30 abril 2008

"Take My Breath Away" ou Berlim, lá vamos nós!


(Crianças alemãs, isoladas num bloco da Alemanha, observam avião dos Estados Unidos, em 1948, Imagem: "Los Angeles Times")


É uma coisa bem bobocona, mas toda vez que qualquer pessoa me fala da cidade de Berlim, eu me lembro dessa música bréééga - e deliciosa - que só ouvindo, da minha adolescência: "Take my breath away".

Quando ouvia a canção, que foi tema do filme "Top Gun", eu sempre pensava na Alemanha, me transportava para um lugar que eu não conhecia, mas sabia das aulas de geografia. E a verdade é que nem sei se da história do grupo e, na época, nem sabia a tradução da letra. Não sei se lé tem a ver com cré, nesse caso. O gostoso é ter essa lembrança e agora transformá-la em algo real.

A programação para o feriado veio de última hora e, então, amanhã eu e meus companheirinhos aqui vamos tomar estrada rumo à Berlim. Passaremos pela Dinamarca, tomaremos uma balsa, atravessaremos o marzão, chegaremos em terras alemãs. Isso tudo numa viagem de umas cinco horas e meia, com muitas paradas para Sr. Angelinho Linho Linho.

Espero que a cidade "tire meu fôlego", como diz a letra da música.
Desejo um feriado de 1o. de maio com pouco trabalho para todo mundo, mas com companheiros muito bons para passar o dia. Até semana que vem!

29 abril 2008

A difícil tarefa de escolher partir a ficar ou Às amizades de uma vida!

(A Cris, que dá um jeito de aparecer da festa de despedida à defesa de tese, em despedida minha e do Renato do Brasil, ano passado)


A partida

"Dia da partida. É giro. De há uma semana para cá que tenho sentido tudo como sendo a última vez. A última vez que vejo o amigo. A última noitada com a malta. A última volta de bicicleta com o meu irmão. A última vez que a minha mãe me prepara aquele bacalhau com natas. A última vez que estou a uma 3ª feira em Lisboa.

Já me candidatei há 8 meses para sair de Portugal. Desde sempre estive seguro desta minha opção. Ter mais uma experiência além-fronteiras era mesmo o que queria. No entanto esta melancolia de última hora faz-me questionar se vale a pena..."




Às vezes consigo falar com algumas das minhas queridas amigas que ficaram aí no Brasil. A distância física não abalou a proximidade, em muitos casos: o telefone ou a internet, ou um presente inesperado, ou uma carta pelo correio, servem para trazer à lembrança os anos todos em que construímos amizade. E matar a saudade. E fazer festa.

Em alguns casos, porém, fica mais difícil. E com algumas pessoas, apesar da saudade, nunca consigo falar. 

Andei muito a pensar e lembrar de um filme que vi, ainda na adolescência, "Irmão Sol, Irmão Lua", de Franco Zefirelli. E, apesar de querer fazer um post depois só a respeito disso, fica hoje a idéia: deixar família, pais, amigos, lar, a casa e tudo e construir sua própria vida é uma das lições mais antigas que nossa civilização tem. E, ainda hoje, sofremos tanto com ela.

Mas, apesar do sofrimento, da distância e das perdas que nos são necessárias no caminho, ainda assim há tanto que ganhar e crescer. E isso o Francisco, de Assis, aprendeu bem. O Pedro, de Portugal, meu amigo de blog, e também eu estamos tentamos aprender.



(Minhas queridas Lu, Elô e Fá, na minha primeira exposição de pintura. Amigas para rir, chorar, discutir e crescer, julho 2005)

Falando, esses dias, com a Cris, cuja amizade começou em Sumaré, há tantos anos e foi parar em São Paulo, na USP, me deu saudade dela e de todas minhas queridas e caras amigas que tenho aí no Brasil. 

Com algumas falo sempre, como a Mafer, minha irmã, a Pinta e outras muitas mais que fica difícil começar a citar... com outras, entretanto, o contato é assim, de alma, como a Susette, a Elô, a Cris e algumas mais.  Muitas outras, como eu, também não estão no Brasil agora, mas trocamos algo ou tentamos nos encontrar quando é possível. E embora eu adore todas, sem exceção, e tenha muitas saudades, estar aqui significa perder esse tempo que tenho vivido aqui, com elas, aí. 

Significa não poder ver a barriga do segundo bebê da Dani. Nem ver a casa nova da Daníssima. 
Significa não ver os filhos queridos delas crescerem. Nem ir às festas de aniversários e casamentos que ainda estão a acontecer. Significa não ajudar minha irmã e meu irmão com suas casinhas e cantinhos... 

Partir significa, sempre, perder.
Mas partir significa, sempre, ganhar.

Apesar de parecer melancólico eu creio, sinceramente, e sem demagogias, que nossa amizade permanece além das fronteiras. E que, poderemos tomar aquele café da tarde gostoso e dar risadas juntinhos, quando estivermos próximos fisicamente de novo. Acho, ainda, que é importante alimentar essas amizades, de alguma forma, para que não passem de "perdas temporárias" a "perdas necessárias", embora eu mesma tenha deixado passar em branco o aniversário ou tantas coisas da maioria delas. 

Escrever esse blog é uma tentativa de troca. De conversa, ainda que eu também saiba que o que tem base firme se sustente, sempre.


26 abril 2008

O "ser" feliz


(Ruínas de Hammershus, Ilha de Bornholm, Dinamarca, fonte: "Photos from a non-photographer"


Ser feliz para o Pessoa é...


Ser feliz

"Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes, mas não esqueço que minha vida é a maior empresa do mundo. E que posso evitar que ela vá à falência.

Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver, apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise.

Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e tornar-me um autor da minha própria história.
É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar um oásis no recôndito da sua alma.

É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida.

Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos. É saber falar de si mesmo. É ter coragem para ouvir um "não". É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta.
Pedras no caminho? Guardo todas, um dia vou construir um castelo..."

Fernando Pessoa.



Ser feliz para mim é...





É tudo que o é para o poeta e um pouco mais.

É conseguir nos livrar das amarras que o mundo tenta nos impôr, 
mas, sobretudo, das nossas próprias.




24 abril 2008

Um clique e a eternidade: criando um álbum de fotos para o blog

(Um clique e a eternização de um momento simples, mas cheio de alegria em Mallorca: saboreando um suco de frutas frescas da simpática espanhola e matando saudade do Brasil, janeiro 2008)

Já há algum tempo venho tentando organizar algumas das milhares de fotos que tiramos até agora por aqui e por onde temos andado. Percebi, no entanto, que a tarefa é interminável e subjetiva. Eu teria centenas de fotos para mostrar, mas dependeria do foco. Só do menino Ângelo, dezenas de álbuns. 

Tentei fazer uma pincelada pelo que aconteceu até aqui. A idéia é que o álbum complemente o blog e que eu o atualize sempre. Por enquanto, consegui colocar apenas uma parte do que temos, e espero ir atualizando em breve. 

As fotos nem sempre são as mais bonitas. Nem uma câmera super-mega-master nós temos. É apenas um pouco da nossa história aqui. Talvez para que nós mesmos não esqueçamos e tenhamos sempre à mão para relembrar e mostrar a alguém, quando este nos pedir.

Espero que vocês consigam ter uma pequenina idéia do que a borboletinha vive dizendo nos textos, a respeito das paisagens, das pessoas, do tempo e de tantas coisas... alguma idéia, já vale a pena. É só clicar no link do lado direito do blog. Beijos.

23 abril 2008

Algumas curiosidades sobre as famosas suecas - parte 1

(Modigliani, Retrato de Jeanne Hébuterne, esposa do pintor que é ruiva em alguns quadros e morena, em outros)

Todo mundo pensa que aqui na Suécia só tem mulher linda. E loira. Besteira!
Depois de um ano vivendo aqui, posso dizer com toda categoria: na Suécia não tem muita loira!

Metade delas  tinge os cabelos de castanho escuro ou preto azulado. 
E algumas ainda fazem permanente! Siiim! Permanente para ondular os cabelos lisos igual quiabo.

Estranhas essas mulheres não?

Creio que este post detona com o primeiro mito que temos a respeito das suecas. 
Agora sobre elas serem lindas... Hummm.. bem, fica pra uma outra hora... 

21 abril 2008

"A verdadeira arte de viajar"


(Um das dezenas de moinhos que vemos pelos caminhos aqui e que eu não paro de fotografar)


A verdadeira arte de viajar

"A gente sempre deve sair à rua como quem foge de casa,
Como se estivessem abertos diante de nós todos os caminhos do mundo.
Não importa que os compromissos, as obrigações, estejam ali...
Chegamos de muito longe, de alma aberta e o coração cantando!"

Mário Quintana


Esse fim de semana aproveitamos o sol gostoso, o céu azul para passear pela região de Malmö.
E, embora o destino fosse o zoológico e, depois, a praia, o caminho é cheio desses enormes, lindos e modernos moinhos de vento. 

E como a Suécia é planinha que é uma beleza, a gente vai vendo todos eles, enfileiradinhos, tocando ao sabor do vento, sobretudo perto de uma cidadezinha chamada Eslöv.

Passar diante desses grandes moinhos me dão uma coisa boa que é uma coisa. Eu adoro olhar para eles, tanto quanto para os antigos moinhos... mas a sensação desses é totalmente diferente: perto deles, a gente se sente pequenino e vai passando ao lado, quase se acalmando com a velocidade da hélice... é um misto de modernidade com paz antiga que eu não sei explicar... 


18 abril 2008

"A house is not a home"

(Alfredo Volpi)

Uma casa não é uma casa quando...

Um cartaz, preso num poste das ruas de Copenhaguem, me chamou atenção na semana passada. Tratava-se de convite para uma palestra pública e tinha como título a seguinte frase em inglês:

 "A house is not a home". 

Em português, a tradução literal, "Uma casa não é uma casa", creio que poderia ser pensada como "Uma casa não é um lar".

Essa frase, eu vou chutar, deve ter base na fenomenologia do filósofo Edmund Husserl. Sem me alongar e correr o risco de ficar chata, para Husserl uma coisa, uma casa, só é uma casa a partir do momento que tenho consciência da casa. Sem minha consciência, ela não é nada. 

Apesar de eu amar filosofia e me lembrar do professor "Moura" fazendo gestos, com o dedo no ar, para explicar essa teoria de Husserl, eu não acho que o filósofo esteja tão bem cotado e popular  assim. Provavelmente essa frase tenha sido inspirada na música, cantada por Dione Warwick, mais famosa nos anos 70 e 80, cuja letra linda e perfeita resume, muito bem, o tema desse post. 

Lá na capital dinamarqueza, li o cartaz muito correndo, tentando acompanhar Ângelo e Renato que iam à frente, enquanto eu comprava um "breguetinho", uma lembrancinha dinarmarquesa para a nova casa.

Eu fiquei pensando o que queriam dizer com a frase e fiquei imaginando que devia se tratar de planejamento urbano. Talvez tratando de razões pelas quais a Prefeitura, ou governo dinarmarquês deveria pensar certas questões que envolvem a construção de casas ou apartamentos. A verdade é que eu não sei do que se tratava a tal palestra, mas eu sei que eu viajei e continuo viajado na "mauonese" (com u mesmo, eu falo assim), pois o cartaz me deu muito a pensar. 

Adorei a idéia, porque é exatamente nisso que sempre penso quando me mudo.

"Uma casa não é um casa", porque a casa, o espaço físico, precisa de uma quantidade enorme de coisas para se transformar em uma lar, num espaço onde a gente se reconhece, se sente a vontade e sente que, literalmente, tem espaço.



Uma casa é uma casa quando...


(Ângelo dando nova função aos meus livros, fazendo nova história numa nova casa)

Eu acabei por pensar em minha amiga Andréa que teve muito trabalho (e prazer) para sair de um apartamento e se mudar para uma casa, aí no Brasil. Pensei em minha querida Daníssima, que tá se mudando para outro apartamento, em Baden, na Suíca, depois de ter morado uns sete anos numa pacatíssima e deliciosísima cidade ao lado de Baden. Em seu "msn", ela deixou uma frase se referindo à necessidade eterna de mudança.

Eu também pensei muito na Irene e no Caetano, os pais do Renato. Depois de viver mais de vinte anos na mesma casa, no grande ABC, eles estão se mudando para um apartamento em busca de um pouco mais de sossego e conforto. 

Deixar essa antiga casa significa, no fundo, deixar o lar que os acolheu por tantos e tantos anos. Lá, onde cresceram os filhos e os aniversários foram comemorados, onde envelheceu a adorada cachorra, onde os almoços de domingos trouxeram tanta gente à mesa, onde a roupa foi estendida no varal e os dias vividos um-a-um. Lá, onde construíram um lar a muito custo.

Foi o cuidado e a dedicação diária que transformaram a casa, um espaço físico qualquer numa cidade grande de São Paulo, num espaço cheio de ternura, amor e história. E eu, que sou apenas a nora que frequentou a casa por algum tempo, já vinha sentindo uma ponta de tristeza de saber que, no retorno ao Brasil, a feijoada ou o churrasco não será feito naquele lugar onde me senti acolhida por tanto tempo.



Dando novo sentido ao espaço físico para ter espaço sentimental


(Coisinhas que me ajudam a fazer da casa um lar: algumas flores que compro toda semana e objetos de valor sentimental)

E foi, então, que continuei a pensar no lema da palestra em Copenhaguem. "A house is not a home", portanto, essa antiga casa dos meus sogros perderá todo esse sentido, quando a nova moradora chegar e puser suas coisas. Por outro lado, o novo apartamento, onde o varal provavelmente será substituído por uma secadora de roupa, e cuja sacada permite ter uma imensa e bela vista da cidade, se encherá de sentido, quando os dois para lá forem, para lá levarem alguns objetos especiais, das quais não abriram mão. 

Esse novo espaço físico, até então vazio de sentido para eles, para mim, para o Renato e Adriana, em breve, será o espaço onde novas histórias serão contadas. Será nele que Angelinho-Linho-Linho visitará e se lembrará dos avós, por exemplo. A nova casa se encherá de significado após ganhar significado na consciência de quem lá estiver.

Com a nova casa uma nova vida se inicia. A mudança exige adaptação e exige empenho. Mas é possível transformar novamente essa casa num novo lar, porque, na verdade, é a presença de Irene e Caetano que possibilita isso.



Em casa novamente...



(Mudar significou abrir mão de algumas boas coisas e ganhar outras ótimas como, por exemplo, poder brincar com Ângelo logo na esquina) 

Foi assim que transformei, ou estou transformando, esse novo apartamento aqui na Suécia em meu lar. Embora tenha me mudado tantas vezes com Renato aí no Brasil, mudar para cá, no ano passado e, agora para este outro ap., foi das mudanças mais difíceis que fizemos. O fato de ter deixado mais da metade das coisas no Brasil, das construções aqui serem antigas (prédios antigos, com quase um século de vida), de alugarmos o espaço com alguns móveis e objetos dificulta mais a tarefa de fazer da casa, meu lar. 

Foram necessárias algumas semanas. Muita paciência e dedicação. Nem nós, nem o Ângelo reconhecíamos esse lugar como nossa. Foram necessárias muitas horas montando os móveis, extremamente desmontados, do IKEA . Mas, bem mais que isso, foram necessária algumas vivências aqui, no novo lugar, ao mesmo tempo que antigas vivências foram recuperadas. 

Espalhamos alguns antigos objetos pela casa, como porta-retratos com fotos da família; meus livros, alguns escolhidos com carinho num sebo ou lido com tanto prazer ou dificuldade; um cd do Chico Buarque, muitos da Fortuna, do Madredeus e tanta coisa que adoro ouvir; um DVD do Despeche Mode que o Re adorava ver e cantar nos domingos de manhã; uma almofada de crochê, feita pela minha mãe; alguns presentinhos dados com carinho para o Ângelo... Todas essas coisas têm feito com que nos sintamos "em casa" novamente.

A nossa casa, embora não nossa, embora não no nosso país é este espaço que a gente cria, com lembranças do passado, mas com vivências novas e presentes. Essa história da qual sentiremos saudade um dia, olhando uma foto ou recordando "causos". É aqui que Ângelo tem crescido, aprendido a engatinhar e está tentando andar. É no quartinho dele que gastamos algumas horas juntos, brincando até a hora dele dormir. É aqui o meu lar. 

Foi para esta casa, provisória, mas agora cheia de significado, que comprei a tal lembrancinha em Copenhaguem: um imã de geladeira com a foto do Castelo de Roseborg, em cujo jardim eu e Renato temos ido desde que chegamos aqui e onde passamos novamente o dia de sábado, agora com Ângelo.

Um lugar lindo, cheio de paz e perfeito, do qual sempre me lembrarei no futuro. Assim como os antigos e preciosos objetos, essa lembrancinha nos ajuda a fazer dessa casa não somente uma "house", mas o nosso "home, sweet home".

(ps: para que este post não ficasse mais imenso ainda, coloquei a letra da música "A house is not a home", num outro post abaixo, mas vai lá e confere para ver que beleza de composição.)



"A house is not a home", música de Dione Warwick

"A house is not a home"

A chair is still a chair
Even when there's no one sitting there
But a chair is not a house
And a house is not a home
When there's no one there to hold you tight,
And no one there you can kiss good night.

A room is still a room
Even when there's nothing there but gloom;
But a room is not a house,
And a house is not a home
When the two of us are far apart
And one of us has a broken heart.

Now and then I call your name
And suddenly your face appears
But it's just a crazy game
When it ends it ends in tears.

Darling, have a heart,
Don't let one mistake keep us apart.
I'm not meant to live alone. Turn this house into a home.
When I climb the stair and turn the key,
Oh, please be there still in love with me.

(Dione Warwick)

...

Tradução:

Uma casa não é uma casa
Uma cadeira ainda é uma cadeira
Mesmo quando não há uma sessão lá
Mas uma cadeira não é uma casa
E uma casa não é uma casa
Quando não há ninguém lá para você manter apertado,
E ninguém lá para você dar um beijo de boa noite.

A sala é ainda uma sala
Mesmo quando não há nada, mas há sombras;
Mas um quarto não é uma casa,
E uma casa não é uma casa
Quando os dois, de nós, estão afastados
E um de nós tem um coração partido.

Agora, e então eu chamo seu nome
E de repente o seu rosto aparece
Mas é apenas um jogo louco
Quando ele termina ele termina em lágrimas.

Querida, tenha coração,
Não deixe que um erro nos mantenha separados.
Não tem sentido eu viver sozinho. Vire esta casa em uma casa.
Quando eu subir as escadas e virar a chave,
Ah, por favor, esteja lá e continue apaixonado por mim.

15 abril 2008

"Non, Je ne Regrette rien"

(Início da Primavera significa: sentar ao sol, relaxar e conversar. Viver como as flores, Jardim do Castelo Rosenborg, Copenhaguem, abril 2008)


I. A manhã de hoje começou com Drummond e terminou com Piaf...

Minha manhã aqui começou com céu azul e sol. Eu e Ângelo rodopiamos e dançamos ao som de Edith Piaf na vitrola moderna do Renato. Me lembrei do filme, de Piaf, de seu recomeçar, de tanta coisa dela, de mim. Ao mesmo tempo, tinha aqui à minha frente um poema do Drummond que havia separado para o blog e a combinação foi perfeita.

Corro novamente o risco do post longo, mas vale a pena. Por favor, não pare no meio.

Se você ainda não assitiu Piaf, tente ver. É um filme cheio de vida, embora a vida de Piaf tenha sido tanto sofrimento. É uma vida cheia de dramas, embora, dela, a gente sempre lembre do sucesso. Mas Piaf, o filme e a realidade que o sustentou, é contagiante. É um banho de energia, porque canta o amor e a vida, apesar das pedras do caminho.

E a mesma lição de Piaf é a de Drummond. 
Recomeçar é uma necessidade que a vida nos impõe, se queremos continuar vivos.
Não apenas respirando, mas vivos. Cheios de vida. 
É preciso deixar renascer as flores,
sempre.




(Uma árvore com alma, pela qual sou completamente apaixonada e a qual me enche de vida, Jardim do Castelo Rosenborg, Copenhaguem, abril 2008)



II. Inspiração em Drummond


Recomeçar

"Não importa onde você parou…
em que momento da vida você cansou…
o que importa é que sempre é possível e
necessário “Recomeçar”.

Recomeçar é dar uma nova chance a si mesmo…
é renovar as esperanças na vida e o mais importante…
acreditar em você de novo.
Sofreu muito nesse período?
foi aprendizado…
Chorou muito?
foi limpeza da alma…

Ficou com raiva das pessoas?
foi para perdoá-las um dia…

Sentiu-se só por diversas vezes?
é porque fechaste a porta até para os anjos…
Acreditou que tudo estava perdido?
era o início da tua melhora…
Pois é…agora é hora de reiniciar…de pensar na luz…
de encontrar prazer nas coisas simples de novo.
Que tal
Um corte de cabelo arrojado…diferente?
Um novo curso…ou aquele velho desejo de aprender a
pintar…desenhar…dominar o computador…
ou qualquer outra coisa…

Olha quanto desafio…quanta coisa nova nesse mundão de meu Deus te
esperando.

Tá se sentindo sozinho?
besteira…tem tanta gente que você afastou com o
seu “período de isolamento”…
tem tanta gente esperando apenas um sorriso teu
para “chegar” perto de você.

Quando nos trancamos na tristeza…
nem nós mesmos nos suportamos…
ficamos horríveis…
o mal humor vai comendo nosso fígado…
até a boca fica amarga.
Recomeçar…hoje é um bom dia para começar novos
desafios.
Onde você quer chegar? ir alto…sonhe alto… queira o
melhor do melhor… queira coisas boas para a vida… pensando assim
trazemos prá nós aquilo que desejamos… se pensamos pequeno…
coisas pequenas teremos…
já se desejarmos fortemente o melhor e principalmente
lutarmos pelo melhor…
o melhor vai se instalar na nossa vida.
E é hoje o dia da faxina mental…
joga fora tudo que te prende ao passado… ao mundinho
de coisas tristes…
fotos…peças de roupa, papel de bala…ingressos de
cinema, bilhetes de viagens… e toda aquela tranqueira que guardamos
quando nos julgamos apaixonados… jogue tudo fora… mas principalmente… esvazie seu coração… fique pronto para a vida… para um novo amor… Lembre-se somos apaixonáveis… somos sempre capazes de amar muitas e muitas vezes… afinal de contas… Nós somos o “Amor”…
” Porque sou do tamanho daquilo que vejo, e não do
tamanho da minha altura.”"

(Carlos Drummond de Andrade.)


III. Energia de Piaf

Non, Je ne Regrette rien

Non, rien de rien,
non, je ne regrette rien!
Ni le bien qu'on m'a fait,
ni le mal;
tout ça m'est bien egal!

Non, rien de rien,
non, je ne regrette rien!
C'est payé,
balayé,
oublié.
Je me fous du passé!

Avec mes souvenirs
j'ai allumé le feu!
Mes chagrins, mes plaisirs,
je n'ai plus besoin d'eux!
Balayés les amours
avec leurs trémolos,
balayer pour toujours!
Je repars à zéro.

Non, rien de rien,
non, je ne regrette rien!
Ni le bien qu'on m'a fait,
ni le mal;
tout ça m'est bien egal!

Non, rien de rien,
non, je ne regrette rien!
Car ma vie,
car me joies
aujourd'hui
ça commence avec toi!

(Charles Dumont / Michel Vaucaire / Edith Piaf)
....

Tradução:

Não, De Jeito Nenhum

Não, de jeito nenhum
Não, eu não me arrependo de nada
Nem o bem que me fizeram,
Nem o mal, tudo me parece igual

Não, de jeito nenhum
Não, eu não me arrependo de nada
Está pago, varrido, esquecido
Eu estou farta do passado

Com minhas lembranças,
Eu alimentei o fogo
Minhas aflições, meus prazeres
Eu não preciso mais deles

Varri meus amores
Junto a seus aborrecimentos
Varri por todo dia
Eu volto ao zero

Não, de jeito nenhum
Não, eu não me arrependo de nada
Nem o bem que me fizeram,
Nem o mal, tudo me parece igual

Não, de jeito nenhum
Não, eu não me arrependo de nada
Minha vida, Minhas jóias
Hoje
Começa com você
...


ps: veja clipe da música de Piaf, com interpretação da atriz Marion Coutillard, no link ao lado do blog.

14 abril 2008

Dois Amores

(Re e Ângelo aproveitando o solzin de domingo, em play-ground pertin de casa)



Dois Amores

"No dia em que cruzei contigo,
me lembro,
vi logo todo o filme que viria:
eu nasci pra adorar voce
pela vida afora e sempre
até morrer

Mas outro cara
atravessou meu caminho,
vi logo que o filme se repetia,
e agi pra pensar depois:
como eu posso amar e tanto assim
aos dois?... "


(Djavan, Composição de Djavan e Fátima Guedes)


(Zóin, narizin, jeitin, tudo igual)

12 abril 2008

"Quando eu era criança pequena lá em Barbacena"...


(A suculenta e irresistível siriguela, pela qual cometi alguns pecadinhos)

"Quando eu era criança pequena lá em Barbacena"...

Eu subia no pé de manga, no fundo do quintal para brincar a tarde toda com minha irmã, a Sandra.
Eu trocava garrafas de guaraná por pirulitos coloridos, grandes e redondos.
Eu disputava quem chegaria primeiro até a perua do padeiro, eu ou minha vizinha, a Sandra Mara.
E pulava o muro da Eleonor para roubar siriguelas e da Dona Maria para comer fruta do conde.

"Quando eu era criança pequena lá em Barbacena"...
Eu brincava de pega-pega e queimada na rua com a mulecada,
E gritava pela minha mãe, quando rasgava o tampão do dedão do pé no asfalto.
Eu gostava de me arriscar e ia sozinha para a escola, 
E arrumava briga na saída com todo mundo que me chamasse de Olívia Palito.

"Quando eu era criança pequena lá em Barbacena"...
Eu nunca era escolhida como a moça bonita na brincadeira da "Laranja Baiana",
Eu nunca recebia beijo no "beijo, aperto de mão e abraço", só aperto de mão, mesmo quando acertava a pessoa,
Eu sempre perdia no "passa anel",
E ainda tinha que ouvir elogios dos meus namorados para a minha irmã.

"Quando eu era criança pequena lá em Barbacena"...
Eu gostava de varrer a casa para minha mãe,
E ficava toda orgulhosa quando diziam que eu e ela parecíamos irmãs.
Eu tomava banho no fim da tarde e saía de cabelo molhado até a frente de casa 
E esperava meu pai apontar na esquina, quando voltava do trabalho.


"Quando eu era criança pequena lá em Barbacena"...
Eu vivia doente e faltava bastante da escola,
mas só tirava A e B em todas as matérias, igual minha amiga muito estudiosa, a Zilda.
Eu fazia umas mulherzinhas em papéizinhos e sonhava em ser desenhista fashion e fazer croquis,
Mas também tava bom se fosse bailarina, pianista, cantora ou dançarina de jazz.

Quando eu era criança pequena lá na minha Barbacena, na pacata Sumaré,
eu era a mesma sangue quente e briguenta e a mesma incorrigível sonhadora 
que continuo sendo hoje.


(Desenho de Mariana Massarani)

10 abril 2008

Finalmente posso cantar: "É primavééééra! Te amo!"



(Eu Primaveril, no Jardim do Museu de Ciências Naturais de Paris, maio de 2006)

Demorou para sentir o clima de Primavera por aqui, porque até poucos dias, vocês devem se lembrar, ainda estava nevando. E eu, que estava quase me perguntando: "por que cargas d'água mesmo eu queria morar por aqui?", estou feito os suecos, os estrangeiros todos de Malmö e os passarinhos: cantando à toa. Eu e o Sr. Angelinho Linho Linho...


(Ângelo, estreante de balanços, curtindo início da Primavera tão feliz da vida que deixa a gente feliz só de olhar. Tudo bem que a roupa ainda é de inverno...)

E é curioso perceber que, tendo vivido a vida toda num país tropical, a gente meio que deixa passar coisas muito, mas muito especiais mesmo. Eu sempre dei muito valor à natureza aí no Brasil. Sempre me pus a observar tudo, mas quando você sai de um inverno rigoroso, a chegada do que já existia antes, tem um sabor sempre especial e novo. Por aqui agora, tudo diferente de uns dias atrás. 

Sol todos os dias.
Céu azul, azulzinnn, até as sete da noite.
As árvores todas brotando e várias florindo.
Cores por todos os lados, inclusive nas pessoas que deixam de usar o preto.
Mais e mais gente pedalando.
Casacos e botas dentro do guarda-roupa.
Play-ground cheio de bebês e algumas várias amizades novas.


(Renato curtindo o verão europeu em cima de uma bike, Paris, setembro de 2003)


Não tá calor não. Máxima de 12, 13 durante o dia, mas é totalmente diferente de sentir 13 graus no Brasil. Aqui não tem vento agora, o ar, limpo e puro, está parado e o sol deixa a gente quentinho e gostoso, mesmo com t-shirts, como diz minha amiga Maria. 



("Queen´s day", super festa anual maluquésima de Amsterdã que pegamos na Primavera, 2006)

O problema de viver aqui é que o inverno dura uns bons meses (embora até do inverno a gente sinta uma gostosa saudade, como eu já havia escrito ano passado), mas viver na Europa tem essa magia: a magia das quatro estações.

É como se a gente tivesse a oportunidade de ter quatro vidas muito diferentes durante o ano. E com a ida de uma estação e a chegada da outra, fica sempre a alegria do que se está vivendo, mas também a saudade daquilo que foi e está novamente por vir.

Esses dias tem sido uma delícia subir as persianas de manhã e cantar com o adorável e saudoso Tim Maia: "É Primavéééra!"...


(Eu e Daníssima em encontro Primaveril, Londres, 2006)

Eu morro de saudade do Brasil, da minha família tomm querida, das minhas amigas adoráveis e falantes, mas, hoje de manhã, fiquei meio, em prece, passeando com Ângelo em seu possante carrinho. Eu, e mais um exército de mães e pais com seus bebês nos carrinhos. Pelas ruas gente sentada nos bancos conversando e os bares e restaurantes cheios de gente nas calçadas. E embora as pessoas aqui não parem em casa nem mesmo com neve caindo, o clima agora é outro: é uma alegria mesmo, que brota de dentro. Como se a gente, tal qual como as árvores e flores, estivessemos dormindo, aguardando o momento de florir novamente e viver uma outra fase: uma fase cheia de cor e de sorrisos.
E vejo que, apesar dos pesares, a saudade é compensada por essas fugazes, mas profundas alegrias.

Hoje, me lembrei de algumas viagens que já tinha feito aqui pela Europa e agradeci silenciosamente. Eu sei que um dia vou voltar para minha terra, talvez breve, não sei, mas agradeço poder ver o dia com outros olhos.


(Jardim do Palácio de Versailles, Primavera de 2003)

....

Primavera

Quando o inverno chegar
Eu quero estar junto a ti
Pode o outono voltar
Eu quero estar junto a ti
Porque (é primavera)
Te amo (é primavera)
Te amo meu amor

Trago esta rosa (para te dar)
Trago esta rosa (para te dar)
Trago esta rosa (para te dar)
Meu amor...
Hoje o céu está tão lindo (sai chuva)
Hoje o céu está tão lindo (meu amor)

(Tim Maia, composição: Cassiano / Sílvio Rochael)



(Em Kalmar, Suécia, com uns meses de gravidez do Angelinho, ano passado)

ps: ao lado do blog, você pode ouvir "Primavera" com o Tim Maia e se alegrar, mesmo se não estiver vivendo esta estação.

09 abril 2008

Outra Somnia, outra Anita Malfatti.

("Sanfoneiro", Anita Malfatti, ilustração do licro de Luzia Portinari Greggio)

Agora há pouco, tentando me atualizar sobre o que tem sido escrito a respeito da pintora brasileira Anita Malfatti, sobre quem escrevi meu doutorado, dei de cara com uma nova publicação, lançada no fim de 2007.

A autora, Luzia Portinari Greggio, alguém que eu já conhecia de catálogos e documentos que pesquisei nesses anos, escreveu "Tomei a liberdade de pintar a meu modo", em referência a uma conhecida frase de Malfatti, a respeito de seus últimos trabalhos.

Eu realmente fiquei feliz com a notícia. Isso porque se a gente considerar a importância de Anita para as artes no Brasil, o estudo sobre ela é ridículo. Até hoje, a única pessoa quem se dedicou quase que exclusivamente a estudar sua obra foi Marta Rossetti.

Entre tudo que tenho dela aqui em casa, ficou uma bela publicação do ano passado, "Anita Malfatti no tempo e no espaço". Foi exatamente no momento de minha defesa, onde tanto Anita, quanto Marta iriam ser o assunto do debate, que Tadeu Chiarelli, membro da banca, deu a triste notícia de que a pesquisadora havia falecido pouquíssimo tempo antes.

O que minha pesquisa sobre Anita Malfatti fez comigo foi mostrar muitas faces da pintura dessa brasileira. Anita se empolgava com quase tudo que conhecia de novo na pintura e experimentava. Essa, ao ao meu ver, foi uma de suas maiores características.

Abaixo, transcrevo a introdução do meu doutorado, onde é possível ter uma idéia do que descobri em minha pesquisa e de como Marta Rossetti, mesmo quando eu não concordava com ela, também foi importante para esses meus descobrimentos.


07 abril 2008

Eu vou seguir você, sempre.

(Ângelo em sua primeira vez em "parquinho sueco")


Eu não consigo ouvir a música "O caderno", do Toquinho, sem pensar que ele, o caderno, era eu mesma. Não consigo pensar no caderno em sentido literal. Hoje, analisando a letra, vejo que é meio óbvio, mas isso só me ocorreu, de fato, quando eu ouvi esta música maravilhosa, do lado da minha sobrinha Luana, enquanto ela pintava algo numa tela que eu havia lhe dado. 

Eu já fui o caderno da Luana, a primeira sobrinha, e imaginei ser impossível amar uma criança mais do que eu a amava. 
Depois veio o Júnior e me mostrou que onde cabia um amor assim, havia espaço para mais. E, então, fui o caderninho dele também.

E depois de conhecer o amor que a gente guarda aos sobrinhos, com a chegada e a convivência com o Ângelo,  eu provei a música do Toquinho por completo. Em cada trecho me sinto mais "o caderno" do que nunca. 



O caderno

Sou eu que vou seguir você
Do primeiro rabisco até o be-a-bá.
Em todos os desenhos coloridos vou estar:
A casa, a montanha, duas nuvens no céu
E um sol a sorrir no papel.

Sou eu que vou ser seu colega,
Seus problemas ajudar a resolver.
Te acompanhar nas provas bimestrais, você vai ver.
Serei de você confidente fiel,
Se seu pranto molhar meu papel.

Sou eu que vou ser seu amigo,
Vou lhe dar abrigo, se você quiser.
Quando surgirem seus primeiros raios de mulher
A vida se abrirá num feroz carrossel
E você vai rasgar meu papel.

O que está escrito em mim
Comigo ficará guardado, se lhe dá prazer.
A vida segue sempre em frente, o que se há de fazer.
Só peço a você um favor, se puder:
Não me esqueça num canto qualquer.

(Toquinho)



(Acima: Júnior e Luana, lá em casa, na última visita  nossa ao Brasil, e Ângelo "dimirado")

Se você cliar no link ao lado do blog, também poderá sentir um arrepio na espinha e uma vontade incontrolável de choramingar, ao se colocar como caderno de uma criança que você ama. Clique e ouça o Toquinho numa interpretação cheia de sensibilidade.

01 abril 2008

De Barão Geraldo para o mundo ou Toda vidinha daria uma bela ópera


(Interior do Teatro Alla Scala, de Milão)


Era a primeira vez que eu estava na Itália e, logo ali, abaixo daquela arquitetura maravilhosa do Duomo de Milão e da Praça do Alla Scala, eu deixei Renato e Ângelo para fazer uma visita ao Museu do Teatro.

Combinamos que iríamos separados, porque não tinha como entrar com o carrinho do Angelito e eu saí meio que correndo, porque tinha que atravessar a multidão que visitava a cidade no último feriado de Páscoa e porque queria aproveitar os meus quarenta e alguns minutos, antes que o bambino sentisse muito minha falta.


(Galeria, na Praça do Duomo, onde todo mundo passeio vendo belas vitrines e parando em deliciosos restaurantes)

Entrei no meio de uma excursão de gringos americanos e passei à frente deles. Não queria que atrapalhassem minha visita com aquele blá blá chato do guia turístico. Segui rápido pelos retratos dos cantores e compositores e fui ao saguão principal. Parei... olhei para cima, onde estavam pendurados alguns lustres gigantes e maravilhosos. Suspirei.

Soltei um "óóó..." sozinha... Tive a impressão de que a arquitetura do Teatro Municipal de São Paulo havia sido inspirada ali... Não tinha certeza.  Saí rápido, fugindo da gringaiada faladeira e fui entrando em algumas portas.

Cheguei rapidamente numa que dava nada mais, nada menos, que dentro do Scalla, de Milão. Lá, onde todos os concertos mais fantásticos, onde todos as vozes mais famosas do mundo já haviam passado, onde a arquitetura faz a gente dizer: "óóó"... e respirar bem fundo, encantado.

Eu nã sabia, mas acontece que a visita permitia que eu assistisse a um ensaio de uma das óperas que estavam sendo apresentadas no Alla Scala, nesta temporada. De uma entradinha, com uma parede transparente, a gente podia ver todo mundo lá embaixo e ouvir, perfeitamente, as vozes todas juntas no coral que aquela hora se apresentava. E ver a peça, lá do alto, com visão para o Teatro inteiro.

Foi uma sensação maravilhosa. Incrível. E eu me transportei instantaneamente a Barão Geraldo. Foi lá, que em 1996, conheci e fiz amizade forte com a Ludmila. Foi da mãe e do pai que ela pegara gosto pelas óperas e pelos clássicos. A mãe, Carmem, que me servia saladinhas e sopinhas, me lembro sempre tocando seu piano de manhã. Dona Carmem sempre acorda e canta salmos, com seu vozerão, em agradecimento ao dia. O pai, Sr. Roberto, deu à Lud o prazer de acordar aos domingos e ouvir grandes concertos no vinil. 


(Lud,  dando uma de Callas, e interpretando músicas italianas bregas, numa foto que talvez ela me mate por pôr aqui)

Em Barão passei muito de meus fins de dia, durante os anos de graduação na Unicamp a ouvir sonatas, concertos e muitas óperas na casa de minha amiga Lud. Com ela aprendi a identificar algumas peças e, através dela, havia assistido a umas duas aí no Brasil. E foi de muitas e muitas milhas de Barão e do Brasil, vendo a semelhança da Lud e de sua mãe com as fotos da Callas, vendo o último ato de Macbeth, ali no Scala, em Milão, do qual ela tanto falava, que me senti tão próxima delas novamente.

Durante o intervalo do terceiro ato, eu tinha saído e visto uma exposição com fotos e vestimentas em homenagem à Maria Callas e a todas as peças que ela havia apresentado no Teatro. Emocionantes.


(Maria Callas como Lady Macbeth)

O ensaio que eu via ali no Scalla era Macbeth, de Giuseppe Verdi, baseada na obra do Shakeaspere de mesmo nome. 



(Montagem de Macbeth para o terceiro e quarto atos, no Alla Scala, do jeitinho que eu vi, pela janelinha escondida)

Mas eu, que sou bem leiga, e nunca havia lido a peça do inglês, demorei a reconhecer a ópera, ou o momento que encenavam... Na verdade, o que me tomou completamente eram as vozes. Elas eram perfeitas. Só por elas já era possível viver o drama de Macbeth e a obra de Shakespeare, musicada por Verdi
Só sei que eu fiquei ali, em pé, na salinha escura, enquanto gente do mundo todo entrava e saía: italianos, orientais, alemães, espanhóis, americanos. Comentavam algo em sua língua materna com o amigo e saiam E eu, eu fiquei. E fiquei... e foi como se tivesse pago um caro ticket, numa das melhores filas.

Tirei gorro, cachecol, casacos para aguentar o calor da saleta... E me entreguei...

Por alguns momentos me senti ridiculamente Júlia Roberts em "Uma linda Mulher", porque algumas lágrimas já escorriam pelo rosto, mas me permiti. Percebi que ver uma bela ópera, com vozes como aquelas que eu estava ouvindo, com uma história como a que Shakeaspeare escreveu me dava o direito de me fazer ridícula e emocionada.

Pensei na Lud e queria ligar de lá e dizer: "Queria que você estivesse aqui comigo, amiga!"
Pensei em todos vocês, porque sempre quero dividir tudo que me emociona com quem gosto.
Pensei no Renato e no Ângelo, dando uma enrolada no Duomo para que eu tivesse aquele momento sozinha (um dos poucos desde que Angelito nasceu) e fiquei tão, tão imensamente agradecida à Vida e a Deus.

Agradecida à Lud, por ter me ensinado a parar e ouvir uma coisa assim. 
Agradecida àqueles que estavam ali cantando e um dia decidiram fazer da música seu ganha pão, me proporcionando aquele momento. 
Agradecida ao amor doação do Renato.


(Rê e Ângelo, bons companheiros em qualquer viagem)

De repente percebi que precisava voltar, meu tempinho estava se esgotando e, como eu havia pego o ensaio na metade, a ópera havia acabado. Peguei todas minhas coisas, enxuguei as lágrimas e quis sair correndo pela praça do Teatro, para encontrar os meus dois tesourinhos e dizer: "Amo vocês, aaaamo vocês, aaaaaaaaamo vocês!"

De volta à luz do lado de fora, enquanto ia ao encontro deles e via tanta gente circulando pela praça, me dei conta de que minha vidinha ou a vidinha de qualquer um, na verdade, tem material para um bela ópera. A minha ida à Itália não foi só maravilhas. Ângelo, como um bebê normal, esteve resfriado, teve febre, etc. Dormimos pouco e aproveitamos a Itália, como nos foi permitido aproveitar.

Mas eu percebi, lá, naquela praça, que apreciar uma bela ópera é simples assim. A gente é transportado para aquilo que conhecemos, para aquilo que vivemos. Percebi que uma ópera não é para os muito "cult", mas para qualquer um que consiga parar, ouvir e deixar-se levar pela história. Se você conseguir fazer isso, acabará por se tornar rapiamente o ator principal, ainda que seja de uma janelinha quente e esdondida, onde todo mundo passa sem notar a beleza do que tem ali sendo vivido.



(Callas, como ela mesma, cheia de sucesso e cheia de dramas)