedade.

- Imagens: um homem nu e uma criança negra, que parece uma estátua. No caso do homem nu, talvez a exploração visual do sexo. Não estou certa.  A estátua do menino negro é preciso pesquisar mais. E tem também a imagem de Che Guevara com os dizeres "hasta la victoria, siempre!". 

Meus amores é isso aí!
Sexta a noite, preprando para o fim de semana... Queria responder antes do sábado. Vou deixar um pouco mais a tela para apreciação daí fecho essa terceira seção.

Beijocas e boa noite!

26 março 2009

Dicas para leitura da "Desolação" de Kirstine

(Para ler uma obra é preciso olhar de pertinho, de forma bem interessada, como essa mocinha dinamarquesa fez no museu quando visitou a obra de Kirstine, in: the Dannetes)


Eu tentei adivinhar o silêncio no post do Vang Gogh, mas agora já tô começando a achar que me precipitei achando que o coitadinho do meu "quase clássico" Vang Gogh fosse o problema. 

A terceira tela que coloquei essa semana na seção "O que você vê nessa obra", da dinamarquesa Kirstine Roepstorff recebeu comentário da atenta e participativa visitante de museu Lilás e ? De mais ninguém!

Ou vocês não gostaram nadica de nada da tela e me "guinoraram" completamente ou ela é tão cheia de sentidos que vocês têm medo de bancar os "bobolóides" e falarem asneiras. Se é a primeira opção eu posso dizer que, embora não se trate de uma pintura, no sentido convencional do termo, é uma obra que tem muuuito a dizer. E tenho certeza vale a pena a gente tagarelar sobre ela!

Se for a segunda, aí que não tem boi mesmo. Vocês precisam dizer e precisam dizer tudo que passa pela cabeça de vocês! Vamos ao nosso debate! Tentem pensar em algumas questões para jogar aí nos comentários. Tentem não se deixar levar por aquele meu post super longo do Michael Kvium. Não precisa dar uma de expert e nem chatonildo igual eu dei. 

A não ser que o motivo da falta de participação na mesa redonda de bar virtual seja a correria do dia a dia e também o fato de que a gente tem "coisa muito mais importante e prática" para tratar. Eu concordo que não dá muito tempo de ficar comentando em blog, mas ao menos eu "agarantio" que essa questão é também bem prática e que sai muito do âmbito de "discussão sobre arte".

(Detalhe de "Desolação da besta, Kirstine Roepstorff, 2002)


Você pode começar pensando algumas coisas como:

- Qual seria o motivo de Kirstine não ter pintado a tela com as bandeiras e as imagens? qual a diferença de fazer uma costura, colagem de banners, recolhidos por vários lugares e juntá-los sob forma de uma tapeçaria (ou seria uma bandeira?) numa parede?

- O que os banners e essa obra em tecido lembra? Lembra pintura ou lembra cortina de retalhos ou...?

- As imagens da obra dizem o que para você? Não precisa tomar todas, pegue algumas e pense porque elas estariam ali juntas? 

- Kirstine está fazendo altuma crítica? A quem? Ou ao que? Ela está desolada tanto quanto a "besta", ela está "pstorff" (sorry, mas eu tinha que fazer o trocadilho besta) com alguma coisas também? com o que seria?  O que na tela dá sinais disso?

- A Lilás chamou atenção para as bandeiras várias que há na obra. O que elas podem significar nesse contexto da obra? 

- As quatro frases espalhadas pela obra são provocantes e questionadoras (“Your comfort is destroying my comfort, your freedom is opressing my freedom, your power makes me powerless, my rules eliminate your rules”). Que tipo de pensamento elas lhe trazem à mente? O que exatamente você acha que elas denunciam?

- Qual relação você vê entre a obra e seu título? 

- O ano em que foi feita a obra pode dar alguma dica a mais para que a gente a leia?

Começando com perguntinhas simples assim (não todas, selecione algumas para pensar) você pode escrever o que lhe passar pela mente. Não se deixe abater! E lembre-se que eu pensei em vocês quando vi essa obra de arte no Statens Museum. Quando li esses dizeres da tela eu tive até um arrepio. Fortíssimos!


24 março 2009

Uma obra de arte ou mil palavras? Kirstine Ropestorff

("Desolação da besta", Kirstine Ropestorff, 2002, Dinamarca. Foto: Sônia M. Carvalho)


“Your comfort is destroying my comfort
Your freedom is opressing my freedom
Your power makes me powerless
My rules eliminate your rules”


A terceira tela da Seção "O que você vê nesta obra?" é da artista dinamarquesa Kirstine Ropestorff. "Desolação da Besta", de 2002, não é uma pintura, mas uma instalação em formato de quadro. São vários tecidos costurados entre si, com imagens estampadas, entre elas animais, símbolos de capitalismo, socialismo, comunismo e frases bordadas, em inglês, em quatro diferentes quadros, cuja tradução é:


"Seu conforto está destruindo meu conforto,
Sua liberdade está oprimindo minha liberdade,
Seu poder me torna impotente,
Minhas regras eliminam as suas". 

Tive contato com esta obra numa exposição especial de artistas contemporâneos dinamarqueses, no Statens Museum for Kunst, em Copenhaguem, no mês passado, e creio que seja uma obra intrigante e interessante para trazer para o blog.

Agora é  com vocês! De novo!

(Detalhe de "Desolação da besta, Kirstine Ropestorff, 2002)


"Caminhando contra o vento, sem lenço e sem documento", literalmente falando



Noite de sono não muito boa, atraso na hora de acordar.
Olho pela janela e "não!". Zero grau no termômetro, nada de primavera! Chuva e neve fina do lado de fora. "Não tem graça nenhuma!" 

Corre, corre. Dá mamadeira, sem tempo para tomar café, pega tudo. Veste roupa, pega livros, cadernos, mala. "Go, go, go!" 

Frio, vento. Deixa bicicleta, pega carona.

Na escola: "preciso comer, preciso comer, preciso comer". Na cafeteria: "putz!, esqueci a carteira na outra bolsa!". Caço moedas. Ok, "en banan!" 

Sobe, sobe, sobe. Chego. A professora: "Hoje teremos prova surpresa para avaliar o nível de cada um". "Oh! shit!". Engole banana guela abaixo, começa o teste. Ok! Primeira parte encerrada. Hora do intervalo.

Fome! Fome! Fome! A amiga polonesa convida pro café: "sim! sim! sim!. Hora de pagar: "carambola! esqueci! não tenho dinheiro!"

Ok, café e bolinho pago pela amiga. Volta, termina segunda parte do teste, desce até a biblioteca para devolver livro e cd. Em frente à balconista: "Hummm cadê o livro?" Revira a bolsa, revira, revira e...

"Que droga! esqueci na sala?" Volta 5 degraus de escadas. Procura, procura. Nada. Onde deixei? Onde deixei? Ah! no banheiro!

Ok! livro pego! Biblioteca de novo, balconista: "eu preciso do seu cartão!" "Ó claro! o cartão! O cartão, o cartão! Nãoooo acredito! ficou na carteira que ficou na outra bolsa que ficou em casa. Caçarola! só amanhã!

Saio correndo para o estacionamento de bikes. Ahnnn... cadê? onde tá? Ah! esqueci! hoje não vim de Madalena. Corro pra tomar um ônibus. Quase no terminal: "carammmba! esqueci que não tenho dinheiro!" 

Enfrenta o frio e o vento em direção à casa. No caminho: "ah! preciso fazer a compra de comida pro jantar" ... "Ai!" esqueci de novo que não tenho..."

Vento forte, cabeça dói, zólho, zorelha, zovido, penso se não seria melhor tentar algum analgésico mas.... "Cacillllda! Estou sem..."

Três, quatro, cinco, seis quadras, vento de voar mamona e a promessa de cozinhar pra amiga sueca grávida e cheia de vômitos? "Não posso!, não estou com a porcaria do..." OK! telefona, explica... hej då!" 

Anda, anda e nunca chega. "Raios! Eu deveria comprar um remédio pra memória!" "Ah! esqueci! sempre fui assim! E piora quando tô com fome!". 

Que jeito? Só indo pra casa! Ok! chego em casa com fome, com dor de cabeça, com o "zovido" tinindo, sem comida, sem o remédio e sem paciência para sair e enfrentar tudo de novo nos próximos trinta minutos. 

Tá bom! vida na Suécia não é fácil, mas pra quem é pancada e esquecida de vez em quando fica um pouquinho mais complicado!


22 março 2009

Vang Gogh e as pinceladas que hoje falam por si mesmas

(Vaso com quinze girassóis, Vincent Vang Gogh, 1889, Museu Van Gogh, Amsterdã)


“Meus estudos não têm para mim nenhuma razão de ser além de uma
espécie de ginástica para subir e descer nos tons [...]”
(Cartas a Théo, Vincent Van Gogh)


O silêncio de vocês nos comentários sobre o segundo post da série "O que você vê nesta obra" foi bastante significativo.

Ao escolher o Michael Kvium para a primeira pintura da série e saber que se tratava de uma obra pouco conhecida e também polêmica, fiquei em dúvida se deveria alternar com outras menos "chocantes" e, de certa maneira, mais "suaves".

Eu sei que dizer que o holandês Vang Gogh pode ser "suave" é quase um palavrão. E é! o que quero dizer é que se Van Gogh foi extremamente contestador em sua época e ajudou a inaugurar uma forma totalmente nova de pintar,  com experimentações de cores, com pinceladas carregadas de tinta, sem preocupação com retrato fiel da realidade, se ele pensou que uma pintura poderia ser sentida através da expressão de cores da paleta e isso fez com que ele vendesse apenas um quadro em vida, hoje isso é totalmente diferente.

Nossa geração cresceu vendo as telas fauvistas, impressionistas e expressionsitas. Por essa razão a super Lilás, a solitária e brava leitora que comentou o post, disse que "com certeza" ela teria um quadro do Vang Gogh em casa. O gênio das cores tornou-se agradável ao nosso olhar, porque aprendemos a vê-los com outros olhos e com outro tipo de experiências sensoriais. Vemos o pintor com olhos de quem olha e vê um gênio, não alguém que não sabia pintar, ao contrário do que se via na sua época, porque estamos "mais preparados" para ver algo fora das convenções na pintura e na arte em geral.


(A Igreja de Auvers-sur-Oise em duas perspectivas: a de Vang Gogh e a real, captada pela fotografia)

Na pintura da Igreja em Auvers-sur-Oise, de 1890, que pertence ao Museu D´Orsay, em Paris, a gente pode notar um contraste muito forte entre o azul do céu com os amarelos e os verdes do chão. A Igreja, com uma gama enorme de tons pastéis ou amarelados, tem um dos seus tetos em vermelho. Oras bolas por que esse vermelho chocante em apenas um dos telhados? Porque não é a Igreja e sua cor original o que importava a Vang Gogh passar para a tela, mas como o aquele vermelho em contraste com as outras cores do quadro poderia causar a quem contemplasse a pintura de sua Igreja. 

Quando você vê esta tela pessoalmente pode notar uma "tonelada" de tinta no tecido. A espessura do quadro é alta, tal qual o "Vaso com quinze girassóis", do Museum Van Gogh de Amsterdã. 

Eu visitei esses museus em anos diferentes. A Igreja, em Paris, acho que em 2002, depois os Girassóis, em Amsterdã, em 2006, mas a sensação que tive diante das duas telas foi muito parecida. As cores usadas pelo sensível Vincent tem tanta vida que saltam da tela. Dos girassóis o próprio Vang Gogh fez inúmeras versões, uma das quais eu também vi no National Gallery, em Londres, mas que não me causou o mesmo impacto que a de Amsterdã. Dizem que a mais famosa é a de Munique, então eu não imagino o que me espera se ainda houver um vaso de girassóis melhor do que aquele da Holanda.

A tela da Igreja não é grande, mas a gente tem essa impressão diante dela. As pinceladas ondulais dão uma sensação de que ela está se movimentando no ar. Fiquei parada durante uma eternidade só olhando, olhando, sentada num banquinho do museu, enquanto milhares de turistas passavam por ela fotografando e filmando.

Em Amsterdã, esse "choque" de emoções foi por conta dos muitos tons amarelos usados no "Vaso com girassóis". Há um contraste fortíssimo entre cada pétala e outra dos girassóis e as cores são tão intensas quanto o pintor que as pintou. 

Em um livro de bolso lindíssimo, "Cartas a Théo", que você pode comprar em qualquer banca de jornal (e que alguém que já nao me lembro emprestou de mim e nunca me devolveu), a gente pode ler as cartas que Van Gogh escreveu, durante décadas, a seu irmão. Nelas ele esmiúça o uso que faz das cores, e relata suas experiências ora bem sucedidas, ora frustradas. Van Gogh tinha uma ansiedade excessiva e, ao mesmo tempo, encantadora com a escolha ideal das tonalidades e essa era uma característica também de outros pintores de seu tempo. 


"Continuo sempre à procura do azul. As figuras de camponeses, aqui, em regra geral,
são azuis. No trigo maduro, ou destacando-se sobre as folhas secas de uma ala de
faias, de forma que os matizes escalonados de azul escuro e de azul-claro recobram
vida e passam a expressar-se opondo-se aos tons dourados ou aos castanhosvermelhos"
(Cartas a Théo, Vincent Vang gogh, L&M Editores, 1997,  p. 73)


Portanto, o silêncio de vocês comprovou duas coisas: primeira, de que Don McLean, com sua arrepiante canção "Starry Starry Night" ("Noite estrelada", que você não pode deixar de ouvir, caso não conheça) está muito certo quanto afirma qual seria o espanto daqueles que não entenderam Vang Gogh em sua época, se agora vivessem e comprovassem quão gênio ele era. Segundo, o silêncio comprova também uma frase dita por Tadeu Chiarelli, professor e crítico de arte, em minha defesa de tese: ele disse que já na época de Anita Malfatti, 1915 e 1916, quando ela pintou algumas telas inspiradas também em Vang Gogh, o impressionismo e o fauvismo estavam consagrados pelo mundo da arte. Isso me fez pensar que talvez trazer os mestres do "passado", ainda que próximo, não vai ajudar muito na seção "O que você vê nesta tela?" porque nosso olho, acostumado que está, não terá desejo de pensar muito a respeito.

Talvez a gente tenha quando diante da tela num museu, ou para alguém que trabalhe com arte, como eu, mas acho que aqui para o blog, fica mais interessante trazer telas contemporâneas, ou então, bem polêmicas que dêem o que pensar, ver e falar. 

Sendo assim, vai no próximo post um novo quadro para apreciação de vocês na seção "O que você vê nessa tela? Assim como os outros dos quais falei, esse também vi pessoalmente em Copenhaguem. Creio que falar de uma tela que eu tenha visto ao vivo seja mais interessante porque posso fugir das peças que o google e a internet prepara. 

Enjoy it!


20 março 2009

"Quero te dar todo meu amor", celebrando a imperfeição de todos os dias

("Ahhhhh, eu te amo! Ahhhh, eu te amo meu amor!", meu sangue fervendo ao som de Sidney Magal, no meu 38o. aniversário, Malmö, março de 2009)

Eu tenho uma amiga sueca, a Paulina, que é o tipo de pessoa que, olhando, parece perfeita. Eu a conheci quando o Ângelo era pequenininho no grupo de mães e o bebê dela, Kian, é um dia mais novo que o meu. 

A Paulina é lindona, daquelas loiras suecas altonas, educada, finérrima (do tipo que fala baixo, espera a vez para falar e sempre ouve você com atenção), calma, sem contar que é muito madura e experiente para os seus 28 anos. 

Ainda em 2007, ela convidou todas as mães para um café na casa dela e lá fui eu. Correndo feito louca para dar conta do bebê novinho, da casa, das noites mal dormidas, com toda a vida de cabeça para baixo, eu toquei a campainha. A porta se abriu e eu engoli um: "Óh, caramba! não acredito!"

Impecavelmente calma e linda, com seu bebê quietinho no cestinho no chão, ela recebeu a mim e todo mundo com sua casa, invejavelmente arrumada. Percebi que ela era o tipo mais que sueca. A única coisa que ela tinha que eu não tinha era uma moça que arrumava a casa para ela de quinze em quinze dias, mas mesmo assim não era para tanta diferença.

Com o tempo percebi que ela não era assim tão perfeita, claro! Também estava enlouquecida com o bebê acordando a noite toda para mamar, se matava para manter ordem na vida e tinha dúvidas cruéis como todas as outras. Nos aproximamos muito e antes de ontem ela estava aqui na minha comemoração de aniversário. Junto, mais a Xu, a Ângela, a Jéssica, Josephine, Nikol e a Ju.


(Uma das poucas fotos da Reunião global em torno da mesa, já que as européias presentes não são muito a fins de fotos. Da ponta para a direita: Ju, Ângela, eu, Nikol, Josephine, Paulina e Jéssica. Xu está atrás da câmera, Malmö, março de 2009)

Muito parecido com o meu primeiro café para as mães suecas no ano de 2007, foi minha recepção para as amigas neste aniversário. Eu corri o dia inteiro atrás do preju, feito louca e eu tentei ser organizada suficiente para, quem sabe, dar conta do recado sem a super ajuda do Renato que estava pras bandas do México. 

Mas foi bem descabeladinha e sujismundinha que eu abri a porta para a Paulina e todas as outras queridas amigas que vieram me dar um abraço. Dei conta de muita coisa, mas meu neném ainda resmungava para dormir, a casa arrumada ainda estava sem os pratos e tudo mais na mesa, e as convidadas me ajudaram no que faltava.

A cada uma que chegava eu pensava: "putz grila! quando eu serei alguém razoavelmente não maluca?". Devo ter voltado três vezes ao mercado, porque esquecia sempre algum item, contei o número errado de pratos e blábláblá. A verdade é que, por alguns instantes, me senti assim "fracassada", desapontada comigo mesma. 

Foi então, antes de um banho de 2 minutos, que ainda recebi o telefonema de minha amiga Daníssima, que vive na Suíça, e do meu Renato. Me arrumei correndo e fui pra sala, quando elas todas estavam felizes da vida e brindaram o meu aniversário ao som de um... buááááá...

Percebi que só aquele momento eu tinha tido uns segundos para começar meu chororô de aniversariante, sagrado desde que me conheço por gente. A noite correu deliciosa. A conversa muito boa: dança, risadas, confissões e comilança. 

Fui percebendo o quanto ridícula eu estava sendo até então. Não porque eu estava "felosa" para receber convidados, mas porque a idéia de "estar perfeita" era absurdamente infantil. Minhas amigas sabiam de quanto eu enfrentara no dia para preparar a festinha e eu também deveria saber. 


(Comemoração virtual cheia de sentimentos muito reais, meus sobrinhos Júnior e Luana com minha mãezinha Maria, Sumaré, março de 2009)

Ajudou muito, quando a Xu me disse assim: "mulher, sua casa está impecável, só não vai dar uma de perfeccionista". Nessa hora eu caí em mim e fui lembrando do dia que começara com minha mãe e sobrinhos, Luana e Júnior, cantando parabéns com um bolinho, velas e flores do outro lado do skype. Eu havia segurado o choro, mas não segurei a noite. 

A falta do abraço da família, dos amigos e do marido havia pesado muito e eu estava sendo mais severa comigo mesma do que deveria. 

Fiquei matutando o quanto a gente é idiota com essa coisa de perfeição. E percebi claramente o quanto a minha amiga Paulina não é perfeita, mas o quanto ela, tanto quanto eu, tenta SER perfeita. Concluí, ainda, que PARECER perfeitos é algo que quase todo mundo que conheço tenta fazer o tempo todo, algo que consome uma energia tremenda. 

Depois da alegria e da amizade gostosa que cobriu a noite e me tirou a tristeza de não celebrar com outros amores da minha vida, eu fiquei toda feliz aqui, quando as amigas se retiraram a noitão. Pensei e reconheci em como minha vida - e eu - já é mais ou menos "perfeita". E talvez exatamente porque eu saiba que tenho tantos motivos maravilhosos para agradecer mais um ano de vida, eu busque maneiras de deixar registrada essa "vida imperfeitamente perfeita" da qual me orgulho. Ando achando, inclusive, que isso provavelmente explique o fato da gente sempre pegar alguns símbolos que marquem essa perfeição e tentar colocá-los para os outros.


("O meu sangue ferve por você!!!!", eu, dançando meu companheiro de festas, Sidney Magal, Malmö, março de 2009)


Livros e palavras difíceis para provar que somos uau! mega inteligentes. Frases de efeito, de crítica a qualquer custo, para parecer modernos e descolados. Santinhos ou símbolos religiosos para mostrar nossa santidade e como merecemos o céu. Jóias, roupas e bugigangas caras para não deixar dúvida de que o que temos, já revela quem devemos ser. Ou um descuido consigo mesmo e crítica para com o outro, para talvez conseguir apontar o cisco no olho do outro, encobrindo assim nossa entrave. 

Sei lá! Pensei muito na noite do meu aniversário como eu, como nós seres humanos, reles mortais, somos bobinhos bobinhos. E mesmo quem eu conheço que pareça a pessoa mais desapegada e prafrentex que eu imagine tem suas fraquezas simbólicas e suas tentativas incansáveis de parecer alguma coisa e esconder outras que, no fundo, são as que mais dizem sobre quem elas são. A imagem que criamos de nós mesmos e que tentamos deixar na história, como as fotos legais que selecionamos de um aniversário, é sempre uma imagem irreal. Ela não é falsa, porque contém um tanto daquilo que somos, mas ela possui tanta de fantasia, quanto tem de realidade.

Eu não estou dizendo que símbolos não sejam importantes, eu estou dizendo que analisar os nossos próprios símbolos e revê.los sempre é essencial. Se eu tomar, por exemplo, os presentes inesquecíveis que ganhei na noite passada de minhas amigas daqui dá para mais ou menos perceber que tipo de pessoa eu sou, mas dá, do mesmo modo, para traduzir um pouco do que cada uma é. Um livro incrível sobre a vida de Maria Larsson, com autógrafo de Jan Troell (da Xu que adora dar alegria a quem ela ama), um jogo de xícara com uma tela do Picasso (da Jéssica que valoriza a formação intelectual de quem ela conhece), cremes incríveis para deixar qualquer uma lindona (da Ângela que é super cuidadosa com o corpo e saúde), flores delicadas (da Josephine, uma oriental típica e reservada), decoração com design assinado (da Paulina) e roupa descolada (da ex-gerente do mundo fashion, Nikol). O modo como cada uma cuidou de buscar um presente para mim diz tanto sobre elas que eu as conheço melhor depois da noite de meu aniversário. 

Me lembro de um amigo prá lá de especial, Mansur (Pe. Mansur, da época em que eu questionava meu "perfeito" passado carola) que um dia me disse assim: "Soninha, Soninha, é bom você não querer ser escrava de ideais religiosos, só tome cuidado porque qualquer filosofia, ou filosofias de vida tem lá seus chicotinhos!"

Meu amigo já se foi, acidental e inesperadamente, mas eu sei que, desde então, fico sempre a espreita de que chicotinho estou tentando usar contra mim mesma. Nesse aniversário, graças a mais um ano de vida vivido, eu percebi mais um e vou tentar cortá-lo imediatamente, porque eu não quero cortar nada de valor em mim mesma só para ficar mais próxima de um ideal irreal de perfeição.


Brigadão! Tack så mycket! Thank you!


Eu estou obrigadíssima e obrigadérrima a retruibuir tanto carinho (ainda que um pouco forçado por mim mesma) recebido no último post!

Os recados me deram um ânimo gostoso durante o dia, enquanto eu ia lendo na correria do meu dia aqui. A maioria de gente já "conhecida" e alguns que eu ainda não tinha tido o prazer!

Obrigada, de coração "pra coração" lálálá...

De verdade, adorei!

E também adorei os recados que lotaram meu orkut, embora eu não merecesse, já que nunca mais nem apareci por lá.

Obrigado, obrigado, obrigado e beijos alegres nas bochechas de todos vocês!

17 março 2009

Amanhã é meu aniversário! Aproveita e me manda um oi, um beijo, um queijo...

(Pintura de Marisa Haedike, do blog "Creative Thursday" , de quem sou fã)


Amanhã, dia 18 de março, é meu aniversário.
Eu sou o tipo que leva a sério as datas especiais e eu sinceramente acho que o dia que eu nasci é uma data especial, tem de ser ao menos para mim.

Mesmo que eu não me force para isso, depois de acordar, sempre começo a recordar momentos importantes pelos quais passei e fico lá toda sentimentalóide e feliz. Eu gosto desses balanços, eu gosto de perceber em que ponto estou e me pôr como prioridade do dia. E gosto de pensar que eu fui um presente bem importante de aniversário de minha mãezinha no 18 de março de 1971, quando ela me ganhou um dia antes de seu próprio aniversário. 

É estranho como me sinto cheia de inspiração, algo que agora, por exemplo, eu não consigo ter. Não consigo falar coisas bonitas antes da hora. Amanhã talvez. Hoje vim aqui só para lembrar você de me mandar um beijo, um oi, de me dar de presente a sua presença um abraço, sei lá o que você quiser. Eu deixo!

Amanhã, ao contrário do ano passado, que eu e Ângelo enfrentamos negativos e neve em Copenhaguem para celebrar minha data, esse ano não tem chance de nevar, a temperatura está mais agradável e hoje o dia estava lindão e inspirador, apesar do frio cortante. Entretanto, não terei nem minha mãezinha, irmãos, sobrinhos, cunhadas, sogros, amigos e amigas brasileiros por perto. Não terei nem mesmo meu Renato querido que está mais perto de vocês do que de mim, aí cantando "la cucaracha" no México. 

Mas se não tenho tanta gente que amo estou muito feliz de poder receber oito das melhores amigas que fiz aqui, desde que cheguei. Elas virão amanhã celebrar com uns vinhos, umas caipirinhas e muita conversa boa e celebrar meio assim que "entre o mundo" (são amigas do Brasil, da Alemanha, Suécia e Polônia) é algo que eu com certeza irei recordar para sempre. 

No final do inverno passado eu ainda não sabia que a primavera me prometeria tantas amizades fiéis e gostosas. Andei por muitos lugares aqui e fui cavando conversa com gente boa. Acho que o ditado popular está bem certo: colhe-se o que se planta.

E eu me orgulho muito do que tenho colhido, seja na Suécia, seja neste espaço borboletístico onde a gente sempre se encontra.

Então vai! cadê meu beijo?


16 março 2009

Uma obra de arte ou mil palavras? a Igreja de Van Gogh

("A Igreja em Auvers-sur-Oise", Vincent Vang Gogh, 1890)


Continuando a seção "O que você vê nessa obra?", essa semana a gente tem uma tela de Van Gogh.

Esse quadro pertence ao Museu D´Orsay, em Paris, e foi pintado pelo artista no ano de 1890. 
Em óleo sobre tela, mede 74cm x 94cm. 

Está aqui para que a gente se delicie com as discussões!

Lembrando que a intenção não é que a gente faça grandes pesquisas para escrever o que acha aqui, mas que se deixe levar apenas - e tão somente - pela pintura. Deixar levar-se por esta pintura que está aqui, pois se você conseguir, inclusive, abstrair o que sabe de Van Gogh num primeiro momento, isso é ideal. 

Você pode falar o que vê, o que sente, enquanto olha para a pintura. E claro! também pode acrescentar o que essa leitura pode ter a ver com outras pinturas que por acaso conheça do pintor e o que sabe da vida dele. 

Agora é com você!


O talento inato de mestre Ângelo para as artes

Artes Plásticas

("Não mamãe! mais!", Ângelo no salão para crianças do Louisiana Museum, Humlebæk, Dinamarca, março de 2009)

Provando seu talento para as artes plásticas, Mestre Ângelo inspirou-se na obra de Max Ernst, artista sobre o qual havia uma enorme exposição no Louisiana Museum, e produziu duas obras com uso e abuso dos tons de azul.


("Não mamãe! maia! - que quer dizer mamadeira)

Usando material alternativo, como leite em pó, ele produziu uma obra baseada em tons de branco na cozinha de sua casa. A produção é um sinal de contravenção claro à frase dita por sua mãe: "agora não é hora de mamá, é hora de papá!"


("Não mamãe! cópo", Ângelo, Malmö, fevereiro de 2009)

Aqui mais uma mostra da facilidade do mestre das artes em trabalhar com materiais diversos, enquanto pensa a questão do movimento: purê de batata e almôndegas do prato para o copo e do copo para o prato. 


("Não mamãe! ábua!", Ângelo no parquinho perto de casa, Malmö, março de 2009)


E finalmente o uso da argila na produção de esculturas. Mestre Ângelo gosta de sentir a textura do barro antes de iniciar qualquer trabalho. 



Artes Cênicas

("Não mamãe! Súbi!", Ângelo escalando as cadeiras da casa, Malmö, fevereiro de 2009)


Apesar de sua fama ser grande nas artes plásticas, Mestre Ângelo coleciona prêmios também nas artes cênicas. São frequentes os pedidos de turistas estrangeiros (japoneses, chineses e indianos estão entre os casos já ocorridos), em visita a Malmö, que pedem para tirar uma fotografia ao seu lado. Sorridente, ele faz todas as poses e prova realmente gostar de seu trabalho.


("Não mamãe!, papá!")


Aqui, ele finge ser um chef de cozinha preparando "bullar, batata, êvilha, bolóqui, caini" etc para os avós do outro lado do computador. 


("Hummmm, mamãe! mais bóloqui!")


Nesta cena é possível vê-lo num comercial de margarinas suecas, comendo muitas gramas de brócolis e pedindo mais. O artista tem como princípio agir mais naturalmente possível em todas suas atuações. E ele realmente convence muito.


("Ângelo dá um oi  para a mamãe tirar a foto!", Malmö, março de 2009)

Numa de suas milhares de poses "garoto propaganda" para a Revista Corujas, na edição especial para a Calvin Klein. 

13 março 2009

Há beleza em pintar o feio? Uma reflexão sobre a arte de Michael Kvium

(O artista dinamarquês Michael Kvium, para quem a homem ainda está num pântano, diante de uma de suas telas. Foto: Aros)


A primeira vez que tive contato com uma pintura de Michael Kvium foi apenas há algumas semanas atrás, quando visitei o Statens Museum, em Copenhaguem. 

Entre inúmeras outras telas de artistas dinamarqueses, expostas numa sala especial, estava "Cena de Rodeio", a qual chamou demais minha atenção. Primeiro, o choque. O enorme quadro trazia uma mulher "monstro", nua, grande e gorda, numa situação de submissão e cujo rosto e olhos mostravam grande sofrimento. 

Sentei-me em frente àquela imagem e escrevi algumas linhas sobre o que via. Anotei dados do quadro e do pintor e fiquei com duas fortes idéias na cabeça: 1. que a obra de arte pode falar mais do que muitas milhares de palavras e 2. se for boa conseguirá fazer com que quase todos que a vejam sintam e pensem coisas muito semelhantes. Naquele momento eu acreditei que Michael Kvium me dizia certas coisas a partir de sua pintura que ele diria a qualquer outro que por ali passasse. 

Foi a busca por compartilhar minha descoberta sobre o pintor e tentar constatar essas idéias que levou-me a reproduzir a tela aqui no blog e a criar a seção "O que você vê nessa obra?", na qual muitos de vocês participaram enviando comentários reflexivos e interessantes, o que foi muito legal mesmo da parte de vocês.


(Michaek Kvium, Cena de Rodeio, 1995)

Após os comentários, eu busquei informações sobre Michael Kvium, sobre sua obra em geral e sobre a pintura em questão. Mesmo a net não sendo a via mais adequada para se apreciar obra de arte, pesquisei outras obras de Kvium, sobretudo as que foram produzidas em datas não muito distantes. Olhei com calma cada uma que encontrei e tentei analisá-las separadas e, também, juntas. Li também dezenas de artigos, a maioria em dinamarquês (que traduzi com ajuda do google e dos meus poucos conhecimentos de sueco) e alguns outros em inglês. 

Talvez vocês pensem que eu esteja levando a sério demais uma "brincadeira" do blog ou aquela tela "feia", como alguns de vocês acharam, que coloquei aqui, mas a verdade é que eu me interessei demais pela obra do artista. Encontrei material muito mais vasto e interessante do que imaginava quando pesquisava e isso foi muito bom para mim. Rendeu-me material e idéias não só para este post, mas para trabalho posterior. Além disso, eu me empolgo mesmo porque esse é meu "trabalho" e é isso que eu espero fazer melhor e melhor, quando voltar ao Brasil ou por onde estiver, como professora, crítica de arte, ou o que seja. 


Sobre os comentários feitos à tela "Cena de Rodeio" 

Primeiro, deixa eu lembrar que cada um pode e tem o direito de ver na tela o que bem entender. A leitura da obra de arte é livre. Você pode amá-la ou odiá-la. E cada qual pode ter razões muito diferentes para isso. 

Por outro lado, se essa leitura subjetiva que cada um pode fazer da obra é rica e livre, ela não é capaz de dizer sozinha se uma obra, uma pintura como "Cena de rodeio", é ou não uma obra de arte. É preciso que a gente se atenha com bastante atenção em como a tela é pintada e o que pode estar por trás desse nosso "gosto! não gosto!". Os porquês, buscados ali na pintura mesmo, é que podem nos ajudar a ver o valor (ou não) da obra do pintor da cena de rodeio. 

Nas leituras de vocês houve um quase consenso. A maioria achou que a mulher estava sendo retratada de forma grotesca, feia e submissa. Alguns sugeriram que essa seria a visão que o mundo masculino tem da mulher e que o quadro passava sentimentos como dor, sofrimento, submissão, poder. Mais de um disse que o pintor queria discutir a questão do mundo masculino e do mundo feminino, o que também foi bem interessante. Poucos de vocês deram detalhes da pintura, em si, o que me ajudaria a entender melhor porque é que vocês estavam vendo x ou y na tela. Vejam como exemplo a análise da Daniela: 

"...Me chama a atenção a diferença de tamanho dos dois personagens e o papel que eles representam. Poderia dizer que este quadro simboliza a dominação do homem em relação a mulher."

Embora eu possa chegar a uma conclusão diferente observando o mesmo detalhe, o legal é pensar que quanto mais explicamos o que estamos vendo ali exposto na pintura é que conseguimos chegar mais perto do que realmente ela seja. Por isso, analisar como a Dani normalmente ajuda ainda mais. 

O tamanho da mulher também me chamou muito a atenção, mas minha leitura lá no Museu, no primeiro momento que vi a pintura, foi por uma outra via. Não estou afirmando que ela é a correta, mas vou tentar expô-la e relacioná-la com o que vi depois nas outras telas do artista, para ver se consigo entrar melhor em "Cena de rodeio". 

Se pensarmos nessa mulher como sendo mãe e na figura masculina pequenina, brincando em cima dela, como seu filho, eu acredito que dá para dar conta de muitos detalhes do quadro. De fato a mulher é enorme porque seu papel incluiria muito mais responsabilidade, conhecimento, autoridade do que a do filho que ela carrega ali nas costas. O menino, quem deveria receber e tentar seguir as regras da mãe, dominou completamente a cena do rodeio. Os papéis e a autoridade estão tão invertidos que a mãe, animalizada, literalmente montada pela criança, não consegue ter ânimo sequer de olhar acima e reagir. 

Estaria Michael Kvium trazendo a questão das psicologias infantis, muito difundidas nos anos 90, e o paradoxo que se tornou a sociedade moderna, quando se sente perdida dentre as próprias regras que criou, como liberdade, diálogo, autonomia etc?  

A mulher alí simboliza apenas uma mãe sem poder diante do poder e das exigências de seu filho mimado? Ou ela simboliza mais? Talvez a sociedade moderna (ser feminino), sobre a qual Kvium quer refletir, diante dos problemas e domínios que parecem pequenos, mas que distorcem os ideias que essa mesma sociedade criou?

Talvez. Eu gosto bastante da leitura da maternidade e do conflito entre responsabilidade, amor e ódio num relacionamento amoroso. 

Também é bem possível pensar, como a Fátima e outros de vocês sugeriram, que o quadro é uma representação do domínio do homem sobre a mulher na sociedade. É possível, neste caso, olhar para a sombra refletida no palco do rodeio para perceber como lá as duas figuras não são tão desproporcionais assim. Elas passam a ter o mesmo tamanho, mas a mulher perde sua humanidade, ela se torna um animal. Dominada, subjugada ao aspecto sexual ela perde seu valor e se torna tão vítima inocente quanto os animais dominados pelo homem, como lembrou a Suyaen. 

Talvez por tudo que represente e pela forma como Kvium expôs a mulher na tela, seja mesmo uma obra difícil de pensar em ter numa sala de estar, como lembrou a Lilás, mas o valor da obra é inegável bem como a importância do pintor para a arte contemporânea. Não conseguir tê-la facilmente decorando nossa sala pode ser ainda mais um valor que se some à pintura, já que a intenção de Kvium era mais que criar algo para agradar, mas para desagradar e questionar intecionalmente.





Pintura espelho: reconhecer o grotesco nas ações diárias

Fazendo uma análise rápida do estilo de Kvium eu chamaria atenção para o fato de que suas pinturas, apesar de contemporâneas, são realistas. Nós reconhecemos facilmente a mulher, a figura masculina etc. Kvium usa um realismo diferente para expressar o que quer. Ele exagera nos traços que quer ressaltar e cria um aspecto meio fantasioso para seu personagem. Ele não retrata a realidade, mas ele usa técnicas de pintura usadas pelos artistas do barroco, como Goya, por exemplo, para dar dramaticidade ao tema que quer tratar. Eu li num artigo que Kvium segue também a linha do espanhol Velásquez, mas eu não consegui ver isso nas telas que encontrei, a não ser talvez nas cores de algumas delas. Eu reconheci muito a obra de Francisco Goya. E me lembro que o choque que tive diante de telas de Goya, no Museu do Prado, em Madrid (o primeiro museu internacional que visitei há alguns anos atrás), foi muito parecido com o que tive frente a Kvium, embora de proporção maior. 

Dêem uma olhada na tela do espanhol e depois na do dinamarquês. A inspiração de Kvium parece ter sido claramente o "Saturno" de Goya. Com as devidas diferenças, Kvium busca na memória da história da arte a dramaticidade e a controvérsia que Goya conseguiu com sua tela para compor a sua. É claro que seu objetivo não é tratar de mitologia, mas a vida mais que real, diariamente experimentada por homens e mulheres, embora quase sempre negada como inexistente.




("Saturno devora seu filho", Francisco Goya, 1820)


("Uma cena de cozinha, Michael Kvium, 1986)

Essa outra tela de Kvium é ainda mais chocante e dramática do que "Cena de rodeio". Quando encontrei-a em alguns sites ela me pareceu confirmar minha tese de que Kvium está pensando as relações humanas dentro de casa, em particular, as conturbadas e ambíguas relações entre pais e filhos, mulher e marido (ou homem e mulher, se preferirem). 

Acho que é possível fazer uma leitura conjunta de "Cena de rodeio", "Uma cena de cozinha", "Mãe" e "Uma cena de depressão" feitas entre 1986 e 1995. Em todas elas há o que é intolerável num relacionamento familiar: o desrespeito e autoritarismo, a violência, o abuso sexual e abuso do poder, a falta de motivação e desespero. Nessas cenas, Kvium parece querer chamar atenção para esses estreitos, mas frágeis laços que unem os seres humanos próximos. 

Ele mesmo, em entrevista, disse que em sua casa, onde a mãe e o pai eram intelectuais, nunca se falava, não havia uma relação forte de carinho e demonstração afetiva. Em certos momentos, ele sentia que podia fazer tudo enquanto criança, porque não havia ninguém para lhe impor regras. 

Acabei também encontrando em algumas outras entrevistas dadas por ele no qual ele afirma que seus quadros "são como um mergulho profundo num pesadelo", porque ele não pinta algo que as pessoas não saibam do que se trata, elas reconhecem, de algum modo, o que está ali, porque, lá no fundo, esse mundo de horrores também faz parte do cotidiano delas. 



("Mãe", Michael Kvium, 1986)

Kvium faz questão de pôr à mostra aqueles defeitos, culpas e ações as quais cometemos, mas dos quais não temos orgulho e preferimos "varrer pôr baixo do tapete". Kvium expõem o defeito e o feio do ser humano na esperança que isso o torne melhor.

Kvium diz que sua arte é uma arte que quer dizer "não devemos deixar de olhar criticamente todo o mundo a nossa volta". Ele afirma estar preocupado com as condições que o desenvolvimento cultural, social e político da humanidade criaram para nós. O que ele vê são tendências no sentido de uma crescente insensibilidade moral e emocional, sexualidade desenfreada, má consciência coletiva, solidão existencial e pavor e um irresponsável e quase auto-destrutiva devastação do ambiente da qual somos parte". 

O artista não está sozinho nisso tudo. Michael Kvium fez parte, nos anos 90, de um grupo de artistas dinamarqueses, o Eyegoblack, que rodou o mundo, inclusive o Brasil, expondo seus trabalhos que tinham em comum essa leitura subjetiva do mundo interior dos indivíduos. 

Michael Kvium se destacava com seus personagens grotescos e não deixava de assustar os que por suas telas passavam, mas, para ele, não há segred. Seu trabalho baseia-se no reconhecimento e, embora possamos achar que sua pintura seja chocante, "a realidade é mil vezes pior. Olhe para todas as atrocidades que os seres humanos cometem", diz ele. Por que então fazer de conta que elas não existem?

Depois de ver "Cena de Rodeio" e essas outras telas de Kvium e ouvir de vocês o que acharam da tela eu não sei se minhas teorias se sustentam de todo. Talvez um pouco. Acho que todas nós tivemos leituras na mesma direção. As diferenças têm a ver com a experiência de cada um e sua história. 

Diante disso tudo a gente poderia perguntar: por que então pintar aquilo que é feio e sem mérito no ser humano? 

Entre as razões de Michael Kvium está o desejo de que suas "imagens consigam fazer com que nós nos perguntemos quem somos, fazendo com que olhemos para o quão grotescas são nossas ações."

(Uma cena de depressão, Michael Kvium, 1987)


Talvez o artista pense assim porque só reconhecendo nossos defeitos e fraquezas é que há esperança de realmente nos tornarmos mais bonitos e fortes. Talvez ainda porque, lá no fundo, nós também sejamos a criatura bonita e forte que a Irene afirmou que viu na tela, mas porque 
nossas ações em resposta às ações do outro, e vice-versa, seja o que danifique essa imagem. 

...

(perdoem o tamanho do post, eu me empolguei muito, mas prometo me podar mais na próxima...rs)

11 março 2009

Internet que falha, falha, falh


Só para avisar vocês que estou tendo problemas com minha rede wireless aqui. Não sei exatamente o que é, mas não tenho conseguido acessar o blogger para escrever novos posts ou responder os comentários. 

O mesmo tem acontecido quando eu tento postar comentários em blogs amigos e também para falar pelo skype etc. Não tenho certeza de onde esteja realmente a falha, já que eu consigo receber emails pelo gmail, incluindo os comentários do blog que recebo por lá, por isso eles estão sendo publicados.

Não vou me alongar. Nesse minuto minha rede está funcionando e vai esse post correndinho... 
Mais tarde vou tentar um novo post novamente. 

Beijocas e saudades!

08 março 2009

Quando o olho não só vê, sente: sobre Maria Larsson e seus eternos momentos

(Cena do filme sueco "Maria Larssons eviga ögonblick")


"Foi num desses dias de neve aqui em Malmö que eu tive o prazer de ver o belíssimo, comovente e artístico filme de Jan Troell, Maria Larssons eviga ögonblick (Eternos momentos de Maria Larsson) no Biocentrum, em Limhamn.

O filme, lançado ano passado, conta a história real de Maria, uma dona de casa sueca que vivia em Gotemburgo no início de 1900. Pobre e noiva de Sigfrid, Maria tem a idéia de comprar um bilhete de loteria, cujo prêmio era uma câmera fotográfica. Os dois ganham a câmera no sorteio, mas é Maria quem fica com ela e a guarda com carinho em casa...
" (Trecho que inicia meu texto do mês, no Brassar)


Há umas duas semanas, minha amigona Xu (mais conhecida neste blog como Muié) me convidou para conhecermos um cinema super especial aqui em Malmö. O BioCentrum, em Limhamn, é famoso por ter toda semana uma sessão de filmes de Bollywood, isto é, da grande indústria cinematográfica da Índia.

A Xu tinha ido até lá com seu maridão Gus para tomar um café da manhã e tinham se encatando com o lugar. O dono, um jovem rapaz sueco, apaixonadíssimo por cinema e tudo relacionado ao assunto, é o responsável por reabrir o primeiro cinema de Malmö, que aliás estava fechado há mais de quarenta anos. O jovem dono é simpático, super informado a respeito do que mostra em seu cinema e muito animado.

Nas sessões de sexta, quando os filmes são indianos, ele se caracteriza para receber, um a um, dando boa noite, conversando pessoalmente com cada pessoa que em seu cinema se arrisca entrar.

Num desses sábado, então, fomos nós duas de manhãzinha, depois de várias noites de neve na cidade, ver um filme juntas. Gus viajando, Renato e Ângelo juntos em casa, nos demos ao direito desse "luxo" entre amigas. A paisagem estava lindíssima. O frio intenso. Eu e a Xu animadas e curiosas para ver um filme indiano pela primeira vez no cinema. Foi quando o rapaz simpático nos disse que naquela manhã o filme a ser exibido seria "Maria Larssons eviga ögonblick", do sueco Jan Troell.

-"Ui!", pensamos, preocupadas em não entender bolhufas nenhuma de um filme sueco, sem legendas.

Vencemos a surpresa inicial e lá entramos. A sala, que foi reformada preservando-se toda a arquitetura local, estava cheia de quadros com fotos em preto e branco. Sentindo como se fôssemos parte de uma história a gente se sentou, com mais umas oito pessoas que também haviam se arriscado naquela manhã fria.

O dono, de quem não consigo me lembrar o nome agora, nos apresentou o filme e apresentou-nos ("as amigas brasileiras") a quem estava lá. Após isso, o tempo que se passou foi uma experiência maravilhosa. Se não entendemos muito das falas ditas, nós compreendemos perfeitamente a linguagem do diretor e da personagem Maria.

Para completar, o mocinho sueco ainda contou-nos a história das fotos que ali estavam. Além das várias reproduções ampliadas de Maria Larsson ele também nos mostrou originais numa caixa de vidro.

Ver "Maria Larssons eviga ögonblick" abriu meu horizonte para muitas coisas, duas delas, com certeza são que eu devo assistir mais filmes suecos e acreditar na competência deles para as artes e que eu devo, com certeza, voltar ao Biocentrum de Limhamn com o Renato, com mais amigos e com a Xu. Experiências com gente assim e em lugares assim são pequenos momentos que eu quero guardar para sempre, como Maria fez com os seus.

Se você quer saber mais sobre o filme e sobre a vida de Maria Larsson você pode tentar ver o filme ou pode ver o segundo texto que meu que foi publicado no Brassar hoje. Espero que gostem da experiência tanto quanto eu!

Ótimo domingo!
...

ps: o post sobre Michael Kvium está levando mais tempo do que eu esperava. Além de eu ter tido uma semana muito cheia, me apaixonei tanto pelo artista e por seu trabalho quando fui pesquisar para escrever que ainda não consegui acabar. Assim que eu terminá-lo, ele vai pro ar! Desculpem!