30 novembro 2008

Boas e más notícias, quais vão primeiro?

"Em perfeito equilíbrio, Guyer Salles

As más:

1a. Pegamos o tal virus "influenza", danado de ruim, e passamos muito mal essas duas semanas. Eu, Ângelo e Renato. Até perdemos uns quilinhos... Por aqui, o problema não é passar frio, é ficar no escuro e doente. 

2a. Fiquei sem condição de responder os comentários na semana que passou.

3a. O blog não poderá ser atualizado com tanta frequência nas próximas semanas, porque a Dona Barbuleta aqui vai alçar vôo para o Brasil, de férias.

4a. Não sei se terei internet lá, entonces, vou tentar postar aquelas sensações impossíveis de não serem colocadas, através da rede de algum bom samaritano.


As boas:

1a. Estamos melhor, passou aquelas sensaçõezinhas suaves e adoráveis, tais como diarréia louca, vômito, ânsia, tontura e dor no corpo parecendo que ia morrer. E como perdemos um pesinho dá para chegar mais elegante no Brasil veronil pra pôr os biquinis sem tanta verguenza. Agora eu e Ângelo estamos parecendo duas dragas malucas, comendo desesperadamente. Ele, muito mais do que eu! Gracias a Dios!

2a. Respondi todos os comentários da semana que passou agora há pouco e agradeço muito quem me escreve coisas tão legais e partilha o que sente e pensa. O blog fica muito mais interessante (que ele seja interessante eu já tô deduzindo sozinha...)

3a. Vou estar "mais perto" de muitos de vocês e sentir quase a mesma temperatura, então, poderei ter material para escrever posts menos suequinhos. Além disso, vou poder comer tudo do bão e do melhor, ai que delícia! e não gastar uma hora para se arrumar pra sair de casa.

4a. Se eu não tiver internet e não puder escrever muitos posts, eu prometo que mando uma energização tremenda da praia, do barzinho, da rede, de onde eu estiver pra todo mundo aqui!


Um beijo e esse ainda não é o último post da semana! 
Tem mais depois sobre o Natal sueco, que eu consegui curtir um pouquinho hoje, enquanto comprava os últimos presentinhos da família. Escreverei entre uma mala e outra, mas nom me voi sem dar Feliz Natal...

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27 novembro 2008

A história de Preta e Branca e sobre o amor não dito

(Eu e minha irmã Sandra, talvez com seis e quatro anos de idade, posando assustadas para os fotófrafos de rua, Sumaré, 1977-78)

Não sei exatamente quando meu pai decidiu adotar os apelidos "Preta", para minha irmã, e "Branca", para mim, só sei que quando me lembro da gente criança eu me lembro de meu pai nos chamando assim. O apelido tanto de uma, quanto de outra, não ficou. O que ficou, ao menos em mim, foi a lembrança de que todas as vezes que meu pai queria ser muito carinhoso conosco ele nos chamava assim.

Lembro de ter usado "Preta" para falar com minha irmã, em ocasiões especiais, como em seu aniversário, em comemorações do fim do ano etc, numa tentativa de expressar a mesma intensidade de amor que eu sentia que meu pai o tinha feito no passado.

Quem ele amava mais? De quem ele cuidava mais? Quem ganhava os presentes mais bonitos? Quem levava menos bronca da mãe e do pai?

- "A Sandra!", diria a Sônia pequenina.
- "Não! É a Sônia", diria a Sandra menor.

A verdade é que a Preta e a Branca, embora com apenas dois anos de diferença entre si, eram as inimigas-companheiras, de laços mais fortes que as duas conheciam. Elas disputavam da boneca Emília e dos chocolates “bis” até o amor e atenção de seus pais e dos pretendentes a namorados na adolescência.

Quem diz que irmãs são sempre amigas não está de todo certo. A minha amizade com a Sandra só começou mesmo a poucos anos atrás. Até então a gente continuava sendo as duas garotas de um tempo atrás, "brigando" e lutando para provar qual das duas era a melhor, qual das duas deveria receber o "maior amor" do Pai e da Mãe. Inconscientemente, claro, mas foi o que fizemos. 

Eu não sei exatamente quando começa esse ciúme louco entre irmãos, mas creio que seja quando um supostamente vem para "tirar o lugar" do outro. Talvez nasça nas tentativas exaustivas dos nossos pais de nos tratar feito iguais, quando, no fundo, somos tão diferentes e amados de formas tão diferentes.

E isso eu só consegui perceber depois de ser mãe. Eu sei, e isso eu não posso negar, que se tiver um outro filho, ou filha, será impossível amá-lo da mesma forma que amo Ângelo. Amarei como mãe, mas nunca da mesma maneira. Isso é uma "boa mentira" que os nossos pais, desesperados por nos provar seu amor, nos contam para que paremos de puxar o cabelo e tirar o brinquedo um do outro.

Nós não amamos dois homens, dois amigos, os nossos pais ou dois bichos de estimação do mesmo jeito. Impossível ser assim com os filhos. A grande besteira está em tentarmos provar isso para nós mesmos e tentar provar para os filhos que temos. Eles crescerão tentando nos mostrar que é mentira. Tentarão disputar nosso amor, porque não conseguirão enxergar essa igualdade que contamos existir. Apesar disso, eu concordo, deve ser terrivelmente difícil administrar o amor de dois ou mais filhos. Ao menos, eu imagino. 

Bom, tudo ia bem, obrigado! até hoje de manhã. Percebi, com anos de auto-análise e ajuda da psicologia, que todas as disputas só provavam duas coisas:  o quanto eu e minha irmã queríamos ser amadas e reconhecidas pelos nossos pais e o quanto nós nos amávamos. Cada qual tentando fazer uma imagem melhor de si mesma. Uma, tentando provar que não era só a mais bonitinha e menorzinha, mas que poderia ser, da mesma forma, inteligente e respeitada. A outra, tentando se ver não só como a espertinha e esforçada, mas como aquela que poderia também ser bela aos olhos dos outros.


(A Sandra, numa das fotos que fiz dela e das quais mais gosto, alguns meses depois dela ter sido mãe, 2005)

Idéias infantis e imaturas que a gente carrega, construídas a partir de uma realidade fantasiada na nossa própria cabeça a respeito dos fatos que nos cercam quando somos crianças. A fantasia de que não somos tão amados quando deveríamos ou queríamos, a fantasia de que talvez possamos perder o amor de nossos pais, porque nosso irmão é melhor do que nós ou ao menos é assim que os outros o vêem.

Ocorre que o mesmo pai que nos dera apelido tão carinhoso, demonstrava carinho, cuidando, brincando, cantando e saindo por trinta anos, de madrugada, para trazer nosso leite, mas não dizia. Seu Zé não era um homem de muitas palavras carinhosas. Não seria difícil de entender as razões. Certa vez ouvi-o relembrando com minha tia Nair, sua irmã mais velha, que com uns dez anos de idade eles dois apanhavam de meu avô, com vara feita de bambu, por motivos que até aquele dia (os dois com sessenta e poucos), ainda não conheciam.

Seria fácil de compreender se a gente entendesse tudo de psicologia lá pelos 5 anos de idade, mas o problema é que enquanto somos as Pretas e as Brancas a gente só quer mesmo é ouvir aquilo que confirme o que imaginamos. E não é estranho pensar como essa nossa necessidade caminha com a gente até envelhecermos. 

Eu não acho que os problemas que a gente enfrente quando adolescentes, jovens ou adultos venham todos de erros dos nossos pais, impossível! Mas eu tenho certeza que muitos deles vêm de erros que lhes atribuímos. E um "erro" que atribuí durante muito tempo a meu pai foi o de que ele não conseguia demonstrar-nos seu amor com palavras ou gestos explícitos, depois que crescemos. 

Uma querida amiga, não brasileira, que tenho aqui disse que falou assim para o marido esses dias: "Você poderia, por favor, me dizer "obrigado" de vez em quando?". Ela se referia ao fato de ter "deixado" uma super carreira de gerente no seu país, mudar-se para cá, cuidar do filho e da casa e de tudo o mais, sem reclamar e sem ter nenhum reconhecimento por isso. Ao que ele lhe respondeu: "Mas eu fico agradecido!". E ela: "então, por que você não diz?".

Essa é a mais pura verdade. Dependendo do papel que estamos cumprindo nós simplesmente achamos que não precisamos dizer tudo, porque "é óbvio" que a pessoa deve perceber o que sentimos. E se estamos no papel contrário a idéia que temos é a de que "é claro" que não dá para saber, se a pessoa não diz.

(O Júnior, meu sobrinho, no dia do seu nascimento, um dos motivos que me fez chorar e o segundo (o primeiro foi a Luana) que me incentivou a querer ser mãe, abril de 2005)

Foi essa conclusão a que cheguei hoje depois de receber uma mensagem de minha irmãzinha, ou irmãzona querida. Ela me dizia o quanto se sente chateada por eu nunca responder aos comentários dela no blog, ao passo que me desmancho nos comentários para os meus "amigos". Eu, por meu turno, me chateei com a acusação. Como assim não comento? Claro que respondo! Respondi a todos e vários eu respondi com bastante carinho!, disse eu mais ou menos assim. E eu realmente tinha certeza disso. É minha irmã, é claro que eu respondo com carinho!

Não conformada, busquei no blog os posts nos quais me lembro exatamente que a Sandra deixou recados. De fato eu respondi, mas as respostas estão longe de demonstrar algum "carinho". Nem mesmo atenção direito eu demonstrei. Se eu imaginei uma resposta e fiquei super feliz com o comentário dela eu não escrevi nada. Vai ver ficou perdido nas "entrelinhas" da minha cabeça. Exatamente o contrário do que faço para meus "amigos", os quais conheço apenas de falar na internet ou gente que tenho em alta conta. E checando os posts vi que já escrevi um especial para meu irmão Lê, mas nunca para a Preta ciumenta.

Minha primeira atitude foi revidar a acusação, apelando para o sentimento de culpa de minha irmã menor, usando o fato de termos ficado, Renato, Ângelo e eu, todos doentes ao mesmo tempo, semana passada e essa, numa virose danada que nos pegou com todas as dificuldades que alguém que vive "sozinho" em outro país pode ter. A segunda, entretanto, foi inversa.

Se eu não me lembro da história do "Sociedade dos Poetas Mortos" direito, me lembro bem de uma cena do filme, na qual o professor pede aos alunos que subam na carteira do professor, lá na frente, e tentem ver a sala de aula num outro ângulo. Tentando tomar a posição do outro eu posso tentar ver com os seus olhos, ensina o professor. Posso tentar sentir sua dor e sua alegria. Posso tentar ver-me num outro ângulo, passar de vítima (posição a qual normalmente assumimos) a algoz, ou de acusadores à vítima.

(Tão diferentes e tão iguais, Preta e Branca, chorando na hora do cumprimento, no dia do  casamento da Branca. Amigo Klaus ao fundo,  janeiro de 2002)

Ver num outro ângulo e perceber, sem mágoa, os meus erros é o que a Sandra Regina de Carvalho, minha irmã nunca citada direito no blog, para quem peço em minhas preces todos os dias; mãe do meu lindo e de quem morro de saudade, Júnior; amiga com quem subi no pé de mangueira todas as tardes de minha infância e comi bolinho de chuva assistindo à sessão da tarde; com quem brinquei de Emília e de quem puxei os cabelos; de quem tive inveja quando e quem me inspirou a querer ser mãe, me fez perceber novamente hoje.

Embora a Branca se sinta tão conectada à Preta todos os dias de sua vida, ela parece que se esquece que amar apenas não é suficiente, mesmo que ela mesma viva reclamando isso aos quatro ventos. Amar apenas é bem pouco de vez em quando, sobretudo quando a distância pode deixar ainda mais dúvidas na cabeça de quem está do lado de lá.

-"Sandra Preta amo você, irmã querida!"

25 novembro 2008

Para Sonildes agora é tempo de Brasil




Dentro muitas dúvidas cruéis, uma Sonildes não tem: quando Suécio se torna muito frio, é hora de se jogar nos braços de Brasil, com quem ela encontra o calor que precisa. 

Depois de umas semanas sentindo o gelo de Suécio, aquele jeito estranho de novo de ser, aquela maneira de fazer esquecer o quanto ele pode ser carinhoso, amável e caloroso, Sonildes pensou que é hora de se entregar a Brasil por umas semanas. 

Ela havia dado uma desculpa esfarrapada para o coitado do Brasil e estava no Rio com Suécio há algum tempo. Compreensivo, Brasil esperou esse tempo sem reclamar. Apenas dizia: "quando é que você volta? Estou com saudades!" E Sonildes saía escorregadia: "Logo, meu amor, assim que acabar o trabalho nesses eventos todos!". 

E assim ela curtiu quietinha esse tempo com o belo Suécio. E curtiu sua casa colorida, seu jardim cheio de flores amarelas, seus amigos cheios de conversas gostosas. Entretanto, como todo mundo já sabe, a moça anda mesmo sem saber o que quer da vida e prefere ter tudo enquanto pode. 

Resolveu jogar as desculpas esfarrapadas dessa vez pra cima de Suécio. E nem foi difícil fazer isso, porque depois de uns jantares nos quais ele nem queria ir e de terem pego uma virose danada, Sonildes vai sem culpa.  Não basta ser loiro, lindo e inteligente, tem é que poder beijar.

Semana que vem ela tá na ponte aérea, rumando para o querido Brasil. Lá ela quer curtir o Natal, o Reveillon e a praia com ele. Quer tomar água de côco, rir até de madrugada, comer comida caseira da mãe de Brasil e de sua mãezinha. Vai se derreter de amores por seus irmãos, cunhadas e sobrinhos. Ela vai reencontrar os amigos de quem ela sente tanta falta quando está com Suécio, vai ver o amado jogar capoeira, vair dançar um samba, tomar chopp nos happy-hour até dizer chega!

Se ela esqueceu Suécio e a vida que pode ter com ele? Não. Ter esse tempo com Brasil é uma entrega necessária. Sonildes sente que precisa se entregar a um, depois a outro, sem culpa e sem pensar demais, porque tem aquela coisa na veia lhe dizendo que precisa ser feliz. Agora é hora de Brasil! 


23 novembro 2008

O tempo, a natureza e as mudanças: das coisas mais difíceis e bonitas da Suécia


A esquina de casa sábado passado, 23 de novembro de 2008, zero grau.



A esquina de casa há quatro semanas atrás, 12 graus. Outubro,  de 2008.


A esquina de casa, há oito semanas atrás, setembro, de 2008 - 22 graus.


A esquina de casa, há seis meses atrás, maio de 2008 - 15 graus

20 novembro 2008

A história de um amor côncavo e de outro convexo

("Equestrienne", Marc Chagall, 1931)


Sonildes nunca fora alguém que se decidisse fácil pelas coisas. Não que ela não soubesse exatamente do que gostava, ela sabia, mas gostava de muitas coisas. E de coisas normalmente muito diferentes uma da outra. 

Entre suas dúvidas mais cruéis sempre estava a dúvida do que comer num restaurante, por exemplo. Sonildes ficava horas tentando escolher algo no cardápio e olhava com aquela cara de "Ó... não acredito! O seu parece mais gostoso que o meu..." para quem estivesse com ela.

No trabalho e nos estudos, o mesmo. Sonildes era garçonete de uma grande empresa de eventos e vivia fazendo "bico" nos fins de semana. Não se tratava apenas de ganhar uns trocados, mas de fazer algo diferente e divertido. Durante o dia dividia o tempo terminando um curso de psicologia e trabalhando como suporte técnico numa empresa de informática. 

Era exatamente nesse seu lado cheio de incertezas que Sonildes pensava, enquanto ensaboava o cabelo durante o banho, naquele dia. Mirando seu reflexo no espelho do outro lado do boxe, ela se lembrou de que Brasil não havia notado que ela cortara o cabelo no dia anterior. Apesar disso, Sonildes não estava chateada. Ela sabia, Brasil era assim. Desde que o conhecera, quando ele ainda era apenas o professor Digleíson da Silva, e não o famoso Brasil que viajara mostrando sua ginga na capoeira, o moço era o tipo desligado. Desligado, mas amoroso. E era isso que importava, pensou ela, enquanto sentia a água descendo pelo pescoço.

Amoroso, alegre, falante e gente boa. E bonito. Sim, aos olhos dela, Brasil era de parar o trânsito. Cabelo rastafari, pele morena queimada do sol, olhos esverdeados e corpo forte da luta. E o sorriso? Uhl! Brasil fazia inveja. Todas as amigas de Sonildes se derretiam por ele e toda mulherada na rua dava uma viradinha para conferir o material. E a maior qualidade de Brasil: era apaixonado por ela. E queria casar. 

Mas como em todas as vezes em que estava num maravilhoso restaurante, com um prato quase perfeito a sua frente, a moça cheia de incertezas desejava o prato que ela não havia pedido. E o prato não pedido, nesse caso, era Suécio. 

Foi numa noite de verão que Sonildes foi servir mesas numa glamourosa festa das maiores empresas de marketing do Rio de Janeiro. E foi servindo uma delas que seus olhos encontraram os olhos de Suécio. E seu corpo conheceu outro caminho que não fosse o de Brasil. Era impossível não ter se apaixonado! Pensou ela. E da panacota de côco eles passaram a encontros escondidos, recheados de muito mais. 


("O beijo", detalhe, Klimt, 1937)

Suécio percebia tudo em Sonildes. Se estava triste ou feliz, se queria falar ou calar-se. Em Suécio ela tinha mais que um namorado sorridente e falante, ela tinha alguém para elocubrar com ela as teorias psicanalíticas de Jung e Melanie Klein. Sim, Suécio gostava muito de ler a respeito, porque sua mãe era médica psiquiatra e o pai professor de filosofia. E ele também era ótima companhia nos museus e nos jantares, os dois sempre tinham algo muito interessante para falar. Um pouco diferente do adorável Brasil que, para começar, gostava demais de um bom churrasco na sacada do apartamento dos amigos. E o assunto, sempre muito animado, girava em torno de dança, luta, futebol e música. 

Não que Sonildes não gostasse. Como falei, ela adorava. O problema é que ela também adorava ser outra Sonildes. E esquecer quem estaria nas finais do campeonato brasileiro, quem morreria na novela das oito ou das desgraças dadas do noticiário. É verdade que, muitas vezes, Brasil tinha conversas do tipo "cabeça" e Sonildes adorava, mas, apesar de amar o super astral dele e dos amigos, ela se sentia meio rainha podendo viver anonimamente ao lado de Suécio.

E a discrição, tranquilidade e ponderação de Suécio lhe davam uma certeza que ela nunca sentira antes. A certeza de que não poderia ser feliz apenas estando ela com Brasil. Ocorre que, de vez em quando, a casa de Brasil se enchia de amigos não muito amistosos. Vez ou outra eles pareciam tão agressivos que Sonildes não se sentia sempre segura nem mesmo na presença de Brasil. Sem contar que, por natureza de seu trabalho, Brasil era mais o tipo instável financeiramente, mas mesmo assim ele vivia cantarolando um futuro que provavelmente nunca aconteceria. 

Sonildes o amava como se tivesse nascido já colada em seu corpo e por isso fingia com ele que todos aqueles sonhos quase adolescentes iriam mesmo um dia acontecer. 

Com Suécio ela sentia diferente. Sem nunca ter sido apresentada a amigos ou família de Suécio, ela não precisava ser o que não queria, quando não queria. Ela era apenas ela. Ela e Suécio, o amante alto, loiro e de olhos azuis pelo qual suas amigas também morreriam, mas de quem nem faziam idéia que existia. Não! Viver sem esse lado, essa conversa profunda e gostosa, essa paz e esse mundo, eu não mais poderia! Disse Sonildes em voz alta para si mesma, segurando a toalha nas mãos. Impossível!

E se isso lhe parecia absurdo e Suécio havia lhe dado tal certeza, ele não conseguira dar a ela outra: a de que pudesse realmente viver feliz e completa ao seu lado, sem o amor e o carinho de Brasil. Acontece que, vez ou outra, Suécio lhe parecia frio, distante e calado. E, nesses dias, Sonildes sentia tanta falta da presença de Brasil que lhe ardia o peito. Tão centrado nos problemas da empresa e nas leituras, ela não o sentia tão presente quanto queria. E a solidão também poderia se transformar num problema, com o passar do tempo, já que Suécio não era o tipo de viver ao lado de amigos e sua família era o tipo toda independente. Cada qual no seu lugar, tomando conta de sua própria vida.

Isso, da mesma maneira, lhe parecia horrível de se suportar e fora de questão. Como poderia ela viver sem o toque e o cheiro de Brasil? O que faria com todos os dias em que se deliciava em sua companhia, tomando sol na praia, falando de coisas suaves e gostosas, ouvindo e dançando dentro da água, como se fosse o último dia para ser feliz? Impossível. 

E acontece que a dúvida de Sonildes caminhava assim. Entre um banho e outro, ela esquecia das indagações e tratava apenas de curtir a companhia de um e de outro separadamente, sem pensar que haveria de se decidir um dia. Durante os banhos, ela mergulhava novamente no seu mundo impenetrável particular, onde nem Brasil, nem Suécio haviam chegado. Às vezes Sonildes gostava de fantasiar que podia viver com um e outro ao mesmo tempo. Ter tudo de bom de um e tudo e ótimo de outro. E ela sorria para si mesma. Ou quem sabe um dia aparecesse um terceiro... E foi sorrindo que Sonildes amarrou o laço do roupão branco, pôs os chinelos macios e foi se maquear para mais uma noite gostosa com um de seus dois amores. 


("Esperança II, detalhe, Klimt, 1907-08)

18 novembro 2008

"Quem é você? Diga logo que eu quero saber..."


Olá gente toda que mandou recadinho no post sobre os 30.000 visitantes. 

Publiquei comentários de muita gente, super demais, que está sempre por aqui, mas bateu atrasada no cronômetro. A coisa curiosa disso é que vocês podem ver lá recados de muitos visitantes queridos, mas não o do visitante 30.000. Eu ia deixar batido, sabe? Ia fazer de conta que não tinha colocado aquele post e dava um de "John Arm less". Acontece que muita gente me perguntou sobre o misterioso, ou seria tímido, ou seria desatento, visitante 30.000.

E eu não tenho como deixar de dizer a verdade. 
Aconteceu de novo a mesma coisa. Adivinha quem foi que bateu em nossa porta naquele exato momento 30.000?

Sim, sim benhê... Você adivinhou rápido. Foi ela mesma, nossa querida Vivi. Ou Vicky. Ou Vitorinha, como preferir. O único problema é que a Vivi fica com esse negócio de anonimato e essa coisa medrosa de aparecer. Lembram de quando ela foi a visitante 6.000 e precisei falar tudo in off? Então...

Ela acabou me ligando esses dias e disse (tudo em sueco, porque tô super expert, sabe?) que tava com saudade, blá, blá, blá. Conversa de mulher. Vivi é adorável, acredite. Ela não é uma princesa como as outras. Ela brinca com Ângelo, come bolo de fubá em casa e me conta as coisas dela por telefone...

Falou de que o simples fato de ter 31 anos e se sentir tão "geração x", acaba sendo um peso a mais em sua vida já sendo pressionada a noivar e casar logo com o Dani, ter os filhos que toda a nobreza espera.  Mas o problema é que ela tem todo esse negócio de medo ser estrela e medo dos tablóides...



(Vicky em visita dos seus sonhos, na Índia)

Por causa disso não deixou recado, apesar de dizer que adora os brasileiros e adora passar pelo Borboleta e ler os textos da Embaixatriz Deslumbrette. E ela tá ainda mais boba com essas coisas depois que foi vaiada por passageiros num vôo de volta da Índia, quando foi orientada a tomar um vôo que não era o seu e estava repleto de outros passageiros. Tudo bobeira, mas vê se rápido que ela tem mesmo o sangue latino choroso nas veias. 

Acontece que a Vitorinha é fofa, mas ela é filha da Rainha, entende? Com tanto dinheiro e tanta coisa para cuidar, não tem como ser uma pessoa normal, sabe? A gente é normal assim, porque não tem sangue azul nas veias e não vive saindo no noticiário. Uma vida simples salva a gente de ser louco, ou pelo menos salva a gente de que os outros saibam que a gente é louco.

De qualquer jeito, fica de novo a homenagem silenciosa. Para a Victoria e para todos vocês que entraram depois dela, porque tenho certeza de que são visitantes tão nobres quanto o nosso número 30.000. Boa noite.  

17 novembro 2008

Meu querubim


(Eu e meu Ângelo, dançando, felizes da vida, em festa brasileira na casa da Mônica e do Conrado, Lomma, outubro de 2008)



Meu Anjo Sim


Não sei se tu tens um anjo
Que eu tenho um anjo sim
Meu anjo é um pequenino
Que agora vai dormir

Dorme meu anjo lindo
Meu menino serafim
Que o sono vem vindo
Pra levar você de mim

Porque está na hora
Na hora de dormir
Dorme meu pequenino
Dorme meu querubim


(Palavra Cantada, Composição: Sandra Peres/Zé Tatit)

15 novembro 2008

Dicas mil: vida prática na Suécia - Escola infantil

(Aluninho do Klara Förskola)


A querida e corajosa leitora Janaína Pesci, uma brasileira que está vindo morar em Estocolmo, deixou um comentário no post "Eram quatro horas..." e me fez algumas perguntas:

"... Sou brasileira e mãe de três filhos (Felipe 4 anos, Murilo 2 anos e Nina 1 ano) e meu marido recebeu uma proposta para trabalhar em Estocolmo. Tenho muitas dúvidas é lógico, pois estaríamos indo com 3 bebês ... Gostaria de saber, se com visto de trabalho e permanecendo apenas 6 meses no país, meus filhos teriam o direito de frequentar escolinhas públicas ..."

Sim Jana. Com visto de trabalho, todos os seus três fofíssimos poderão ir à escolinha pública. Com o visto vocês terão uma identidade sueca, isto é, uma carteirinha com um número pessoal que lhe dá direito a todo assistência e serviço público daqui. Se seu marido vem vindo por alguma empresa grande, eles provavelmente resolverão tudo isso para você.

Com essa idade todos eles irão frequentar o mesmo tipo de escolinha que o Ângelo: o Dagis ou com o nome mais formal, Förskola, reservado para crianças de 1 até 5 anos de idade.

Há algumas diferenças com a estrutura da pré-escola brasileira. A primeira tem a ver com uma de suas perguntas. A escolinha é pública sim, mas você vai pagar algo por ela. A escola infantil pública sueca não é, como no Brasil, totalmente de graça. Você pode pensar que isso é algo maluco, porque a Suécia é conhecida pelo serviço democrático do Estado, mas a verdade é que aqui não há quase diferença entre escolinhas públicas ou particulares. Isso no quesito qualidade e no quesito preço.

Não quer dizer que você vai gastar uma grana com a escola pública, mas que, ao contrário, não há como as escolas particulares saírem lucrando com educação, porque a qualidade é extremamente parecida e eles não podem fazer uma fonte de dinheiro fácil, como no Brasil.

Nenhuma escola particular, bem como nenhuma pública, pode cobrar mais que o teto estipulado pelo Estado que é de 1 até 3% da renda mensal da família. Quanto menos for essa soma, menos a família paga pela escolinha dos filhos e vice-versa.

Esse valor relativamente baixo é devido ao fato de que Estado sueco arca com a maior parte (89%) dos gastos que uma criança gera em idade pré-escolar. A família arca com muito pouco, mas, como no sistema de saúde, ela sempre precisará pagar algo pelo atendimento.



1. Taxa máxima:

- pré-escola: a taxa cobrada não pode ser superior a 1 e 3% do rendimento familiar, dependendo de quantas crianças tem a família.

A taxa não pode, contudo, ser superior a 1.140 coroas (ou R$326,61) por mês, para a família, quando se trata do primeiro filho, 760 coroas (ou R$217,82) no caso da segunda criança, e 380 coroas (R$108,88) para o terceiro filho.

Veja mais detalhes no site do Conselho Escolar, Skolverket.




(Molecada aprontando no Oasen Förskola)


2. Inscrição para a pré-escola (Anmälan till förskoleverksamhet)

Toda criança tem garantida uma vaga na pré-escola, de acordo com uma lei sueca de 2001. O prazo de espera pode chegar até três ou quatro meses, depois da inscrição feita.
Sendo assim, quanto antes você fizer a inscrição deles, terá resposta mais rápido. Há como fazer a inscrição pela internet, sem necessidade de ir a cada escolinha. Foi assim que eu fiz. Fui conferir apenas depois de receber a confirmação pelo correio. Só lembrando que para fazer a inscrição é preciso já ter a sua identidade sueca em mãos, para preenchimento completo da ficha.

Clicando na página da cidade de Malmö, você encontra uma lista com as regiões da cidade, nas quais há a página de cada Forsköla correspondente.


3. Pai e mãe trabalhando ou estudando:

Uma outra coisa que não se pode esquecer é que as crianças terão direito à creche se nenhum dos pais estiverem livres para fazer isso. Então Janaína você precisará estudar ou trabalhar para ter essa vaga. Para estudar sueco, inglês ou outra coisa você tem as escolas para adulto, algumas pagas e outras bancadas pelo Estado. Mas esse é assunto para um próximo post "Dicas mil". Espero que este primeiro possa ser útil para você e outros aventureiros mais que se arriscarem a desbravar a fria e gostosa Suécia.



(Turma do Triangelns Förskola)

...

ps: se você tem mais informações sobre os assuntos tratados no "Dicas mil", manda pra gente que suas dicas serão muito bem-vindas!

Quem bate? É o visitante número 30.000?


Dê uma olhada no contador do lado direito e veja se você é o visitante número 30.000.

Deixa aqui um recado, deixa! Conte quem é você, mande uma foto ou mais o que quiser. Temos curiosidades mil a seu respeito. O que faz, como vem parar aqui nessa porta. 

Será um prazer contar um pouco de você no próximo post e agradecer aos outros todos homenageando um de vocês.

Hasta la vista baby e parabéns, hoje deve ser seu dia de sorte!!!

12 novembro 2008

Sentados à beira do rio...


("No banco do Sena Rio, Bennecourt", 1868, Claude Monet)



Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.



Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos...)


Fragmento do poema de Fernando Pessoa (Ricardo Reis)


...


Esses dias tenho escrito pouco e não tive tempo para responder os comentários atenciosos de alguns de vocês. Terminei o primeiro post da série "Dicas mil" e respondi agora os comentários dos textos antigos. Com isso, tomei as mãos de quem me escreveu e sentei à beira do rio... é assim que eu me sinto quando leio o que vocês me escrevem. Sinto que não estamos sentados sozinhos à beira do rio. 

Ao contrário, em tantos momentos, sentamo-nos à beira do mesmo rio, enlaçamos carinhosamente nossas mãos, apesar da distância, e ficamos a fitar o curso dos mesmos sentimentos e acontecimentos.

Adoro quando isso acontece. Quando, sentados, a gente contempla coisas parecidas ou não. E a minha realidade torna-se a de vocês, e a de vocês torna-se a minha. Adoro partilhar o que partilho aqui com vocês. E mais ainda quando há troca. Obrigado por estarem aí!

Boa noite e ótimo sábado! Sem chuva, eu espero!

Dicas mil: vida prática na Suécia, "uma mão lava a outra"


É interessante como a gente se adapta rápido às coisas e aos lugares. Logo que desembarquei nessas terras, há um ano e meio atrás, a Suécia e a vizinha Dinamarca me pareceram tão mais diferentes, estranhas e desafiadoras do que hoje. Sinto que, com o tempo, fui me familiarizando com quase tudo e acabando por me esquecer de como os primeiros passos foram difíceis mim e para o Renato no começo.

Acontece que sempre tem alguém legal me escrevendo, em posts recentes ou antigos, e me perguntando sobre alguns detalhes da vida aqui. Alguns me pedem dicas e têm questões muito parecidas com as que eu tinha antes de vir ou me decidir a vir para cá.

Outros me perguntam sobre o sistema de saúde, sobre educação escolar, ou tentam partilhar experiências como o parto na Suécia etc. Essa semana, depois de mais um desses comentários, acabei fazendo uma lista mental de quantos inúmeros itens eu poderia escrever, tentando dar algumas dicas -talvez óbvias para quem já vive aqui, mas extremamente difíceis para quem tá chegando, a respeito de coisas práticas do nosso dia a dia. 

Criei então, essa nova sessão: "Dicas mil: vida prática na Suécia". Em cada post tentarei dar essas pequenas e simples sugestões sobre assuntos com os quais me descabelei no início de minha vida aqui ou me descabelo até hoje. Eu não pretendo esgotar o assunto (o que me seria impossível), nem mesmo tentar tirar o gostinho de que cada um viva seus próprios desafios, mas apenas dar uma mãozinha, se me for possível. 

Com os posts, talvez a gente receba ajuda dos "universitários", ou seja, do pessoal que já vive aqui e talvez tenha informações muito mais relevantes que eu e, quem sabe juntos, nós possamos ajudar os corajosos que por aqui chegam a fazerem menos malabarismos e se equilibrarem melhor na corda sueca do que nós.

...

(ps: estou atrasada com as respostas aos comentários feitos nos últimos dias, mas prometo fazer isso até o fim dessa semana!)

08 novembro 2008

Eram "quatro e quinze da noite" quando tudo aconteceu...



Eram quatro e quinze da "noite" no relógio escandinavo...

- quando a gente saiu do playground e parou nesse Café escuro, em frente de casa, quinta feira, para tomar um leite com chocolate, junto do Iven e da Nikol.






- quando a gente preparava o jantar das cinco e meia para receber nossos amigos suecos Paulina, Babaqui e Kian, sábado passado...




- quando Ângelo estava todo pulante na minha cama e a chuva e o dia caíam pela janela. 







- quando encerramos o passeio do dia e deixamos o frio pro lado de fora...

No outono sueco em que só se vê alguma luz do sol lá pelas oito ou nove da manhã e a noite chega as quatro e meia da tarde, a vida acontece sempre a qualquer hora da noite ou de uma quase noite. 

Outono parece tempo de dormir com as árvores...




06 novembro 2008

”Obama är snygg och solbränd”: Por que a Suécia não é um bom lugar para se aprender sueco?


A Suécia não é um bom lugar para se aprender sueco porque... quase todo sueco ou sueca também fala inglês, além de sua língua materna. Inglês bonito e fluente.

Toda vez que mando ver meu suequinho "feloso" (feinho, essa palavra é uma invenção portuguesa minha) neles, recebo as respostas num sorridente inglês. 

Há algumas gerações, os suecos têm oportunidade de estudar ao menos duas línguas diferentes na escola. Escola pública, é bom lembrar. A maioria fala muito bem o inglês, incluindo muita senhorinha de oitenta e tantos que fica tentando falar comigo em inglês. Tão bonitinho. 

O inglês é obrigatório e o aluno tem a opção de escolher outra língua dentre algumas oferecidas, como o alemão, o francês e o espanhol que são bem comuns aqui como terceira língua.

Além de ser mais fácil para eles falarem inglês com a gente do que a gente falar sueco com eles, muitos adoram treinar o inglês para as férias de verão ou para o futuro.

A caixa do supermercado, o técnico da máquina de lavar roupa, o garçon do restaurante, a dona da loja, o atendente da prefeitura não só falam inglês como dão um "banho" no nosso inglesinho merreca que aprendemos nas escolinhas particulares caras aí no Brasil.

Eu continuo mandando sueco neles, com frases meio "pancadas" e salada mista e dando aquela enganada.... mas já percebi que embora o inglês facilite demais a vida da gente aqui, falar sueco na Suécia acaba sendo mais fácil se você não entender nada de inglês mesmo. Daí, os caras vão ter que falar "svenska" com você de qualquer jeito... E você? Vai pular miudinho, mas vai falar sueco rapidinho rapidinho, eu lhe "agárantiu!"
...


O hino nacional sueco que está escrito na Bandeira ali acima aclama a natureza e a força da nação sueca como quase todo hino nacional. É bonito de ouvir e vale a pena se você tem curiosidade de saber como soa o sueco ao nosso ouvido brasileiro. 

E o título do post eu tomei de um jornal daqui. Trata-se de uma frase nonsense de Silvio Berlusconi, primeiro ministro italiano, dada numa entrevista sobre o novo presidente dos Estados Unidos: "Obama é bonito e queimado do sol". Dita em sueco parece complicado, mas traduzindo você vê que não é nada demais. Não é mesmo?

04 novembro 2008

Que jogo você prefere: "Just Ping" ou "Ping Pong"?

(Parece que como eu, ela não resiste a jogar um "Ping Pong")


Nikol, uma querida amiga que fiz aqui, usa uma expressão divertida para me explicar o que ela sente por determinados tipos de pessoas. 

O tipo número 1 é aquele que irrita porque, numa conversa por exemplo, faz com que o jogo seja apenas "Ping", quando você tá louco para que seja "Ping Pong". É aquele que não faz a conversa render porque é tímido, ou porque tem preguiça ou porque é chato demais e acha qualquer assunto sem graça. Uma conversa típica com o número 1 seria:

- Noossa! (diz você para ele, com cara de surpresa e de simpático) Você trocou a decoração dessa sala não foi? Está super bonita!
Ao que o sujeito responde sem mudar suas feições:
- É, troquei.  
- Ahnnn... É... e você disse que estava fazendo um curso novo não era? Super legal, porque é bom mesmo pôr a cabeça pra funcionar...
- ahã... É... (Continua ele com cara de jogador desinteressado).

O número 1 faz você fazer o papel do "Just Ping", sabe? quando você tá jogando a bolinha sozinho? Isso porque ele não te manda "Pong" nenhum. Você fica lá ansiando pelas bolinhas para que você não seja o único a se esforçar para manter uma conversa decente. Mas nada... 

O número 2, ao contrário, acaba fazendo com que você faça queira o jogo "Just Ping", mesmo quando você é como a Nikol, que adora fazer um jogo legal. O número 2, segundo minha amiga, não merece que você se importe em jogar as bolinhas de volta. Seria mais ou menos o tipo de pessoa que joga com as palavras, usando-as de maneira a te deixar sem vontade de jogar ou constrangido de querer continuar o jogo. 

Normalmente Nikol, alemã (organizada e séria) com raízes sérvias (mais parecido com jeitão animado brasileiro),  põe nessa categoria gente que fala demais ou que confunde poder se expressar com liberdade de falar o que quer da maneira que deseja. 

Gente assim ela faz questão de deixar jogando sozinho. Ela não se irrita, não perde tempo no jogo, não faz "Pong" para dar trela pro jogador. Ela deixa a bolinha cair do lado e põe a raquete na mesa. 

A Nikol talvez seja sábia. Eu ainda não sou tão boa jogadora. Eu sou o tipo "Ping Pong" em quase toda situação. 

Quando eu tinha oito anos, no primeiro dia de aula da segunda série, o Adriano, um menininho muito miudinho que era o primeiro da fila dos meninos, atrás de mim, a última das meninas, me olhou lá debaixo e disse:

- Oi Girafa! Ao que os outros meninos morreram de rir. 
Cansada das piadinhas da infância, me virei num segundo, sem dizer nada e fiz:
- Plaft! mandei um tapa na cara do coitado que chorou à beça. Eu mandei um "Pong" nele e virei o "leão bravo" da classe antes das aulas sequer começarem.  

Quando eu tinha uns quatorze anos, um homem de uns cinquenta tentou dar uma de esperto pra cima de mim, no ônibus apertado. Eu não tive dúvida. Virei pra ele e falei alto pra todo mundo ouvir:

- Se toca! Sai pra lá, seu velho-nojento-sem-vergonha! 

Na semana passada, conheci uma sueca mal educada, caso raro aqui. Uma senhora de muitas décadas de vida, cara de muito mal amada por todo mundo, fez assim com os braços, tipo "sai", incomodada, meio que empurrando a mim e a Jana do corredor da loja vazia, por onde ela queria passar. Esperei uns minutos, fui lá no corredor onde ela estava  testando milhares de gorros e tentei pegar um atrás dela. Quando a criatura me olhou sem sair do lugar eu não disse nada, mas fiquei gesticulando da mesma maneira que ela, meio que dizendo: "então, agora eu é que quero passar, você me dá licença!"

Adoro a teoria da minha amiga calma e pacífica Nikol e acho que ela tem razão. Certos jogos não merecem ser continuados. Se a gente tem que tolerar ser "Just Ping" para gente sem jogo, de vez em quando, é preciso aprender também a deixar aqueles que não sabem fazer um jogo legal no papel jogando bolinhas brancas sozinho. Talvez aprender que certos jogadores não merecem os nossos "Pings" e que outros não merecem os nossos "Pongs" porque, independente do resultado, o importante é como decidimos jogar ou não a partida. 

02 novembro 2008

O que e quem vive em mim

("Aniversário", Marc Chagall, 1915)


Ontem foi dia de finados (acho muito feia essa palavra) aí no Brasil e aqui também.
Contrariamente a alguns anos em que eu me lembrava bem dos amigos perdidos e do pai querido, eu não senti tristeza alguma. Lembrei deles com carinho, fomos passear, ri, comi, fiz tudo que faço num dia qualquer.

Na sexta feira, eu ri olhando para uma melancia na feira daqui, quando me lembrei do povo todo vendendo melancias em caminhões perto do cemitério de Sumaré, quando a gente era pequena. Para uns dor, para outros, festa.

Mas a verdade é que quando a gente perde alguém tão próximo, por um bom tempo é como se arrancassem de você uma parte do seu corpo. E não há um minuto sequer que você não sente aquela dor da dilaceração. Falta algo em você e não há como não chorar ou não ficar triste. E por mais que todos ao seu redor digam palavras consoladoras, a dor parece infinita e infindável. 

Hoje, aqui, brincando com o Ângelo e o Re, sentindo falta de meus irmãos, mães, da família do Re, vejo que a falta que sinto do meu pai é a mesma. Como se ele tivesse viajado, ou eu, e a gente fosse mesmo se encontrar em breve. Ao mesmo tempo, como qualquer outra pessoa que amo sinto sua presença viva e constante comigo. 

Não tem a ver com espíritos ou sei lá o que seja, tem a ver com amor. Quando alguém que te criou, carregou, amou e cuidou vai-se embora nada pode arrancar sua presença, nem mesmo sua ausência física. 

Essa pessoa estará em você até o dia em que você também se for. Ou mais, aí já não sei...
O que sinto hoje sobre esse dia é que não preciso ir ao cemitério, embora eu não sinta problema nenhum em ir, eu não preciso chorar nem ficar parecendo triste. Eu não estou mais triste, porque o tempo cura essas feridas. Hoje sinto que a morte é duríssima quando vem, mas que o tempo se encarrega de nos mostrar como ela é tão natural quanto o meu sopro de vida. Depois de um tempo da morte de alguém é tão estranho perceber que ela vive mais em nós do que vivia antes e você se pega sentindo que a vida, tal qual a temos agora, é apenas uma das maneiras de estar conectado a alguém.