28 junho 2008

Tem dias que vou de Brecht e outros, de Clarice




Nada é impossível de mudar


"Desconfiai do mais trivial,
na aparência singelo.
E examinai, sobretudo,
o que parece habitual.
Suplicamos expressamente:
não aceiteis o que é de hábito como coisa natural,
pois em tempo de desordem sangrenta,
de confusão organizada,
de arbitrariedade consciente,
de humanidade desumanizada,
nada deve parecer natural
nada deve parecer impossível de mudar."


Bertolt Brecht


....





"Eu escrevo sem esperança de que o que eu escrevo altere qualquer coisa. Não altera em nada... Porque no fundo a gente não está querendo alterar as coisas. A gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro..."


Clarice Lispector


26 junho 2008

"Sexy and the City", eu e as suecas assanhadas



"Sex and the city" na série e as conexões possíveis

A convite de minha amiga alemã, a Nikol, fui pela primeira vez ao cinema, aqui na Suécia, e vimos "Sex and the city", o longa baseado na famosa série.

No Brasil assisti a todos os episódios, todas as temporadas, em DVD, em casa e sozinha. Um ou outro apenas vi com minha querida cunhada, a Dri. E a gente adorava. Ria muito e ficava naquele tititi feminino por horas. Sozinha, era muito bom pegar minha pipoca ou uma porcaria qualquer pra comer, bem no fim da noite, e ter um pouco de diversão e distração. 

Eu não gosto de comédias. Não consigo rir com elas e não tenho paciência, mas eu ria com "Sex and the city". E me via em inúmeros episódios e identificava os meus ou os problemas e dilemas existencias de tantas de minhas amigas.

E não foram poucas as vezes em que algum episódio foi tema de conversa gostosa e descontraída com elas. E a gente brincava de pensar em qual delas nos enxergávamos mais. E até hoje me lembro de alguns episódios e dou muita risada. Não porque era comédia barata, mas porque era tão parecido com as bobeiras que eu vivenciava que, de trágico, virava cômico.

A série toda tratava de dilemas muito comuns de grande parte de mulheres na casa dos trinta: não ter casado, não ter engravidado, não ter uma casa própria, não ter um relacionamento fixo ou se dar conta de que o tempo simplesmente estava passando e as coisas com as quais você havia sonhado a vida toda não estavam acontecendo. Eu via isso na série e ouvia o mesmo de minhas amigas o tempo todo.

Isso tudo fazia, eu creio, com que tantas milhares de mulheres adorassem ver as quatro amigas na série. E provavelmente é o que tem levado multidões delas a ver o filme agora.



"Sex and the city" no cinema: more money than sex

Mas se eu me divertia com a série eu sabia perfeitamente - e até me incomodava em um grau não muito elevado - a vida fantasiosa que parecia que elas levavam. E os exageros. Me irritava o fato de Carrie, a escritora ter dinheiro para comprar os tais sapatos "Manolo", tão caros. Ou as bolsas e vestidos chiques e descolados que ela desfilava nos episódios. Tudo bem que todos os personagens da série eram caricaturais, mas eu não gostava. O que eu fazia era abstrair essa parte e outras bem bobas e pegar o tema do dia e pensar ou deixar ou, claro, deixar de pensar.
Apesar disso, eu me divertia. E muito. E me emocionava também. 


Sex and the Malmö city

Ontem, quando chegamos ao cinema, o clima era de festa. Sabe festa de amigas que não sem vêem há anos? Era esse. E as trezentas ou mais suecas e algumas dezenas de estrangeiras que haviam feito reserva para o filme, como Nikol, fez para nós, estavam muito oriçadas. A sala era 99% mulher. E estava lotada. 

E as suecas silenciosas que encontramos nas ruas estavam barulhentas e dando gritinhos de alegria. Se abraçavam, estavam super felizes. Eu e Nikol, por nossa vez, estávamos eufóricas de ter conseguido, depois de tanto tempo sem sair, só cuidando dos bebês e nos encontrando em playground e falando de fraldas e gripes, falar de nós mesmas. Tomar algo e bater aquele papo gostoso que a gente só consegue ter com algumas mulheres. Então, o filme valeu muito a nossa saída, mas o filme, em si, achei fraco demais. 

É claro que não se deve esperar muito, inclusive porque o longa tenta resumir num único episódio a continuação de uma história que levou anos para ser passada na TV. E se você não via a série provavelmente vai achar muito ruim mesmo, porque há personagens que parecem péssimos se você não sabe como eles eram antes. Em mim, irritou o exagero do que já era exagero antes. O supérfluo, o luxo, a falta de verossimilhança. 


Compre isso, compre aquilo e também aquilo outro

Tem, claro, uma história por trás e a gente pode pensar que o filme fala das amizades femininas, as boas e duradouras, ou de quanto o amor exige que você olhe além do seu próprio umbigo, ou até mesmo de quanto os sonhos e fantasias do universo feminino devem ser repensadas a favor de uma relação saudável. Entretanto, o desfile de moda que as quatro fazem, o tempo todo, me irritou que foi uma coisa.

E a propaganda forçada, exagerada, descarada das marcas todas, desde a tal bolsa, que pra mim não vale nada, Louis Vuitton, dada por Carrie à sua dedicada secretaria, até o copo de café da Blockbuster. Ufa! foi tanta propaganda que eu não consegui me concentrar muito no restante.

Não vou fazer uma análise do filme, porque não faria sentido, já que ele não se propõe a ser mais que diversão. E também vou pegar leve, porque tem o lado legal de rever aquela história meio perdida das quatro e porque tem gente que eu adoro que gostou muito de ter ido ao cinema ver "Sex and the city", mas fiquei incomodada com preconceitos e sonhos de consumo, considerados normais e sem problema nenhum de serem aceitos. 


Você deve pensar assim...

Que a dedicada secretária, bom lembrar, negra, de Carrie, a Louise, tivesse o mesmo sonho de consumo da patroa, a gente sabe que pode ser o retrato da realidade. Mas que esse quase fanatismo por marcas e coisas caras e fúteis seja tomado como central e aceitável na vida daquelas mulheres ou qualquer mulher, nossa! me incomodou horrores. 

Carrie, Samantha, Charlotte e Miranda me pareceram mais volúveis e fúteis no filme do que na série. O filme me pareceu mais fantasioso, porque a vida real foi substituída por coisas que talvez nós, mulheres, talvez desejemos fazer de vez em quando: deixar tudo e apoiar a amiga triste numa viagem ao México, pagar uma secretária para fazer nossa mudança e arrumar todas as caixas no lugar, mesmo sendo uma escritora que não vende, se reunir frequentemente com as amigas para tomar o brunch do sábado...

É claro que eu concordo que, tal como elas, mulheres reais brigam e se apóiam em todos os momentos, quando amigas. E concordo que algumas tem os mesmos sonhos, como casar com "pompa e circunstância" (não me incluo nisso, apesar de ter me casado com a igreja e festa) e estejam focadas no guarda-roupa.

Por outro lado, eu acho que a gente na vida real está mesmo é lutando pra comprar a bolsa da "lujinha" da esquina. Se casadas, a gente tá se matando para dar conta da casa, do marido, do trabalho e dos filhos. Tentando manter tudo, corpo, mente, em dia e ainda ser alguém que consegue dar uma escapada e respirar como ser humano autônomo.

Se solteiras, a gente perde horas no ponto esperando ônibus ou no engarrafamento, a gente faz conta no fim do mês pra saber se terá dinheiro pra pagar uma faxina na quinzena. A gente não tem tempo para escolher a roupa direito ou a gente não tem a roupa que queria, simplesmente porque tudo isso é caro demais ou porque as vezes isso simplesmente não tem importância. 

Eu sei que o filme trouxe alguns outros dilemas que vivo, vivi ou presenciei, mas, ao meu ver, eles ficaram obscurecidos ou foram suavizados para tornar o filme muito, mas muito vendável. Eu me reconheci novamente e reconheci minhas amigas queridas em várias coisas, mas não na maioria delas. Parece que a gente foi indo pra outro caminho. Ao menos a gente continua sem dinheiro para ter vestidos assinados e sem tempo para tanta badalação.


Cadê as suecas tímidas e pensantes?

Não sei. Me diverti bastante ontem, por um lado. Mas tinha mais a ver comigo mesma do que com o filme. E as suecas assanhadíssimas, dando gritinhos até com o au-au do cachorro e aplaudindo a cada cena romântica, beijo, bolsa, roupa, tudo! me deu a impressão chata de me sentir idiota. Facilmente comprável com apelos comerciais. E boba suficiente para achar que eu precisaria sair do filme eufórica com as roupas, sapatos e tudo o mais... 

A mulherada assanhada ontem parece ter acreditado piamente numa reportagem de revista que saiu aqui dizendo que as suecas acharam o filme "Fantástico". Para mim, elas pareciam mais adolescentes que adultas, não me deu orgulho de gostar de "Sex and the city", pelo contrário. Parecia um multidão pouco inteligente o suficiente para não perceber que algumas idéias, tomadas como normais, não devessem ser questionadas apenas porque "Sex and the city" foi uma das séries que eu e elas gostamos de ver no passado e porque, depois de tantos anos, reencontrar Samantha, Miranda, Charlotte e Carrie seja realmente tão gostoso e excitante.

Talvez se eu tivesse sozinha com a minha pipoca e meu pijama eu continuasse me divertindo como antes, sabendo até onde eu deva considerar o filme legal e onde começa a ficar ridículo achá-lo o máximo.


25 junho 2008

Mistura Fina


Hoje de manhã voltava meio com pressa pra casa e encontrei meu vizinho, imigrante da Malásia, que é casado com uma sueca com os quais, normalmente, eu falo em inglês. Acenei rapidamente e disse:

- Oláá! tudo bem?, em português.

E ele ao mesmo tempo:

- Hey! Hey!

Parece confuso, mas a gente se entende que é uma beleza.

24 junho 2008

"A Arte de ser avó", por Rachel de Queiroz





Em resposta ao post de ontem, a Irene, assídua leitora do blog e avó do Ângelo, me mandou este sensível texto da Rachel de Queiroz, o qual não pude deixar de dividir com quem ainda não conhece. 

"Enjoyem" a leitura! 

....


A arte de ser avó

"Netos são como heranças, você os ganha sem merecer. Sem ter feito nada para isso, de repente lhe caem do céu... É como dizem os ingleses, um Ato de Deus. Sem se passarem as penas do amor, sem os compromissos do matrimônio, sem as dores da maternidade trata-se de um filho apenas suposto. O neto é, realmente, o sangue do seu sangue, filho do filho, mais filho que filho mesmo... Cinqüenta anos, cinqüenta e cinco... Você sente, obscuramente, nos seus ossos, que o tempo passou mais depressa do que esperava. Não lhe incomoda envelhecer, é claro. A velhice tem suas alegrias, as suas compensações: todos dizem isso, embora você, pessoalmente, ainda não as tenha descoberto, mas acredita. Todavia, também obscuramente, também sentia seus ossos, às vezes lhe dá aquela nostalgia da mocidade.

Não de amores com suas paixões: a doçura da meia-idade não lhe exige essa efervescência. A saudade é de alguma coisa que você tinha e que lhe fugiu sutilmente junto com a mocidade. Bracinhos de criança. O tumulto da presença infantil ao seu redor. Meu Deus, para onde foram as suas crianças?

Naqueles adultos cheios de problemas que hoje são os filhos, que tem sogro e sogra, cônjuge, emprego, apartamento e prestações, você não encontra de modo algum as suas crianças perdidas. São homens e mulheres adultos; não são mais aqueles que você recorda.

E então, um belo dia, sem que lhe fosse imposta nenhuma das agonias da gestação ou do parto, o doutor lhe coloca nos braços um bebê. Completamente grátis, nisso é que está a maravilha. Sem dores, sem choros, aquela criancinha da qual você morria de saudades, símbolo ou penhor da mocidade perdida. Pois aquela criancinha, longe de ser um estranho, é um filho seu que lhe é devolvido. E o espantoso é que todos lhe reconhecem o seu direito de o amar com extravagância. Ao contrário, causaria espanto, decepção se você não o acolhesse imediatamente com todo aquele amor recalcado que há anos se acumulava, desdenhado, no seu coração.

Sim, tenho certeza de que a vida nos dá netos para nos compensar de todas as perdas trazidas pela velhice. São amores novos, profundos e felizes, que vêm ocupar aquele lugar vazio, nostálgico, deixados pelos arroubos juvenis.

É quando vai embalar o menino e ele, tonto de sono abre o olho e diz: Vó, seu coração estala de felicidade, como pão no forno!"

22 junho 2008

Aos avós, com carinho ou Homenagem especial numa segunda-feira comum


Os Avós

"Ya ya ya oh!
Quem é que deixa fazer tudo
que a mamãe nunca deixou
Ya ya ya oh!
É a vovó e o vovô!

O vovô não fica sério
Faz o tipo brincalhão
É a vovó quem manda o tédio
Passear, lamber sabão.



A criançada pinta o sete
Faz o avô de cavalinho
A vovó brinca de pique
De boneca e de carrinho.

Hambúrguer no almoço
E sorvete no jantar
Dormir sem tomar banho
Só os avós que vão deixar.



Quem te livra do castigo
e te deixa ver televisão
E não briga com a roupa
Espalhada pelo chão.

A mamãe fica zangada
Com tamanha confusão
Se os avós liberam tudo
A bomba estoura em sua mão.



Mas no fundo ela entende
Que é uma prova de amor
Pois eles sabem tudo
A vida já lhes ensinou.

Aprendemos a lição
Que os avós são outros pais
Que tem a gente no coração.

(Autor Desconhecido, fonte: http://www.clubedospais.pt)

21 junho 2008

O que se perde

(Sonho, Somnia Carvalho, 2004, tela feita para Luciana Dias)


O que se perde

"....o que é que se perde num rasgo de chuva, Marinho?!... não sei... mas me pergunto curiosa e talvez você possa responder... o que é que fica na gota que se espatifa nos meus olhos quando um homem se comove do outro lado da linha, e eu, abestalhada, porque isso é tão raro, não sei o que fazer?!... o que é fica na gota, também salgada de saliva, da boca desse homem quando ele dói como vaga marinha em forma de poesia?!...eu não sei... mas ouço o que ele fala, como quando pela primeira vez ouvi o mar na concha de um caramujo... eu sou do sertão das gerais que não tem mar... só muito mais tarde fui saber da imensidão de água que as montanhas não me deixavam ver... eu primeiro imaginei o mar, Marinho, com os meus ouvidos de ver... e deve ser por isso que eu gosto tanto de poesia... e deve ser por isso que quando alguém me pergunta, como você ontem me perguntou, criatura em busca do criador, aonde ele está?!.. que eu imagino que talvez ele esteja no mar que está dentro da concha do caramujo que quando criança eu levava ao ouvido absurdamente encantada de tudo aquilo caber em algo tão pequeno... talvez esteja também na concha do meu ouvido agora quanto te ouço... não sei... talvez esteja em você... vá saber?!"


....

(Ângelo com a Lu, que já provou  que pode ser  uma "tia" exemplar: coruja, carinhosa e  cantarolante, Brasil, novembro de 2007)


O texto acima é de uma das minhas melhores amigas, a Lu Dias. 

A Luciana está entre as pessoas mais sensíveis, inteligentes, alegres e malucas que já tive o prazer de conhecer. Ela me mandou uma notícia esses dias de que está extremamente grávida e eu fiquei muito feliz e também curiosa para poder vê-la desempenhar este outro papel que a vida lhe deu, o de mãe. 

Essa notícia me fez pensar que as nossas perspectivas sempre podem se transformar, se a gente deixar espaço para a mudança.

Creio que agora ela terá material para escrever textos ainda mais bonitos e profundos, apesar de figurar, até pouco tempo, entre minhas amigas solteiras convictas. Ou quase... 

... talvez porque ela seja daquelas que não perde quase nada num rasgo de chuva...

Estocolmo: um outro lado da Suécia e dos suecos

(Estocolmo, vista de um dos lados da cidade)


Estocolmo por ela mesma

Estocolmo, a capital da Suécia, é uma das capitais mais bonitas em que já estive. 
A cidade é recortada por imensos canais, onde centenas de barcos circulam com turistas passeando pela cidade. É impossível pensar em Estocolmo sem os barcos. A água e eles parecem ser a vida da cidade. Não à toa uma das amizades que fiz aqui, o Tobias que veio de lá, diz que a coisa que ele mais sente falta é do barquinho que tinha. 

Se você vai a Estocolmo é preciso tomar um desses barcos para ter uma idéia geral da cidade, porque só andando é difícil chegar a alguns pontos, já que a cidade é bem grande.


(Curtindo o passeio de barco, que fez Ângelo enlouquecer e apontar o dedinho pra todo lado)


Em nosso rápido passeio de três dias, também incluimos uma visita ao imperdível Wasa Museum. Nele a gente entra na história de um imenso navio, que esteve no fundo do mar por mais de trezentos anos e foi encontrado nos anos 60, em condições incríveis de preservação porque as águas dali não eram muito salgadas. A visita é emocionante e muito informativa. Conheci mais a respeito da Suécia e da nossa História.



(Renato ao lado da roupa de mergulhador, usada nos anos 60, para resgatar o navio e seus destroços)

Outro maravilhoso Museu é o Museu de Arte Moderna, onde só a tela Marcela, do Kirchner, já valia a pena a visita. Mas você também pode ver um Matisse e seus contemporâneos. Sem contar que as exposições de artistas atuais é muito, muito boa.


Estocolmo e Malmö, duas possíveis visões

Estocolmo é muito maior que Malmö, que é a terceira maior cidade da Suécia. É também mais charmosa, mais movimentada, mais internacional ainda e tem uma vida noturna que aqui não se tem. 

Os turitas são muitos, os estrangeiros que vivem lá também. Encontramos brasileiros cantando no lounge do hotel, brasileiros em uma apresentação de bateria na praça etc. É verdade que em Malmö também temos algo parecido no verão, mas em Estocolmo tem uma agitação de cidade onde tudo, ou muita coisa, acontece o tempo todo. Tem um "glamour" que fez Malmooee, como o pessoal daqui da Skåne pronuncia o nome da cidade, parecer uma pacata Fazenda com praia.



(Estocolmo, vista de um outro lado da cidade)

Até os suecos de Estocolmo parecem mais barulhentos e animados. Vimos parte de um jogo da Suécia contra Espanha numa enorme praça e a animação só perdia pros brasileiros, porque não tinha samba junto. Além do que a multidão era animada, mas extremamente comportada. 




(A animadíssima torcida cantarolante da Suécia, no jogo contra Espanha, da Eurocopa)

Mas se, por um lado, achei Estocolmo é tudo isso de bom, ela é bem barulhenta, porque tem carro pra lá e pra cá, como qualquer cidade muito grande. Tem uma super linha de metrô e quase todos os meios de transporte possíveis circulando pra lá e pra cá e, embora isso seja fantástico e necessário, você sente que tudo é corrido, tem uma certa urgência, como eu sentia em São Paulo.

Se tem a tal vida noturna, faltou as dezenas e dezenas de playground e parques que temos em "Malmoooee". E o trânsito ultra tranquilo e uma certa paz que a gente tem aqui... Voltei como quem volta para a casinha e meio cheia de orgulho de viver com o pessoar das Skåne. Eles são mais fechados, é verdade. Eles são mais quietos, também é verdade, mas eles sabem e podem aproveitar a vida de um jeito que eu, aí no Brasil, e em São Paulo, não terei mais chance.

Então voltei com a impressão de que Estocolmo é deliciosa de ver e Malmö de viver. São dois lados da Suécia que se completam. Acho que essa viagem me ajudou a alargar a visão que eu tinha do país e do seu povo e a valorizar ainda mais nossa vidinha daqui.

ps: nosso álbum ficou bem fraquinho e pequeno, porque nossa câmera estava com problema. Serve como registro de que vivemos esses dias por lá...

18 junho 2008

Inspiração ou a Arte é e não é um exercício individual

"Fertilidade", Somnia Carvalho, 2003




Demétria

A partir do quadro Fertilidade, de Somnia Carvalho


Por minha graça
os botões se abrem
em pétalas túmidas

os seios crescem
flores rosadas
fontes lácteas

pólen se exala
se instala entre lábios
pequenos e grandes

ventos e fluidos
carregam sementes

ventres se expandem
campos se cobrem

cantos embalam
sono e trabalho.


(Juliana de Souza D´Assis)

....


Há alguns anos pintei o quadro "Fertilidade" a partir de uma belíssima imagem de Demétria que minha amiga Juliana trazia em suas cartas. Inspirei-me na imagem dessa mulher fértil, numa época em que começava a desejar engravidar e ser mãe e num momento em que sentia brotar essa necessidade de se sentir fértil em muitas outras coisas.

Trabalhei com Lia, como Juliana é conhecida, como professora do antigo Cursinho DCE e, juntas, a gente viveu, aprendeu e aprontou muito.

Tempos depois, outra querida amiga, a Vanessa, do mesmo grupo de professores, comprou a tela, depois das duas terem "disputado" quem ficaria com ela.

Hoje de manhã, tive o imenso prazer de receber da "Palavrarte", a poesia abaixo, em que a Ju, que não ficou com a tela, buscou nela inspiração para pôr em versos sua sensível leitura de minha pintura.

A você Ju, obrigada por inspirar-me de volta...



17 junho 2008

A gente ta de volta!!!

(Angelo curtindo praia no Dia Nacional da Suecia, 06 junho de 2008)


Apesar de notavel e sentida falta de comentarios neste blog, a gente ta de volta!

As avos fizeram chororo e morreram de saudade por falta do skype, mas nem elas reclamaram a falta do blog!

Brincar de 'escritora' nao e facil

Mas, ainda assim, sem saber para onde e que vao as frases desse meu espaco, eu estou aqui.
Me perdoem ainda a falta total de acentuacao. Meu antigo mac era sueco e o teclado era totalmente diferente. Esse aqui e americano, entao to tentando achar as coisas ainda.

Tambem desculpas pela falta de respostas aos poucos, porem preciosos comentarios dos posts anteriores, dos emails e pela ausencia total nos msn e skypes da vida. A gente vai tentar aparecer agora. Eu, Renato e Sr. Angelinho, claro!

Tenho na cabeca algumas dezenas de posts a respeito da Suecia e Brasil, ja que aqui as coisas estao uma animacao danada, porque, voces sabem, e verao! E foto que nao acaba mais!

Hasta la vista baby!

06 junho 2008

O Dia Nacional da Suécia e a Festa dos Formandos do Ano

(A festa dos formandos suecos, fonte: http://www.gonomad.com/roundworldphoto/)

Sexta-feira foi feriado aqui na Suécia: o Dia Nacional da Suécia. O povo todo aproveitou o dia muito quente para ir à praia e torrar, sem chapéu, sem guarda-sol e sem protetor solar. Nada de celebrar o feriado político.

As comemorações da semana ficaram mesmo por conta dos formandos do terceiro ano. Com o fim do segundo grau, os jovens e as jovens suecas fazem festa por uma semana toda, pelo menos.

Eu fiquei lembrando das nossas formaturas do segundo grau, chaatas que só vendo, pelo menos até as que eu ainda frequentava. Provavelmente eles também têm a parte formal, eu imagino, mas a festa é bem diferente do nossa valsinha e do "Coracao de Estudannnnnte".

A mulherada usa vestido de festa, branco. Mais ou menos o que usamos para grandes festas de reveillon aí, mas um pouco mais exagerados. Salto alto, cabelo arrumado, maquiagem, tudo que tem direito pra ficar loira, alta, linda e exageradamente tudo.

Os meninos usam terno escuro, gravata, sapato social. Eles e elas usam um cap (chapéu) de marinheiro. É esquisito. Tem uns que ficam mucho brega, mas devo confessar, é legal. É diferente.

Perguntei sobre o significado da roupa branca, do cap e tudo o mais para minha amiga sueca, Paulina, que é advogada e também celebrou da mesma forma a tradicional formatura do "ginásio". "Para mostrar que agora nao sao mais criancas, mas adultos", disse ela.

Adultos que usam vestidos sensuais, caps de marinheiro, roupa pomposa de quem tem dinheiro ou de quem agora só vai comemorar.

A cidade toda fica em povorosa. Os alunos alugam caminhoes que desfilam com muitos galhos de árvores, música e todos os formandos pululantes em cima. O barulho também é maior por conta dos milhares de assobios e piora um pouco quando um grupo encontra outro no meio da cidade.

Eu ouvi de algumas amigas brasileiras aqui que a festa é boba, sem sentido e muito barulhenta. Cada um pode achar o que quiser da festa, mas sabe o que acho? Que os jovens suecos celebram a formatura do segundo grau de uma forma bem peculiar, e bem mais, mas muito mais, animada e jovial do que a gente faz, por exemplo. Eu até concordo que muita festa sueca é bem sem graca, como por exemplo o Midsummer, que celebra o solstício de verao. Nao que o sentido seja sem graca, mas eles celebram meio que cada qual no seu canto, com seus amigos e familiares. Até é legal, mas de festona mesmo, nao tem nada. E se você nao é convidado para alguma, como a gente no ano passado, por exemplo, entao é um porre.

Para matar minha curiosidade sobre a tal festa de formatura, fiquei com Angelito aqui na frente do grande colégio de St. Pauli, em frente de casa na sexta passada. Na frente do colégio, centenas de pais, parentes e amigos. Todos vestidos para festa, com uma placa enorme trazendo a foto do formando, quando ainda era bem crianca. E esperam. E gritam. E é uma ansiedade como se aguardassem por uma celebridade. Enquanto isso, os filhos crescidos, com decotes e barba, aparecem nas janelas do Colégio, acenam, gritam, mostram bandeiras. Cantam.

Vi no rosto de alguns pais uma emocao incrível. E essa emocao eu lembro de ter visto nos olhos dos nossos pais aí também.

De repente, uma banda aparece. Toca lá qualquer cancao que eu nao conheco, mas todos conhecem bem e a molecada toda sai para encontrar os parentes. Esses mesmos que voltam para casa, enquanto os filhos vao tomar rumo dos caminhoes e carros conversíveis para desfilar pela cidade toda.

Tirei muitas fotos, mas ficaram todas muito ruins.

Alguns exageram e bebem demais. Ou gritam demais. E talvez por isso tem hora que cansa o ouvido. Mas eu, ao menos, nao vi nada que me incomodasse. Nao tem gente se pegando na rua, e tudo é muito seguro.

Eu prefiro essa festa e ver gente feliz da vida, pululante pela cidade, e reconhecer que eles têm lá seus momentos de muita euforia. Os suecos podem ser muito animados, quando querem.

E, é bom dizer, podem ser mais animados do que eu mesma fui na minha formatura de terceiro ano.

ps: semana que vem chega meu micro e espero atualizar fotos, posts etc. Espero também usar acentuacao no texto todo. Por enquanto, só desculpas mesmo.

02 junho 2008

"Soy loco por ti America!"

(Um dos muitos especiais, carinhosos e queridos amigos: Pinta e Ênio, com o lindao do Pedro)


Fim de semana passado estivemos na casa de um casal sueco com quem fiz amizade aqui e foi muito bom. Mas louca a sensacao de ter ainda mais saudade de quem está aí. Saudade das minhas amigas mui malucas, das mais certinhas, das que tiveram filhos e estao com a vida atribulada. Da família toda.

E, embora seja realmente muito legal que esses suecos tenham aberto suas portas para a gente, coisa que eles demoram a fazer, fico sempre com saudade de amizades antigas. Amizade antiga é que nem namoro antigo, a gente nao precisa se preocupar muito e vai direto aos beijinhos.
Estar longe da América faz a gente desejar ardentemente seu calor, sua cor e seu jeito único de nos acolher.

Soy loco por ti, América

"Soy loco por ti, América
Yo voy traer una mujer playera
Que su nombre sea Marti
Que su nombre sea Marti
Soy loco por ti de amores
Tenga como colores la espuma blanca de Latinoamérica
Y el cielo como bandera
Y el cielo como bandera
Soy loco por ti, América
Soy loco por ti de amores
Sorriso de quase nuvem
Os rios, canções, o medo
O corpo cheio de estrelas
O corpo cheio de estrelas
Como se chama a amante
Desse país sem nome, esse tango, esse rancho,
esse povo, dizei-me, arde
O fogo de conhecê-la
O fogo de conhecê-la
Soy loco por ti, América
Soy loco por ti de amores
El nombre del hombre muerto"
Ya no se puede decirlo, quién sabe?
Antes que o dia arrebente
Antes que o dia arrebente
El nombre del hombre muerto
Antes que a definitiva noite se espalhe em Latinoamérica
El nombre del hombre es pueblo
El nombre del hombre es pueblo
Soy loco por ti, América
Soy loco por ti de amores
Espero a manhã que cante
El nombre del hombre muerto
Não sejam palavras tristes
Soy loco por ti de amores
Um poema ainda existe
Com palmeiras, com trincheiras, canções de guerra,
quem sabe canções do mar
Ai, hasta te comover
Ai, hasta te comover
Soy loco por ti, América
Soy loco por ti de amores
Estou aqui de passagem
Sei que adiante um dia vou morrer
De susto, de bala ou vício
De susto, de bala ou vício
Num precipício de luzes
Entre saudades, soluços, eu vou morrer de bruços
nos braços, nos olhos
Nos braços de uma mulher
Nos braços de uma mulher
Mais apaixonado ainda
Dentro dos braços da camponesa, guerrilheira,
manequim, ai de mim
Nos braços de quem me queira
Nos braços de quem me queira
Soy loco por ti, América
Soy loco por ti de amores