25 fevereiro 2009

Uma obra de arte ou mil palavras? "Cena de Rodeio", de Michael Kvium

("Cena de Rodeio", Michael Kvium, 1995)


Essa é a primeira tela da seção "O que você vê nessa obra?".  
Fique a vontade para dar seu ponto de vista.
No domingo, apreciação geral e ponto de vista da Borboleta.

...

quinta-feira, 22:03

Li os comentários e fiquei animada com a participação. 
Aqui vai algumas dicas para vocês liberarem geral no comentário. Se estiver difícil dizer algo, porque não sabe por onde começar, tente pensar em respostas para algumas das seguintes perguntas:

- você gosta ou não desse quadro? por que?
- o que lhe chama mais a atenção?
- o que você vê na tela? descreva dizendo quem são os personagens na sua opinião.
- a cena lhe remete a algo que já conhece? o que é?
- o que o artista pode ter querido dizer com sua pintura?
- o que o título "Cena de Rodeio" pode dizer a respeito da cena pintada?
- pensando a data da obra é possível fazer outras relações?

Até mais!


Uma obra de arte ou mil palavras? O que você vê nessa pintura?

("O crítico na cadeira quente", Cena de uma peça do National's Theatre of Blood. Photograph: Keith Pattison, in: guardian)


Sexta-feira, como disse antes, fui a Copenhaguem. A capital dinamarquesa é "colada" a Malmö, sendo necessários apenas vinte minutos para atravessar a ponte que liga os dois países. 

Eu adoro ir a Copenhaguem. A cidade é uma das mais lindas que já conheci. Tem uma atmosfera deliciosa, é movimentada, mas é intimista ao mesmo tempo. Não sei explicar direito. É uma delícia!

Minha visita ao Statens Museum e também à galeria, me rendeu vontade de inaugurar uma seção no blog. Visitei umas três exposições, anotei coisas e rascunhei um ou outro futuro artigo. E se em cada ida a um bom museu eu volto pensando sobre alguma coisa, dessa vez foi a idéia senso comum, mas não sem verdade, do quanto uma obra de arte pode valer por muitas e muitas palavras. 

Eu acredito que principalmente para algumas obras de arte contemporâneas essa idéia não possa ser colocada, mas talvez para outras sim. Ou será que não?

De frente para algumas telas e esculturas eu fiquei pensando: "uau! Ele disse tudo!"... Depois fiquei matutando ainda se o que o artista havia "dito" para mim ele teria dito também para você, por exemplo.

Eu sei que a apreciação de uma obra de arte é sempre também subjetiva, mas sem a objetividade ela não pode ser considerada obra de arte. Eu quero dizer o seguinte: para que uma obra qualquer seja realmente boa, uma obra de arte, é preciso que ela consiga ter o resultado desejado pelo artista. Ela precisa comunicar algo. De preferência, comunicar aquilo que o seu agente criador tentou passar ao concebê-la.

E é dessa forma e por essa razão que eu lanço com vocês um desafio. Ou talvez uma proposta de experiência. Toda quarta-feira da semana, colocarei no blog uma obra de arte na seção "O que você vê nessa obra?" e deixarei até o domingo seguinte para apreciação, avaliação e comentários. Sintam-se a vontade para falar qualquer coisa, mesmo! O que vêem exatamente. Se amaram, odiaram, os porquês todos. Viajem na maionese! Falem daquele quadro da sua tia Osmirna que pintava uns cavalos super bonitinhos e comparem. Façam o que quiserem!

Lá no museu eu queria poder trocar idéias com alguém e não tinha jeito. Aqui a gente pode fazer isso. Vamos testar e ver se realmente essas obras falam por si. O quê o nosso olhar vê de semelhante e de diferente. O que trazemos de subjetivo na nossa avaliação e o que há na obra por si mesma. 

Eu não espero nenhum comentário suuuper elaborado. Ninguém espera. É conversa de café de museu, entende? "Nooossa! aquela obra lá! então! eu achei horrível (ou maravilhosa) porque...." 

Vocês topam???

Juram? Que demais! Eu sabia que poderia contar com a companhia de vocês para umas viagens dessas! Eu sabia que vocês não iriam me deixar numa dessas sozinha!

Então aqui vai! o próximo post é o primeiro "desafio". E no domingo eu escrevo a minha apreciação para vocês, reunindo os comentários feitos. Boa leitura!

Copenhaguem é e não é a cidade mais linda do mundo

(Panorâmica do Castelo de Rosenborg, Copenhaguem, fevereiro de 2009)


Gente, como não tô com tempo para organizar as fotos todas que tenho aqui no flickr, estou colocando um pouquinho do que tenho para compartilhar com a família, com os amigos e com vocês gente chegada numa boa prosa.

Nesse post, as fotos que tirei em Copenhaguem. São poucas, porque eu precisava deletar um tanto e o frio não me deixava ficar sem as luvas. Assim vocês podem ver como Copenhaguem é a cidade mais linda do mundo, embora ela não seja a cidade mais linda do mundo, já que têm outras várias que eu considero a cidade mais linda do mundo...

E para comparar, dêem uma olhada em alguns desses posts antigos, nos quais vocês podem comparar a paisagem dos mesmos lugares da cidade em outras estações...(E me digam se estão vendo direitinho as fotos desses posts, porque no meu micro em muitas só vejo um interrogação pequenininho, não sei o que é...)

"Non, Je ne Regrette rien", Copenhaguem, abril, 2008

"Se e somente se", Copenhaguem, março de 2008

"Qualquer canto", setembro de 2007


Um beijo e um queijo, como diz minha querida amiga Daníssima, moradora das Suíças.


(Professoras e "molecadinha" passeando pelo centro de Copenhaguem (o mesmo que o Ângelo faz toda quarta-feira, Copenhaguem, fevereiro de 2009)


(Castelo de Rosenborg, Copenhaguem, fevereiro de 2009)


(Alunos de várias escolas brincando na neve do Jardim Botânico, Copenhaguem, fevereiro de 2009)


(Jardim do Castelo de Rosenborg, Copenhaguem, fevereiro de 2009)

Lá onde eu moro...

(A rua de casa, Malmö, fevereiro de 2009)

Falando com minha mãe esses dias ela me contou que, de vez em quando, dá uma olhada na web cam que tenho do lado direito do blog. Nela é possível ver alguns pontos daqui de Malmö e, no caso de minha mãezita, sentir-se mais próximo à gente.

Isso me levou a olhar para essa foto que tirei na sexta-feira, quando saía para ir a Copenhaguem, e mostrar a rua de casa. Quem sabe tornar mais real esse troca virtual.

É uma rua sem saída. Tranquila, gostosa, bem típica dos centros das cidades suecas.  Fica entre um caminho cheio de árvores, com ciclovia ao lado, um colégio e algumas Igrejas. Apesar da rua estar colada a duas avenidas "movimentadas" para os padrões de Malmö dá para perceber pela foto que a vida aqui é uma tranquilidade só. 

A gente mora no finalzinho, lá perto da Mesquita e, como os outros moradores dos prédios todos ao lado, estacionamos o carro na rua mesmo. Em dia de neve é preciso raspar todo o gelo do carro, antes de entrar nele. Sem chorôrô.

Como os prédios são antigos, não há estacionamento neles e a gente tem um cartão (pago por mês) para deixar nos lugares vagos. Quem não tem precisa pagar diariamente, usando uma das duas máquinas que ficam nas calçadas. 

Por sorte usei o celular para registrar a nevezinha que começava naquele dia, porque hoje a cena é totalmente diferente. Sem o gelo que ficou bem maior no domingo, com chuva e 7 graus positivos no termômetro. Tuto diferente!

23 fevereiro 2009

Praia em Malmö a zero grau: delííícia!

(Ângelo e Renato, Praia em Ribesborg, Malmö, fevereiro de 2009)


O fim de semana estava bom que era uma beleza.
A temperatura? Ótima para pegar uma praia, aquela mesmo que a gente pegava no verão. E então, fomos estrear o "trenó" do Ângelo. 

Dá para brincar logo saindo de casa, no playground e qualquer lugar, mas o lugar mais bonito era Ribesborg, em frente à praia, há dez minutos de casa. Esse lugar, na verdade, é um monte de campos de futebol, verdinhos, verdinhos, no verão, onde o Renato joga com os suecos, dinamarqueses e muitos outros estrangeiros que por lá aparecem. 

O lugar é tão grande que mesmo com muitas outras crianças (nós não éramos os únicos pais malucos-corajosos-animados) brincando, a impressão era de que estávamos num lugar muuuito distante da cidade, sozinhos.

O Renato lembrou de como no Brasil o pessoal dizia que tava frio para ir à praia, porque tava fazendo só 25. Com sol o ano todo, a gente no Brasil exige mesmo muito calor para passear na praia. Uma das coisas bem legais de lugar frio é que a praia é um lugar para se ir o ano todo, curtir a natureza e estar a céu aberto. É só substituir os biquinis por umas roupinhas um pouco mais "pesadinhas" e tá tudo ótimo!

Até ontem, quando começou a chover e derreter toda a neve lindona que tava por aqui, a cidade era só branco. Hoje foi-se tudo e lembrei-me como é bom "carpe diem" enquanto ainda é tempo. 

Aqui vai uma sessão (meio longa) de fotos, inclusive porque as vovós e titias andam solicitando mais fotos do netinho aqui nesse blog.



"Bincá, papai!!!"

(Com o "Torso" ao fundo... Ângelo e Renato, Praia em Ribesborg, Malmö, fevereiro de 2009)


"A mamãe, carru!!!"

(Ângelo pedindo para a mamãe participar com ele, Praia em Ribesborg, Malmö, fevereiro de 2009)




"Uííí"!"

(Somnia curtindo o inverno adoiada, Praia em Ribesborg, Malmö, fevereiro de 2009)




(Ângelo, folgado que só!, Praia em Ribesborg, Malmö, fevereiro de 2009)


"Mamãe! Mais puchi! Ehhh"


(Agora entendi porque os cachorrinhos pucham os trenós na neve: com a neve tudo fica leve! Sônia e Ângelo, Praia em Ribesborg, Malmö, fevereiro de 2009)


"Uííí Ângelo!"

(Ângelo descendo sozinho a rampa de gelo. Deixou mãe e pai mega cuidadosos impressionados. Praia em Ribesborg, Malmö, fevereiro de 2009)


"Papai? Parô! Casa!"


("Ele já tá um meninão!". Refletiu o pai depois das peripécias do sábado. Ângelo e Renato, Praia em Ribesborg, Malmö, fevereiro de 2009)

Comentários e respostas


Gente boa, gente amiga,

Bom dia!

Só para dizer que os comentários da semana foram respondidos. E para dizer que tenho deixado sempre para responder nos fins de semana. Desculpem se isso torna chato o envio de comentários, mas espero que continuem enviando. Como já disse muitas vezes, é muuuito bom receber comentários. Anima a gente e dá pano para os próximos textos. Entretanto, tenho tentando me dedicar ao sueco, a pintar e "montar" minha tal segunda exposição e, sem contar, que como ótima "do lar" estilo sueco tem muita coisa para dar conta na vida aqui.

Quando der, eu respondo rápido. Quando não, com certeza vocês terão a resposta no fim de semana. Beijocas e ótima semana!


19 fevereiro 2009

O que rola a -5 graus?

(Entre as coisas que mais amo no inverno daqui é poder sair de casaco na neve e trazer tulipas coloridas para casa)


A Érica disse no post "se um dia eu voltar muito estranho", que fica curiosa por saber como tem sido minha readaptação por aqui, já que ela teme um dia sofrer com o mesmo se resolver deixar o Brasil por um tempo também.

Conversando com as amigas daqui parece que meu sentimento é bem parecido com o delas. A gente estranha quando chega aí e estranha quando volta para cá. Entretanto, se enquanto estava de férias no Brasil, a Suécia parecia um sonho distante, algo que nunca havia, de fato, ocorrido, agora, a sensação é de que vivi minha vida toda aqui. Sabe igual namorado bom que a gente acha que só teve com ele a vida toda?

Acho que essa facilidade do ser humano, ou de muitos deles, se adaptar é incrível. É magnífica!
A gente sofre a separação da família e dos amigos. Sofre, claro, a diferença gigante de temperatura. Se minha mãezinha e sogra andam reclamando do frio de 25 graus no Brasil, imagina a gente com o Ângelo sair de 35, como estava, e vir para - 5. O corpo reclama e desaprendeu um pouco. 

Por outro lado, quando você está num lugar por opção e porque tem ali coisas que gosta de fazer e um jeito de ilha do Lost que gosta de ser, a vida "normal" parece mesmo ser aqui. A badalação, agitação, gente o tempo todo e calor foram as férias. Agora, é Madalena para ir na escola, para ir ao mercado, para ir à academia. Adoro voltar e me sentir ativa, não estar presa no trânsito ou em carro para passear em uma das poucas opções de lazer que é o shopping.



(Somnia a todo vapor! Pintar, ler, ouvir música, amar, cozinhar, faxinar e tudo quanto é verbo é bem praticável dentro de casa no inverno)

Por aqui tem rolado trabalho e prazer. Concluí a tela que minha amiga Nikol havia me pedido há um tempo. O fato de pintar, ter meus livros e cds aqui ajuda a fazer dessa casa um lar. 


(Vendo como fica a tela na parede..., "As horas"  e "Despeche Mode", tela de Somnia Carvalho, 2009)

Além disso, estar acompanhada de gente que você ama é essencial. Sozinha de tudo não sei se eu encararia. Talvez por um tempo curto, mas não sei se com o mesmo prazer e certeza. 


("Papai, Mina!" Ângelo e Renato tomando o carro para ir para o trabalho e escolinha, onde Ângelo brincará com a criançada e com a Mina na neve)


Por aqui, nada das facilidades de sair para o parquinho, padaria, supermercado. Faz-se tudo, mas a gente gasta muito tempo para se arrumar, para entrar e sair de qualquer lugar. Leva tempo a convencer o bebessinho a pôr tanta roupa para brincar com a "Mina"!



Mas se não rola por roupa demais, rola dançar e cantar muito! E com karaokê do ABBA então até Angelinho dá uma de super star!


(Kian, filho da Paulina, Ângelo e Iven, filho da Nikol, em café com as mammas em casa. O Nik e sua mãe Jéssica também estavam, fevereiro 2009)

O jeito mais gostoso de encontrar amigos é trazendo-os para casa ou indo à casa deles. É o que temos feito nas horas vagas, desde que chegamos. Estamos coladinhos nos amigos e eles na gente. Isso aquece o corpo e a alma.

...

Agora tá - 4 no termômetro e uma chuva de gelo geladinha de tudo. Estou saindo para ir para Copenhaguem e trabalhar visitando e escrevendo artigo no Statens Museum. Não teremos aula, mas nada de ficar preso em casa. Onde faz inverno seis meses do ano, não tem choro, velas ou chorumelas. O dia segue seu rumo...

Bom dia e respondo os ótimos comentários hoje a noite!



17 fevereiro 2009

O meu pai era mineiro e o seu? ou Chico Buarque e minhas raízes

("Os retirantes", do artista pernambucano José Miguel da Silva, ver: Arte popular brasileira)


Nos últimos dois posts da super Lilás, ela usa a elaboração do filósofo Nietzche para dizer que "antes só do que melhor acompanhada" e do quanto é bom ouvir Chico Buarque e sua pura poesia cantada.

Aqui vai uma das músicas que mais amo em Chico. Não é das românticas não. Essa aqui me lembra um vestibular da PUC São Paulo, cuja letra ajudava os vestibulandos a pensar a questão da migração no Brasil. Conhece?

"O meu pai era paulista
Meu avô, pernambucano
O meu bisavô, mineiro
Meu tataravô, baiano..."

Para essa aula, como em algumas outras, eu sempre tinha o CD de Chico Buarque à mão e adorava o resultado. Êta prazer que era dar aulas assim! Além de interpretarem a letra tim tim por tim tim, os alunos ficavam embasbacados com a música. Depois dessas aulas, era difícil não ter um novo fã do cantor e alguém para eu trocar idéia nos intervalos. 

Além das aulas saudosas creio que com "Paratodos" Chico me fez um dia pensar em minhas raízes. Foi com o tempo que aprendi a pôr atenção e valorizar de onde vinham meus pais, avós, bizavós etc. Sei muito pouco deles, inclusive porque a pouca formação escolar não lhes deu jeito de preservar e documentar sua história, mas adoro saber que meu avô materno, por exemplo, é filho de índios e minha bizavó materna era baiana. Da parte de meu pai sei que minha avó descendia de portugueses e talvez meu avô de italianos. O restante da família quase todo vive no interior das Minas Gerais: Lavras, Capelinha, Cornélio e por aí vai...

Adoro saber que sou resultado de tantas experiências diferentes de vida e tanta luta que se fez antes de mim. É gostoso pensar que eu sou um misto disso tudo com as minhas próprias experiências, que tenho história.

Aqui vai a letra, que quase continua a idéia de alguns posts meus da semana passada, e a música pra começar muito bem a terça-feira. E para deixar a rede ainda mais calorosa, você bem que podia mandar aí qual é sua canção preferida de Chico Buarque e dizer rapidinho o porquê. Deixa a timidez ou a preguiça de lado e manda ver nos recados. Assim a gente prova para a Betíssima Lilás que A GENTE NÃO TÁ SOZINHO NÃOOOO!!!! E tá muito bem acompanhada, ainda que à distância!

...



O meu pai era paulista
Meu avô, pernambucano
O meu bisavô, mineiro
Meu tataravô, baiano
Meu maestro soberano
Foi Antonio Brasileiro

Foi Antonio Brasileiro
Quem soprou esta toada
Que cobri de redondilhas
Pra seguir minha jornada
E com a vista enevoada
Ver o inferno e maravilhas

Nessas tortuosas trilhas
A viola me redime
Creia, ilustre cavalheiro
Contra fel, moléstia, crime
Use Dorival Caymmi
Vá de Jackson do Pandeiro

Vi cidades, vi dinheiro
Bandoleiros, vi hospícios
Moças feito passarinho
Avoando de edifícios
Fume Ari, cheire Vinícius
Beba Nelson Cavaquinho

Para um coração mesquinho
Contra a solidão agreste
Luiz Gonzaga é tiro certo
Pixinguinha é inconteste
Tome Noel, Cartola, Orestes
Caetano e João Gilberto

Viva Erasmo, Ben, Roberto
Gil e Hermeto, palmas para
Todos os instrumentistas
Salve Edu, Bituca, Nara
Gal, Bethania, Rita, Clara
Evoé, jovens a vista

O meu pai era paulista
Meu avô pernambucano
O meu bisavô, mineiro
Meu tataravô baiano
Vou na estrada há muitos anos
Sou um artista brasileiro"

Chico Buarque de Holanda

16 fevereiro 2009

Bom dia! Bonjour! God Morgon! Good Morning! Guten Tag! Jo San! Ibuto?

("La pie", Claude Monet, 1869)


Bom dia para quem está aí do outro lado.

Acordamos com uma surpresa branca linda do lado de fora. O chão, as árvores e tudo o mais está cobertinho de neve!

Lindo, lindo, lindo!

Talvez uma das experiências mais maravilhosas que se possa ter da natureza é ver a neve cair, estar debaixo dela e, como diz minha amiga Mafer que vai dar a luz ainda essa semana, "ouvir seu barulhinho ao cair"...

Esses dias li o comentário de um leitor de um blog que gosto, acerca do caso da brasileira na Suiça. A moça dizia que, por coisas como as que aconteceu com Paula, ela nunca se aventura a sair do Brasil, para não ser recebida daquele jeito...

E eu digo que ficar fechado e achar que tudo que podemos conhecer é o caminho do trabalho para casa e vice-versa é muito, muito pouco para uma vida toda.

Há tanta gente maravilhosa em todo canto do planeta. Há tanta natureza para se ver, tão ou mais maravilhosa do que aquela com a qual você se acostumou a ver.

Há gente para amar e experiências para se viver em muitos outros cantos. No Brasil, inclusive. Mas achar que tudo é ruim porque alguém, ou muitos alguéns por aí, é ruim, é um pensamento piquininim que não cabe na palma da mão, escorrega.

Hoje, acordei ouvindo de Fagner a Edith Piaf... Dia de estudo, faxina e celebração. Tenho pensado em tanta gente incrível que tenho tido o prazer de conhecer. Os chineses tííímidos de meu grupo, a paquistanesa que me ajuda com o sueco, a sueca africaninha linda da escolinha, por quem Ângelo é apaixonado. Penso em Wendela, a mocinha sueca, com mãe grega-africana, tão carinhosa que cuidou do Ângelo no sábado a noite, para a gente comemorar o Dia dos Namorados daqui.

Penso na amiga Jéssica, brasileirézima, Nikol, alemãzona e Paulina, suequíssima, que virão em casa hoje a tarde. Amizades quentes, quentes...

Toda essa gente é boa demais e linda demais. E tem tanto respeito pelo outro como eu e você tem. 

Além delas, a natureza ali fora é pura vida, ainda que, ao contrário do que muita gente pense, só com calor se pode sentir tanta vida pulsando...

Bom dia para todos vocês!!!

14 fevereiro 2009

"Boca aberta, dentes à mostra": o encontro necessário com a arte no dia a dia

("Boca aberta, dentes à mostra", montagem de Zoe Leonard, Statens Museum, Copenhaguem. Foto de Somnia Carvalho, janeiro de 2008)


"Por que escrever uma coluna sobre arte num site criado para brasileiros que vivem na Suécia?

Qual meu interesse e meu objetivo, quando sei que há tantas questões práticas vividas pela pessoa que imigra e tantas necessidades mais "urgentes" do que aprender e refletir sobre arte?"


Gostou do título deste post?
Gostaria de ler o texto completo?

Então passa lá no site Brassar e prestigie a Borboleta!

Foi publicado meu primeiro texto na coluna de Arte e adoraria receber uns "pongs" de vocês. Procurem no lado direito do site em "Coluna da Semana".

Beijocas e ótimo sábadão para vocês
Aqui ficamos com -3 no termômetro, mas o fim de semana promete ser claro e quem sabe com neve! Ueba!!!

12 fevereiro 2009

Onde é mesmo o Haiti?


("Crucificação", Emil Nolde, expressionista alemão, 1912)


Ontem, depois de ter escrito o post sobre Paula Oliveira, a brasileira atacada por neonazistas em Zurique (que também foi tema de textos nos blogs de conterrâneas de imigração, a Paula Sartoretto, e a Ju Moreira) lembrei-me muito de uma música do Caetano. Ela ficou tocando assim várias vezes na minha cabeça.

"Haiti" foi tema de muitas aulas de redação que eu e umas amigas demos no antigo Cursinho DCE-Unicamp. Ouvindo e refletindo sobre seu conteúdo, lembro dos alunos ficando surpresos com qual tipo de questionamento Caetano acabava levantando. 

Pensar que o"Haiti é aqui" significava pensar que o lugar onde a discriminação, exploração e miséria acontecia não era só lá longe de nós. Todos os dias o mesmo acontecia por aqui, embora "aqui", no Brasil, não fosse o Haiti. A letra é maravilhosa e gosto do ritmo meio compassado e picado de Caetano, quase falado. Pura denúncia e alerta.

Lembrei dessa canção porque apesar do caso ter ocorrido longe do Brasil e tudo parecer tão "horrível", sempre penso que são os pequenos atos terríveis cometidos em muitos cantos do planeta que favorecem os atos mais cruéis. 

Nem sempre o espancador tem uma careca e deixa seus rastros. Muitas vezes somos nós "inocentemente" apenas levando nossa vida, sem perceber que a fazemos em prejuízo do outro.

É bom lembrar que a população que apoiou Hitler e o Holocausto, por exemplo, se julgava inocente e "apenas" queria ter de volta seu emprego e sentir-se mais protegida dos "invasores" que ali estavam. 

Todo cuidado é pouco. Em cada caso assim a gente tem que vigiar em si mesmo qualquer sentimento parecido. Tem que dizer para todo mundo que a intolerância é inaceitável e tem que tentar cortar pela raíz, porque nada garante que idéias assim nos levem a horrores como os do passado. Assim já alertava Adorno e Horkheimer, em "Personalidade Autoritária", um livro que pretendo por a resenha para vocês. 

Até breve!
E obrigadíssima pelos comentários. Responderei logo logo!

Abaixo, vai a letra para quem não conhece ou para lembrar. É longa, mas vale muito a pena. Clicando no nome você pode ver o vídeo no youtube. 


...


Quando você for convidado pra subir no adro da 

Fundação Casa de Jorge Amado
Pra ver do alto a fila de soldados, quase todos pretos
Dando porrada na nuca de malandros pretos
De ladrões mulatos
E outros quase brancos
Tratados como pretos
Só pra mostrar aos outros quase pretos
(E são quase todos pretos)
E aos quase brancos pobres como pretos
Como é que pretos, pobres e mulatos
E quase brancos quase pretos de tão pobres são tratados
E não importa se olhos do mundo inteiro possam
estar por um momento voltados para o largo
Onde os escravos eram castigados
E hoje um batuque, um batuque com a pureza de
meninos uniformizados
De escola secundária em dia de parada
E a grandeza épica de um povo em formação
Nos atrai, nos deslumbra e estimula
Não importa nada
Nem o traço do sobrado, nem a lente do Fantástico
Nem o disco de Paul Simon
Ninguém
Ninguém é cidadão
Se você for ver a festa do Pelô
E se você não for
Pense no Haiti
Reze pelo Haiti

O Haiti é aqui
O Haiti não é aqui

E na TV se você vir um deputado em pânico
Mal dissimulado
Diante de qualquer, mas qualquer mesmo
Qualquer qualquer
Plano de educação
Que pareça fácil
Que pareça fácil e rápido
E vá representar uma ameaça de democratização
do ensino de primeiro grau
E se esse mesmo deputado defender a adoção da pena capital
E o venerável cardeal disser que vê tanto espírito no feto
E nenhum no marginal
E se, ao furar o sinal, o velho sinal vermelho habitual
Notar um homem mijando na esquina da rua
sobre um saco brilhante de lixo do Leblon
E quando ouvir o silêncio sorridente de São Paulo diante da chacina
111 presos indefesos
Mas presos são quase todos pretos
Ou quase pretos
Ou quase brancos quase pretos de tão pobres
E pobres são como podres
E todos sabem como se tratam os pretos
E quando você for dar uma volta no Caribe
E quando for trepar sem camisinha
E apresentar sua participação inteligente no bloqueio a Cuba
Pense no Haiti
Reze pelo Haiti

O Haiti é aqui
O Haiti não é aqui


(Caetano Veloso)

As bestas humanas


Estou indo para a aula agora, mas chocada com a notícia da brasileira que foi atacada por neonazistas na Suíça. Vi o vídeo no site da Denise e, pensando nos milhares de estrangeiros que encontrarei agora, imigrantes de muitos países do mundo, dá até uma nó na garganta.

A Suécia tenta ensinar a tolerância a outras raças já na escola infantil. Tentam ser um povo que entende que a diferença faz parte da vida e é rica para seu próprio crescimento. Tem funcionado bastante, embora mesmo num lugar onde respeito é ensinado não consiga estar totalmente ileso desse tipo de comportamento. Ao contrário da política da boa vizinhança, em muitos países vêm crescendo a intolerância e o apoio a grupos de direita que pregam que os responsáveis por "todos os males sociais" são os que vêm de fora. A prova foi a eleição de tantos homens de Estado nos últimos anos que pregam a retirada de estrangeiros como solução de desemprego etc.

A intolerância, como já refletiu tantos filósofos, em qualquer forma que se manifeste, contra estrangeiros ou qualquer minoria é a causa dos maiores males do ser humano. Por isso eu a abomino e creio ser o maior inimigo de qualquer nação ou pessoa. 


10 fevereiro 2009

A Suécia e algumas histórias (2): Nikol, a alemã com espírito latino

("Amizade", Pablo Picasso)


A primeira vez que estive na Suécia foi em outubro de 2006. Vim acompanhando Renato numa entrevista e vindo "pensar" junto como seria viver numa terra geladinha e distante como essa. Voltamos um mês depois (eu com um mês de gravidez) já decididos, para acertar detalhes e achar um apartamento para morar no início do ano seguinte. Foi então que Martin, da imobiliária, nos levou a um apartamento que amamos logo de cara.

O dono, um africano bonito e simpático casado com uma sueca que não conheci, iria viver em Estocolmo e estava alugando seu imóvel. Éramos os prováveis próximos inquilinos e tudo ficou "quase acertado" nessa visita. 

Arejado e grande, onde antes havia três apês diferentes, o lugar tinha tudo que a gente queria e um pouco mais. De cara tinha três banheiros e uma big, mas uma big de uma "casa de banho", como diz a amiga portuguesa, Maria, onde eu imaginei tomar banhos de banheira longos e deliciosos com meu barrigón, quando ele estivesse maior. E, em alguns segundos, criei fantasias sobre como seria nossa vida ali, naquele canto "perdido" do mundo, como seria nossa nova vida ali dentro daquele possível novo lar...

Olhei pela janela e perguntei o que era aquele lugar diferente ali em frente. Martin explico que era uma escola para cozinheiros...

- Ah... Que legal... sussurrei pra mim mesma.

E eu não sabia, mas aquela seria a última vez que eu veria aquele lugar até o maio do ano passado.

Não conseguimos o apê porque o rapaz tinha pressa em alugar e eu lamentei muito. Achamos outro incrível e deixei a idéia daquele de lado. O tempo passou, Ângelo nasceu e nós nos mudamos de novo. Dessa vez, próximo a um caminho de árvores e de um playground adorável. E foi lá mesmo que numa tarde do início da Primavera de 2008 que eu conheci Nikol e Iven. Mãe branquinha, filho loiríssimo, eu os tratei como sendo suecos, logo de cara. Ele dizia "não" insistentemente e eu fiz uma brincadeira. Diferente de muitas das mães com quem eu havia tentado puxar prosa, a moça respondeu. Respondeu, continuou, riu e por ali ficamos um tempinho. Eles haviam chegado há pouco em Malmö e eu já estava pelas bandas fazia um ano e meio. Então tínhamos algumas coisas a trocar.

Descobrimos naqueles minutos de tentativa desesperada de fazer amizade sólida e prazerosa que nossos maridos trabalhavam exatamente na mesma empresa. 

- Uau!!! That´s coincidence! Falamos em coro, eufóricas. 


(Iven no colo de Nikol, Ângelo e eu, curtindo o aniversário de 1 ano de vida do Ângelo adoidado, julho de 2008)

E foi simples assim que uma entrou na vida da outra...

- "See you here again!? mamma!"


(Iven e Ângelo, curtindo verão perto do Torso, Malmö, junho de 2008)

A gente se viu nos dias seguintes e no verão inteiro que chegou. Nossos bebês brincaram dias seguidos juntos naquele playground e se adoraram como sendo irmão mais velho e irmão mais novo. Por nossa conta os maridos começaram a almoçar juntos no trabalho e, depois, a jogar futebol no domingo. Churrascos no jardim deles, jantar na nossa casa, praia e mercado. A gente dividiu de tudo no ano que passou, inclusive os dias difíceis de doença dos meninos ou de solidão ou falta de ânimo.


(Iven com Ângelo e Nikol, sempre apaixonada pelo Ângelo como se fosse de sua família, Festival de Malmö, agosto de 2008)

Apresentei a Nikol para outros amigos e, sem exceção, todos a adoraram. Ela e sua pequena família estiveram no aniversário do Ângelo e em muitos outros momentos que partilhamos com gente muito especial que conhecemos aqui. E a Nikol sempre com uma presença muito forte. Ela sorri como se nunca tivesse problemas. Ela cuida da casa, como se não tivesse sido uma super mulher de negócios até pouco. Ela rega as plantas e cuida delas como se dedica a manter seus amigos próximos. Na casa da Nikol eu cheguei inúmeras vezes sem precisar telefonar ou ser convidada e comi bolos deliciosos que ela mesma consegue achar tempo para fazer.


(Nik, de lilás, Nikol e Iven, sentados na mesa do aniversário do Ângelo, julho de 2008)

É engraçado perceber como a gente se gosta e em como somos diferentes. Ela, organizada com o tempo e sua vida toda, eu, latina, bagunçada com minhas programações e cheia de deixar bolo queimar. Mas, diferente da maior parte dos suecos e dos alemães, a Nikol tem, como eu, alma latina. O sangue não lhe nega a simpatia. Seus pais são da antiga Iugoslávia e foi porque sua mãe buscou uma vida melhor na Alemanha que ela e o irmão nasceram lá.


("Iiiiiiv!", "Ângueeelooo!", "The big brother", julho de 2008)

Um ano se passou e a amizade continua entre nós, nossos filhos e os maridos. Eu e Nikol agora estamos no mesmo curso de sueco, embora ela, com sua boa parte alemã, esteja já bem mais avançada do que eu. Como tudo que faz, Nikol se dedica. Não reclama e vai em frente todo dia. Sorri e sempre acha que pode enfrentar tudo que vier. E enfrenta. E quase sempre ela ganha.

A gente sempre fala daquelas duas coincidências primeiras: o playground e os maridos no mesmo emprego, mas foi só há uns dois meses que eu percebi algo sobre esse "encontro" com a Nikol que ainda havia me escapado. Era a segunda vez que eu ficava de baby sitter do Iven para que ela e Nik fossem comemorar o aniversário dela num show. Minha amiga já havia feito o mesmo por mim e eu estava lá com muito prazer. Não sei porquê exatamente eu comecei a olhar pela janela do apartamento quieto, já que o menino dormia. Era tarde, mas as luzes do lugar em frente estavam acesas. E, como num clique, acendeu em mim também uma lembrança. A sensação foi tão forte que eu pensei em voz alta:

- "Não pode ser!"

Olhei em volta e tentei imaginar o lugar sem os móveis e toda a decoração do casal amigo. Corri até o banheiro grande e "uau!". Sim! Era o mesmo apartamento do rapaz africano com a sueca. O lugar onde sonhei tantas coisas por viver e onde também imaginei nunca mais pisaria era o lar de uma das melhores amigas que eu havia feito na Suécia até aquele momento. 


(Nikol e eu, em uma das únicas fotos que temos das mammas juntas, dia de praia, Malmö, junho de 2008)

Me emocionei profundamente e fiquei me perguntando qual o propósito de tudo. Nunca acreditei em destino e detesto pensar num plano onde devo me encaixar. Sempre me alegrou a idéia de que o Universo não pára e é o movimento dos astros, estrelas, das pessoas todas ao meu redor e longe de mim, junto ao meu próprio movimento de ir ou ficar que faz com que aconteçam as coisas em minha vida. Entretanto, nesse dia fiquei pensando que certos encontros parecem muito místicos, tão cheios de "coincidência" que fazem arrepiar. 

Contei a Nikol e rimos juntas. Ela repetiu o que sempre me diz: 

- "I say "thank´s God" every day for having met with you in that playground that day!"

Não é só a Nikol que agradece pelo encontro, eu também. E pelo ano que passamos juntas e por tudo que vivemos. E por tudo e todas as mudanças que ainda virão! Amém! Porque mesmo que a gente não saiba, o Universo e seu Criador conspiram bastante a nosso favor.

Êta frio da gota serena!


Hoje o termômetro está brincando de enganar a gente. Apesar dos 3 ou 4 positivos marcados lá, o vento de 30 km por hora tá doendo até nos ossos. A sensação é de -5 e embora possa parecer estranho que eu esteja reclamando tanto, quando já estou aqui há três invernos, posso dizer que o corpo desaprende rapidinho. Um mês e pouco de férias foi suficiente para estranhar muito e ficar de queixo caído com a suecas fortonas, de meia fina e saia, desfilando por aí.

E tem mais frio chegando! A previsão inclui gelinho, neve e tudo que tiver direito nos próximos dias!

Ui ui ui, ai ai ai!

06 fevereiro 2009

Dia Nacional dos Samernas, povo da Lapônia



Hoje, dia 06 de fevereiro, é o Dia Nacional dos Samernas, o povo da Lapônia

E eu que tinha até um recado em minha secretária telefônica certa vez, com uma música do Mawaca, brincando que meus amigos da Lapônia estavam lá e anotariam o recado, nunca imaginei que esse povo poderia ser tão pitoresco.

Em minhas duas últimas aulas de sueco essa semana, lemos bastante sobre os samernas, os quais a gente chama de lapões, e sobre sua cultura.

A Lapônia, que a gente conhece como sendo apenas a terra do Papai Noel, na verdade é uma região que engloba parte da Suécia, Noruega, Finlândia e Rússia. Ao todo são 80.000 pessoas vivendo nessa regiaõ.  E para você que, como eu, sempre imaginou o Papai Noel e sua thurma apenas no meio da neve e do gelo fique sabendo que na Lapônia o verão é muito parecido com o nosso aqui do sul da Suécia. Sim! as renas, os duendes e o Papai Noel ficam de sungão tomando banho de praia no verão!



Embora eles também tenham as quatro estações bem bonitinhas, as semelhanças vão parando por aí. Os samernas têm língua, cultura e costumes próprios. Eles diferem da dos países onde estão situados geograficamente e os samernas da Suécia, por exemplo, nem mesmo têm o sueco como língua principal. A Suécia, e não a Finlândia, como sempre pensei é onde está a maior parte dos samernas, 25 mil. 

Folhenado e lendo alguns livros na aula ontem, fiquei contagiada com as imagens e as peculiaridades. A maior parte dos samernas, hoje em dia, têm vida bastante moderna e parecida com a do povo do restante de seu país, mas ainda mantém tradições, vestimentas e celebrações que marquem sua história. Apenas dez por cento dos samernas que vivem na Suécia trabalham exclusivamente com as renas, as quais podem ser vistas aos milhares pela região.


Fisicamente, grande parte tem cabelos escuros e não têm os olhos azuis da maioria dos suecos, por exemplo. Seus olhos são levemente puxados, dando ao povo uma característica ainda mais diferente.




Com uma bandeira própria, a Lapônia hoje celebra seu Dia Nacional e faz muita festa. Em barracas, como no passado, vestindo roupas ultra coloridas e chamativas, pescando, alimentando as renas, cantando e comendo, os samernas hoje celebram o que são e o orgulho de onde vêm. 




Depois da aula de ontem eu coloquei algumas cidades no roteiro obrigatório para nossas próximas viagens. Sem conhecer o norte da Suécia eu não posso dizer realmente que vivi por aqui e entendi o que é esse país. A Suécia me pareceu ainda mais encantadora e cheia de coisas a explorar do que eu já imaginava. Sem contar que a Lapônia e o sua cultura é curiosa até mesmo para um sueco, quem dirá para mim!



E viva os samernas e a Lapônia!

"Boca aberta, dentes à mostra": o encontro necessário com a arte no dia a dia


("Boca aberta, dentes à mostra", montagem de Zoe Leonard, Statens Museum, Copenhaguem. Foto de Somnia Carvalho, janeiro de 2008)

Qual impressão que você teria ao se deparar com um exército de bonecas, exposto de forma linear, num sala grande e branca de um museu?


No mês de novembro fui rever uma exposição no Stadt Museum, em Copenhaguem que havia me causado certo impacto. A curta distância entre Malmö, cidade onde vivo no sul da Suécia, com a capital da Dinamarca é tão pequena que permite essa troca bastante produtiva entre os dois países e seu povo.

“Reality Check”, como foi intitulada, tratava-se de uma exposição de arte contemporânea na qual o visitante era convidado a duas coisas. Primeiro, perceber como a realidade foi sentida e captada pelos artistas que ali estavam expondo. Segundo, vivenciar a exposição a partir de uma percepção própria daquela realidade testada antes pelo artista e traduzida por ele para uma outra realidade.

Dividida em várias zonas espalhadas pelo grande museu, “Reality Check” trouxe inúmeras obras intrigantes e diversos olhares perceptivos.

Entre muitas obras de forte impacto estava a de Zoe Leonard, artista americano. Leonard criou a obra “Mouth open, teeth showing” em 2000, para a qual juntou 162 bonecas e as colocou em fileiras diagonais numa grande sala do museu. Representantes de várias décadas, cada uma possui uma característica de beleza celebrada por cada década.

As bonecas não haviam sido ordenadas pelo tamanho e isso me causou um certo desconforto. Algumas estavam vestidas e continuavam bem cuidadas, outras estavam sem nenhuma roupa e deixavam ver a engenhoca que era seus corpos.
Com cabelos emaranhados ou partes quebradas, algumas bonecas tinham aspecto aterrorizador. O brinquedo que serviu numa realidade passada para fazer rir e brincar perdera seu valor, quando separado da criança. Deixados de lado, substituídos pelo tempo, as bonecas tinham todas algo em comum: foram testemunhas de uma realidade vivida. Enfileiradas, como um exército, perderam a ingenuidade e singeleza, causam medo e estranhamento. A sensação de realidade deslocada.

Checar a realidade da obra de Zoe Leonard significa pensar em muitas questões sobre outras realidades: como era cada criança que acompanhou cada boneca? Como viveram e o que fizeram depois? Como o processo de consumismo transformou um brinquedo antes valorizado em um lixo não quisto? Como cada boneca revela o ideal de beleza que sua época lhe impôs e como esse ideal foi sendo substituído e desvalorizado com o tempo e a moda?

As bonecas de Zoe Leonard são em última estância assustadoras. Parecem fantasmas, porque não têm mais a vida que cada criança lhe dera. Enquanto bonecas, pertencentes a um indivíduo, elas ganhavam autonomia e vida tal como aquele. Enquanto exército numa sala vazia participam de uma mesma sina: serem criadas, queridas e depois abandonadas.

Tal como o padrão de beleza que um dia imitaram, produzidas em série, acabam totalmente despersonalizadas fora do contexto de moda do qual participaram.

Ter em frente o exército de bonecas de Zoe Leonard é ser lançado ao questionamento. Impossível passar por ele sem nada sentir e pensar. Minha realidade foi modificada a partir da realidade de Zoe Leonard e de suas bonecas e é para isso que acredito que as obras de artes precisem existir.