30 setembro 2008

Coisinhas simples que eu adoro...

(It is when in solitude, when you look at the most simple things. It is in solitude, when you enjoy these simple things. It is then, when you look at your own life with a more simple point of view. In solitude, and in silence. in: Mr. Tuli)



Há muitos e muitos anos atrás, ganhei um livrinho infantil magnífico com dez coisinhas muito simples que a autora gostava de fazer. Os "deseinhos" lindos e as rimas até hoje estão na minha cabeça.

Lembro-me de ter presenteado alguns amigos com ele e também de ter trabalhado em sala de aula uma dinâmica mais ou menos assim: todo mundo deveria escrever 5 coisinhas simples que adorava. Eu fazia isso no início do semestre para que os alunos se soltassem um pouco na escrita e começassem a pensar que um dia poderiam sim ir bem na prova de redação do vestibular. O resultado era sempre algo pra lá de profundo e cheio de ternura.  

Penso nesse livro com muita frequência, praticamente toda vez que faço algo assim, super simples, mas que tem muito valor para mim mesma. A impressão que tenho é que são essas coisas que tornam nossa existência de alguma forma mais especial. É algo que para outro não tem valor, mas que nos dá uma certa identidade.

Bom, sem mais delongas, aqui vão cinco coisinhas muito, muito simples que eu adoro:

1. Pijama fofinho 
2. Travesseiro limpo e branquinho
3. Cheiro de café de manhãzinha
4. Flores num vaso transparente
5. Ganhar beijo na bochecha de presente.

Agora queria saber aí de vocês: quais as cinco coisinhas muito simples que vocês mais adoram?


...


(ps: infelizmente não consigo me lembrar o nome correto do livro, nem a autora. Meu exemplar está no Brasil, mas é algo mais ou menos assim: "Dez coisinhas simples que eu adoro"... Se alguém conhecer também me passa o nome para eu citar aqui no post?)


29 setembro 2008

Nossa noite estrelada

("Noite estrelada", Vincent Van Gogh, 1889)


A Lilás deixou comentário super sincero a respeito de meu último post de "gosto amargo". A ela e a quem mais se sentiu com nó ruim na garganta, dedico esse aqui. 

Lilás,

Há esperança sim. 
Somos nós mesmos. 
Mais nada.
E mais ninguém.

Só de nós,
Só em nós,
mora quieta
alguma chance
de mudança.

Um beijo pra todos vocês e uma terça-feira cheia de coisa boa, como essa poesia do Drummond...

...


Viver não dói

Definitivo, como tudo o que é simples. 
Nossa dor não advém das coisas vividas, 
mas das coisas que foram sonhadas 
e não se cumpriram.

Por que sofremos tanto por amor?

O certo seria a gente não sofrer, 
apenas agradecer por termos conhecido
uma pessoa tão bacana, que gerou
em nós um sentimento intenso
e que nos fez companhia por um tempo razoável, 
um tempo feliz. 

Sofremos por quê?

Porque automaticamente esquecemos 
o que foi desfrutado e passamos a sofrer
pelas nossas projecções irrealizadas,
por todas as cidades que gostaríamos 
de ter conhecido ao lado do nosso amor 
e não conhecemos,
por todos os filhos que 
gostaríamos de ter tido junto e não tivemos,
por todos os shows e livros e silêncios
que gostaríamos de ter compartilhado,
e não compartilhamos.
Por todos os beijos cancelados, 
pela eternidade. 

Sofremos não porque
nosso trabalho é desgastante e paga pouco, 
mas por todas as horas livres
que deixamos de ter para ir ao cinema, 
para conversar com um amigo, 
para nadar, para namorar.

Sofremos não porque nossa mãe 
é impaciente conosco,
mas por todos os momentos em que
poderíamos estar confidenciando a ela
nossas mais profundas angústias 
se ela estivesse interessada 
em nos compreender.

Sofremos não porque nosso time perdeu,
mas pela euforia sufocada.

Sofremos não porque envelhecemos, 
mas porque o futuro está sendo
confiscado de nós, 
impedindo assim que mil aventuras 
nos aconteçam, 
todas aquelas com as quais sonhamos e 
nunca chegamos a experimentar.

Como aliviar a dor do que não foi vivido?

A resposta é simples como um verso:
Se iludindo menos e vivendo mais!!!

A cada dia que vivo, 
mais me convenço de que o 
desperdício da vida 
está no amor que não damos,
nas forças que não usamos,
na prudência egoísta que nada arrisca,
e que, esquivando-se do sofrimento,
perdemos também a felicidade.

A dor é inevitável.

O sofrimento é opcional.


Carlos Drummond de Andrade

A primeira vez que senti medo na Suécia



("Ashes", Edvard Munch, 1894)



Há algumas semanas atrás eu estava indo para a academia de ginástica no finalzinho da tarde, quando ainda estava claro e muita gente e carros circulavam pelas ruas. Como de costume, estava perdida no meu mundinho particular e cruzando a ponte do Canal da cidade. E de repente tive aquela sensação estranha que temos quando sentimos que alguém está nos olhando ou acompanhando. Um cara muito grande, largo e alto, meio estabanadão vinha se aproximando de mim. Apertei o passo rapidamente e ele veio mais e mais e senti um arrepio de medo terrível. Parei e saí do caminho dele com o coração num compasso muito acelerado. O grandão loiro e estranho, esbarrou e passou por mim como quem procura por outra coisa. Foi então que percebi que ele falava sozinho. Parecia alguém mais doido com seus botões do que normalmente a gente já é e notei que ele não perseguia a mim, mas estava apenas mais enfiado em si mesmo do que eu.

Um outro rapaz estava próximo e percebeu que eu havia me assustado. Foram apenas alguns segundos, mas eu gelei de medo. Desde que vim para cá ninguém esbarrou em mim assim. Aliás, todo mundo odeia que você esbarre neles. Continuei caminhando para a SATS que fica apenas algumas quadras de casa e foi quando eu percebi que aquela havia sido a primeira vez que eu havia sentido medo aqui na Suécia, desde que me mudei, há um ano e oito meses atrás.

Desde então, venho pensando neste post. E talvez eu sempre o adie porque prefiro falar de coisas mais suaves ou do lado bom e bonito das coisas ruins. Houve um tempo em que eu lia a "Folha" todo santo dia e me contaminava com todas as notícias, iguais a milhares de anos, sobre corrupção, violência, tráfico, acidentes, miséria e tantos outros problemas que a gente tem nesse nosso Brasil. E houve um tempo em que eu preparava muitas aulas cheias de informação e senso crítico para os meus alunos do pré-vestibular.

Acontece que, aos poucos, fui dando lugar para um dia egoísticamente mais suave e deixando de "comer" tudo que podia sobre problemas e possibilidades de mudança. Talvez seja isso que a gente vá fazendo mesmo para tentar sobreviver em meio ao caos. Para suportar uma vida cheia de riscos, como a que temos numa cidade como São Paulo e Rio, por exemplo, a gente precisa sublimar em algo que faça com que nos sintamos vivos, bonitos e cheios de perspectivas pela frente.

Infelizmente, esse dia do medo na Suécia fez vir à tona um monte de coisa que sempre pensei e continuo pensando sobre viver ou não no Brasil. Sou brasileira e tenho tanto orgulho disso que vivo tentando convencer os estrangeiros que conheço aqui a irem nos visitar um dia. 

Viver fora do Brasil é uma experiência totalmente ambígua. Quanto mais tempo você está fora, mais você se apega a alguns valores de seu país para tentar se manter vinculado a ele e se sentir parte daquela Pátria onde cresceu e aprendeu a ser gente. Talvez por essa razão muita gente assine TV brasileira (o que eu provavelmente nunca farei), traz comida brasileira, vai a mercados, shows, eventos, tudo que lembre o Brasil. Ainda não me incluo no grupo, mas também sou saudosista. Vivo falando de como é bom sair na noite de São Paulo e comer uns bons salgadinhos nos bares, de como a gente sabe fazer uma festa gostosa e dançar com um ritmo todo nosso. Adoro falar de como os brasileiros são felizes, de como abraçamos - em todos os sentidos - todas as pessoas que nos rodeiam. Adoro lembrar de meus amigos, do que fazia com eles, e penso em minha família e no que herdei dela centenas de minutos por dia. 

O Brasil está em mim. Eu não sou e nunca serei sueca ou européia. Por outro lado, quando vivo experiências como essa que descrevi lá acima, percebo que viver em Malmö tem me dado oportunidade de viver com essa paz, essa sensação de estar segura praticamente o tempo todo. Sair pelas ruas com todos os meus pertences, esquecer de grudar na bolsa, de esconder a câmera fotográfica, de atravessar pro outro lado da rua, ao mínimo sinal de que posso ser assaltada, não ter medo ou pena de quem invade o carro em todo cruzamento de semáforo, esquecer a possibilidade de que alguém na rua pode pensar em fazer mal a mim e a quem está comigo é algo que a gente aprende fácil e do qual é difícil querer abandonar. 

Eu tenho certeza de que todos meus amigos e família conseguem ter uma vida "quase normal", no sentido de que trabalham, se divertem, passeiam pela cidade etc e que eu farei tudo isso de novo e que serei, com certeza, bastante feliz de novo quando estiver por aí. A gente acaba sendo feliz por muitas razões, apesar de ter muitas outras para ser totalmente frustrado.

O que acontece, entretanto, é que estar fora daí me dá uma sensação de que o Brasil parece um planeta perdido na galáxia. Quem está fora não imagina o tipo de pressão em que nos colocamos todos os dias e quem está aí não quer ouvir dizer que a situação é tão ruim. Se apega, mais que eu, a todos os valores nacionais consagrados, para tentarem provar para si mesmos que o país é muito bom. Tanto que muita gente que conheci aí sempre me disse que não tem vontade de viajar para o exterior, porque o Brasil já é grande e bom o suficiente. 

Aqui, conheci gente de quase todo canto do mundo e acho que a maioria deles tem uma visão romântica do que seja o Brasil. Exemplo disso, foi quando num dia, depois de uma aula de sueco, o Jocelyn, um francês e o Darryn, um irlândes, me disseram o que ouço regularmentea aqui: que tinham muita vontade de conhecer o Brasil, mas que "ouviram dizer" que "era muito perigoso". E eu respondi. "Sim, dependendo do lugar pra onde você vai, pode ser sim." E o francês, economista, viajado pelo mundo todo, me perguntou: "quer dizer que podem roubar minha bolsa no metrô ou algo assim?". E então eu ri tristemente. Tentei explicar a eles, sem roubar-lhes o sonho de conhecer nosso país, de que era um "pouco" mais que isso, mas não teve jeito, eles ficaram chocados ao saberem que bandidos no Brasil usam armas de fogo, que matam para terem o que desejam, que sequestram famílias ou crianças para forçarem pagamento... Claro que pensariam assim já que aqui, por exemplo, nem mesmo a polícia usa arma de fogo na rua. Então eu parei e não continuei dizendo que os bandidos no Brasil também matam facilmente se não tiverem rápido o que pediram e que eles tem gangs que comandam os grandes assassinos dentro e fora da prisão.

Um outro amigo nosso, o Nik, marido de minha amiga alemã, Nikol, esteve aí para umas reuniões de trabalho e voltou totalmente desiludido. Segundo ele, a bela visão que ele esperava do país foi substituída por uma visão de miséria que lembrou-lhe apenas a África. Eu sempre pensei que um estrangeiro que sai de Cumbica e passa por Guarulhos não ia ter das melhores visões da cidade e foi exatamente assim que ele descreveu. Fora isso, ele disse que não conseguiu relaxar, porque não se sentia salvo, como já se sentiu viajando por dezenas de países, incluindo países mais pobres que o nosso. Apesar de ter percebido o quanto os brasileiros são gente legal e o quanto pode haver de coisas boas, ele nos perguntou como é que a gente fazia para viver aí sem sentir-se como ele se sentiu.

O Renato, meu companheiro, também já me disse várias vezes que nem nos cantos mais pobres da China, Vietnã, Tailândia e Índia ele sentiu medo ou teve essa sensação de insegurança. São países pobres, alguns miseráveis, mas que não têm o mesmo problema de violência que a gente tem.

Eu tenho certeza de que minha fala parece de gente fresca. Talvez você pense que eu agora "to me achando a maioral" e de que não me sinto culpada pelo problema de marginalização social, de corrupção e violência que temos. Pelo contrário. Não me sinto por cima da carne seca. Não me sinto melhor que qualquer brasileiro que viva no Brasil. E me sinto culpada sim, inclusive porque posso ter uma outra vida, enquanto tudo aí vai correndo em frente. Eu apenas percebo que minha identidade de brasileira fica perdida quando comparo meu país e o que eu posso ter aí com o que pode ser oferecido em muitos outros cantos do mundo. 

Sentir-se em paz e ter a certeza de que seus entes queridos não terão uma arma na cabeça, como muitos de meus amigos e muita gente de nossa família já teve, é algo que qualquer pessoa do mundo deveria ter garantido. É algo que esse povo daqui sabe muito bem como garantir, algo pelo qual eles prezam e trabalham muito. Talvez o segredo seja que nessa Suécia, onde a ginga não é tão bonita, nem o futebol tão famoso, o Estado cumpra muito bem seu papel, mas acima de tudo porque aqui todo mundo tem mais ou menos as mesmas coisas. Todos têm direito à escola, universidade, trabalho, moradia, lazer etc. Contudo, ninguém tem direito de acumular mais do que aquilo que precise. Ainda que exista um ou outro que tenha um pouco mais de dinheiro que outros, o que a gente vê é todo mundo tendo uma vida razoavelmente digna e simples. Sem exageros e sem escravos. E sem exageros e sem escravos eles não produzem gente violenta como a gente produz. Com muita formação moral e ética desde a infância eles conseguem garantir casas sem portão, bicicletas espalhadas pela rua, passeio ao ar livre sem pressa, turistas tranquilos e satisfeitos. 

Foi isso que senti e vi em muitas outras grandes cidades européias que tive a alegria de conhecer, incluindo a agitada Londres onde voltei na semana passada. É algo que os brasileiros todos deveriam ter bem claro nessa época de eleições no Brasil, ainda que não seja fácil achar uma agulha no palheiro. Sonhar com uma outra realidade possível não é só permitido, é necessário. 


28 setembro 2008

Receita de um santo remédio para...

(Eu, papeando com Lujan, enquanto os moleques brincavam na areia do parque, Londres, setembro de 2008)

Depois que escrevi o post a respeito da amizade, na semana passada, a Irene me mandou a belíssima música do Renato Teixeira. Ela disse que foi a lembrança foi automática. O curioso é que na visita a minha amiga, em Londres, a gente também tava ouvindo o Renato, embora não essa mesma música. 

Aqui fica a letra e o vídeo para vocês, neste domingo de muito vento, mas sol e céu azul por aqui.

E que a gente se aconchegue nos braços dos amigos e das pessoas queridas, porque é um santo remédio para o mau-humor, a tristeza, a solidão e para uma porção de coisas mais.


...



Amizade Sincera


A amizade sincera é um santo remédio
É um abrigo seguro
É natural da amizade
O abraço, o aperto de mão, o sorriso
Por isso se for preciso
Conte comigo, amigo disponha
Lembre-se sempre que mesmo modesta
Minha casa será sempre sua
Amigo
Os verdadeiros amigos
Do peito, de fé
Os melhores amigos
Não trazem dentro da boca
Palavras fingidas ou falsas histórias
Sabem entender o silêncio
E manter a presença mesmo quando ausentes
Por isso mesmo apesar de tão raros
Não há nada melhor do que um grande amigo

Renato Teixeira


(Novos amigos Théo e Ângelo, Londres, setembro de 2008)

25 setembro 2008

Voltei! e tô pensando o quanto é bom ter um amigo...



Voltamos de Londres quarta a tarde e ainda tô tentando pôr minhas coisas em ordem.  Tenho muito para falar de Londres, da visita a minha amiga Lujan e de quanta coisa passa pela cabeça da gente numa viagem assim. 

Eu já tinha estado em Londres há dois anos atrás, mas daquela vez era só eu e Renato. Dessa vez, com um bebê foi tudo diferente. Tudo novo, desafiador e excitante. A cidade me pareceu não só linda, como louca. Em poucos dias a gente pode viver muito, pode pensar, pode mudar. Por isso eu adoro viagens e talvez por isso, desde que fiz minha primeira viagem sozinha (de Sumaré a Bragança Paulista, tudo no interior de São Paulo) eu sinta isso.


Das coisas mais fortes que ficaram da viagem foi a sensação do quanto é valioso ter bons amigos. Visitar minha amiga Lujan, Ted-pai e Théo-baby foi renovador.

Eles são o tipo de pessoa que dão tudo o que têm. Eles dão o pouco ou o muito que têm. São o tipo de pessoa que sempre abrem suas portas. Eles não têm amarras, nem apegos, algo que eu quero muito aprender a não ter. E, apesar de terem um bebezinho de oito meses, vivem com ele como se estivessem com um pequeno adulto em casa, com uma naturalidade incrível. Foi de nós que eles cuidaram como se fôssemos crianças mimadas. Cuidaram de nós como só os melhores amigos cuidam. 




Jantares deliciosos e aniversário do Renato com direito a um bolo recheado de conversas profundas com o casal maluquinho. Esses amigos me fizeram pensar como é incrível que algumas pessoas consigam esquecer de si mesmos e cuidar dos outros sem esperar nada em troca. Como podem ficar tão felizes só porque estamos por perto e porque estamos felizes também. Como podem ser ser tão desprendidos, sem egoísmo ou ciúme de cada coisinha especial que têm na casa deles, comprado com custo e amor ao longo do tempo?




Eu adorei ter viajado, embora esteja muuuuito cansada, com dores terríveis nas costas de carregar Ângelo e bagagem pra lá e pra cá, percebi que esses encontros me ajudam a manter gente valiosa como a Lu por perto e a coisa mais deliciosa de ver foi o Ângelo ganhar um novo amigo e aprender rapidamente seu nome chamando-o o tempo todo pela casa: Té Té Té... 




Obrigado Lu, Ted e Théo

17 setembro 2008

"Everything's gonna be alright", lá lá, lá lá...

(Posando para as "tias suecas" da escolinha, Ângelo, Suécia, setembro de 2008)


Foi numa tarde do fim do inverno passado que eu timidamente voltei a fazer academia. Eu nunca tinha sido o tipo de ficar horas malhando e sempre odiei as máquinas em que você trabalha sozinho. Eu adorava mesmo eram minhas aulas de Body Combat e de Yoga que eu fazia aí no Brasil.

Por conta da gravidez eu havia parado os exercícios e, aqui, só havia feito uma deliciosa hidroginástica especial para gestantes.

E, então, após a minha primeira e exigente aula oficial desse ano, eu me acabei não foi na bicicleta, foi é no relaxamento. Uma música muito pop, das que eu nem tenho para ouvir em casa (No one, Alicia Keys) tocava alto na caixa e, ao som do refrão "Everything´s gonna be alright", com toda a adrenalina correndo nas veias, chorei brasilianamente no tapete de borracha.

Em meio àquela gente toda que eu nunca havia visto na vida, em meio a uma experiência que eu sabia me recordaria pela vida toda, eu me dei conta de que era a primeira vez que saía sozinha, fazendo algo só para mim. Me dei conta que, depois de muitos meses apenas sendo a provedora de leite, carinho, amor e conforto para o meu "bebessinho" pequeno e indefeso, era eu por mim mesma de novo.

Talvez isso lhe pareça muito idiota, se você ainda não teve filhos. Talvez você me entenda um pouco se teve, e se passou muito tempo cuidado só do seu bebê, em tempo integral como eu. E se o fez sem ajuda de parentes e amigos, acho que posso passar sem ser boboca. E talvez você me entenda muito melhor se fez isso em outro país, numa cultura, numa língua, num meio totalmente estranho a você e sua cria. Porque quando a gente tem um filho já deve ser sempre algo como um terremoto, mas quando a gente tem um filho num lugar totalmente diferente de onde a gente cresceu, viu e aprendeu como as pessoas faziam para criar e manter a salvo seus filhos, os seus instintos ficam ligados a mil por hora para que você consiga entender o básico e fazer as coisas funcionarem.

Então, talvez por isso, a sensação que tive, lá no meio da sala fria, foi de arrebatamento. Chorei, enxuguei um poço de lágrimas e deixei que a própria canção me consolasse: "Tudo vai ficar bem..." "Tudo vai dar certo e ficar legal..." Era assim que eu tentava pensar e era no que eu realmente acreditava.


(Sorvete, muita festa e sujeira na despedida do amigo sueco que ficou grande pra essa escolinha, Suécia, setembro de 2008)


Essa semana, algumas semanas depois de "O primeiro vôo do Anjo", fui em minha aula de Body Combat, com a qual agora me sinto familiarizada e, em casa novamente. Onde agora vou na companhia de amigas queridas, como a Xu e Ângela. Na aula onde o professor sueco sorri pra gente, porque somos as brasileiras animadas da aula, eu ouvi a mesma música novamente. Entretanto, dessa vez, foi uma sensação muito diferente daquela de abril passado. Um sentir de paz. De realização. Uma coisa danada de boa e uma certeza de que tudo realmente ficou bem. Que eu, Ângelo e Renato vencemos tantos desafios e cá estamos. Ângelo feliz da vida e aprendendo muito sueco na escolinha. Eu e Renato mais tranquilos e menos ligadões na tomada.

Diferente daquela outra vez não me senti separada deles dois, aquela quase dilaceração de antes. Pelo contrário. Percebi que não era eu por mim de novo, como pensei antes, porque isso agora é impossível. Sou eu e eles. Sou eu e minha família, sou e e cada um que eu trago comigo. Isso porque, como me disse o meu lindo companheiro ontem: muda o lugar, mas a gente não muda. Nossa identidade ainda está mantida em algum lugar deste tempo e espaço e, provavelmente isso seja o que mais nos dê a garantia de que tudo vai ficar legal. Sempre.


(As fotos que o pessoal da escola colocou nos murais e contou histórias para deixar a gente babando..., Suécia, setembro de 2008)

...

ps: essa sexta-feira estamos os três indo para Londres. Eu e Ângelo vamos esticar até a quarta que vem a estadia na casa da minha amigona Lujan. Vamos nos reencontrar depois de dois anos, na mesma cidade onde saímos sós com os maridos, quando Théo e Ângelo eram só planos. Agora seremos seis na mesa do jantar da casa deles. E eu espero curtir cada momentinho com todo eles!

Até lá, um beijo enorme para todo mundo e que tudo fique muito bem para vocês também!

16 setembro 2008

"Me paso la vida pensando..."

("A Cigana", Isabelle Tuchband, 2007)

Hoje fiquei dançando com o Ângelo aqui e me deu uma saudade danada de minhas aulas de flamenco no Brasil. Me lembrei especialmente da música "Lo bueno e lo malo" que embalava a mim minha amiga Daníssima nas aulas e, depois nos levava felizes pelas ruas de Campinas de volta pra casa. 

Abaixo a letra e lá na "Rádio Atividade" o link com o vídeo...


...


Lo bueno e lo malo


Me paso la vida pensando
en lo bueno y lo malo
mi mente está triste
me siento algo extraña 
mi cuerpo se agota, 
mi alma lo nota 
de ver en el mundo 
mentiras de otras bocas 
la loca envidia que trae la mentira
palabras tan falsas que por mi mente pasan, 
hoy pasan. 

El tiempo se pasa, 
y los años me cansan 
me enervan mentiras 
que trae gente vana 
el tiempo está en vilo 
yo sé que me pasa,
mentiras, palabras y todo es una farsa
 tengo un momento de ansias mundanas
 quisiera decir lo que siento en mi alma 
que la vida pasa, hoy pasa. 

Y en mí, y en mí, y en mí y
 en mí mundo nuevo te voy a olvidar 
las aventuras que he podido vivir y 
en mí, y en mí no aguanto mas historias así ...y en mí.



Gente que não paga a pena


("Saturno devorando seu filho", Goya, 1820-23, Acervo: Museu do Prado, Madrid)


Os suecos esperam em filas gigantes do supermercado, quietos. E não reclamam.
Os suecos da minha academia de ginástica gostariam de ter mais aulas a noite. Mas não pedem.
Muitos dos suecos ficam irritados quando alguém não cumpre o protocolo ao qual estão acostumados, mas não sabem conversar. Eles são sérios demais e ocupados demais para isso. 

E alguns deles, quando isso acontece, mandam mensagenzinhas por baixo da porta da gente. Medrosos, incapazes de resolver qualquer situação numa boa conversa entre vizinhos, eles se sentem no direito de serem agressivos, de expressarem a frustração do mercado, da academia, de muita coisa na vizinha estrangeira. Eles resolvem com bilhetinhos entre vizinhos.

Assim são muitos dos que vivem no prédio bem legal onde moro aqui. Noventa por cento suecos. Alguns deles, incluindo o dinamarquês que vive acima de mim, me mandam mensagens grossas, quando desconfiam que qualquer coisa esteja errada. E o fazem mesmo quando foram eles mesmos que cometeram o erro e não a brasileira, cujo país tem fama de desorganizado. Mesmo se errados, agem como se estivessem certos.

Muitos suecos. Não todos. Muitos e muitos sãos as mais finas pessoas que já tive o prazer de conhecer na vida. 

E, então, porque esse outro grupo é minoria pra mim, eu tento jogar o jogo e passo a raiva adiante. Se consigo, chamo pra conversa, mostro que não tenho medo do cara a cara. Garanto a mim mesma minha educação e que gente assim não vale posts muito explicativos no meu blog. Apenas uma menção para eu não esquecer e ninguém pensar que são só flores. Aliás, nunca são.

Sigo e miro-me nas pessoas daqui que valem muito a pena porque, graças a Deus, minha alma, ao contrário de muitos dos meus pobres vizinhos, não é pequena.


...


Poemas para quem caminha


não coleciono mágoas
amanheço

as âncoras
esqueço em balsas

sou um cais
em movimento




(fragmentos do livro "Poemas para quem caminha", Fundação Catarinense de Cultura/Editora da UFSC, 1987)


15 setembro 2008

Português que te quero ouvir

("La musique", Matisse, 1939)


Desde que cheguei aqui, há um ano e meio, toda vez que conheço alguma sueca ou sueco na rua, no playground, num restaurante ou um lugar qualquer, é bem comum eu ouvir os seguintes comentários:


- Que língua você está falando?
- Português.
- Ah... pensei que fosse francês!

Ou então, se percebem ou depois de perceberem que não é francês, eles acrescentam:

- Nooossa... que lindo ouvir você falar com ele (o Ângelo). Acho português do Brasil uma das línguas mais lindas de se ouvir...

E eu? Eu fico toda cheeeia de mim. E toda orgulhosa de falar meu lindo "portuguêsss"!!!

13 setembro 2008

As gerações, as revoluções e as generalizações necessárias

(A beleza de podermos ocupar cada uma o seu lugar... "Chacun à sa place, Isabelle Tuchband)


I. As gerações e as gerações que se miram naquelas:


No último post, Geração x: a geração que pensa demais, eu escrevi dezenas de linhas a respeito do que eu creio ser o maior dilema de grande parte das mulheres da mesma geração que eu, ou seja, as nascidas nos anos 70 e na casa dos trinta. Eu falava da nossa tentativa de lidar com inúmeras exigências que a vida moderna e a sociedade toda nos pede. E refletia o quanto todas essas cobranças vêm de fora ou de nós mesmas e como esse conjunto de coisas reflete em nosso comportamento e nos leva a uma vida ao mesmo tempo excitante, exaustiva e frustrante. 

Eu sabia que ao falar desse dilema de forma generalizada sobre minha geração eu estava correndo o risco de cair na generalização que não leva à nada, mas tive que correr esse risco, embora eu saiba que generalizar sempre seja impreciso, mas necessário, em alguns casos. 
Me baseei em minha própria experiência de vida e da de muitas mulheres e mães das mulheres com quem convivo ou convivi.

E eu também sabia que estava me arriscando ao falar que as mulheres da idade de minha mãe e minha sogra tiveram ainda que lutar contra o desejo de estudar ou trabalhar fora, sendo que muitas delas ainda não conseguiram. 

Entretanto, dois comentários muito legais, de mulheres de idades completamente diferentes, me fizeram voltar ao assunto. Uma delas foi o da Cindy, minha adorável e mega inteligente ex-aluna que deixou São Paulo e agora vive em São José do Rio Preto, onde faz sua tão sonhada faculdade de Medicina. A Cindoca me escreveu dizendo que tinha gostado muito do meu texto e que se identificava por inteiro com ele. Eu brinquei com ela que ela está uma geração atrasada, porque ela agora tem 24 aninhos. Mas eu sei que a Cindy já tinha o mesmo tipo de preocupações na cabeça quando eu a conheci uns três anos atrás, por isso eu a tinha em mente quando escrevi o texto anterior.

Além da Cindy, minha amigona virtual, a Lilás, de quem eu tava bem esperando um comentário legal, porque ela sempre escreve coisas legais em seu blog e porque ela é uma mulher na casa dos cinquenta, a mesma geração da minha mãe e de minha sogra, de quem falei no outro texto.

A Lilás me escreveu um animado comentário, o qual vocês podem ler na íntegra lá no outro post. Em certo trecho ela disse assim:


(...) "Primeiro deixa eu dizer que a geração a que vc se referiu sendo da sua mãe, a dos 50 e poucos, é a minha também. Mas esta minha geração não foi a que realmente sofreu o preconceito de trabalhar fora e se expressar como mulher moderna no mundo. Não, pelo contrário. Fomos as que começamos a trabalhar, estudar em universidades e aproveitamos para jogar o soutien fora, levantar a saia a la Mary Quant, ouvir e expressar com gírias e maneirismos tipicos dos anos 60-70 com Beatles, R.Stones e Woodstock. Foi a época do desbunde... Lutamos e berramos pela liberdade que vocês mulheres desta geração posterior estão usando e muitas vezes abusando. Como vc mesma disse "dramáticas demais e se importando com a rebimpoca da parafuseta... Então, só quis exclarecer que esta geração de mulheres sofridas e maridos durões foram das minhas mães, ou seja, suas avós." (...)


Adorei seu comentário Lilás! Primeiro, porque é muito legal ouvir esse testemunho de quem viveu nessa geração dos anos animadíssimos e cheios de euforia de mudança que foram os anos 60 e 70. Segundo, porque ele me fez pensar e pensar numa resposta e me levou a esse novo texto. Concordo com a idéia de que a gente se perde nessa liberdade que herdamos da sua geração. Às vezes não sabemos muito bem como lidar com essa independência e por querer abraçar tudo e fazer tudo o que a tal liberdade nos permite caimos num outro tipo de escravidão: a nossa mesma.

Quanto a questão das gerações e das grandes mudanças comportamentais ocorridas nos anos 60 e 70 eu concordo apenas em partes com você e penso que para me explicar vou me alongar bastante porque a questão é um tanto complexa. 

Veja só: minha mãezinha lindona tem 55 anos. Minha sogritia Irene, 58. A Irene fez magistério, tendo "brigado" com o pai para vir pra São Paulo. Com isso, pôde trabalhar durante trinta e tantos anos como professora primária. De certa forma, ela pôde realizar um tipo de sonho que minha mãe e tantas milhares não conseguiram.

Embora eu tenha dito no meu texto que minha mãe e muitas mulheres da geração dela sufocaram sonhos e tiveram que se adequar ao papel de mulher que era esperado delas eu tenho consciência de que na mesma época acontecia uma revolução de idéias e comportamento. Você tem razão! Adoro ver os álbuns de casamento da época de vocês e ver a mulherada com aquelas mini saias e pernocas lindíssimas à mostra na Igreja. Por outro lado, creio que algumas coisas podem explicar a diferença tão grande de juventude que você experimentou e que tantas outras tiveram nesse mesmo Brasil. 


II. As revoluções e sua cauda comprida:


("A Boba",  Anita Malfatti, 1915-16, acervo: MAC)

 Pensando em seu comentário Lilás, eu tentei me lembrar de cada mãe de minhas melhores amigas. Talvez umas trinta amigas muito chegadas. Incrível eu chegar a conclusão de que nem mesmo vinte por cento delas trabalharam fora. Uma parte conseguiu estudar o primário e ginásio, mas não conseguiram ir além disso. Quem fez faculdade o fez na "madureza". Por "opção" ou não, elas deixaram sonhos como ser cantoras líricas, empregadas de uma fábrica, professoras etc em prol de viverem para cuidar dos filhos e do marido. Muitas, como minha mãe, trabalharam em casa, como costureiras, cabelereiras para ter algum dinheiro para si.

Muitíssimas delas, até onde eu tenho conhecimento, não viveram essa euforia dos anos 60 e 70, talvez ouviram dizer, talvez souberam de longe o que ocorria e tentaram pensar em algo, mas não conseguiram pôr em prática metade das conquistas que a gente sabe é atribuída a essa geração.

Por pensar nessa questão acabei chegando a outra. A verdade, creio, é que essa revolução de pensamento e postura aconteceu apenas para quem vivia nos grandes centros urbanos da época. Aconteceu para mulheres como você. E me corrija se eu estiver deduzindo demais. A revolução feminista não alcançou as regiões distantes de São Paulo e Rio de Janeiro ou ficou mais restrita a lugares onde havia alguém que buscasse alguma mudança, como no Rio Grande do Norte, onde o voto feminino foi legalizado no fim dos anos 20. 

Eu acredito que dois fatos expliquem isso. Um deles, que em qualquer época, as mudanças de idéias e comportamento sempre atingem apenas uma pequeníssima parcela da população. Quase sempre a população que tem acesso a mais informação e cultura. Quase sempre a população, cuja condição financeira possibilite conhecimento que leve ao questionamento e mudança.

Veja a família dos meus pais, por exemplo. Eles não tinham televisão até os anos oitenta. Meu pai fez até a terceira série e minha mãe não teve o privilégio de estudar. Fez isso no antigo Mobral, por alguns meses, e teve que parar porque meu pai morria de ciúmes. A juventude dela foi passada na roça, trabalhando de sol a sol, no mesmo lugar onde ela sonhava ir para a escola, que meu avô via como coisa de "moça perdida". As notícias sobre o governo e a ditadura, as músicas do Robertão e do Erasmo eram ouvidas através de um velho rádio, o único meio de informação que eles tinham. 

E se a gente pensar na realidade do nosso Brasil veronil desses anos, para além de São Paulo e Rio, não sei se a gente sai muito dessa realidade que descrevi aí. Então, minha querida Lilás, pode ser que você tenha sido privilegiada em poder viver as conquistas feministas brasileiras começadas nos anos 20 com a Berta Lutz, depois com a Pagu e trabalhadas na Semana de Arte Moderna pela Anita, Tarsila etc. O que você acha? O que vocês, outras mulheres da casa dos cinquenta ou não, pensam?


III. As generalizações imprecisas, mas necessárias:

(Sexo frágil, cheio de riquezas e mistérios... ,"Sensation", Isabelle Tuchband)


Eu detesto generalizações e tinha achado o texto da Revista Época bem fraquinho. Aliás, eu sempre detestei a Época, por ser superficial demais, mas o Renato tinha me dito dessa reportagem e achamos interessante a idéia de que minha geração se preocupa demais. Eles colocavam no mesmo saco as mães do Millennium como se todas estivessem muito preocupadas em serem boas mães e ficarem em casa cuidando dos filhos. Se eu pensar no livro "A criança terceirizada", do Professor Martins, por exemplo, eu não vejo esse perfil das mães que os tais especialistas descrevem. O Martins fala de como milhares de crianças brasileiras hoje são criadas pelas avós e pelas creches, porque os pais ou estão muito atarefados com o trabalho, escola etc ou não tem interesse de assumir essa responsabilidade de cuidar das suas crias. Isso passa para os avós ou a escola que, na verdade, não têm a missão de educar essas crianças, mas apenas de cuidar, o que leva a uma geração problemática de crianças e um futuro incerto para nós todos. 

Onde quero chegar com isso?
Perá lá que eu ainda chego... Espero!

Quero dizer o seguinte e me corrijam, comentem se discordam ou não. Toda vez que leio sobre os anos 60 e 70  e o que as mulheres americanas e européias viveram me parece uma questão paradoxal. Fico pensando: que maluco! como elas puderam viver tudo isso, se as mulheres que conheco da mesma idade tiveram dilemas tão diferentes. 

Enquanto escrevia meu doutorado sobre Anita Malfatti e enquanto lia sobre ela, a primeira mulher a romper com a postura acadêmica na pintura brasileira, eu sempre pensava nisso. Ela, a Tarsila e outras tiveram acesso a coisas e modos de pensar, lá nos anos 30 e 40, que eu só tô tendo oportunidade agora, nos anos 2000. E, talvez eu esteja redondamente enganada, mas creio que a mudança foi no acesso à informação que agora eu tenho. 

Tendo ido estudar filosofia na Unicamp em 94, e depois brigado por meu espaço feminino na filosofia da USP, acabei rompendo com o círculo esperado e herdado de casar e ter filhos. Por conta do estudo, avançei na opressora pirâmide brasileira e "comprei" meu acesso aos museus, teatros, jornais, viagens pelo mundo que me permitem hoje ver coisas que, com certeza, milhares de moças brasileiras na mesma idade, casadas e com filhos, sequer podem sonhar em ter. 

Eu hoje tenho acesso a coisas que a geração da minha avó e da minha mãe lutaram para ter, quando me mostraram que queriam, e muito, estudar e trabalhar, mas ainda não podiam. Até os vinte e dois anos eu achava que a Unicamp era um hospital. Meus professores nem mesmo me falaram a respeito de universidade pública. Eles nem sequer pensavam que eu e minhas amigas poderíamos querer fazer uma. Aliás, essas amigas, praticamente todas, continuam no ciclo, algumas felizes, outras não. Numa família com uns trinta e tantos primos eu e mais dois somos os únicos a fazer uma faculdade. E esses dois são filhos do "tio rico" que vive em Curitiba.

E escarafunchando um pouco mais, só para ver se eu tenho argumento para minha ótima leitora Lilás e outros de vocês (eu adoro ficar argumentando!), toda vez que me lembro das muitas centenas de alunas que conheci, vivendo dilemas parecidos com os da minha geração, eu me sinto próxima delas e parece que nascemos todas na mesma época. Então, que coisa mais sem sentido ficar falando de geração se, no fundo, somos assim tão parecidos ou se é tão difícil classificar cada um em determinada época! Parece impreciso, mas generalizar é preciso.

Eu parti do princípio que generalizar não leva à nada, mas sem isso a gente não consegue pensar quase nada também. Generalizando outra vez, as mulheres a quem me referi no texto anterior, estão mais nesse novo círculo de relações que criei a partir da universidade. Eu tenho certeza que as mulheres brasileiras que não puderam estudar, que trabalham em serviço braçal todos os dias para dar sustento à família também vivem o dilema da pressão. Provavelmente outros dilemas que eu não tive que viver, e talvez dilemas muuito mais duros do que os que falei no texto anterior, entretanto, elas participam dessa herança de que nós podemos e devemos buscar pelo nosso espaço. Que a gente pode estudar, pode trabalhar, pode usar a roupa que quiser ou cortar o cabelo, sem autorização do marido. Coisa que minha avó, de quase oitenta, só fez semana retrasada, quando minha mãe insistiu com ela e o fez. 

Ao mesmo tempo que tive que generalizar a "geração x", eu também admito que muitas exigências das quais falei no meu texto e que algumas pessoas acrescentaram nos comentários, só sente uma pequena parcela da população. O Renato me trouxe a expressão "The long tail", ou seja, o fenômeno que explica que para qualquer mudança apenas vinte por cento da população tem acesso a ela, enquanto oitenta por cento apenas terá em alguns anos. Essa longa cauda, creio, explica muito bem o que tentei dizer aqui. Mas, por enquanto, fico por aqui e vou passando a bola para vocês. 

Ótimo domingo!

09 setembro 2008

"Geração x": a geração que pensa demais




Eu simplesmente adorei essa charge da cartunista argentina Maitena. Quem me mandou foi minha amiguíssima Dani, que vive em Baden, e que me também me informou que a charge é parte do livro "Mulheres Alteradas" da mesma autora.

A verdade é que, há alguns dias, vinha pensando em um post a respeito de uma gostosa conversa que tive com Inga lil, a primeira enfermeira que o Ângelo teve aqui e que acabou por se transformar em uma grande amiga. Depois de meses sem nos vermos, ela passou uma tarde toda comigo e com Ângelo pelas ruas de Lund, onde ela agora trabalha. 

Enfermeira há uns trinta anos, ela é mãe de três filhos e é separada do marido, de quem agora é muito amiga e com quem ela viveu por quase três décadas junto, incluindo o tempo que viveram nos Estados Unidos. Nesse encontro, a Inga lil, mulher que eu admiro demais, ficou me elogiando. Me disse várias vezes o quanto estava surpresa pelo Ângelo já estar andando, tentando falar algumas palavras, estar tão independente e feliz da vida como estava. E eu, que não sei bem como receber elogios, completei: "é... ahn... sei... obrigada". E, então, ela começou a me falar da diferença que ela sente quando cuida dos filhos, cujas mães são da minha geração, isto é, mães nascidas no início dos anos 70 e que tiveram filhos depois dos trinta. 

Segundo ela, minha geração (cunhada por alguns especialistas de  "geração x", a geração difícil de entender) parece que complicou um pouco as coisas e trata tudo com uma seriedade e uma preocupação exageradas. Para a Inga lil, as mulheres da geração anterior tinham e criavam seus filhos com uma naturalidade maior. Elas se exigiam menos quanto a serem mães perfeitas e, por isso, acabavam fazendo a coisa ser menos dramática. De acordo com ela, a gente faz as coisas certas, mas fica se questionando sobre a problemática da pimboca da parafuseta, então, acaba por criar problemas que não existem.

Eu acho que generalizações são sempre emburrecedoras, mas eu concordo bastante com essa idéia, sobretudo quando tenho em mente a minha realidade e a das muitas amigas, de mesmo perfil, que tenho tanto aí, quanto aqui.

Ser magra é uma das nossas primeiras preocupações. É bem verdade. Entretanto, ser magra, linda e perfeita como uma modelo é apenas algumas das nossas muitas preocupações e neuras. Não que as outras gerações também não desejem algo parecido, mas a nossa parece acumular uma lista de desejos interminável. 

O que vejo é que a geração da minha mãe, por exemplo, mulheres na faixa dos cinquenta, tiveram que lutar contra a idéia de que mulher não podia e não deveria trabalhar fora ou estudar. Elas não podiam sair de casa se não fosse para se casar. E eu cresci pensando a tristeza que foi para minha mãe ter que abdicar de tantos sonhos, simplesmente porque quem mandava na casa era o pai, depois o marido, caindo sobre ela o fardo de cuidar dos filhos e da casa em tempo integral e ser a esposa e "do lar" perfeita. 

Também imagino o quanto foi duro para outras mulheres, como a mãe do Renato, por exemplo, tentar ir contra o estereótipo e sofrer crítica em casa e crítica das mulheres do seu próprio tempo. Se elas sofreram por lutar por direitos, eu vejo que sobre minha geração recai um fardo não menos penoso que o delas, embora em sentido quase o contrário. 

Crescemos com a idéia que estudar e trabalhar fora é não só bom, quanto necessário. Assim, conciliar um bom estudo e uma carreira promissora com um casamento elogiável e filhos admiráveis passou a ser alguns dos pré-requisitos para as mulheres do meu tempo. 

Não basta ser mulher, tem que ter feito faculdade. E se fez, tem que ser das boas. De preferência uma bem difícil de entrar, pra provar que, tal como os homens, você é bem inteligente. Não basta ter feito um bom curso, precisa ter trabalho que mostre o gabarito da moça. E não basta ter um emprego no qual você se sinta bem e exerça o que aprendeu, precisa ter coisas materiais, tipo carro ou apartamento próprio, para provar que realmente é bem sucedida e não faz uma porcaria qualquer. 

Mas não basta ter estudo, ocupação e algum dinheiro para se manter independente dos pais ou do companheiro, precisa ser uma mulher admirável. Admirável e de preferência, claro, linda. E não tem linda que, segundo a charge ótima dali de cima, não seja magra. Por isso a gente se enfia em dietas esquisitas, e acha tempo para malhar entre uma tarefa e outra. E também arruma tempo para dar uma passada básica no salão de beleza e manter mãos, pés, cabelo e depilação na mais perfeita ordem, porque não dá para aparecer nos encontros sociais sem estar impecável. E porque a gente precisa ser uma esposa perfeita.

Isso tudo, claro, não é nada se a gente não for o tipo "desencanada" e de bem com a vida. Não pode ficar neurótica com as exigências todas do mundo moderno. Precisa ser muito informada sim! Precisa ter um assunto interessante, quando os amigos ou familiares do marido estão presentes. Isso é elementar, minha cara, mas por favor sem neuras! Então, a gente faz yoga, body balance, capoeira, caminhada, terapia bem cara e meditação. Isso tudo para manter uma postura assim relaxada e fazer o tipo "estou com tudo e não estou prosa", enquanto, na verdade, estamos lutando para sobreviver a todas as exigências.

O que eu acho que acontece com a minha geração, ao contrário do que uma reportagem da Época descreveu sobre a geração precedente, as Millenniais, é que a gente acumula uma lista de obrigatoriedades as quais, na verdade, não são reais. Procuramos ter qualidades que só as mulheres perfeitas têm. E como não existe mulher, nem ser humano perfeito, a gente luta consigo mesma por nada. 

Vejo nas minhas amigas todas, como elas sambam bonitinho tentando equilibrar uma vida profissional com um relacionamento estável. Como elas ficam bailando, procurando harmonizar o desejo de continuarem independentes, como antes eram e conquistaram, com o fato de agora serem mães e esposas. Ou como tentam provar que são mulheres excepcionais, embora não tenham se casado ou tido filhos até os trinta e poucos ainda. Sim, porque a gente tem que ter feito essas coisinhas todas aí até os trinta, quando já é época de "ficar pra titia".

A luta atual da maioria das minhas amigas é tentar ser a mãe mais amorosa, cuidadosa, inteligente, dedicada, engraçada e responsável possível. Por essa razão, as mães da "geração x, tal como as que a reportagem da revista chamou de Millenniun, se dividem entre as opiniões dos familiares, do pediatra, das leituras de dezenas de livros e das pesquisas divulgadas na internet para resolverem os problemas dos seus filhos.

E o que sentem é que não basta que sejam mães, elas precisam criar os filhos do futuro. Os filhos que vão recuperar e salvar o planeta do que as gerações anteriores fizeram. Então, a ajuda de psicólogos, terapeutas e pedagogos é de suma importância. Talvez por isso eu e Renato, por exemplo, "sabíamos absolutamente tudo" a respeito de como seria o parto do Ângelo e como deveríamos cuidar dele, antes mesmo de tudo acontecer. Compramos livros, dvds e cd rom. Planejamos bem a gravidez, as mudanças e tudo o que viria depois. Fomos para a sala de parto crentes (poor guys!) de que estávamos a par de tudo o que viria após o choro do bebê. Nós nos exigimos sermos ótimos pais, antes mesmo de o sê-lo.

Eu tenho certeza que a vida e o tempo exige demais para todas as gerações. E seria pobre de minha parte tentar comparar os desafios de um ou outro grupo, inclusive porque eu não consigo entender ou participar corretamente das indagações e desafios que não vivi. Mas eu tenho certeza de que não somos assim tão incompreensíveis, como os especialistas dizem sobre a "geração x". Para mim o que acontece é que essa geração é a geração que pensa demais. E por pensar demais, como disse minha querida amiga sueca, Inga lil, a gente falha mais do que gostaria. A gente falha consigo mesma porque acaba deixando de viver muita coisa em causa de viver perfeitamente tudo. Talvez reconhecer que "o inferno não são os outros" apenas, como afirmou Sartre, mas que o inferno pode ser "eu" seja o melhor caminho para a sonhada "perfeição".

ps: eu não só penso demais, como minha geração, mas falo e escrevo demais também. Sorry pelo post gigante.

08 setembro 2008

As duas frases mais ditas na Suécia e algumas variantes

(Renato, no seu primeiríssimo dia de trabalho na Suécia e o primeiro dia de neve do ano passado, às 8 da matina, Lund, janeiro de 2007)


1a. 

"O tempo está ruim hoje!"



"Hum... o tempo não tá nada bom hoje..."

"Hoje o tempo tá bem ruim, ontem tava melhor..."

"Que nhaca de tempo hoje..."

"Ô saco de tempo que tá fazendo hoje... ..."



(Eu e Ângelo, no meu barrigon, curtindo um tempo muito bom, Öland, Suécia, julho de 2007)


1a. 

O tempo está bom hoje!



" Hoje o tempo tá melhor que ontem..."

"É... hoje tô bem feliz porque o tempo amanheceu bom..."

"Noossa! o tempo tá muito bom hoje!"

"Caramba! Que delícia de tempo tá fazendo hoje!"




04 setembro 2008

Domingo em prosa



Na semana passada, a Denise Arco Verde escreveu um post belíssimo sobre a passagem dela por alguns lugares e algumas casas que marcaram sua vida. De Recife, onde teve sua adorada Bia, passando por Estocolmo, na Suécia e Washington, nos Estados Unidos, ela agora embarcou rumo a uma nova, aventureira e enigmática vida em Seul, na Coréia do Sul. 

O texto da Denise me trouxe à memória inúmeras coisas, inúmeros assuntos que penso sempre em abordar aqui no Borboleta, mas que sempre dão lugar a outros e outros temas. Entre eles, a falta que sinto de meu pai querido, de sua sanfona chorosa, de suas piadas e de como ele mesmo perdia fôlego ao contá-las; ou sobre o outro lado árduo de viver fora, de deixar casa, pais, amigos etc. 

Acontece que, no fim de seu post, a Denise pediu aos leitores que falassem como é essa experiência de mudar de casa e de vida. Do que gostamos e não gostamos, etc. Acabei escrevendo uma resposta num sopetão e, desde então, fiquei com vontade de simplesmente fazer de minha resposta lá, um post aqui. 

Para entender melhor o contexto, vale a pena ler o belo e sincero texto da Denise primeiro, "Por onde passei e onde vim parar", embora o meu post seja bastante simples e honestão também e seja "entendível" por si só.

A idéia não é ficar lamentando ou num chororô ruim. Muito ao contrário.

Agora são 21:35 da noite aqui na Suécia e cinco horas a menos no Brasil. Eu agora vou ver um filme com o Renato, porque o Ângelo já tá sonhando e amanhã é domingo tranquilo. E domingo pra mim sempre lembra família. Sempre lembra pratos carinhosos feitos por minha mãe ou minha sogra. Sempre lembra gente que amo e me faz pensar que, dentre as coisas mais preciosas da vida, estão as pessoas com quem temos laços de sangue. 

Então vou copiar a idéia da Denise, mas fazendo uma outra pergunta pra você que tá aí nessa prosa comigo: você tem boas lembranças dos domingos? Ou você é do tipo que odeia domingo porque tá perto da segunda-feira ou porque tem o Faustão na TV? Ou domingo lembra macarronada, família reunida e gente amada também?

Um beijo e ótimo domingo!

Abaixo, meu comentário, publicado lá no blog da Denise.

...


( "O Sanfoneiro", tela de Eduardo Kobra")



"Denise, me emocionei com o início de seu post… a despedida de seu pai, os últimos momentos com ele. Foi muito parecido com a última vez que vi meu querido pai também… Ele me comprou peixe e assou, comprou manga, que sabia que eu amava. Pediu várias vezes que eu ficasse mais tempo naquele domingo, mas eu, sempre atarefada demais, e sempre com a cabeça em outro lugar, disse: “ah, a gente volta na outra semana!”…

Foi a última vez que eu o vi. Mas sinto como se ele tivesse se despedido de mim…

Compro - comprava - a Casa Cláudia há anos. tenho uma coleção enorme. Sou daquelas que chega em casa, depois de dar aula numa tarde, e muda a parede da sala de laranja para lilás… algo assim. Mudo os móveis o tempo todo, sempre procurando que a nova posição, as novas cores me tragam ainda mais paz e tranquilidade. Adoro quando posso pôr flores que compro numa feira qualquer e espalhar pela casa… Adoro acender velas cheirosinhas, embora não tenha feito desde que Ângelo nasceu.

Minha casa é meu templo. Nele eu choro, leio, medito, danço sozinha com Dancing Queen, vejo filmes, cozinho, amo, odeio…

Lendo seu post me sinto próxima de uma forma ou de outra dessa sua experiência maluca, embora eu tenha certeza que você é uma espírito ainda mais aventureiro e forte que o meu.

Vivo me subestimando, mas a verdade é que viver na Suécia, deixar meu trabalho, meus alunos, minhas amigas adoráveis, minha mãezinha sozinha, meus irmãos e meus sobrinhos que tanto amo, é como quebrar-me em mil pedacinhos e recompor-me de novo. Por outro lado, é como se eu sentisse o mesmo que você!

Agora, de bicicleta com o Ângelo, eu saio pelas ruas, quase que em prece… eu amo passear pela cidade, adoro ver que tudo é diferente, que posso aprender. E vibro a cada minuto dessa vida tão difícil e tão fascinante. A Ásia ainda é demais na minha cabeça, porque ainda tô me adequando à escura Suécia, mas é tão bom ver essa sua experiência e saber que a gente pode, sempre mais e mais, se superar, se adequar, ser feliz em cada canto… ser feliz no apartamentinho em Seul, de um outro jeito, mas intensamente positivo, como foi em Olinda, em Estocolmo, em Washington e como pretende ser em Seul.

Parabéns para você e só desejo que a saudade de descer a rampa, tomar água de côco com a Bia e tudo o mais seja sempre essa lembrança linda que te faz seguir em frente, nunca parar.

Obrigada por dividir coisas tão suas e tão cheias de vida.

Sônia."

Visitando o super-ultra-mega discreto zoológico escandinavo

(Ângelo, curtindo o zoológico adoidado com Renato e Babaqui ao fundo, Höör, agosto de 2008)

Em abril, ainda durante o inverno, mas quando os dias já estavam mais claros, a gente foi passear no Skånes Djurpark, o zoológico de animais escandinavos que tem numa cidadezinha chamada Höör, há menos de uma hora de Malmö. Naquela ocasião eu havia tirado muitas fotos com a paisagem extremamente seca e marron, bem como de todos os animais que consegui enxergar com uma "lupa de colorir" que eu tinha comigo.

Apesar de tentarmos, não conseguimos que Ângelo visse um animal sequer. Além dele ainda ser meio pequeno, só deu bola mesmo para os parquinhos e nada mais. Nada de acenar para os bichos, inclusive porque os animais escandinavos são todos eles marrons. Marrons, beges, preto sujo de barro, sendo o mais colorido deles, uma avezinha branca.

Chegamos à conclusão, naquela época, que animais escandinavos são como o povo escadinavo: super, hiper, ultra, mega discretos. E então, como a gente havia voltado do Brasil e também de Milão e eu tava com toda a euforia latina na cabeça, o passeio foi muito gostoso, mas, de certa forma, se comparado com os zoológicos brasileiros, um choque.

E além de marrons eles eram silenciosos. Quietinhos que só tentando ouvir.

O post que comecei a escrever em abril, e não terminei, era assim:

"Os suecos são um povo discreto. Todo mundo sabe disso.
Se você tá num restaurante nunca vai ver alguém gritando: "E aí Perl! Chega aqui na nossa mesa!". Se algum sueco achar seu bebezinho bonito, nunca falará como os italianos ou espanhóis ou os brasileiros: "Mas que coisa mais linda e fofa, vem aqui no meu colo, vem!". Jamais! eles darão um oizinho para o bebê. De longe. E jamais! Jamais sequer pensaria na hipótese de pegá-lo no colo."


Acabei não terminando o texto, assim como não termino uma centena deles. Eu também tinha dezenas de fotos que perdi junto do meu outro laptop.

Na semana passada, entretanto, a gente voltou ao zoológico. Isso porque o lugar é muito legal, super grande, com milhares de árvores, com lagos lindos e muita gente fazendo piquenique e num clima legal. Pensamos em tentar voltar enquanto a paisagem ainda está bem verde e o Ângelo já é um mocinho agora, e poderíamos tirar a idéia marron e discreta que ficamos na cabeça.

(Aqui, dois animais que os bebês enxergaram: os enormes pôneis escandinavos, Höör, agosto de 2008)


O resultado está no álbum "Visitando o discretíssimo Skånes Djurpark", que vocês podem ver clicando aqui ou no link do lado direito do blog. A verdade é que tava colorido pra caramba! As árvores sequinhas de abril agora estão lindíssimamente verdes e tem umas florzinhas roxinhas, amarelinhas por lá. E o povo não tava vestido de preto, como faz durante o inverno inteiro daqui. Tava bem diferente mesmo!

(Os lindos bambis que eu só via no desenho... quietinhos e muito longe, mas que minha super câmera conseguiu pegar, Höör, agosto de 2008)

Ãhn? Einn? Ah! os bichos?

Não sei dizer direito. Acho que estavam todos lá ainda. Não ouvi muito, porque o zoológico estava ainda mais silencioso, já que a suecada prefere a praia ao zoo no verão, mas sobre os bichos só posso falar que vi uns e outros marronzinhos bonitinhos contrastando com o verde da grama dessa vez. Eles estavam lá tão quietos e tão discretos que nem mesmo o Ângelo, que enxerga formiga no palheiro, percebeu a presença deles.

Ele novamente brincou muito nos parquinhos e curtiu muito a natureza e a companhia do amigo Kian, mas os animais escadinavos passaram incólumes pela presença dele.

A gente tenta de novo outra hora. Em outro parque, claro! e quando ele tiver maiorzinho de novo.

02 setembro 2008

Madalena, nossa nova companheira.

(Eu e Ângelo, hoje de manhã, saindo para brincar e estudar..., Suécia, setembro de 2008)


"Madalena, Madalena, você é meu bem querer.
Eu vou contar pra todo mundo, vou contar pra todo mundo que eu só quero você!"


Há uma semana troquei as caminhadas e o carrinho do Ângelo por pedaladas. Ganhei a Madalena de presente do Renato e agora é só alegria!

Levo 4 minutos para deixar o Ângelo na escolinha e é como se a gente saísse para festa toda manhã. Vamos cantarolando pelo caminho, dando gritinhos de felicidade pelas excelentes ciclovias da cidade. O Ângelo tem adorado e fica todo feliz quando vê seu super capacete.

A Madá, foi assim que eu batizei minha amiga, é muito versátil. Escolhida a dedo pelo Renato engenherístico, ela tem lanternas, buzina, um freio de segurança no pedal, pára barro na roda traseira, cadeado próprio e tantas coisinhas que nem sei o quê. Bicicleta aqui não é para pôr no carro e levar para o parque, bike é meio de transporte. A gente usa o dia todo, pra tudo quanto é lado. E todo o sistema de transporte é pensado incluindo-se as ciclovias. Então, eu vou para a escola, cruzo a cidade e vou até a casa das minhas amigas, faço compras no mercado e trago na cestinha, tudo, pedalando e contemplando a paisagem afora.

Na Suécia tem multa pra quem usa bike sem lanterna e o ciclista não pode pedalar em qualquer caminho. Há regras de trânsito para o ciclista também e é por isso que pedalar é tão seguro e prazeroso.

Tô adorando! E acho que foi um dos presentes mais legais que já ganhei até hoje!

Viva a vida politica e deliciosamente correta e ecológica! E viva os maridos e as mulheres inteligentes, como disse minha amiga virtual, a Lilás!


01 setembro 2008

Foi num dia de verão...

(Paisagem à beira da estrada, indo para Zoológico em Höör, Suécia, agosto de 2008)


Este fim de semana foi incrivelmente azul e quente. E, apesar de eu até estar com vontade de ficar em casa um pouco, acabei por concordar com o Renato quando ele me disse mais ou menos assim:

- Sônia, logo a gente não vai ter escolha. Quando chegar o inverno, não há como voltar mais, não há como pedir sol, nem pedir um dia diferente. Então, melhor a gente sentir o sol o mais tempo possível, porque ao menos saberemos que não perdemos um dia sequer, quando ainda era possível. 

E eu concordei totalmente com ele. Passamos o sábado e domingo, feito os suecos, passeando por zoológico, praia, rolando na areia e na grama com o Ângelo. Pusemos o rosto no sol e ficamos sentindo o calor na pele. É assim que as pessoas fazem por aqui, numa atitude natural, como da flor que se vira para o lado do sol.

O fim do verão traz uma coisa estranha pra todo mundo aqui: é como se um grande, muito precioso amigo estivesse indo embora e a gente fica com nó na garganta. Sensação estranha, triste e valiosa. 






Poema de Fim de Verão

"Quando eu sair outra vez
A voar em busca de um verão,
vou levar fragmentos dos dias
de risos, de sonhos e de querer.
Haverei de ir mais longe...
como a que buscar
uma lembrança...
ou a suplicar bonança
em forma de calor.

Minhas asas de cera e poesia,
abertas ao despencar do dia.
se recolherão, e...
como num abraço de irmão
me protegerão da saudade.

Nas rotas mais improváveis
rasgarei o azul anil,
e de encontro aos ventos
estarei a te guardar alí...
Na linha do horizonte
que me divide minha alma
em duas metades
tão desiguais
e tão sem você."