30 janeiro 2009

O Brasil e alguns encontros transcendentais: "Carlos", o taxista musical


Entre o corre corre do penúltimo dia no Brasil, resolvi tomar um táxi entre o metrô Sumaré e minha casa. Estava sozinha. Ângelo havia ficado com a Vavá dele.

O calor era imenso. Eu estava exausta e ansiosa por terminar tudo. Havia passado o dia andando de lá para cá, de cá pra lá na loucura de São Paulo e tudo que desejava era chegar em casa o mais rápido possível. O táxi era para mim apenas um meio para se chegar ao fim. 

Quem o dirigia? Não pensei nisso. Eu havia tomado inúmeros táxis nas últimas semanas e nenhum deles, de longe, me fizeram lembrar "John", o táxista inglês. Um ou outro era indiferente, estava a cuidar de sua vida como eu da minha. Um outro teve a coragem de dizer que não entendia porque nós mulheres resolvemos dirigir carros, já que a única coisa que deveríamos pilotar seria o fogão em casa. Esse um, que dirigia mal pra caramba e ia todo nervoso na direção, não mereceu nem mesmo uma palavra minha. Nem mesmo um olhar. Só o dinheiro que eu fui obrigada a lhe dar.

E foi assim sem pensar em absolutamente nada que, ofegante, entrei no táxi pronta para dizer meu destino. 

O taxista me olhou e baixou rapidamente o volume do som. A música estava muito alta, tão alta que ele realmente não poderia ter me ouvido. Foi então que eu disse o nome de minha rua e tomei uns segundos de silêncio...

- Por favor, aumente novamente a música. Eu adoro Edith Piaf...

E então o taxista brasileiro, calmo, sorridente, girou o botão e pôs de volta "Ne mes quitte pas", muuuito alto. Fomos ouvindo e nuns minutos era como se, de algum jeito, a gente se entendesse perfeitamente. Não perguntei seu nome, como também não havia me lembrado de perguntar o de John, em Londres, mas gosto de pensar nele como Carlos, o taxista. 

Esparramei-me no banco de trás e percebi como o carro era bastante limpo e cheiroso. Abri bem a janela e encostei a cabeça no vidro. Senti o vento nos cabelos e uma sensação incrivelmente boa. 

Perguntei se ele havia assistido ao filme e ele disse que sim e havia amado. Pedi a ele que perdoasse meu julgamento pré concebido, mas que me parecia um gosto um tanto diferente para um taxista, já que até então eu só havia ouvido rádios ruins nos táxis que havia pego. Ele respondeu que adorava música francesa e boa música brasileira. Tinha Tom Jobim no carro e Elis Regina. Disse que estava aprendendo a apreciar música popular e que lhe fazia bem ouvi-las durante o trabalho. 

Sugeri a ele que visse também o filme Frida, já que tanto Piaf, quando Frida tratam de biografias de mulheres fortes, artistas e sofridas e que tentasse obter a trilha sonora

- Maravilhosa... completei. 

 E trocamos algumas idéias. Parei em frente minha casa e paguei-lhe a viagem. Respirei fundo, feliz, cheia de energia. Aquele encontro sim acabara por me lembrar John e me fizera pensar de novo como qualquer lugar é hora de conhecer gente boa. E de novo agradeci por ter de vez em quando encontros tão transcendentes. 
  

29 janeiro 2009

"se um dia eu voltar muito estranho..."


O pintor Paul Gauguin amou a luz na Baía de Guanabara
O compositor Cole Porter adorou as luzes na noite dela
A Baía de Guanabara
O antropólogo Claude Levy-strauss detestou a Baía de Guanabara:
Pareceu-lhe uma boca banguela.
E eu menos a conhecera mais a amara?
Sou cego de tanto vê-la, te tanto tê-la estrela
O que é uma coisa bela?
(Caetano Veloso, O Estrangeiro)


Tenho pensado bastante na idéia antropológica de que quando um indivíduo sai para viver fora do lugar onde nasceu, cresceu e viveu a maior parte de sua vida e aculturar-se em um território novo, ele acaba sofrendo um tipo de estranhamento

Essa idéia não me deixou as primeiras semanas de férias aí no Brasil, embora essa tenha sido a terceira vez que volto, desde minha vinda há dois anos para a Suécia.

Saindo de nossa realidade, aquela que se tornou normal, aceita e, muitas vezes, quase a única realidade possível, a gente leva tempo a acostumar-se à nova vida. Há um gasto enorme de energia para a adaptação, mas ela acaba acontecendo. Sempre.

O que a gente acaba não pensando muito é como nos sentiremos quando voltarmos à terra mãe, quando retornarmos à casa onde, por tanto tempo, foi tão simples e natural viver.

Nas primeiras semanas em São Paulo, sofri (sofremos) alguns choques. E, por mais que eu tentasse explicar a quem vive aí, percebi que parecia uma estranha. Ou uma chata. Talvez convencida. E por que não dizer, neurótica. Nem o outro nos reconhece, nem nós mesmos nos reconhecemos. Meu sentimento se pareceu com o de Ju Moreira, lindamente descrito em "A qual mundo pertenço"

De volta, estou feliz por ter de volta algumas coisas muito caras a quem deseja uma vida de qualidade, mas, por outro lado, sofro - de volta - um certo choque. Estar um mês e meio no Brasil faz com que a gente, aos poucos, vá deixando a chatice, o não conformar-se, a revolta, ou o que seja, de lado e vá tocando a vida novamente. E então começa-se a perceber o que tem de bom no lugar e tanto o corpo quanto a mente vai dando lugar a uma readaptação. Vai dando espaço a um certo esquecimento da realidade anterior, tida como "melhor", objeto de comparação. Esqueci, por exemplo, o que é estar a zero grau e exatamente com qual tipo de roupa deveria sair às ruas aqui. Passei frio no primeiro dia, porque já não estou tão adaptada como estava quando parti, semanas atrás.

Tenho certeza que isso tem a ver com sobrevivência. O mesmo que fiz no Brasil minha vida toda, fiz na Suécia quando cheguei. Nem o fato de ficar perdidíssima no supermercado por quarenta minutos, tentando comprar um fermento em pó, já que as línguas dos produtos se restringem às línguas nórdicas, me fez desistir ou arredar o pé de adaptar-me. Isso para dar um exemplo corriqueiro.

Me adaptei, como me adaptei no Brasil e superei desafios. O que sobra é um misto de felicidade estranha. 

A sujeira de São Paulo, a miséria e a violência. A mentalidade pequena e senhoril de tanta gente que me irritou e me deixou indignada por semanas foi sendo "mascarada" com a vida, de certa forma, boa e normal que eu posso levar frequentando lugares bonitos e mais caros. Acaba dando lugar para o aconchego que se tem com os familiares, os amigos, a língua e os costumes. Acabo por beneficiar-me daquilo com o qual também não concordo, como a desigualdade.

Sou brasileira e nunca deixarei de ser. O que acontece comigo, desde que saí, é esta sensação inquieta de talvez não se sentir mais completa em lugar nenhum, embora eu possa ser bastante feliz em quaisquer um deles. 

Talvez a pessoa que saia de sua própria terra e viva diariamente as dificuldades, as arguras e as maravilhas de outra acabe sendo uma espécie de Léo, como o personagem central de Matrix. Tomando a pílula azul e não sendo nunca mais capaz de enxergar apenas como quem só tomou a vermelha, Léo entende que outro mundo e outra vida é possível. Entretanto, nunca mais conseguirá voltar à "ingenuidade" e felicidade primeira. Aquela ficou perdida com sua experiência anterior. Daí ser tão fascinante a cena em que um outro personagem deseja ardentemente comer galinha, sentindo o mesmo gosto que sentia enquanto vivia na Matrix. Ao tentar fazê-lo, ele percebe que tal sensação já não é mais possível desde quando ele soube que a galinha era parte de seu mundo falso.

O mundo novo é estranho e lhes priva de algumas sensações, por outro lado, oferece uma visão que nem ele, nem Léo poderiam ter tido se continuassem a viver só no primeiro. 

Não digo que quem toma a "pílula azul" é melhor que o outro que não tomou. Apenas que eles nunca mais conseguirão ver a mesma realidade de forma parecida. Por isso meu sentimento de ser tão difícil me explicar durante a estadia no meu país.

De volta a Malmö, estou tendo que me adaptar ao frio, que nem é muito, mas do qual meu corpo se esquecera, depois de seis semanas vivendo com trinta e poucos graus. Sentir-se estranho onde, há pouco, eu me sentia muito em casa, também é algo natural para quem retorna, ainda que o retorno traga tudo aquilo que eu sonharia ter também em minha pátria. 

Atravessar as ruas e ser respeitada. Estar num lugar calmo e pacífico. Organizado e igualitário. Tudo isso são coisas que me deixam extremamente feliz e realizada. O contentamento, entretanto, nunca será total, já que eu nunca conseguirei que minhas duas realidades deixem de ser tão diferentes e eu nunca poderei viver lá e cá ao mesmo tempo.

Talvez isso tudo só aconteça ou passe pela minha cabeça porque o que me é estranho nunca foi e, espero nunca seja, indiferente. Ou vai ver isso tudo é só um jeito mais elaborado de eu poder dizer que a música brega, velha e esquecida do Dalton (Muito estranho) tenha ficado rodando meu cérebro nas últimas semanas. Não sei direito. Tudo está bem estranho...

27 janeiro 2009

Dicas Mil: vida prática na Suécia: vacinação infantil



Tentando dar continuidade àquela série sobre dicas da vida prática por aqui, vou aproveitar a pergunta da Talyane, uma querida "ouvinte" que nos escreve de Kalmar, aqui mesmo na Suécia.

A Talyane, com um barrigon de 7 meses, vive nessa cidadezinha gostosa, onde tem um castelo que já paga a pena viver por estas terras geladas e me pergunta o seguinte:


"(...) Bem eu estou grávida de 7 meses agora e estou com uma dúvida muito grande e creio eu muito importante, está me deixando de cabelo em pé... rs. E me lembro de suas matérias sobre maternidade... bem, como é o esquema de vacinas aki na Suécia? Estou com medo pq as principais vacinas são até os 6 meses de vida e minha filha vai estar sempre indo ao Brasil, até pq nos estamos aki de passagem pode-se dizer assim, e então ficoo muito preocupada com esse assunto. Como vc fez com seu bb? Melhor como é aki na Suécia, podemos pedir as mesmas vacinas? elas existem por aki?"


Bom, querida Talyane, por sua conta e por conta de um comentário antigo seu no meu post "Curiosidades sobre a Suécia, pré-natal" eu tenho em mente um texto inteirinho a respeito do meu parto aqui na Suécia que pretendo ter coragem de ainda escrever. Sobre essa sua última dúvida, digo o seguinte:

Vacinação de bebês na Suécia é fácil, simples, seguro e organizadíssimo. Não se preocupe. 
Assim que um bebê estrangeiro, cujos pais tenham documentação legal para estar no país, nasce aqui na Suécia, o próprio hospital encaminha todos os dados do bebê, dos pais etc para alguns órgãos legais. Isso quer dizer que os pais nem mesmo precisarão ir a um cartório para expedir o registro, como no Brasil. Com isso, todos a rede de saúde terá os dados do bebê e de seus pais. 

Vacinas:

Para o início das vacinas, bem como de qualquer tratamento de saúde infantil, é preciso procurar o Vårdcentral (que é uma versão de primeiro mundo dos nossos Postos de Saúde) mais próximo da casa da família, onde uma enfermeira, com especialidade em pediatria, fará o acompanhamento da criança. Em alguns casos, o posto especial para crianças pode ser chamado Barnavårdcentral e ficar separado do Vårdcentral.

Toda visita é agendada, não há fila de espera, nem demora ou salas lotadas. 

A maior parte das vacinas é dada por estas enfermeiras, numa consulta agendada especialmente para o bebê. Após ter inscrito a criança, as profissionais praticamente fazem todo o trabalho para a gente: enviam pelo correio o agendamento de vacinas e não deixam passar um delas sequer. 

Quando a criança precisa sair do país e seguir para um lugar de "risco", como às vezes o Brasil é considerado, é possível administrar alguma dose extra de vacina, que normalmente não é dada na Suécia. Todos esses itens podem ser conversados com a enfermeira, sem maiores problemas.  
É possível que os pais precisem arcar com a despesa da vacina, caso ela não esteja incluída no plano de vacinas das crianças suecas e o valor é parecido com o que se cobra no Brasil. Entretanto, são casos raros, já que o programa de vacinação sueco é quase o mesmo que o brasileiro. 

Nos primeiros meses essas enfermeiras são as responsáveis por checar, quinzenalmente (ou mais) peso, altura e estado geral do bebê. Elas são experientes, atenciosas e competentes, na maior parte dos casos. O bebê também terá consultas agendadas com o médico periodicamente para fazer alguns testes de saúde, como audição, visão etc. 

No site de cada região é possível encontrar muitas informações sobre o funcionamento dos Barnavårdcentral. Sobre Malmö ou a cidade de Kalmar é preciso pesquisar em:


Para saber qual o Vårdcentral mais próximo, consulte o site:


Espero que tenha lhe dado uma luzinha, antes que o dia de dar a luz lhe chegue Talyane!
Escreva se precisar. Se eu souber e puder ajudar, respondo.

Valeu!!!



Acabei de atualizar as respostas aos comentários dos posts todos que escrevi nas últimas seis semanas. 

Eu gosto bastante quando faço comentário em blogs que leio e tenho resposta do autor, porque parece mesmo uma conversa e acrescenta ainda mais ao que pensei. Sei que em muitos blogs isso não é possível, mas não é o nosso caso aqui.

Por isso me desculpem pela demora. Alguns comentários me pedem respostas mais complexas, as quais eu tentarei responder criando posts para isso. 

Passe para ler sua resposta e manda mais se for o caso.

Eu prometo a mim mesma escrever mais posts, porém mais curtos neste ano, embora eu não abra mão de aprofundar em um tema ou outro.

Um beijo e obrigadíssima pela presença nos comentários. Sem eles, o blog seria uma conversa de Chitãozinha para as paredes. Mais vazio, com menos sentido. Valeu!!!

26 janeiro 2009

De volta à ilha de Lost ou "Meu querido paiol"

("Mããe, lá, aião, mião, tator!", Ângelo encantado com o aeroporto de Frankfurt, janeiro de 2009)

Olá gente querida, gente que ficou, gente com quem vou me encontrar ainda.
Chegamos ontem a tarde, embora do dia eu não tenha visto nada por causa da escuridão.

No meio do caminho, por cima da Alemanha, dezenas de cidades estavam branquinhas com a neve e o dia estava tão claro que a gente podia ver tudo lá em baixo. Aqui, ao contrário, tinha tanta nuvem que quando o avião pousou ainda não dava para ver a pista.

Viagem tranquila até Frankfurt. Tive a impressão de estar viajando com um mocinho e não com um bebê de um ano e meio. Entretanto, o maior problema para vir para os países escandinavos, é quase sempre a conexão. Dá para encarar as doze horas até o primeiro ponto, mas depois vai ficando difícil...

Mesmo o excelente humor das quatro horas de espera do Ângelo no aeroporto na Alemanha não sobreviveram a mais um entra e sai de avião. Na chegada em Copenhaguem o cansaço tomou conta. O que me animou foi ver mais umas quatro mulheres - alemãs e espanholas - viajando sozinhas com a mulecada, que já estava dando baile quando saiu do Brasil.



(Cidadãozinho do mundo, viaja como se fizesse isso a anos...Frankfurt, janeiro de 2009)

Chegamos bem. Fomos recebidos pelo terceiro membro da família com flores, jantar especial, presentes e muito carinho. 

Pelo telefone o Renato me perguntou se eu estava preparada para voltar para a ilha de Lost, ou seja, para reiniciar uma vida totalmente diferente da que estávamos levando nas últimas semanas no Brasil e ser essa "outra pessoa" que somos quando estamos aqui. 

- Preparadíssima!, respondi.

Hoje, dia normal. Trabalho e escola. A primeira sensação é a de sentir-se um pouco perdida aqui também. Fiz alguns caminhos errados e é difícil não sentir o choque de quando se acorda de manhã sem a luz do sol, já que estamos em pleno inverno aqui. Apesar disso, voltando da escola com minha Madalena, também me invadiu a sensação de ter chegado ao meu "Lar doce lar", embora eu tenha uma plaquinha com esses dizeres no apê de São Paulo. 

E mesmo o Ângelo se recuperou bem da viagem e já dançou feliz "meu querido paiol" com a gente ontem, vendo o "Cocoricó".

É bom estar em casa. Muito bom. Agora vou recomeçar por aqui. E que venha 2009, porque eu tenho plano que não acaba mais!

Ótimo início de semana pra todos vocês!!!

20 janeiro 2009

Sete anos no nosso Tibet

(Casal, que bem podia ser eu e Renato, se beijando na chuva)

São quase, quase meia noite aqui no Brasil. Eu, ao contrário do prometido há uns dias, não vou ainda responder aos comentários ou escrever sobre a viagem daqui. Após uma tempestade e alguns raios, a placa de rede do micro de minha mãe queimou e só hoje consertamos. Entretanto, uma outra coisa me segura, apesar do sono e do muitíssimo cansaço: hoje, 19 de janeiro é nosso aniversário de casamento, meu e do Renato.

Há sete anos, eu entrava, acompanhada pelo meu pai, numa igrejinha em Helvetia, com uma chuvarada, que parecia que ia desabar o mundo lá fora, para dizer alguns "sins" ao grande amor da minha vida.

- "Tá chovendo?" Foi o que perguntei, em janeiro de 2002, desesperada ao cabelereiro, quando ouvi o início do temporal e imaginei que "tudo poderia" dar errado etc etc. Meus primeiros medos bobos a respeito do casamento foram dissipados quando encontrei apoio na igreja lotada de gente que eu adorava e na figura sorridente do Renato, que havia arranjado tudo e estava tranquilíssimo me esperando.

Desde então, eu estava pensando ontem, quantas águas literalmente rolaram. E quantas águas precisam mesmo rolar num relacionamento para que a gente confirme aqueles "sins" dados quase sempre no auge da paixão.

Ontem e hoje eu estava me lembrando de momentos especiais, quase todos muito alegres e alguns tristes. O Renato esteve comigo lá atrás, quando eu comecei a ser professora e me ajudou a treinar as aulas testes, fingindo dar a aula para ele.

(Parque no centro de Oslo, Noruega, janeiro de 2009, foto Renato Cechetti)


A gente se apoiava em coisas assim e celebrava junto tudo que conseguia. A gente começou nossa história indo morar em Curitiba por, oficialmente, uma semana de casamento, e voltando para São Paulo. Em três apartamentos diferentes e entre umas seis cores de salas, o Renato sempre me apoiou em tudo, desde fazer círculo nos anúncios dos jornais de domingo até as entrevistas. Dos nossos mestrados e o meu doutorado. Nesse tempo, foi como nunca mais ter saído sozinho de casa, ainda que tívessemos saído sozinhos. Foi o Renato quem me viu sorrir e dançar de felicidade em tantos momentos com amigos e família nesses anos e também quem me ouviu chorar, berrar de tristeza, depois da morte de meu pai, após um telefonema na madrugada.

Foi esse meu amigo que me ajudou a superar a ausência com alegria e me deu total apoio quando eu descobri na pintura uma via de expressão. Quando ele viu minhas primeiras cores nas telas e minha assinatura Somnia. Foi ele quem recebeu meus amigos e convidados na porta de minha primeira exposição e orgulhoso me escreveu um cartão dizendo que amava sua "filósofa e pintora", cartão que eu encontrei por acaso essa semana.


Foi esse mesmo companheiro que segurou minha mão, num vôo do Brasil para a Suécia, numa nova vida que decidimos ter fora de nossa terra. E essa mesma mão que segurou firmemente a minha e me ajudou, depois dez horas de parto longe de casa e da família, a trazer ao mundo o Ângelo, a coisa mais linda que fizemos juntos nesse tempo.

E é esse mesmo Renato quem me faz agora não ter ido dormir, embora eu esteja louca para dormir e descansar. O Renato que conheci ainda muito jovem na Unicamp, cheio de muitos sonhos, muitos dos quais realizamos juntos. O mesmo que me convenceu a ficar mais tempo e curtir mais minha família e que me ligou de Oslo, na Noruega, me contando todo encantado sobre a neve e o tempo de lá, ontem a noite. Mesmo à distância a gente "celebrou" esse caminho trilhado junto. É como se em cada conquista e esforço a gente tivesse se conhecido mais e se tornado ainda mais parceiro.

(Parque no centro de Oslo, Noruega, janeiro de 2009, foto Renato Cechetti)


Talvez a gente deva sempre se lembrar de que casamento não é uma amizade fácil de se manter. É preciso dedicação. Não é um amor fácil de permanecer. É preciso cultivar a memória. Não é uma paixão que dure para sempre sem esforço. Ao contrário. É preciso todos os dias lembrar de cada "sinzinho" dado com tanto amor ao longo desse tempo. É preciso lembrar que depois de cada tempestade, inclusive daquela lá em Helvetia, sempre veio bonança e que não há nada que deva ser maior que o que primeiro no uniu: o amor e o desejo de dividir a vida com o outro.

Sim. Eu continuo te amando muito Renato.

Sim. Você continua sendo o grande amor da minha vida.

Sim. Eu quero estar com você na alegria e na tristeza.

E vou estar com você na saúde e na doença.

E se continuar como foram esses sete anos, quero sim, continuar te amando e respeitando todo o resto de minha vida.

15 janeiro 2009

"É a mulher com quem eu vivo a sonhar!"



Por umas três ou quatro semanas, desde que chegamos ao Brasil, eu - e também o Renato - me senti estrangeira em minha própria terra. É como se a gente se esquecesse totalmente o funcionamento da vida aqui e tivesse se adequado tanto à vida sueca que não entende como viveu tanto tempo sem perceber alguns "detalhes".
Eu quero falar disso com mais calma. Por ora, cheguei na casa de minha mãezinha querida e vou ficar por aqui uns dias. Espero pôr em dia as respostas aos comentários que foram feitas aos posts passados e aos atuais. Depois dessa semana, terei apenas um tempo para se despedir em Sampa e embarcar para minha nova terra, onde provavelmente irei por um tempo me sentir estrangeira de novo também.
Agora tô aqui curtindo o quase insuportável calor que tá fazendo, inclusive de quase 30 a noite. Tinha me desacostumado com isso também. Mas queria deixar um momento registrado, porque achei tão curioso e bonito pensar como algumas coisas tão simples podem trazer a gente de volta ao sentimento de pertencer a um lugar novamente.
Existem várias coisas que conseguem fazer isso comigo, como comer o milho verde refogado de minha mãe ou a maria mole de minha sogra. Semana passada, num delicioso e especial hotel fazenda em Nazaré Paulista, um simpático moço cantando ao vivo, fez eu rodar a baiana, quer dizer, a "Sandra Rosa Madalena" contida em mim, dentro da piscina.
Eu e Ângelo pulamos tanto na água, fizemos tanta festa que aquela sensação de se sentir estranhamente brasileira desapareceu por completo. Lembrei e revivi milhares de momentos da minha vida, minhas festas na Unicamp, em casa, meus momentos com as amigas e nossas festas de aniversários e casamentos, todos os lugares onde fizemos questão de dançar ao som do Sidney Magal. Brega, super brega, histórica e deliciosamente brega a música está em nós como uma cicatriz de infância. Está gravada em mim e ajuda a lembrar quem sou, de onde vim e o que vivi.
Por isso aqui vai a letra e a canção. Quem sabe você recorda também, se for da mesma época que eu, ou conhece um pouco do que pode ter sido um pedacinho do Brasil nos anos 80. Um beijo para vocês, para meu Renato, para quem eu sonho ser sempre a "Sandra Rosa Madalena" e de quem já tô morrendo de saudade e quem já tá curtindo o friozinho e a calma de Malmoe. Excelente semana! Volto logo!

"Quero vê-la sorrir
Quero vê-la cantar
Quero ver o seu corpo
Dançar sem parar...

Ela é bonita
Seus cabelos muito negros
E o seu corpo
Faz meu corpo delirar
O seu olhar desperta em mim
Uma vontade
De enlouquecer
De me perder
De me entregar...

Quando ela dança
Todo mundo se agita
E o povo grita
O seu nome sem parar
É a cigana
Sandra Rosa Madalena
É a mulher
Com quem eu vivo a sonhar...

Quero vê-la sorrir
Quero vê-la cantar
Quero ver o seu corpo
Dançar sem parar...

Dentro de mim
Mantenho acesa uma chama
Que se inflama
Se ela está perto de mim
Queria ser todas as coisas
Que ela gosta
Queria ser o seu princípio
E ser seu fim...

Quando ela dança
Todo mundo se agita
E o povo grita
O seu nome sem parar
É a cigana
Sandra Rosa Madalena
É a mulher
Com quem eu vivo a sonhar...

Quero vê-la sorrir
Quero vê-la cantar
Quero ver o seu corpo
Dançar sem parar..."

Sidney Magal

04 janeiro 2009

Fomos "a la plaia ô ô ô ô"

(Manet, Beach at Boulogne sur mer, 1869)


Uma das coisas que a gente mais fez durante o verão sueco foi passar o dia na praia. A gente levava milhares de coisas, como todo mundo, e se estendia na areia e no sol.

Estamos aqui em Juquehy, numa praia do sul de São Paulo, e percebo ainda mais tantas diferenças entre a natureza e o povo de lá, a natureza e o povo daqui. Sem tempo para me alongar, porque tô aproveitando a chuva e a vetania para usar o computer do hotel, anoto rapidamente as que mais me chamam a atenção:

- Na Suécia, praia significa:

. sentir que é tempo de praia quando o termômetro bate 18 ou 20 graus.
. curtir a família e o sol, não importa se a água tá fria ou não.
. se estender e grudar-se na natureza, não importa se o sol é para bronzear ou não.
. fazer piquenique, sem preocupação com parecer pobre de marré de si.
. deixar as crianças brincarem peladas, brincarem sozinhas, soltas e livres.
. não usar protetor solar (a gente é exceção), nem chapéu, nem guarda-sol, nem nada que impeça de esturricar no sol e aproveitar o astro que demorou a chegar.
. tomar água, suco e leite, no máximo. Cerveja só dos brasileiros.
. curtir quieto, deitado e brincando, cada qual com seu grupo. Sem barulho ou música.
. mar sem onda e água rasa por muitos quilômetros. Ótimo para deixar os peladinhos brincarem.


- No Brasil, praia significa:

. só ir à praia ou nadar no mar se a temperatura for quase 30, mas com céu azul e um mormação assim bem quente. Menos que isso, não vale a pena, porque "tá muito frio".
. barulho, alegria e gritaria na água. As crianças brasileiras parecem crianças de outro planeta, ou vice-versa, se comparar com as suecas discretas.
. ter que estar, ou querer estar linda, maravilhosa e magra, além de bronzeada, para sentir-se sem culpa e a praia valer a pena.
. usar chapéu e protetor, guarda sol e tudo o mais, o que não significa não torrar no sol igual as suecas.
. cerveja, cerveja e cerveja com capirinha e quitutes comprados nos quiosques.
. onda, muita onda no mar, onde me mato de tanto pular.
. comprar tudo quanto é acessório dos ambulantes para realçar o bronzeado e, claro, sentir-se lindona.

Eu amo praia e, por isso, praia na Suécia também pode ser bom porque o povo sueco sabe curtir a natureza, sem muitas exigências. As condições de lá garantem que eles se deliciem com muito menos e agradeçam por isso, mas praia para mim significa curtir o mar grande e misterioso e lá eu não pude fazer isso. Sentir a onda me levando e o sal no corpo é algo mágico. Foi o que fiz esses dias todos, com exceção de hoje que o vento tá trazendo ondas gigantes para o hotel. Ainda assim, estou sueca sueca e vou agora catar conchinhas, mesmo com a chuva da qual os brasileiros fogem, porque com temperatura de vinte e tantos no termômetro (Contra os menos 5 que logo vamos pegar) não tem chuva nem vela que me faça perder isso.


....
Anjos do Mar

As ondas são anjos que dormem no mar,
Que tremem, palpitam, banhados de luz...
São anjos que dormem, a rir e sonhar
E em leito d'escuma revolvem-se nus!

E quando, de noite, vem pálida a lua
Seus raios incertos tremer, pratear...
E a trança luzente da nuvem flutua...
As ondas são anjos que dormem no mar!

Que dormem, que sonham... e o vento dos céus
Vem tépido, à noite, nos seios beijar!...
São meigos anjinhos, são filhos de Deus,
Que ao fresco se embalam do seio do mar!

E quando nas águas os ventos suspiram,
São puros fervores de ventos e mar...
São beijos que queimam... e as noites deliram
E os pobres anjinhos estão a chorar!

Ai! quando tu sentes dos mares na flor
Os ventos e vagas gemer, palpitar...
Por que não consentes, num beijo de amor,
Que eu diga-te os sonhos dos anjos do mar?

Álvares de Azevedo